Desde sua fundação, em 2004, o Núcleo Universitário de Ópera se destaca como um grupo marcado pelo empreendedorismo. Apesar do nome, não está institucionalmente ligado a nenhuma universidade, mas tem entre seus membros graduandos e pós-graduandos de São Paulo e região, oriundos principalmente dos cursos de música e artes cênicas. Criado pelo maestro Paulo Maron e sua esposa, a preparadora cênica/corporal Marília Velardi, também conta com uma orquestra de câmara, formada por jovens instrumentistas. Destacou-se nos anos iniciais sobretudo pelas montagens de operetas de Gilbert e Sullivan, levadas ao palco do Theatro São Pedro. Apresentou-se também em outros palcos da cidade, como o Teatro Maria Della Costa, Memorial da América Latina, Teatro Anhembi Morumbi e SESC Bom Retiro. Por meio de uma campanha de financiamento coletivo, foi construída em 2014 a sede do grupo, o Espaço Núcleo, localizado no bairro do Ipiranga. O NUO hoje se mantém, além da bilheteria, por meio da colaboração de assinantes, recompensados segundo o valor de suas contribuições mensais: ingressos, menção dos nomes nos programas e no site, direito a usar o espaço ou apresentações particulares.

Denominam-se um grupo de “ópera-laboratório”, adaptando o termo “Teatro Laboratório” de Grotowski. Não se trata de um curso de formação de cantores-atores, à maneira dos estúdios de ópera tradicionais. As montagens são, segundo Maron, o seu próprio percurso formativo.

As produções mais recentes têm trazido à tona outra faceta do grupo: o experimentalismo. A mais surpreendente foi a ópera do improviso, baseada no Playback Theatre, de Jonathan Fox e Jo Salas. O violinista e antropólogo Yuri Tambucci abria o espetáculo, convidando pessoas da plateia a compartilharem suas histórias, que deveriam se encaixar em quatro gêneros distintos: comédia, aventura, drama e romance. Em poucos minutos os atores-cantores se reuniam e davam início à apresentação. Férias desastrosas em Ilhabela, sequestro a bordo de um tuk-tuk, romance entre um brasileiro e uma tcheca na Austrália, morte dos dois filhos de um casal de imigrantes italianos – foram estas as narrativas do dia em que assisti à récita, em junho de 2017. Os quatro momentos musicais, sem uma ordem estabelecida, foram compostos previamente pelo maestro Paulo Maron. A cena dramática é exclusivamente instrumental, acentuando o seu caráter. Há a indicação de alguns solos que, no entanto, podem passar a diferentes cantores segundo as exigências de cada situação com que se deparam. O resultado desse exercício de improvisação é sempre fascinante.

Mais recentemente, entre 23 de junho e 1 de julho de 2018, o NUO trouxe-nos mais uma novidade: Cântico dos Imigrantes: uma ópera verbatim (termo latino que significa “palavra por palavra”). O espetáculo é inspirado no teatro verbatim, surgido na Inglaterra nos anos 90 e frequentemente associado a temáticas de crítica social. Baseia-se na reprodução literal do conteúdo e das inflexões de depoimentos gravados. Utilizando fones de ouvido, os atores/cantores nos apresentaram as memórias de imigrantes de diversas origens e chegados ao Brasil em distintas épocas, obtidos a partir de entrevistas realizadas pelos membros do grupo ou de vídeos disponíveis na internet. São especialmente tocantes o de uma jovem nascida na Síria, apátrida devido ao casamento inter-religioso dos pais, que consegue asilo no Brasil e cujo irmão é morto durante um assalto, e o de um brasileiro, que reconhece em sua origem a presença de muitos países e etnias. As falas são intercaladas com canções solo e em conjunto, de várias épocas e países – não necessariamente coincidindo com os representados nos depoimentos.

Cântico dos Imigrantes

Cena de Cântico dos Imigrantes. Imagem disponível na página do NUO no Facebook

Mais uma vez, surpreendemo-nos e comovemo-nos. Algumas questões musicais deixaram, contudo, a desejar. Seria especialmente importante um trabalho mais minucioso em direção a um maior equilíbrio vocal — tímbrico e de afinação — nas peças apresentadas em conjunto. Acima de tudo fica, como sempre, o exemplo dessa iniciativa interdisciplinar. Longa vida ao NUO, que inspire os jovens artistas e sacuda os melômanos mais tradicionais.

Sobre o autor

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Guilhermina Lopes é doutora em música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Brasil, com tese sobre a obra musical de temática brasileira de Fernando Lopes-Graça. Realizou um estágio de pesquisa PDSE-CAPES entre 2015 e 2016 sob a coorientação de Mário Vieira de Carvalho. É actualmente investigadora colaboradora do CESEM-UNL, membro do Grupo de Investigação Música, Teoria Crítica e Comunicação, participante do projecto temático “O Musicar Local” (FAPESP – UNICAMP/USP) e segunda-secretária da Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET), gestão 2017-2019. Participou de diversos eventos académicos nacionais e internacionais, tendo apresentado comunicações em Portugal, Brasil, Chile e Espanha. Dedica-se também ao estudo do canto lírico e integra o Coro Contemporâneo de Campinas, grupo ligado à sua universidade de origem.