ESPECIAL | Ana Paula Russo: 30 anos de carreira

Ana Paula Russo: 30 anos de carreira
Coordenação de Luzia Rocha
Conteúdos preparados por Sofia Ferreira Teixeira e Tânia Valente

 


 

 

Abordei a Ana Paula com uma intenção muito prática e concreta, possivelmente até um pouco egoísta: recolher dela um testemunho cronológico das suas aventuras e desventuras pelo mundo musical de um ponto de vista pessoal, de quem as viveu. O que recolhi foi muito mais do que isso: um testemunho humano, sincero. Uma lição de coragem e de honestidade, tanto pelas ideias e valores que desenhou para si e que orientaram a sua carreira, como pela bravura com que foi vencendo as adversidades tão características da actividade artística a que se dedica.

Numa primeira introdução, Ana Paula declarou-me de imediato a aleatoriedade com que pousou nos domínios artísticos. ‘’Eu entrei no mundo da música absolutamente ao calhas (…). Obviamente que não recomendo isto a ninguém, pelo contrário: recomendo às pessoas todas que sigam os parâmetros normais de formação, que façam um percurso evolutivo normal. O meu não foi nada assim.’’ Oriunda de um círculo familiar bastante musical, onde esta prática era comum e regular (seu pai era músico profissional, de jazz band), APR revelou-me que desde jovem sempre sentiu uma atracção pela música erudita, fosse instrumental ou vocal, mais concretamente pela prática operática. Desde modo, revelou que reconhecia à partida a prática musical como algo natural e expectável no comportamento humano. Pelo que me foi possível entender, o seu percurso musical começou a esculpir-se de um modo mais estruturado no contacto com Fundação Calouste Gulbenkian, nos seus dezoito anos. Nesta história, APR recorda a sua madrinha que a informou das audições para o coro desta instituição, em 1979, narrando uma história algo cómica.

Eu nem sabia o que era o Coro Gulbenkian, juro-lhe! Não sabia de nada, eu não vivia neste mundo. A minha madrinha inscreve-me e diz-me ‘Ó filha, vais lá cantar aquilo que cantas sempre, o ‘Ave Maria’ do Gounod e essas coisas, vais lá e cantas!’’ Lá descobri onde era a Gulbenkian, apresentei-me lá, e havia uma série de gente à minha frente – que eu não fazia ideia quem era -, a professora Joana Silva, aqui do Conservatório, o Michel Corboz, o Maestro Jorge Matta, sabia lá quem era essa gente! Para mim eram pessoas que estavam ali. Mandaram-me cantar e eu cantei: ficou tudo assim a olhar para mim, com uma cara de espanto e em silêncio, ao que me dizem depois ‘Então agora vamos ler’, e eu, do alto da minha ignorância ‘Ler o quê?’ e eles ‘Ler música, uma partitura, uma pauta, um coral…’ e eu ‘Ah, eu não sei! Não sei nada disso!’ ‘Então não sabe ler música? Então mas veio aqui fazer a prova…’ ‘Eu só vim cá para fazer a vontade à minha madrinha!’ Isto ainda hoje é uma história clássica no Coro Gulbenkian, dos mais velhotes, os mais novos se calhar não sabem.

Segundo Ana Paula, foi neste momento que se procedeu ‘à maior reviravolta da sua vida’. Na época, estudante de Línguas, Literaturas e Culturas – interesse que nunca viria a abandonar -, dedicava-se quase exclusivamente a esta prática. ‘’Aquilo que eu pensava que era o meu futuro não o foi, definitivamente.’’ Depois desta audição, foi designado para Ana Paula um ‘tutor’ que lhe viria a ensinar todas as bases de Formação Musical, João Valeriano, que recorda com gratidão. ‘’Ele fica muito comovido quando eu digo isto, mas não posso esquecer as pessoas a quem tanto devo!’’…

Quando a questionei sobre os pontos mais marcantes da sua formação e, consequentemente, das personalidades que mais a marcaram, Ana Paula, prontamente, respondeu que nunca deixou de estudar, de aprender. Apesar disso, distingue como importante o ano de 1979 com a sua entrada para o Coro Gulbenkian, 1984 e 1985 com as masterclasses com Elisabeth Grümmer (em Salisburgo e Lucerna, respectivamente) e o ano de 1990, em que trabalhou com Gino Cecchi, Claude Thiolass e a sua querida professora de canto espanhola, Marimi del Pozo, que recordou com saudade e admiração, bem como o maestro português João Paulo Santos.

