Antes mesmo de abrir a programação dos Dias da Música 2018, ou de continuar a leitura deste artigo, sugiro ao leitor que procure imagens de Jardim das Delícias, Juízo Final ou d’As Tentações de Santo Antão de Hieronymus Bosch, e observe as representações simbólicas, por vezes fantásticas e bizarras, dos vícios, da espiritualidade, da culpa e dos medos que atemorizavam o homem medieval. Os trípticos de Bosch, pintor flamengo que viveu entre c. 1450 e 1516, e as suas representações do caminho do homem pelos pântanos da vida terrena até à graça divina, constituíram a ideia de partida para o programa do festival Dias da Música em Belém, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, que este ano decorre de 26 a 29 de Abril.

O programa dos Dias da Música em Belém estrutura-se, assim, à semelhança de um tríptico de Bosch. Sexta-feira, 27 de Abril, ou o painel esquerdo desse hipotético tríptico, representa o Inferno e os castigos ali sofridos; Sábado, 28 Abril, o painel central, os pecados e tentações terrenas e o confronto do Homem com as suas próprias virtudes e defeitos; por fim, o Domingo, 29 Abril, como painel direito, a reconquista do paraíso e a libertação. A abertura do festival foi antecipada para 26 de Abril, estando programada a interpretação da oratória A Criação, de Joseph Haydn, pela Orquestra de Câmara Portuguesa, dirigida por Pedro Carneiro, em evocação dos painéis exteriores d’O Jardim das Delícias.

No conjunto, o programa do festival é coerente e segue uma narrativa sólida, ambiciosa e cheia de propostas aliciantes (como um jardim de tentações), capaz de despertar muitas emoções. Apenas como sugestão, destaco alguns concertos que mostram a variedade de propostas que o programa apresenta: Suite Carmen, para orquestra de cordas e percussão, pela Deutsches Kammerorchester Berlin, com direcção musical de Bruno Borralhinho (D1); Os Sete Pecados Mortais, de Kurt Weill, pela Orquestra Clássica do Sul (D2); 666, La casa del Diavolo, pelo agrupamento La Paix du Parnasse, com direcção do flautista António Carrilho (D4); a oratória Caim ou o Primeiro homicídio, de Alessandro Scarlatti, sobre libreto do cardeal Pietro Ottoboni, pelo Ludovice Ensemble (D6) sob a direcção de Miguel Jalôto; música sacra e profana de compositores Renascimento pelo Grupo Vocal Olisipo (D7) e Os Músicos do Tejo (D10); música flamenga do tempo de Bosch, com peças vocais de Pierre de La Rue, Thomas Crecquillon, Heinrich Isaac, Johannes Ockeghem, Josquin des Prez e Matthaeues Pipelare, pelo Orlando Consort (D9); a Sinfonia Dante, de Liszt, pela Orquestra Sinfónica Metropolitana (E2); Das Paradies un di Peri, de Robert Schumann, pela Orquestra XXI; o Requiem, Op. 48, de Fauré, pelo Melleo Harmonia, com Dora Rodrigues, soprano, e André Baleiro, barítono (E5); a colectânea de madrigais espirituais Lágrimas de São Pedro, de Orlando di Lasso, sobre poemas de Luigi Tansillo, pelo Vocal Ensemble, com direcção musical de Vasco Negreiro (E7); uma viagem musical pelos pecados mortais a partir de peças de autores anónimos do século XIII e de Guillaume de Machaut, pelo agrupamento La Reverdie (E8); e o ciclo de A Trilogia das Barcas, de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno (C2), Auto da Barca do Purgatório (D11) e Auto da Glória (E10), pelo Toy Ensemble, com música de Fernando Lapa e adaptação e encenação de Sara Barros Leitão.

A juntar-se a estes concertos, há, como nos outros anos, a programação dirigida ao público infantil, com os espectáculos-oficina “Isto não é uma nuvem” e “No início era um jardim”, concertos pelo grupo Galandum, Galundaina (D13 e E11), em torno do património musical e linguístico mirandês, várias conferências de entrada livre para debate de assuntos como a música no tempo de Hieronymus Bosch, a obra de Gil Vicente e a Divina Comédia, de Dante, entre outras propostas.

Ainda antes do início do festival, decorrerá no dia 21 Abril o Festival Jovem, dedicado à apresentação de orquestra juvenis. Neste dia, o CCB e os Dias da Música em Belém associam-se à Global Platform for Syrian Students, de apoio ao financiamento dos estudos superiores de jovens refugiados sírios.

Dias da Música em Belém inserem-se no ciclo Hieronymus Bosch, que decorrerá no Centro Cultural de Belém em Abril e Maio próximos. Para além dos concertos, a programação do ciclo inclui, no dia 15 Abril, a exibição do documentário El Bosco. El Jardín de los Sueños, realizado por José Lópes-Linares no âmbito das comemorações do V Centenário da morte de Bosch, em 2016, e a palestra Bosch: Mal e Moral no Tríptico de Lisboa, por Joaquim Oliveira Caetano, historiador de arte, várias sessões de exibição de filmes de Stanley Kubrick, Orson Wells, Jacques Tati e Martin Scorcese, entre outros, que incidem nos sete pecados mortais, e, nos dias 18 e 19 de Maio, a apresentação de Hieronymus Bosch: O Jardim das delícias, espectáculo coreografado e com cenografia, desenho de luz e figurinos de Marie Chouinard, criado e estreado no Theaterfestival, em ‘s-Hertogenbosch, Holanda, a 4 de Agosto de 2016.

Os bilhetes para os Dias da Música em Belém estão à venda a partir de 17 de Março. Para consulta completa da programação e de outras informações, visite a página do CCB–Dias da Música.

Sobre o autor

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Mariana Calado encontra-se a realizar o Doutoramento em Ciências Musicais Históricas focando o projecto de investigação no estudo de aspectos dos discursos e das sociabilidades que caracterizam a crítica musical da imprensa periódica de Lisboa entre os finais da I República e o estabelecimento do Estado Novo (1919-1945). Terminou o Mestrado em Musicologia na FCSH/NOVA em 2011 com a apresentação da dissertação "Francine Benoît e a cultura musical em Portugal: estudo das críticas e crónicas publicadas entre 1920's e 1950". É membro do SociMus – Grupo de Estudos Avançados em Sociologia da Música, NEGEM – Núcleo de Estudos em Género e Música e do NEMI – Núcleo de Estudos em Música na Imprensa, do CESEM. É bolseira de Doutoramento da FCT.