Nuno Coelho vem acumulando distinções e convites das mais importantes orquestras mundiais na sua interessantíssima carreira enquanto director de orquestra. O público português já se habituou a vê-lo regularmente na Fundação Calouste Gulbenkian, onde é Maestro Convidado, mas os seus caminhos estão, cada vez mais, dispersos por todo o planeta. A sua recente nomeação para maestro titular da Orquestra Sinfónica do Principado das Astúrias, obtida por unanimidade entre cerca de três dezenas de candidaturas, foi o pretexto ideal para uma conversa com o jovem maestro português.


 

Como surgiu a oportunidade para este novo projecto nas Astúrias?

Eu trabalhei com a orquestra pela primeira vez em 2019. Desde então, fizemos quatro projectos juntos, com obras de Schubert, Ligeti, Bruckner, Brahms e a ópera Hänsel und Gretel de Humperdinck. Já nos conhecemos bem e isso era muito importante para mim antes de aceitar este desafio. Quanto ao processo de candidatura, como é uma orquestra pública, houve um concurso geral em que apresentei um projecto com algumas ideias que gostaria de desenvolver como maestro titular. Para finalizar, houve uma pequena entrevista com o júri e depois anunciaram o resultado.

 

 

Quais serão os principais desafios e expectativas, tendo já trabalhado de perto com esta orquestra?

Como maestro principal, há todo um trabalho extra-musical que é preciso fazer e que é novo para mim: relações com os músicos, questões laborais, relação com o poder político e com a imprensa, com o público, promotores… Musicalmente, serão bastantes semanas por temporada para programar, escolher repertório que sinto que a orquestra necessita e eu posso desenvolver, equilibrar música contemporânea com os gostos do público, repertório espanhol, escolha de solistas… Neste contexto de pós-pandemia há, além disso, um grande trabalho a fazer para recuperar o público que se perdeu e ainda não voltou às salas de espectáculo ― isso sente-se muito em vários países, e em Espanha também. Vamos criar festivais e novos formatos de apresentar concertos, fortalecer a ligação com a cidade e região e as várias companhias culturais para assim captar a atenção do público e fomentar o cruzamento de público das várias artes.

Em que direcções apontarão em termos de programação e repertório?

Com a OSPA, o meu foco será sobretudo no repertório pós-romântico germânico (Mahler, Bruckner, Strauss) e no período do Impressionismo e século XX (Ravel, Debussy, Messiaen, Janáček, Bartók, para nomear alguns). Além disso, conto também reforçar a programação do período clássico ― com obras canónicas de Haydn, Mozart e até Schubert. Nas próximas temporadas gostaria também de continuar os projectos de ópera, quer em versão concerto, quer na Ópera de Oviedo, onde a orquestra toca três ou quatro produções por ano.

É uma oportunidade importante do ponto de vista da evolução de carreira?

Acho que pode ser muito positivo. Permite-me trabalhar e desenvolver um projecto com a mesma orquestra a longo prazo: desde o trabalho técnico e musical com a orquestra, passando por novos formatos de concertos e formas de apresentar a música clássica em que tenho pensado. Posso agora finalmente pô-los em prática e experimentar.

Em que medida os (vários!) prémios de direcção que recebeu foram importantes nesse percurso? 

Sempre vi os concursos como forma de aprender e motivação para melhorar. Alguns correram bem, outros menos, mas o importante é vê-los como etapas e não como um fim. Além disso, são uma forma de mostrar o nosso trabalho para o júri, orquestras e colegas, estabelecendo assim uma rede de contactos. Houve membros de júri que se revelaram extremamente importantes mais tarde na minha carreira e que se lembravam de mim desde esses concursos em que participei, mesmo que não tenha ganho. Ganhando há, obviamente, maior visibilidade e promoção. No caso do Concurso de Cadaqués, o prémio são convites para dirigir 40 orquestras pela Europa e Ásia. É incrível e permite lançar as bases para o futuro.

 

 

Quais as apresentações que gostaria de destacar?

