A 12 de Julho de 1966, integrado no VII Festival de la Canción Gallega, teve lugar no Salão Nobre do Palácio da Deputação de Ponte Vedra, na Galiza, um concerto com o soprano Dolores Pérez e o pianista Miguel Zanetti. O programa interpretado constava de duas partes, a primeira das quais integralmente dedicada às Dez Canções Galegas de Frederico de Freitas.

No início de 2012, encontrei por casualidade uma brochura deste concerto e devo reconhecer que a presença de um compositor português no Festival de la Canción Gallega se me afigurou estranha, porquanto a intenção do evento consistia em interpretar mestres espanhóis que compuseram canções sobre textos de poetas galegos. Imediatamente iniciei uma lista de todos os participantes nas oito edições e, para minha surpresa, Frederico de Freitas não fora o único compositor português ali presente.

A Génese do Festival

A iniciativa de um festival cuja finalidade fosse estrear canções galegas compostas por músicos do Estado Espanhol, na sua maior parte já consagrados, decorreu por conta de António Fernández-Cid, crítico musical cuja carreira se desenvolveu fundamentalmente no jornal monárquico madrileno ABC. Para que o pudesse levar a cabo em Ponte Vedra, contou com a colaboração do intelectual galeguista José Filgueira Valverde, então Presidente da Câmara Municipal daquela cidade. Nas oito edições que teve o evento, interpretar-se-ia mais de um cento de peças de sessenta e cinco compositores diferentes.

Todas as partituras destinadas ao Festival têm uma dedicatória ao seu promotor, Antonio Fernández-Cid. Isto diz-nos do marcado carácter pessoal que informou a realização dos concertos, sempre introduzidos por uma palestra do próprio Fernández-Cid ou de qualquer outro intelectual galego convidado. Parece que a intenção de encomendar as canções a compositores não galegos tinha a finalidade de quebrar a grande influência que a música nacionalista do século XIX, tinha ainda nos compositores galaicos da segunda metade do século XX:

Pienso en Galicia. En tantos cantores de origen profundamente “enxebre” – los Adalid, Montes, Veiga, Soutullo – y recuerdo cómo, al conjuro de quien ahora firma y por impulsos de amistad generosa, más de setenta compositores de todos los orígenes y filiaciones pusieron su mirada en poesías galaicas para adornarlas con el nuevo ropaje de su inspiración y crear así un cancionero gallego de concierto muchas veces libre de influjos, personal de voz, discutible de autenticidad regional aunque bello per se, pero otras muchas de honda raigambre popular, ya porque se tomaron temas folklóricos, ya porque el instinto, estimulado por los versos, llevó a los autores a lograr obritas que, escuchadas en Galicia, se aceptaron inmediatamente con ilusionado cariño. Tal el caso de los Mariñeiros del turolense Antón García Abril, que supo dar en la diana del triunfo absoluto. Tal, por la conexión espiritual, que no por la letra, As froliñas d’os toxos, de Eduardo Toldrá, una de las más altas muestras de la sensibilidad del compositor catalán.

Portugal no Festival de la Canción Gallega de Ponte Vedra

Pelos dados dos que dispomos até o momento, tudo parece indicar que em fins de 1961 ou princípios do ano seguinte se começou a enviar convites com a intenção de que compositores portugueses participassem no festival pontevedrino. A 25 de Janeiro de 1962, o jornal El Pueblo publicava o seguinte:

Según ayer nos participaba el alcalde, señor Filgueira Valverde, aparte de las obras que resulten premiadas, habrá este año varios estrenos de partituras galegas, pues se sabe que un grupo de compositores españoles y portugueses están trabajando estos días en diversas composiciones sobre temas de poetas pontevedreses.

 

A esta chamada responderam, enviando obras, os composiores Ruy Coelho (1892-1986), Cláudio Carneyro (1895-1963), Frederico de Freitas (1902-1980), Victor Macedo Pinto (1917-1964), João de Freitas Branco (1922-1989), Joly Braga Santos (1924-1988) e Jorge Rosado Peixinho (1940-1995). À excepção das Dez Canções Galegas, que, como vimos, foram estreadas em 1966, o resto das obras tiveram as suas estreias em 1962 e 1963.

Às 23h00 de 11 de Julho de 1962, tinha início, no teatro Principal de Ponte Vedra, o III Festival de la Canción Gallega. Participam como conferencistas Fernández-Cid e Xosé María Álvarez Blázquez. A interpretação musical foi da soprano Teresa Tourné e da pianista Carmen Díaz Martín. Nessa noite estreia-se Soledade de Federico de Freitas, com texto de Emílio Álvarez Blázquez, depois incorporada nas Dez Canções Galegas.

Nas sessões decorridas nos restantes dias do Festival (12, 13 e 14 de Julho), foram estreadas as canções As idades da vida, de João de Freitas Branco (com texto de Gerardo Álvarez Limeses), Alalá de São João, de Joly Braga Santos (com texto de Juan Bautista Andrade, traduzido do original castelhano para galego por Gerardo Álvarez Limeses), e Estrela, de Jorge Rosado Peixinho (com texto de Emílio Álvarez Blázquez).