O destino fez com que me cruzasse com uma senhora fantástica, que era a minha professora espanhola Marimi del Pozo, tinha eu vinte e sete anos (…). Foi ela que, depois de eu ter tido a minha filha Ariana, me ajudou a reformular toda a minha voz e me fez perceber como é que as coisas funcionam em termos de instrumento físico. A partir daí, tem sido uma grande aprendizagem.

Já sobre João Paulo Santos, Ana Paula esclarece: 

O João tem a minha idade. Andámos juntos no Liceu Camões, mas não falávamos muito um com o outro, éramos de turmas completamente diferentes. Anos depois, diziam que ele era pianista e tal, e encontrei-o no Coro Gulbenkian e voltei a contactar com ele. O João sempre teve esta vocação de Pigmaleão, sobretudo com os jovens músicos, ele gosta muito de pegar neles e ajudá-los: depois está na mão desses músicos ver se têm asas para voar ou não. Sempre trabalhámos muito, apesar de muitas vezes termos opiniões contraditórias. Sempre que possível, trago-o ao Conservatório para masterclasses com os alunos, pois o seu trabalho é notável, principalmente na área da interpretação. Os alunos têm de perceber que a música é muito mais do que está escrito numa partitura, e o João faz um trabalho impressionante nessa área.

Declaradamente, Ana Paula não tece uma divisória temporal entre o seu processo de formação e o início da sua actividade profissional. Quando se estreou em ópera, em 1985, ainda estudava no Conservatório Nacional, nesse que viria a ser um ano de Mozart (Die Zauberflöte, onde interpretou o papel de Königin der Nacht) e de Kurt Weill (Mahagony, onde interpretou Mädchen), no Teatro Nacional de São Carlos. ‘’Era bastante requisitada nessa altura: tinha uma voz necessária para alguns papéis específicos, nomeadamente aqueles que requerem uma componente que eu designo de ‘’pirotecnias’’ vocais”, recorda Ana Paula, entre risos. Ainda nesse mesmo ano viria a receber o 2.º Prémio no Concurso Internacional de Canto Francisco de Andrade. No ano seguinte, em 1986, Mozart voltaria a surgir no seu repertório operático, desta vez como Blonde em Die Entführung aus dem Serail, no TNSC, como também Gilda, de Rigoletto, de Giuseppe Verdi. Chegaria também a vez de Offenbach, como Olympian em Les Contes d’Hoffmann.

1987. Seguiriam-se outros papéis principais em produções de ópera: Adina, de L’Elisir d’Amore, Belinda, em Dido and Aeneas, de Donizetti e Purcell, respectivamente, tal como alguns secundários em L’enfant et les sortilèges (Le Feu / Le Rossignol) de Maurice Ravel, Florestine em La Mère Coupable, de Darius Milhaud, e na ópera La Sonnambula, de Bellini, interpretou Amina e Lisa. Em 1988 viria a arrecadar também dois importantes prémios: 1.º Prémio no Concurso Nacional Olga Violante (Prémio Nacional e Prémio especial do Júri para Ópera), bem como o 1.º Prémio nos Concursos Nacionais da Juventude Musical Portuguesa (Canto e Música de Câmara). Neste ano viria a sagrar-se também Finalista no Concurso Internacional de Canto Francisco Viñas (Barcelona).

O ano final da década de ’80 havia sido, tal como todos os anteriores, uma época extremamente próspera para Ana Paula. No TNSC interpretou Mozart (Le Nozze di Figaro, no papel de Barbarina), Donizetti (Marie, em La Fille du Régiment) e Wagner (Ortlinde e Gerhilde, em Die Walküre). Viria a repetir Les Contes d’Hoffmann no mesmo papel e a executar Ernestine, da ópera Monsieur Choufleuri, do mesmo compositor. Neste mesmo ano representou Portugal no Cardiff Singer of the World, uma importante competição internacional promovida pela BBC, da qual recorda momentos de confraternização e aprendizagem com os elementos dos júri.