Não estando relacionado com os prémios, lembro-me particularmente de duas estreias: a primeira vez que dirigi na Concertgebouw em Amesterdão com a Orquestra Filarmónica de Amesterdão (da qual fui assistente durante dois anos) e a estreia profissional em Portugal, na Fundação Gulbenkian, em 2017.

O trabalho com compositores (e estreias) tem sido uma marca da sua carreira. Há previsão de algo do género nesta próxima fase?

É verdade, é algo que gosto muito de fazer e criar essa relação de confiança com os compositores. Quanto à OSPA, ainda não posso adiantar muitos detalhes: estamos neste momento a finalizar a temporada e a apresentação só acontecerá em Junho. Iremos ter uma colaboração estreia com um grande e jovem compositor espanhol ao longo das três temporadas e além disso haverá uma aposta forte em tocar repertório contemporâneo, em estreia ou não. O objectivo é incluir uma obra do séc. XX ou XXI pelo menos uma vez por mês, preferencialmente com mais frequência ainda.

Têm prevista alguma apresentação de música portuguesa?

Ainda não posso adiantar, mas é algo que gostaria de mostrar aos nossos “vizinhos” ― sobretudo os compositores com quem tenho trabalhado na Gulbenkian. Adorava também fazer o Vathek ou alguma sinfonia de Joly Braga Santos, muitas delas ainda por estrear em Espanha.

Haverá alguma digressão da orquestra a Portugal?

É um dos grandes objectivos para o médio-prazo. A orquestra já veio ao CCB há pouco tempo e faz concertos regularmente em Santander, A Coruña e Madrid. Assim como com a JONDE (Orquestra de Jovens de Espanha, que irei dirigir em Janeiro de 2023 e com a qual temos concertos no Porto e Lisboa), também com a OSPA seria muito interessante poder mostrar o nosso trabalho em Portugal.

Teremos oportunidade regular de ouvir a Orquestra das Astúrias em streaming?

Durante a pandemia a orquestra transmitiu vários concertos em diferido no YouTube. Além da cidade de Oviedo, a orquestra serve toda a região das Astúrias e faz regularmente concertos em mais duas cidades: Gijón e Avilés. Após os confinamentos e com o retomar de alguma actividade cultural, essa foi a forma de manter o contacto com o público. Actualmente (e para o futuro), acho que pode ser um incentivo a um maior perfeccionismo e uma forma de divulgar o trabalho que realizamos. Isto não invalida o esforço prioritário de mostrar às pessoas a importância do concerto ao vivo, esse momento de concentração e partilha directa entre a orquestra e o público.

 

 

Que projectos próximos nos poderia revelar?

Até ao fim da temporada tenho bastantes projectos com orquestras um pouco por toda a Europa: Dresden, Lille, Valência, Madrid, Hannover… No verão, estarei uns tempos por Portugal e irei dirigir a 5ª Sinfonia de Mahler com a Orquestra de Jovens do Alto Minho e de seguida a Sinfonia Fantástica com a Orquestra de Jovens da Flandres, na Bélgica. Na próxima temporada, além dos projetos com a OSPA e guest-conducting com várias orquestras na Europa e América do Norte, estamos também a preparar um projecto muito estimulante e criativo com a Gulbenkian e vários cantores portugueses ― ainda não posso adiantar pormenores, mas será um espectáculo único a acontecer em meados de Novembro.

Sobre o autor

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Licenciado em piano pela Escola Superior de Música de Lisboa, na classe de Jorge Moyano, concluiu o Conservatório Nacional com a classificação máxima, tendo aí estudado com Hélder Entrudo e Carla Seixas. Premiado em diversos concursos, apresenta-se em concerto em variadas formações. Estreia regularmente obras de compositores contemporâneos. Gravou para a RTP/Antena 2, TV Brasil e MPMP: editou, em 2020, o CD “La fièvre du temps” em duo com Philippe Marques. É membro fundador do MPMP Património Musical Vivo, dirigindo temporadas e coordenando inúmeras gravações. Termina, actualmente, o mestrado em Empreendedorismo e Estudos da Cultura do ISCTE. Foi director executivo da GLOSAS entre 2017 e 2020.