No passado dia 10 de Junho, pelas 21h30, a Sinfonietta de Ponta Delgada, apresentou-se no Coliseu Micaelense, sob a direcção de Amâncio Cabral, num concerto que, em dia de Portugal, homenageou os compositores portugueses, em particular açorianos. A primeira parte contou com Duas melodias para orquestra de cordas Op. 5 de Luiz de Freitas Branco, seguindo-se a Pavane para orquestra de cordas de Francisco de Lacerda e terminando com a estreia absoluta da Sinfonia Zeus de Rogério Medeiros. Na segunda parte, ouviram-se Canzonetta pour clarinete avec accompagnement d’orchestre, Op. 19 de Gabriel Fauré, sendo solista o clarinetista João Rosado, Pastorale d’Été de Arthur Honegger e concluindo com o brilhante Idílio de Siegfried, WWV 103 de Richard Wagner.

A Sinfonia Zeus, em quatro andamentos, de Rogério Medeiros, de acordo com a nota ao programa assinada pelo compositor, “apesar de ser curta dimensão (duração e efectivo instrumental), é simbólica de um passado do qual a nossa cultura ocidental tanto herdou. Desta forma, faço assim a minha humilde homenagem aos ensinamentos gregos, em especial os musicais.” No primeiro andamento, Raios e trovões do Olimpo, sobre modos alusivos à música da Antiguidade é sugerido um ambiente de turbulência, demonstrativo do poder dos deuses, aqui recriado pelo “gotejar” dos pizzicati e o “toar” dos acordes carregados de fúria que preconizam o tema inicial, em forma-sonata, conducente ao segundo tema, melodioso e mais apaziguador, simbolizando a dualidade e o contraste de temperamentos tão característico de deuses humanizados. O segundo, Eirene, a Mensageira da Paz Triste, inspira-se nesta figura mítica, uma das filhas de Zeus, a personificação da Paz (Eirene, em grego) e sinónimo também de esperança. A paz absoluta é, no entanto, uma abstracção, utopia, um estado inalcançável pelos mortais e talvez unicamente ao alcance de seres divinos e eternos. A sensação do tempo imutável e imperturbável é, assim, talvez a característica musical mais presente que busca personificar a ideia geral do andamento.

As duas últimas secções intitulam-se Enchendo a Taça de Baco (III) e O Novelo de Teseu (IV). A tradição romana imortalizou o seu congénere grego Dioniso, deus do vinho, sob o nome Baco. O ambiente retratado neste andamento é um minuete toldado pela embriaguez através de efeitos de distorção de harmonias, sugestões de politonalidade, frases melódicas de proporções desequilibradas e outros efeitos orquestrais. Em O Novelo de Teseu alude-se ao episódio da entrada do herói de Atenas no labirinto e da luta com o monstro Minotauro. A textura contrapontística da fuga evidencia os caminhos obscuros e sinuosos por onde Teseu vai desenrolando o novelo. Funciona também como desfecho triunfal a um ciclo de mitos que nem sempre, na tradição grega, têm um final feliz.

A Sinfonietta de Ponta Delgada é um projecto orquestral profissional da Quadrivium – associação Artística que tem como principal objectivo responder à necessidade de criação de um agrupamento sinfónico na ilha de S. Miguel, servindo também como meio de formação para os jovens músicos que a integram. Esta orquestra é constituída por cerca de quarenta músicos, tendo como repertório de eleição obras do período clássico à contemporaneidade. Realizou estreias de obras de jovens compositores açorianos como Sara Ross, João Costa ou Rogério Medeiros. A Sinfonietta de Ponta Delgada conta com uma assídua actividade, com diversos concertos e colaborações no meu cultural micaelense. Amâncio Cabral formou-se no Conservatório Regional de Ponta Delgada, na Universidade Nova de Lisboa e na Academia Nacional Superior de Orquestra. Colaborou com numerosas orquestras e agrupamentos, sendo membro fundador do Quarteto Da Capo e da Orquestra de Câmara de Ponta Delgada. Foi discípulo de Jean-Sébastien Béreau (direcção de orquestra), tendo trabalhado ainda com Adriano Martinolli d’Arcy e Alberto Roque. É actualmente Director Musical da Sinfonietta de Ponta Delgada e professor de violino e orquestra no Conservatório Regional de Ponta Delgada.

Sobre o autor

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Natural de Ponta Delgada, fez os estudos musicais no Conservatório Regional de Ponta Delgada (C.R.P.D.), onde concluiu, em 1995, o Curso Secundário de Música. Licenciada em Ciências Musicais, pela FCSH-UNL, em 1999. Desde 1999, exerce funções docentes no C.R.P.D. no Grupo M31 - História da Música. Colaborou na elaboração de entradas sobre personalidades e termos do Arquipélago dos Açores para a Enciclopédia de Música em Portugal no Século XX e para a Enciclopédia Açoriana.