Uma nova produção de Dialogues des Carmélites estreia no Teatro Nacional de São Carlos amanhã, dia 3 de Fevereiro, em co-produção com o Teatro da Cornucópia. Tem encenação de Luís Miguel Cintra, cenografia e figurinos de Cristina Reis e direcção musical de João Paulo Santos. Do elenco destacam-se (e mereceram os fortes aplausos de quem assistiu ao ensaio geral) Dora Rodrigues como Blanche, Ana Ester Neves como Madame de Croissy (a Madre Superior), Ana Paula Russo como Madame Lidoine, Maria Luísa de Freitas como Madre Marie e Eduarda Melo como Irmã Constance. Contam-se também Luís Rodrigues como Marquês de la Force, Mário João Alves como Cavaleiro de la Force, o Coro do Teatro de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

Sente-se um arrepio a percorrer a espinha quando a lâmina da guilhotina ecoa na sala e, uma a uma, os corpos das freiras carmelitas tombam sobre o palco. Corre o ano de 1794 e a França encontra-se mergulhada no Reinado do Terror, período que se seguiu à Revolução de 1789, marcado pelas denúncias, perseguições e condenação à morte de membros da aristocracia e do clero. Nesse ano, a 17 de Julho, dezasseis freiras da Ordem das Carmelitas foram executadas em Paris, condenadas por fanatismo, crimes contra o povo francês e os princípios da Revolução.

 

 

É a este episódio histórico que a ópera de Francis Poulenc (1899-1963) se reporta, baseando-se no drama de Georges Bernanos (1888-1948), por sua vez inspirado na novela de Gertrude von Le Forte (1876-1971), La dernière à l’echafaud, publicado em 1931. A ópera, em 3 actos e 12 quadros, foi composta em 1956 e estreada no ano seguinte no Teatro La Scalla, em Milão. A ópera evidencia a fé católica de Poulenc, mas, mais do que o fervor religioso, aborda temas como o medo, a dignidade e o confronto com a morte. O enredo segue Blanche de la Force, filha do Marquês de la Force, jovem de carácter frágil que, dominada pelo medo e a incerteza, decide retirar-se do mundo e entrar para um convento de Carmelitas, onde espera encontrar proteção. A Madre Superior acolhe-a mas informa-a que a ordem não é um refúgio. Blanche torna-se próxima da outra noviça, Irmã Constance, com quem executa as tarefas que lhes são atribuídas. Constance tem um espírito ingénuo e puro e confidencia-lhe que teve a premonição de que ambas morrerão jovens, no mesmo dia. Entretanto, a Madre Superior, encontrando-se gravemente doente, morre em agonia recomendando a Madre Marie de l’Incarnation que acompanhe Blanche.

No início do segundo acto, a Irmã Constance observa que o sofrimento da Madre Superior não foi justo, talvez não lhe fosse destinado, e que outra pessoa irá, por isso, ter uma morte mais serena. Em Paris as perseguições aumentam. O Cavaleiro de la Force, irmão de Blanche, consegue visitar a irmã e pedir-lhe que abandone o convento pois não se encontra segura. Contudo, Blanche recusa, admitindo depois que o medo a impede de sair. O Capelão anuncia às freiras que foi proibido de pregar e que terá de fugir para se proteger. Pouco depois, oficiais chegam ao convento para transmitir o comunicado da Assembleia Legislativa decretando a expropriação do edifício e que as freiras terão de abandonar o hábito e renunciar à vida religiosa. Madre Marie replica que as freiras continuarão a servir a sua missão independentemente da indumentária.

No terceiro acto o ambiente adensa-se. A Madre Marie propõe um voto de martírio em nome da Ordem e da salvação do país, que terá de ser aceite por todas para ser cumprido. É realizada votação secreta e há um voto contra, que suspeitam que seja de Blanche. Contudo, a Irmã Constance declara ter sido ela a proferir esse voto, logo depois afirmando que mudou de ideias, de modo a que a decisão das carmelitas seja unânime. Blanche não consegue manter a promessa e, aterrorizada, abandona o convento. As freiras são detidas e é-lhes lida a sentença e a condenação à morte. A Madre Marie, que saiu do convento à procura de Blanche, é informada da decisão pelo Capelão e, embora se queira juntar às freiras e cumprir o seu destino, é convencida pelo Capelão de que essa não é a vontade de Deus. Com terror assiste escondida ao cortejo das freiras em direcção à guilhotina. Estas entoam o hino Salve Regina à medida que são executadas. No último momento, ainda a tempo de encontrar a Irmã Constance, Blanche reaparece, assumindo enfim o seu papel e enfrentando a morte cantando Veni Creator Spiritus.

A música de Poulenc ilustra a intensidade das situações vividas e os contrastes entre as personagens representadas. Texturas e timbres densos e escuros alternam-se com passagens mais leves, de melodias a lembrar ritmos de dança – escute-se, por exemplo, a bonita melodia da cena do encontro do Cavaleiro de la Force com Blanche. No conjunto, é uma composição muito expressiva e cheia de cor, sendo particularmente forte na última cena, com as vozes das carmelitas a serem caladas ouvindo-se, ao fundo, o coro da multidão que assiste à execução.

Dialogues des Carmélites é uma ópera tocante que merece ser escutada e conhecida e esta produção faz-lhe justiça. As personagens movem-se em palco com contenção e os cenários são simples, aludindo às paredes nuas e frias do convento e da prisão. Na última cena é criado um espectáculo visual bastante impressionante. À medida que a guilhotina soa, cada freira cai, de boca aberta suspensa num grito mudo, como a voz que é silenciada com a morte.

Dialogues des Carmélites terá apenas três récitas, dias 3, 5 e 7 de Fevereiro, pelo que se aconselha a reserva dos bilhetes. Para mais informações, consulte http://tnsc.pt/ . A GLOSAS estará presente e publicará uma crítica brevemente.

Sobre o autor

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Mariana Calado encontra-se a realizar o Doutoramento em Ciências Musicais Históricas focando o projecto de investigação no estudo de aspectos dos discursos e das sociabilidades que caracterizam a crítica musical da imprensa periódica de Lisboa entre os finais da I República e o estabelecimento do Estado Novo (1919-1945). Terminou o Mestrado em Musicologia na FCSH/NOVA em 2011 com a apresentação da dissertação "Francine Benoît e a cultura musical em Portugal: estudo das críticas e crónicas publicadas entre 1920's e 1950". É membro do SociMus – Grupo de Estudos Avançados em Sociologia da Música, NEGEM – Núcleo de Estudos em Género e Música e do NEMI – Núcleo de Estudos em Música na Imprensa, do CESEM. É bolseira de Doutoramento da FCT.

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