Benjamin Grosvenor chegou à ribalta com a notável vitória na BBC Young Musician Competition em 2004, com apenas 11 anos de idade. Aos 19, no ano de 2011, foi o convidado da BBC Symphony Orchestra no First Night of the BBC Proms, bem como o mais novo músico britânico a alguma vez assinar pela chancela da histórica Decca Classics. Desde então que a sua carreira tem continuamente assumido contornos internacionais. Este mês, visita pela primeira vez Portugal, com concertos na Casa da Música e com Orquestra Gulbenkian, na sua sede. A Glosas aproveitou a ocasião para uma breve entrevista.


Caro Benjamin Grosvenor, antes de mais, muito obrigado por esta entrevista!
Os seus recitais incluem frequentemente obras de compositores menos conhecidos, assim como obras de nomes mais representativos. O que procura quando apresenta estas obras ao público? 

Aprecio uma certa diversidade de repertório nos meus recitais, tentando sempre que se traduzam numa viagem musical entusiasmante para o público. Muito frequentemente integro obras talvez um pouco mais obscuras, mas não sempre. Incluo-as porque gosto desse repertório, e porque penso que fazem sentido no âmbito do contexto musical em que as programo. Estou também sempre consciente de que, quando as incluo em programas mais convencionais, estarei a introduzi-las ao público no âmbito de um contexto que lhes é familiar, e se de facto estou a trazer novas obras às audiências, então, trata-se de uma circunstância positiva. Talvez possa demonstrar a minha abordagem falando um pouco dos meus programas para esta temporada. Vou começar com a Suite Francesa n.º 5 de Bach e a[s Quatro Peças para piano] Op. 119 de Brahms, intercaladas com uma obra contemporânea, Hommage à Brahms de Brett Dean, que foi composta para o propósito. Penso que se trata de um programa que faz sentido no seu todo, sendo que as obras de Dean provocam um efeito de contraste com o Brahms, fazendo também uma justaposição interessante entre o tradicional e contemporâneo.

A segunda parte apresenta a Sonata de Berg. Gosto do seu mundo harmónico rico e denso, com a sua ambiguidade tonal, escalas de tons inteiro e cromatismos. Decidi apresentá-la no seguimento de uma transcrição para piano do [Prélude à] l’Après-midi d’un faune de Debussy. É fascinante pensar que  l’Après-midi d’un faune de Debussy foi composta apenas um ano depois do Op. 119 de Brahms, e trata-se do prefácio ideal para a sonata de Berg – Pierre Boulez tinha para si o l’Après-midi d’un faune como o inicio do modernismo.

Debussy tinha utilizado escalas de tons inteiros e harmonia tonalmente instável, evocando sonoridades que não eram ainda familiares na música ocidental até à altura. Claro que esta obra de Debussy é para orquestra…. No entanto, o seu amigo e proponente George Copeland já tinha feito uma transcrição da obra para piano, assim como também o tinha feito Leonard Borwick. Há uma citação relevante de Copeland sobre este arranjo: “Falei com Debussy sobre o meu desejo de transcrever algumas das suas obras orquestrais para piano – obras que achei que eram essencialmente pianísticas. Primeiro ficou um pouco céptico, mas acabou por concordar e gostar do resultado final. Ficou particularmente entusiasmado com a transcrição do l’Après-midi d’un faune para piano, concordando comigo que na sua versão original (para orquestra), a continuidade na sequência de episódios era menos equilibrada. Para mim, tal obra sempre me pareceu como a mais bonita, a mais remota e essencialmente Debussyana de toda a sua obra, contendo uma terrível antiguidade, que se traduz em som numa sensação voluptuosa que não é de maneira nenhuma física.” Termino o programa com Gaspard de la Nuit, peça contemporânea à de Berg. Contém alguma da música para piano mais evocativa alguma vez escrita, sendo uma rica tapeçaria para com a qual terminar.

Como tem sido a recepção quanto às obras nos seus recitais, no que toca aos programadores com quem tem trabalhado? Como é a recepção do público relativamente a estas obras?

Os meus programas costumam ser aceites pela maioria dos promotores e públicos, embora tenha a certeza que os gostos são variados! Naturalmente que um programador poderá eventualmente ficar reticente quando apresento um recital pejado de obras menos representativas, mas procuro nos recitais que apresento um equilíbrio entre diferentes elementos, na expectativa de que possam ser mais acessíveis.

Para também ter particular cuidado em articular os seus projectos discográficos, no que concerne ao repertório. Como tem planeado as suas gravações até agora, e o que poderá o futuro trazer?

Os meus discos com a Decca sempre reflectiram o tipo de programação que faço para os recitais, e têm sempre partido de repertório que apresentei nas minhas digressões — até porque gosto de gravar programas depois de já ter alguma experiência executando-o em concertos.