No início da década de ’90 Verdi voltaria ao TNSC, e Ana Paula seria Oscar, em Un Ballo in Maschera, e também Ninette, em L’Amour des Trois Oranges de Sergei Prokofiev. Em 1990, Ana Paula seria também Finalista Laureada no Concurso Internacional de Canto Cidade de Oviedo e no Concurso Internacional de Canto Luísa Todi. Em 1992 viria desta vez estrear-se num papel que a acompanhou para o resto da vida, que até hoje interpretou dezenas de vezes, segundo a própria: Rosina, da ópera de Rossini Il Barbiere di Siviglia. No ano seguinte, 1993, Ana Paula sublinhou o prazer que teve em interpretar Clorinda, um papel secundário de La Cenerentola, do mesmo compositor, “sobretudo por causa dos concertantes. Cantar a vozes para mim é uma experiência incrível, é um puzzle muito interessante, e os concertantes são divertidíssimos.’’ Dedicado-se também à ópera alemã nestes dois anos, encarnou também Adèle, de Die Fledermaus de Johann Strauss, e der Hirt em Tannhäuser, de Richard Wagner (1992 e 1993, respectivamente).

Em Março de 1994, paralelamente à interpretação de duas óperas portuguesas (Cânticos para a Remissão da Fome, de António Chagas Rosa, no papel de Shudi e Ernesta na ópera de Marcos de Portugal As Damas Trocadas) Ana Paula viria também a orientar um Curso de Canto na Escola de Música de Santarém. Seria ano também de Bernstein, na opereta Candide, onde interpretou Cunegonde, papel que descreveu como “incrivelmente difícil a nível físico, muito desgastante e extremamente belo’’.

Dado o seu vastíssimo repertório operático, questionei Ana Paula sobre as características que pautam a rotina de um cantor que frequentemente se desloca por todo o mundo em concertos, récitas, nas mais variadas produções.

Uma carreira internacional pressupõe muita solidão e poucas amarras. Por exemplo, em 1994 cruzei-me em Macau com o William Matteuzzi, um grande cantor meu amigo. Estávamos em Outubro: ele tinha saído de casa em Abril e só ia voltar no final de Dezembro. Cruzámo-nos ali, vinha ele não sei de onde, e eu no final voltava para Portugal e ele ia para o Japão. Obviamente ele não tinha família, porque é muito difícil. Estive a estudar em Salisburgo, em Lucerna, fui representar Portugal no Cardiff Singer of The World, fui a Toulouse, Madrid, Nova Iorque, Hong Kong, Macau, (…) era tudo muito engraçado, até que eu chegava ao meu quarto e não tínhamos os meios que nós temos hoje para nos mantermos em contacto. Não havia nada disso. E eu sozinha, ficava triste de tal maneira que não conseguia aguentar. Sabia que não tinha arcaboiço emocional. Só era feliz no momento em que cantava. A partir de dada altura, sempre que podia, levava sempre alguém comigo.

No ano de 1995, bem como no ano seguinte, Ana Paula voltaria a vestir o papel de Rosina e a interpretar uma ópera de outro compositor que marcou o início da sua carreira. De Kurt Weill, em Street Scene, cantou a parte de Mrs. Fiorentino, no TNSC. Seria tempo também para Franz Léhar, com a ópera Die Lustige Witwe, onde foi Hanna Glawari; para Puccini, onde foi Musetta de La Bohéme e para Strauss, onde foi encarnou Najade da ópera Ariadne auf Naxos. Em 1997 seria também Vespetta, da ópera Pimpinone, de Telemann, e o famoso Rouxinol, da ópera homónima de Igor Stravinsky.

Estávamos a meio da década de ’90 e Ana Paula Russo já arrecadara dezenas de papéis principais e secundários quer em óperas famosíssimas e frequentemente programadas em todos os teatros de ópera por esse mundo fora, quer em estreias de óperas recentemente compostas, como viria a ser O Corvo Branco, em 1998, de Phillip Glass. ‘’Ele veio a Portugal ouvir algumas vozes, e escreveu directamente para elas. Foi uma grande honra.’’ Ana Paula viria a ser seleccionada para os papéis de Rainha e 1.º Cientista, e cuja estreia viria a ser no Lincoln Center (NCY Opera).  Ainda no mesmo ano, outro clássico: Un Ballo in Maschera, onde interpretaria Oscar. Ainda sobre a anterior questão sobre a sua carreira internacional, perguntei a Ana Paula: E quando é que percebeu que não queria levar essa vida que lhe queriam propor?