Nesta primeira relação de nomes da música portuguesa destaca-se o muito jovem Jorge Peixinho, de apenas 22 anos. Dos mais de sessenta compositores presentes nas oito edições, Peixinho é o segundo mais jovem, depois do valenciano José Evangelista (Valência, 1943).

Um ano depois, em 1963, serão escutados mais três compositores portugueses. A 10 de Julho, de novo no teatro Principal, com a participação das poetisas Maria Elvira Lacaci e Pura Vázquez, decorrem conferências-concerto, desta vez com a soprano Carmen Pérez Durias e a pianista Carmen Díaz Martín. As obras interpretadas são Campanas de Bastabales, de Cláudio Carneyro (sobre texto de Rosália de Castro), Nena, neninha, de Victor Macedo Pinto (sobre texto de Xosé María Álvarez Blázquez), e Pontevedra, de Ruy Coelho (sobre texto de Amado Carballo).

Dá-se a circunstância de que Cláudio Carneyro viria a morrer apenas três meses depois da apresentação pontevedresa de Campanas de Bastabales, que foi, portanto, uma das últimas audições realizadas antes do seu passamento.

[…]

De entre todos estes poetas galegos musicados, a única que continua com vida é María del Carmen Kruchenberg, a qual me confessou que nada lembra de como nem porquê um poema seu chegou a mãos do Frederico de Freitas, mas considera que deveu ser através do Filgueira Valverde.*

 

Frederico de Freitas e a Galiza

O estudo do espólio de Frederico de Freitas, preservado na Universidade de Aveiro, investigações de Helena Marinho e possíveis novas descobertas em arquivos galegos talvez deitem luz sobre os laços que uniam o mestre olisiponense à Galiza. Hoje, com os dados de que dispomos, limitamo-nos a aduzir hipóteses.

Sabe-se que Freitas foi pioneiro no uso do cancioneiro medieval galaico-português, como compositor, inspirando-se nos textos de poetas como D. Dinis ou Meogo, e como harmonizador das cantigas de Martim Codax ou de Santa Maria. Consideramos que este interesse tão prógono pela lírica galaico-portuguesa se relaciona com futuros acontecimentos que o ligam directamente à Galiza.

Um exemplo de interesse para a História da Música além e aquém do Minho é um concerto da Orquestra de Câmara da Emissora Nacional, em Agosto de 1939, sob a sua regência. Anos antes, em 1934, a Sociedad Coral Polifónica de Ponte Vedra passa por Portugal, com um repertório que incluía cantigas de Martim Codax e de Afonso X. Do agrupamento, dirigido por Antón Blanco Porto, fazia parte Antón Iglesias Vilarelle, músico amador e director do coro a partir de 1941. Vilarelle, além de compositor de canções para vozes mistas, fez também tentativas de composições para orquestra de câmara e grande orquestra. Uma destas tem por título Chucurruchú, nome de uma antiquíssima festa do Corpo de Deus em Ponte Vedra. Composta em 1938, logo a 9 de Agosto do ano seguinte a obra é estreada pela Orquestra de Câmara da Emissora Nacional. No dia anterior, um jornal pontevedrino, El Pueblo Gallego, anunciava:

La ejecutará la Orquesta de Cámara de la Emisora Nacional Portugusa que dirige el eximio director, gloria de la música portuguesa, Federico (sic) de Freitas Branco (sic). El mundo entero oirá mañana nuestro Chucurruchú.

Observamos que o cronista funde num só os nomes dos dois maestros da Orquestra da Emissora Nacional, Frederico de Freitas e Pedro de Freitas Branco, mas tudo faz pensar que tenha sido o primeiro a dirigir Chucurruchú. Uma cópia desta partitura e das correspondentes partes cavas está guardada nos arquivos da RTP, documento de que pude obter cópias. Da leitura depreende-se que se trata de obra menor, feita por um indivíduo com certa sensibilidade, mas sem a formação nem o ofício necessário para a orquestração dos bonitos motivos tradicionais que recolheu. Qual é a razão de que uma obra de escassa qualidade composta por um músico amador galego seja estreada nada menos que pela Orquestra de Câmara da Emissora Nacional, a poucos dias de finda a Guerra Civil espanhola? Poderia deitar numerosas hipóteses, mas, por enquanto, não dou por terminada a minha investigação em curso e prefiro guardar silêncio.

Apenas para completar as informações de que dispomos referentes à relação de Frederico de Freitas com Ponte Vedra, acrescento que no Museu desta cidade, cujo director foi Filgueira Valverde, conserva-se uma brochura dum concerto da Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, dirigido na altura por Frederico de Freitas e datado em 25 de Março de 1953. Também encontramos uma separata da revista Língua e Cultura, t. III, de Setembro-Dezembro de 1973, monográfico sobre o Fado. Este exemplar contém uma dedicatória autógrafa do maestro de Freitas que diz: “Ao Exmo. Senhor D. José Filgueira Valverde, eminente escritor e historiador, homenagem de Frederico de Freitas. Lisboa. Março 1974”.