O primeiro incluiu os Quatro Scherzi de Chopin e Gaspard de la Nuit de Ravel, com o Liszt da sua fase mais tardia servindo de transição entre estes dois compositores. Já o segundo disco foi inspirado em formas de dança, com uma Partita de Bach e algumas Polonaises de Chopin, assim como obras de Scriabin e Granados. O terceiro apresentou um programa diversificado, constituído por obras de homenagem, tanto a compositores ou estilos mais antigos (como a Chaconne de Bach–Busoni, ou os Prelúdios e Fugas de Mendelssohn) como a lugares específicos (a Barcarolle de Chopin e Venezia e Napoli de Liszt). De facto, o meu primeiro disco tinha também um programa contrastante, com o Segundo [Concerto para piano, Op. 22] de Saint-Saëns, o [Concerto para piano] em Sol Maior de Ravel e a Rhapsody in Blue de Gershwin (na versão original para jazz band). Quanto ao programa do meu próximo disco, este ainda está a ser pensado de momento, mas será muito provavelmente dedicado à música concertante orquestral.

O seu primeiro álbum inclui obras de Albeniz, e também já gravou Granados. Qual é a sua opinião relativamente à música espanhola?

Desde pequeno que gostei de música espanhola, particularmente a de Albéniz e Granados, e efectivamente gravei o livro primeiro da suite Iberia no meu primeiro álbum This and That. Acho entusiasmantes os seus ritmos vibrantes, as suas cores ricas e emotividade desenfreada. Gosto também da música intimista de Federico Mompou, cuja linguagem musical muito pessoal me comove particularmente.

Tem algum interesse em explorar música mais a ocidente da Catalunha – por exemplo, música de outros compositores espanhóis, ou até mesmo música de um certo rectângulo pitoresco à beira mar?

Temo que conheça mais alguma música de outros compositores espanhóis — como de Falla e Turina, por exemplo — mas não conheça tão bem compositores portugueses, que tratar-se-á apenas de tremenda ignorância da minha parte!

O seu primeiro disco inclui também obras de Domenico Scarlatti. O que tem em conta quando interpreta música barroca ao piano?

Penso que tocar música barroca no piano é, essencialmente, praticar uma transcrição, e creio que é importante termos essa consciência. O efeito é diferente do que quando se toca no instrumento original — ganham-se alguns elementos, mas talvez outros são perdidos (os efeitos de guitarra na música de Scarlatti, por exemplo, têm bastante mais efeito quando tocados no cravo) — e penso que se deveria aproveitar toda a gama tímbrica que o instrumento pode trazer à obra. Ao mesmo tempo, creio que ajuda sempre ter uma noção de como a obra soaria num instrumento de época, e que isso enriquecerá a nossa abordagem na sua interpretação.

Já teve algum contacto com música Portuguesa? Qual a sua opinião?

Já ouvi alguma música tradicional e Fado, de que gostei muito. Gostaria de ouvir mais, agora, quando estiver em Portugal!

Quanto a Scarlatti, considera-o como italiano ou como um compositor ibérico?

Considero Scarlatti como um compositor italiano cuja música está repleta de influências ibéricas! Há tantas pérolas entre o seu largo espólio de sonatas, e eu já toquei bastantes no meu percurso! São peças cativantes, de que frequentemente faço uso para abrir recitais.

Tem interesse em interpretar obras menos conhecidas para piano e orquestra?

Há certamente um variado leque de peças para piano e orquestra que não são tocados tanto quanto mereciam. Claro que neste caso tenho um pouco de menos flexibilidade na sua programação do que quando programo um concerto a solo, dado que as orquestras têm a sua própria programação ao longo da temporada. Umas das obras que encaixar-se nesta categoria, e que tenho gostado muito de tocar nos últimos anos, é o Concerto para piano de Britten. Tenho muita afeição por esta obra, e é uma obra que tende a ser muito bem recebida pelo público – é uma peça bastante acessível.

Há também outras que obras que já foram bastante populares, mas que por alguma razão deixaram de ser programadas. Um exemplo de uma dessas obras são as Variations symphoniques de Franck, uma obra que toquei há alguns anos – é talvez uma obra difícil de programar dada a sua curta duração.

Quais os concertos futuros que mais o entusiasmam?

Para esta temporada, tenho uma série de concertos excitantes nos Estados Unidos da América, tendo marcada a minha estreia nos concertos de assinatura das Sinfónicas de Boston e Pittsburgh e com a New York Philharmonic. Tenho também uma digressão com a Gurzenich Orchestra e François-Xavier Roth, que é um maestro com quem adoro trabalhar — assim como com o Riccardo Chailly, com quem irei regressar à Filarmonica della Scalla.

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