Mais ou menos em 1998, quando fiz o “Baile de Máscaras’’ em Macau. E depois, sem dúvida, em 2001 quando concorri ao Conservatório. Foi aí que percebi que gostava muito de cantar, mas também gostava muito de fazer outras coisas. (…) Creio que há gente que vendia a mãe, o pai e os avós para ter acesso às pessoas e aos contactos que eu naturalmente tive na minha mão, mas não quis entrar nesse circuito, não tenho feitio para isso.

No final da década de ’90, Ana Paula viria a colaborar novamente com o TNSC em Orphée aux Enfers e As Damas Trocadas, que já havia representado anteriormente. Viria também a interpretar Princesse, da ópera Bataclan, também de Offenbach, que se repetiria nos dois anos seguintes.

Em 2000, Ana Paula viria a interpretar Minette, personagem principal da ópera The English Cat, do compositor Hans Werner Henze, papel que considera “o mais difícil que executei até ao momento. A Gata entra em cena logo no início e só sai no final; a nível físico, é um trabalho extenuante.” Quando falou desta ópera, Ana Paula não poupou elogios a Luís Miguel Cintra, que considerou ser alguém de uma classe superior por tão bem ter compreendido o seu papel exigente durante os ensaios, e por tanto a ter ajudado.

Em 2001 leccionou técnica vocal na Escola de Música N.ª Sr.ª do Cabo, em Linda-a-Velha, e tem sido convidada regularmente como elemento do Júri do exame de Canto. Nesse mesmo ano viria também a interpretar Erste Blume da ópera Parsifal de Wagner numa encenação do TNSC. Desde então lecciona na classe de Canto na Escola de Música do Conservatório Nacional, onde também, além da preparação e orientação das Audições e dos Exames de Canto, tem colaborado num conjunto de actividades complementares de carácter pedagógico, leccionando também a disciplina de Ateliê de Ópera. Sobre a sua entrada nesta instituição, Ana Paula declarou:

Há anos que não abriam concursos para o Conservatório, anos e anos. E no ano 2001 abriram os tais concursos, que eram em Julho desse ano. Ora, chorei baba e ranho porque nessa altura estava a cantar em Nova Iorque, e atenção que nessa altura não havia concursos online: o concurso em 2001 foi por currículo e provas públicas. Tínhamos de dar uma aula publicamente, com um júri, e tinha que se cantar um recital. (…) Por burocracias do Ministério, a prova foi adiada dois meses, para Setembro, pelo que já pude concorrer. Nesse dia fui a primeira, correu muito bem e exactamente como planeara. Chegando a casa, liguei a televisão, coisa que nunca faço (…). Foi um misto de sentimentos muito difícil de explicar, estávamos no dia 11 de Setembro.

Miss Wordsworth seria o papel que interpretaria na ópera de Benjamin Britten Albert Herring no ano de 2002, bem como Marie em Les Mesdames des Halles de J. Offenbach. As produções do TNSC onde viria a participar neste ano seriam Os Dias Levantados, do compositor português António Pinho Vargas, e Four Saint in Three Acts, de Virgil Thompson, onde encarnaria St. Settlement. Em 2003 viria a ser convidada para reger a cadeira de Colocação de Voz na pós-graduação em Comunicação Social do Instituto Piaget. No domínio artístico, representaria novamente o papel de Adèle, que recordou com muito gosto, da ópera Die Fledermaus de Johann Strauss, numa produção do TNSC. Na Fundação Calouste Gulbenkian seria o 1.º Anjo de Palestrina, de Pfizner.

Em 2004, 2005 e 2007 viria a representar novamente a célebre personagem que a marcou em toda a sua carreira: Rosina, de Il Barbiere di Sivilglia, de Rossini. Entretanto, em 2006, surgira também a oportunidade de interpretar Contessa, de Le Nozze di Figaro e D. Anna, de D. Giovanni, duas das mais célebres óperas de W. A. Mozart. Evil Machines, ópera de Luís Tinoco, em que Ana Paula fora Mrs. Morris e Telephone, apresentando-se no Teatro São Luiz em 2008, um ano depois de Die Walküre, no TNSC.