Quero lembrar também que entre o acervo documental do Museu existiu um documento, hoje desaparecido, que obedecia à seguinte descrição: «Transcrição a notação moderna de cantigas medievais galego-portuguesas feita por Federico [sic] de Freitas».

 

João de Freitas Branco e Jorge Rosado Peixinho

Segundo consta no catálogo do Centro de Investigação da Música Portuguesa, Jorge Peixinho compôs a canção Estrela a pedido de João de Freitas Branco. Eu não pude confirmar este dado, mas, a ser correcto, seria o único caso que sabemos certo de quem lhe tivesse pedido uma colaboração no Festival. Para mim, seria de grande interesse conhecer a dinâmica de redes que levou sete compositores portugueses a dedicar uma canção a Antonio Fernández-Cid, uma pessoa que a maioria seguramente não conhecia, pelo que se deduz que as razões arguidas pelos peticionários deviam ser bem convincentes.

Peixinho tinha, em 1962, 22 anos, pelo que quiçá Estrela fosse uma das suas primeiras encomendas com execução pública. O próprio João de Freitas Branco vai participar no Festival com a obra titulada As idades da vida, com texto do poeta Gerardo Álvarez Limeses. Conhecem-se pouquíssimas obras deste grande matemático e musicólogo, e muito menos que fossem estreadas num evento além das fronteiras portuguesas. Quanto mais penso neste caso, mais certo estou de que João de Freitas Branco teve de ter poderosíssimas razões para enviar uma partitura aos galegos e mesmo de ser certo o dito sobre Peixinho, de terem feito apologia do Festival entre os seus colegas.

Incipit d’As idades da vida de João de Freitas Branco

 

Conclusões

A questão última seria, então, o motivo da presença de compositores portugueses no festival de Ponte Vedra. É possível que nunca o saibamos, após a morte de Fernández-Cid e Filgueira Valverde, ou apenas a partir de documentos ainda não exumados. Em nossa opinião, existirá uma confluência de interesses. Para o galeguismo histórico, a Galiza e Portugal são uma só realidade cultural, nada português sendo alheio aos galegos. O relacionamento da intelectualidade de ambos os países nos anos anteriores à Guerra Civil é crescente, estando os membros da Geração Nós e do Seminário de Estudos Galegos sempre prontos a construir pontes sobre o Minho. Nesta linha estão Filgueira Valverde ou Iglesias Vilarelle, galeguistas adaptados ao novo status quo após a vitória de Franco.

Fernández-Cid está nos antípodas do galeguismo histórico, mesmo que fosse, como Filgueira e Vilarelle, de corte conservador. Era um monárquico adepto do regime, triunfador da Guerra Civil. Para Franco, como bem sabia Salazar, Portugal era uma anomalia histórica, território que antes ou depois seria incorporado no Estado Espanhol. A presença dos portugueses no Festival constitui, assim, um lugar-comum na ideologia dos seus dois promotores, se bem que ali tenham chegado por caminhos diversos.

Afigura-se descoroçoante que, em 2015, saibamos tão pouco sobre o Festival de la Canción Gallega, tão importante na história contemporânea da Música na Galiza, e que em Portugal se ignore que compositores seus tenham sido convidados. Por fortuna, ultimamente há um crescente interesse por estes pormenores.  Em 2012, Helena Marinho e Isabel Alcobia gravaram Do Fado à canção erudita, disco em que se incluíam canções apresentadas por Frederico de Freitas ao Festival. Actualmente, Helena Marinho encontra-se a preparar a edição das 10 Canções Galegas sobre poetas contemporâneos. Passo a passo, o caminho se faz.

Para informações adicionais sobre a presença dos compositores portugueses no Festival de la Canción Gallega, remetemos para o número monográfico sobre o mesmo aspecto publicado em Abril de 2013 pela revista digital Opúsculos das Artes V.2.

 


Referências

* Alguns meses após o envio do original deste artigo à revista Glosas, aconteceu na cidade de Vigo o passamento de María do Carmo Kruckemberg, a 16 de Maio de 2015, aos 88 anos de idade.

Antonio Fernández-Cid, “España en el paisaje universal del nacionalismo”, Revista del Folklore I.8 (1981), pp. 22-26.

2 Frederico de Freitas: Do Fado à canção erudita. Obras para voz e piano, Numérica, 2012 (NUM 1246).

 

Artigo publicado na íntegra na Glosas 13 (2015).

Sobre o autor

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Professor, músico e escritor, José Luís do Pico Orjais nasceu em Ogrobe em 1969. A par de uma extensa discografia dedicada à Galiza e que reflecte a sua investigação, publicou "Cantos e bailes da Galiza de José Inzenga" (Ourense, Difusora das letras, 2005), "Ayes de mi País. O cancioneiro de Marcial Valladares" 2010 (Baiona, Dos acordes, 2010), em parceria com Isabel Rei Sanmartim, "Cantos Lusófonos. Cancioneiro Popular" (Barcelona, Edições da Galiza; Barcelona, 2011) e "A música de seis poemas universais de Ernesto Guerra da Cal" (Baiona, Dos acordes, 2012), em parceria com Isabel Rei Sanmartim e Joám Trilho.