A 1 de Fevereiro de 2022 foi anunciado o nome do novo director artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro: o tenor paulistano Eric Herrero. A vaga estava aberta desde Dezembro de 2021, quando o maestro norte-americano Ira Levin foi exonerado do cargo que ocupava há cerca de um ano. Vencedor do “VII Concurso Brasileiro Maria Callas”, Eric Herrero cantou nas principais salas do Brasil e de outros países como Argentina, Uruguai, Chile e Áustria. O tenor soma no currículo a interpretação de mais de quarenta personagens em óperas de Puccini, Bizet, Strauss, Cilea, Britten, Janáček e Dvořák. Foi ainda um dos cantores convidados pelo Theatro Municipal de São Paulo para a celebração dos 90 anos da Semana de Arte Moderna de 1922. Integrou o Conselho Estadual de Políticas Culturais do Rio de Janeiro e, recentemente, recebeu o título de Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro.

 

 

A revista Glosas felicita-o pela sua nomeação e agradece a disponibilidade para responder a algumas perguntas.

Eu é que agradeço o carinho e o interesse da revista em fazer uma entrevista comigo.

Quais são as novidades para a programação da temporada 2022-2023?

Neste ano de 2022 temos importantíssimas efemérides que serão contempladas, como o centenário da Semana de Arte Moderna de 22, o bicentenário da Independência, além da celebração de gigantes da composição como Debussy, Massenet e Lalo. Não nos esqueçamos também do centenário do grande soprano Renata Tebaldi! Vamos valorizar a prata da casa e o artista brasileiro nas óperas e balés, e o repertório sinfônico coral que formam nossa temporada.

Como sabe estamos muito interessados na lusofonia e na divulgação do canto lírico em língua portuguesa. Existem projectos neste sentido?

Como cantor lírico, sempre me preocupei em dar a devida atenção ao repertório cantado em português. Como Diretor Artístico, neste momento, não poderia ser diferente. Há previsão, ao longo do ano, de peças e programas em língua portuguesa. Em breve, a temporada será divulgada.

A ópera tem uma imagem muito elitizada, sobretudo no Brasil; qual a estratégia do Theatro Municipal visando estabelecer um diálogo com a comunidade local?

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro terá, ao longo do ano, diferentes programas que visam a formação de plateia: palestras, mesas de debate e também e-books relacionados à temporada. Além disso, teremos muitas apresentações a preços populares e o já conhecido e de grande sucesso “Municipal de Portas Abertas”, com entrada franca.

A pandemia ainda não acabou; quais serão as adaptações necessárias?

Estamos prevendo um início de temporada ainda com formações menores no palco. O período de preparação de cada programa prevê um tempo maior, de maneira a que os diretores dos corpos artísticos possam trabalhar com revezamentos de grupos. Além disso, continuaremos contando com os anteparos de acrílico, o uso obrigatório de máscaras e álcool em gel. Estamos nos organizando também para que haja testagem dos artistas da casa.

A desvalorização do real frente ao euro diminui as condições de integração do (e no) cenário internacional da música clássica?

Sem dúvida alguma. Para tanto, há a necessidade de se buscar parcerias. Por exemplo, e me alegro em já poder divulgá-lo, o teatro está voltando a fazer parte da OLA, Ópera Latinoamérica, importante entidade sem fins lucrativos que reúne teatros ibero-americanos para a difusão e promoção da arte lírica na região. Contudo, após todo o período de enorme dificuldade pelo qual o artista nacional passou, por conta da pandemia, vejo ser primordial, nessa retomada, salvaguardar o posto de trabalho deste último, de maneira a auxiliá-lo a reaver ao menos parte de suas perdas. Nosso setor foi o primeiro a parar e, com certeza, o último a voltar à normalidade. Parcerias institucionais estão sendo consolidadas para que o intercâmbio artístico aconteça. É sempre importante que o artista nacional tenha a vivência e troca de experiências com o artista internacional. Infelizmente, o que vejo nos últimos anos, é o artista nacional não recebendo o mesmo respaldo e cuidado no momento destas parcerias. Ou seja, não temos conseguido auxiliar nosso artista a ser levado a outros teatros e auditórios mundo afora. A via precisa ser de duas mãos para que a integração verdadeiramente se realize.

Quais são as perspectivas para a fidelização do público infanto-juvenil? 

O setor educativo do teatro é muito atuante! Há diversos programas que contemplam a renovação de plateia e sua fidelização. Destaco aqui a “Visita Brincada”. Nela, as crianças visitam e conhecem a casa de forma muito lúdica, com brincadeiras e atividades diversas. Além disso, há o “Projeto Escola”, no qual professores e alunos das redes públicas municipal, estadual e federal, recebem um material referente a um espectáculo da temporada. Este material é trabalhado em sala de aula para que, posteriormente, ocorram as excursões ao teatro. Com isso, o público infanto-juvenil tem uma maior imersão e aproveitamento no programa apresentado. Neste ano, estão previstas exposições em nosso foyer e até mesmo projeções de filmes em nossa sala menor, Mário Tavares, relacionados aos títulos da temporada. O número de inscrições para o projeto atingiu a importante marca de duas mil pessoas, entre professores e diretores. Multiplique-se isso pelo número de alunos em cada sala de aula… Parcerias com a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro e gestores municipais estão previstas também. Tudo isso relatado é fruto de um grande trabalho em equipe, com cada setor da casa dedicando-se e entregando o seu melhor, de maneira a devolvermos o Theatro Municipal do Rio de Janeiro ao seu público e o público ao artista, que está ávido por retornar ao palco!

 


 

 

Sobre o autor

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Diplomada pela Universidade de São Paulo, onde se licenciou em História, concluindo o mestrado e o doutoramento em Arqueologia e integrando o LARP, Laboratório de Arqueologia Romana Provincial, enquanto Supervisora de Programas e Pesquisas. Foi docente de História da Arte em diversas instituições universitárias e no MASP, Museu de Arte de São Paulo. Realizou o estágio doutoral no Collège de France, Paris, especializando-se depois em Gestão Cultural no SENAC, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, e concluindo o mestrado em Empreendedorismo e Estudos da Cultura — Património no ISCTE, Lisboa, tendo neste âmbito sido distinguida com um Prémio de Excelência Académica.