Em Setembro de 2010 foi a formadora responsável pela Acção de Formação Técnica e Interpretação no Repertório Lírico com a colaboração do Maestro Armando Vidal, antigo maestro correpetidor do Teatro Nacional de São Carlos, professor de Música de Câmara e director de orquestra, bem como responsável pelo Ateliê de Ópera da EMCN. Foi no ano anterior a este, 2009, que realizou o seu curso de Profissionalização no âmbito do Ensino Artístico. Quando a questionei sobre a gestão necessária a fazer para relacionar a sua carreira quer no domínio artístico, quer no âmbito do ensino, Ana Paula prontamente respondeu:

Acho que para uma escola, o mais importante de se ter num corpo docente são pessoas que continuam a exercer a sua vida artística. Tem noção da quantidade de escolas que andam por aí cujos professores nunca meteram um pé num palco? Tenho a sorte de ter uma voz muito jovem para a minha idade, muito fresca e dominada. Agradeço aos meus alunos, que me obrigam a estar sempre no topo. Mas o nosso instrumento está dentro de nós, e não sei se posso vir a ser atingida por algo que faça o meu instrumento entrar em ruptura. Não sei até quando vou cantar, daí estar continuamente a apostar na minha actividade artística.

Considerando a sua actividade operática dos últimos anos, Ana Paula Russo participou na estreia absoluta de Alexandre Delgado, em 2011, no Centro Cultural de Belém em Rainha Louca, e em 2012 interpretou Rosalinda na ópera de António Miró Il Sogno dello Zingaro, numa produção do TNSC. Em 2014 viria também a interpretar Pallade na ópera de Gluck Paride e Elena, no Centro Cultural de Belém. No ano lectivo 2012-2013 e a pedido expresso do Instituto Piaget, foi orientadora de estágio pedagógico da mestranda Raquel Gama, do Mestrado de Canto, via Ensino.

Para além de um exaustivo registo das suas participações no meio musical quer nacional, quer internacional, Ana Paula Russo não deixou de nos presentear com as suas reflexões pessoais sobre o dito estado das coisas: convicções sobre a vida artística, sobre os valores que devem pautar e orientar os seus agentes, sempre no seu tom directo, analista e humorístico:

Não são os grandes vestidos, e as grandes headlines nas revistas, as televisões, que vão dar mais qualidades musicais às pessoas. Uma vez, lá na rádio, chegou-nos uma rapariga húngara a cantar cem vezes melhor do que essas que andam para aí, das quais se fala muito. Ninguém sabia quem era a rapariga. E eu pensei: mas que justiça há neste mundo? Mas não, é o marketing, a promoção. A meu ver, o marketing aplica-se às pastas de dentes ou aos caracóis de cebolada, a objectos: a coisas que podemos dizer ‘’gosto mais deste, este é mais bonito’’. Agora a arte? Eu acho isto muito chocante. Continuo a dizer isto, por muito embirrante que possa parecer.

 


 

 

Testemunhos de alunos de Ana Paula Russo

 

Susana Gaspar

 

Susana Gaspar estudou no Conservatório Nacional, na Guildhall School of Music and Drama (GSMD) (Licenciatura e Mestrado em Música) e no National Opera Studio (Londres), tendo sido subsidiada pela Royal Opera House (ROH). Foi laureada em vários concursos líricos em Portugal e no estrangeiro e em 2013 foi a representante de Portugal no Cardiff Singer of the World. Participou nas temporadas de 2011 a 2013 – no estúdio de ópera da Royal Opera House (Jette Parker Young Artists Programme – JPYAP), o que a levou a cantar em Covent Garden e outros espaços londrinos. O seu repertório de ópera é muito diversificado, assim como de Lieder. Entre os seus próximos projectos futuros contam-se uma gravação de Lieder de Fanny Mendelssohn com Malcom Martineau, estreia no Royal Albert Hall com a Philarmonia Orchestra, 9.a Sinfonia de Beethoven no Barbican Centre (Londres) e no Symphony Hall (Birmingham), Paride ed Elena (Gluck) com os Músicos do Tejo no CCB e Mimì La bohème em Grange Park Opera (2015).

Fui aluna da classe de canto da Escola do Conservatório Nacional entre 1998 e 2004.  De 2001 a 2004 estudei com a professora Ana Paula Russo. Foram anos muito importantes para a minha formação, em particular para  a minha carreira de cantora de ópera, pois foi na sua classe que comecei a abordar mais a sério o repertório operático. Lembro-me como se fosse hoje de um episódio que me iria marcar até aos dias de hoje. Numa das audições da Semana Aberta, cantei a ária da Pamina “Ach, ich fühls” de Die Zauberflöte de Mozart. Estava tão nervosa que todo o meu corpo tremia. Estava apavorada, não conseguia controlar-me ou controlar a minha voz. Quando acabei de cantar, a Ana Paula Russo disse que me iria “obrigar” a cantar todas as semanas em frente a outras pessoas até eu ser capaz de superar o meu medo. Consegui superá-lo! Hoje, ir para o palco é um imenso prazer e não um sofrimento! Outro ponto muito importante na nossa relação de professora-aluna foi o facto de a Ana Paula me ter sempre incentivado , dado apoio, e me ter feito acreditar na qualidade da minha voz e nas minhas capacidades como artista. Tudo isto foi extremamente importante para mim, pois deu-me força para continuar e lutar pelos meus sonhos.

 

Jorge Martins

 

O barítono Jorge Martins tem já uma carreira digna de notoriedade. Após a sua formação no Conservatório Nacional, já desempenhou vários papéis em óperas, tanto do repertório mais tradicional (como La Traviatta, A flauta mágica, Don Giovanni, etc.), como de repertório mais contemporâneo, pisando palcos, como os do Teatro de São Carlos, da Gulbenkian, entre outros. Como solista, tem ainda no seu currículo repertório sacro, sinfónico e recitais, sempre acompanhado ora por orquestras, ora por outros intérpretes reconhecidos.

Pediram-me para dar um testemunho sobre a Ana Paula Russo, minha professora de canto no Conservatório Nacional, em cuja classe fiz o exame final de canto há já onze anos sendo seu aluno durante o ano e meio anterior. Apesar deste curto período, e de entre outras pessoas que posso destacar como importantes no meu percurso como músico ou músico em formação (que na verdade continuamos a ser), a Ana Paula Russo foi sem dúvida uma pessoa-chave. Talvez graças a isso ainda hoje cante. Eu estava a passar por um período delicado, no que à minha voz dizia respeito, e considerei seriamente  desistir. Tive nela um apoio, incentivou-me e mudei para a sua classe a meio de um ano lectivo (algo pouco comum e que levantava muitos pruridos na altura, mas tive sorte). Em pouco tempo voltei a ter gosto em cantar e a sentir-me, novamente, minimamente confortável com o que eu produzia. Como em tantas outras coisas da vida, na relação entre mestre e aprendiz tem de existir compreensão mútua, compromissos e um caminho que se percorre em conjunto. A Ana Paula tinha, e tem, algo extremamente importante que é muita experiência de palco e uma atitude positiva perante o futuro. Isso foi o suficiente para desbloquear essa minha fase negativa. Mas não se pense que tudo é fácil na relação com a Ana Paula. Ela tem um feitio muito marcado e é impetuosa, por isso de vez em quando os nossos feitios chocavam (por vezes, também eu não sou de trato fácil), mas sempre com bastante desportivismo de parte a parte. Mantivemos sempre uma boa relação, apesar de não muito próxima, e desde que eu trabalho a nível profissional já nos cruzámos várias vezes no palco, a última das quais n’O Basculho de Chaminé de Marcos Portugal no São Carlos, eu como Basculho e a Ana Paula como Rosina. É uma pessoa com bom sentido de humor, frontal, generosa e mantém um carinho especial pelos seus alunos e antigos alunos, estando sempre disponível para ajudar.

 

João Pedro Cabral

 

Após a conclusão da sua formação do Conservatório, e de um 2.º lugar no Prémio Jovens Músicos na categoria de Canto, rumou para a Flanders Operastudio na Bélgica. Entre 2011 e 2014 foi membro do ateliê lírico na Ópera Nacional de Paris. Tem já no seu currículo uma série de papéis, tanto em óperas mais tradicionais, como mais contemporâneas, e uma gravação, Rameau chez Madame de Pompadour para a NoMadMusic. Actualmente, a sua carreira desenvolve-se sobretudo no espaço na Europa Central, tendo o seu projecto mais recente sido Elle Est Moi Und Töte Mich de Joris Blanckaert na Nona Kunstcentrum Mechelen e no Rotterdamse Schouwmburg (Opera Dagen).

Tive a oportunidade de estudar sob a alçada da professora Ana Paula Russo nos quatro anos em que frequentei a Escola de Música do Conservatório Nacional. Apesar de não ser a primeira vez que estudava canto, foi nessa altura que o comecei a fazer de forma continuada e mais metódica, tendo a Ana Paula contribuído de maneira crucial para alimentar o meu interesse, não só através dos conhecimentos transmitidos, tanto a nível técnico como a nível musical, mas também pela sua ajuda e incentivo no gosto pela compreensão e fruição da palavra no canto. Ainda hoje guardo o saber transmitido e o encorajamento para seguir este caminho, tendo sido em grande parte graças ao seu apoio que segui uma profissão que me preenchia mais que os estudos de engenharia que, nessa altura, fazia em paralelo.

 

Tânia Valente

Cantora lírica, é membro do Coro Gulbenkian, investigadora no Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras e docente da EMCN. Licenciou-se em Canto na Escola Superior de Música de Lisboa e doutorou-se em Música e Musicologia, ramo de Interpretação, na Universidade de Évora. É autora de ensaios científicos sobre música e do livro A Língua Portuguesa no Canto Lírico: um estudo de relações entre técnica vocal e fonética articulatória. Dedica-se especialmente à divulgação de música portuguesa.

Estudei com Ana Paula Russo durante dois anos, entre os meus dezanove e vinte e um anos. Foi um período importante e feliz para mim, que só não se prolongou por mais tempo em virtude de a professora ter deixado de dar aulas na Juventude Musical Portuguesa. Ainda recordo quando cheguei à minha primeira aula – atrasada! – e em vez de uma aula de canto acabei por levar  um sermão sobre auto-estima, que acabaria por me preparar para as aulas seguintes. A professora queria vozes grandes e, para isso, eu tinha que deixar de ser uma menina tão tímida. Mas o que mais me impressionou e me levou a criar uma empatia com ela foi o facto de ela me ter revelado que, por detrás de uma postura de segurança, ela, tal como eu,  também era uma pessoa tímida e com inseguranças. Em 2002, já ela não era minha professora, aceitou receber-me e ouvir o programa que preparava para a prova de ingresso na ESML. Penso que essa lição foi fundamental para eu alcançar o meu objectivo, pois, mais do que uma aula de canto, a Prof.ª Ana Paula deu-me uma lição de postura, dizendo-me qualquer coisa como “por dentro tu podes estar nervosa, mas por fora tu não podes mostrar isso. Até na forma como cumprimentas as pessoas, deves mostrar calma e confiança”. Esta lição ficou-me para a vida. E em quase dez anos que já levo também a dar aulas, compreendo que um professor de canto não pode ser só um “técnico”, porque a técnica, por muito boa que seja, de pouco serve se o professor não tiver também um lado de “psicólogo” que leve os alunos a acreditar nas suas capacidades de desenvolvimento. Esta é, para mim, uma das maiores virtudes de Ana Paula Russo enquanto pedagoga e sou-lhe muito grata por tudo o que aprendi e por me fazer acreditar no meu potencial.

 

Lucinda Gerhardt

 

A contralto Lucinda Gerhardt tem procurado desenvolver a sua carreira no âmbito da Música Antiga, contando já com um Mestrado em Interpretação de Música Antiga na Escola Superior de Música da Catalunha, em Barcelona, e com várias masterclasses com grandes nomes deste género musical. Participou como solista com vários agrupamentos como a Capela Real, o Moscow Piano Quartet, a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a Orquestra Sinfonietta de Lisboa e o ensemble América Antiga. Paralelamente à sua actividade solística, dedica-se ao repertório para ensembles vocais, sobretudo enquanto membro do Grupo Vocal Olisipo e do Coro Gulbenkian.

Foi no início dos meus estudos de canto que tive o privilégio de ser aluna da Ana Paula Russo, na Juventude Musical Portuguesa. Recordo uma professora atenta, exigente mas com um excelente sentido de humor. Recordo também o seu apoio incondicional, e o seu incentivo para trabalhar e continuar a progredir. Recordo a sua personalidade exuberante, com imensa energia, que ela utiliza para motivar os alunos e fazer de cada aula algo dinâmico, em que o tempo passa sem se dar conta. A sua dedicação aos alunos extravasava a sala de aula: a Ana Paula esteve sempre em todos os concertos que fiz como solista. Paralelamente ao trabalho técnico da voz, dava primazia ao trabalho musical, à interpretação, e procurava o repertório que permitia à voz expandir-se e ganhar ressonância. Um grande bem-haja, Ana Paula, e votos de uma excelente continuação da carreira!

 

Rui Antunes

 

Tinha um sonho enorme, e uma voz a condizer, talvez demasiado “forte” para certos talent-shows.  Porém, essa voz enorme levou-o a entrar no Conservatório Nacional, onde concluiu o curso de canto com a classificação máxima, e logo se seguida na Escola Superior de Música de Lisboa. Hoje, o jovem tenor Rui Antunes é reforço do naipe dos tenores do Coro do Teatro Nacional de São Carlos.

A professora Ana Paula Russo sempre se revelou muito trabalhadora e disciplinada, transmitindo-me desde o início uma imagem de respeito e confiança, sendo sempre presente e responsável. Sempre acreditei na sua boa experiência como artista, na sua segurança, na sua prática de palco e tentei sempre absorver o máximo que ela tinha para me ensinar. Incentivou sempre os alunos a frequentar e concluir as outras disciplinas e a não pensarem no canto como única disciplina importante. Deu-me sempre uma perspectiva realista da vida artística e fez-me estar preparado para saber ouvir uma resposta que não fosse tão positiva. Incentivou-me a ter sempre projectos novos e a não ficar à espera que as coisas viessem até mim. Como cantora profissional revelou-se sempre uma óptima soprano de cada vez que a ouvi num repertório variado, desde Lied a oratória e a ópera. Como coordenadora do ateliê de ópera do Conservatório Nacional levou a L’enfant et les sortilèges de Ravel a várias salas de espectáculo com os seus alunos, sempre auxiliando em tudo o que era necessário. A professora Ana Paula Russo preparava muito bem as audições de canto que apresentava no Conservatório. Deu-me a conhecer muito repertório, não só para fazer o exame final, como também para me apresentar em audições. Revelou-se uma professora com verdadeiro conhecimento das vozes com que trabalhava, dando repertório apropriado e variado a todos os seus alunos. Sempre soube conciliar os seus trabalhos profissionais como cantora lírica com a sua vida de professora. Sempre teve comigo uma relação verdadeira e por vezes foi confidente. Deu-me a oportunidade de participar em vários projectos como coralista e solista. Só tenho de agradecer à professora Ana Paula Russo por me ter deixado estudar com ela e por tudo o que me ensinou.

 

Sobre o autor

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Luzia Rocha possui os graus de Licenciatura, Mestrado e Doutoramento em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa. É investigadora no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. É membro do ‘Study Group on Musical Iconography’ e do ‘Study Group for Latin America and the Caribbean’ (ARLAC-IMS), ambos da International Musicological Society. É colaboradora na Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e no Grupo de Iconografia Musical da Universidad Complutense de Madrid/AEDOM. Trabalhou como docente na Academia de Amadores de Música, Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC), Instituto Piaget (ISEIT de Almada, também como Coordenadora da Licenciatura em Música) e na Academia Nacional Superior de Orquestra e colabora actualmente como docente na Licenciatura em Jazz e Música Moderna da Universidade Lusíada. Tem participado como oradora, por convite, em conferências nacionais e internacionais e publicado artigos em periódicos com arbitragem científica. É autora do livro "Ópera e Caricatura: O Teatro de S. Carlos na obra de Rafael Bordalo Pinheiro".