Geografias : Rússia

João Bruno Soeiro

de A a Z

Áurea | A minha mãe foi, desde tenra idade, não só o âmago da minha educação, mas também uma grande amiga e um exemplo avassalador de força, honestidade e respeito. Tenho-lhe o maior dos orgulhos e a maior das gratidões por tudo o que fez, por mim e por muitos outros.

Berklee | Esta lendária escola foi, para mim, tanto um sonho que se realizou (quase que por acaso), como um meio único para desenvolver todo o meu potencial, com as melhores condições imagináveis e rodeado de um grupo de pessoas extraordinárias, com as quais criei relações para a vida. Um enorme privilégio!

Carrapatoso | O Professor Eurico tem um lugar especial no meu coração. Que personalidade contangiante, que amor pela música (e pelas artes) e que erudição inspiradora! Já para não falar do apoio fulcral que me deu, em várias fases do meu percurso, e, claro está, da música linda, tão linda com que ele agracia este mundo.

Descanso | Continua a ser algo subvalorizado para se atingir produtividade máxima e para se viver uma vida digna e feliz. Se o trabalho árduo é absolutamente fundamental, o descanso não o é menos. A questão reside, pura e simplesmente, em “como descansar”, uma vez que também há formas mais e menos produtivas de fazê-lo. Mas, que é algo que deve ser feito com frequência, disso não duvido.

Exercício | Apesar de existir uma grande moda de ginásios e de “treinos” e workouts, hoje em dia, a verdade é que também a ideia de “mente sã em corpo são” continua a ser altamente desvalorizada. Porque, o que continua a transmitir-se em demasia, é a ideia que a pessoa deve exercitar-se para ter um six-pack espectacular, ao invés da ideia de que deve simplesmente ser algo que faça parte natural da rotina de cada um, para se viver uma vida melhor.

Família | As pessoas que me são mais próximas, sejam família formal ou amigos chegados, são o meu “tudo”. Tenho a felicidade de ter uma base emocional muito ampla, devido ao apoio extraordinário dos meus familiares e do meu núcleo de amigos, a maioria dos quais conheci ainda nos tempos da escola, e que considero verdadeiramente como meus irmãos.

Gnessin/Gambarian Foi na Academia Gnessin que começou a realizar-se o meu sonho de tornar-me músico profissional ao mais alto nível, e foi lá que passei infinitas horas ao piano e na companhia da minha professora, Maria Gambarian. Quando conheces, pela primeira vez, uma pessoa que estudou com Igumnov e Neuhaus, que conheceu Prokofiev e travava amizade com Shostakovich e Khachaturian, os teus joelhos tremem… mas quando ela te olha com o olhar mais genuíno do mundo e te diz que acredita em ti, o teu mundo vira-se do avesso e, de repente, tudo é possível!

Hip-hop | Sempre me aparvalhou que as pessoas dissessem “música hip-hop”, quando hip-hop não é um estilo de música (nem de dança), mas uma cultura da qual emergiu a música rap. E foi, precisamente, esse o primeiro estilo de música ao qual eu, surpreendentemente, dei atenção, ainda bem miúdo. Muitos e bons anos ouvi religiosamente José Mariño e o seu inesquecível Repto, na Antena 3.

Inês | Costumo dizer às pessoas que, se não fosse a minha irmã, é bem possível que eu nunca me tivesse tornado músico. Foi ela que me introduziu à música e me mostrou muitos dos músicos e artistas que iriam influenciar-me e definir o meu caminho.

Jordan | Como fanático de basquetebol e pessoa que cresceu nos anos 90, Michael Jordan foi o grande ídolo que, mais tarde, no meu percurso musical, me relembrou permanentemente de que só com uma persistência obsessiva e uma cultura de trabalho de ferro conseguimos ultrapassar-nos e atingir os mais altos objectivos. E, ainda hoje, ele continua presente, lembrando-me sempre de que “os limites, como os medos, são, muitas vezes, só uma ilusão”.

João Bruno Soeiro numa sessão de gravação

Lotkev | Tenho colaborado, nos últimos anos, com o Ensemble Loktev de Peças e Danças, o mais importante agrupamento infantil/juvenil de música e dança na Rússia, fazendo arranjos para o seu variadíssimo repertório. Uma experiência mágica, que espero poder continuar a desenvolver, e que me permita, eventualmente começar a escrever música original a ser estreada por eles. Ao mesmo tempo penso: para quando uma experiência semelhante em Portugal? Seria maravilhoso!

Maria | Não há nome mais influente na minha vida. Vários membros da minha família o têm. Mas a mais importante Maria na minha vida é a minha querida mulher, que é, pura e simplesmente, “a miúda dos meus sonhos”.

Neca Arrisco dizer que o meu avô foi, muito provavelmente, a figura mais preponderante de toda a minha juventude. A sua influência no meu crescimento e na minha formação foram gigantes. As infinitas conversas que tivemos (sobre tudo) são, até hoje, marcos profundíssimos nos meus valores e na minha maneira de ver o mundo.

Ouvir | Sempre gostei mais de ouvir do que fazer qualquer outra coisa. Quer fosse ouvir música, a natureza ou um amigo. Penso que o mundo, hoje em dia, carece gravemente de quem ouça. E talvez seja por isso que as redes sociais se tornaram no que há de mais popular na nossa era: todos querem ser ouvidos. Mas o problema é que, lá, ninguém ouve ninguém verdadeiramente… Uma cacofonia aterradora…

Piano | Foi com ele que tudo começou e com ele que tudo continua, para mim. E tudo por culpa de Thom Yorke. Será que é com ele que tudo acabará?

Queen | Apesar de os ouvir desde que nasci (obrigado Inês!), continuo a dar por mim estupefacto com a obra feita por estes rapazes. Desde a inconfundível voz e as letras definitivas de Freddie Mercury aos solos de Brian May, passando pela beleza da composição, da subtileza e força dos arranjos e das misturas… Que oferenda!..

João Bruno Soeiro

Rússia | Este é um tema que dava para um livro…! A Rússia tornou-se na minha segunda casa e tenho com ela uma predilecta relação de amor-ódio. Pungente, bem ao estilo de Dostoyevsky. Mas orgulho-me muitíssimo do meu percurso aqui e estou-lhe infinitamente grato por tudo o que ela me deu.

Séries | Tornaram-se numa poderosíssima força do meio audiovisual, de tal forma que até os principais festivais de cinema estão agora a criar iniciativas dedicadas a elas. Eu estive quase, quase a escrever música para uma série em Portugal, no ano passado, de maneira que espero que, muito em breve, surja uma nova oportunidade!

Teresa | A Professora Teresa Menéres foi não só a minha primeira professora de piano, mas também uma grande educadora musical, a todos os níveis. As incontáveis horas passadas com ela, não só ao piano, mas a ouvir gravações, concertos e concursos, foram fulcrais no meu crescimento musical intensivo e na formação de uma cultura musical verdadeiramente refinada e completa.

Ultramar Talvez por o meu pai ter sido Oficial da nossa Marinha que eu sempre tenha ficado com o bichinho de explorar permanentemente o mundo, contactar com novas gentes, ver novas terras, e claro está, ouvir os sons de todos os povos.

Vera | Esta palavra é, em russo, não só um nome próprio, mas o substantivo “crença”. E foi isso que a Professora Vera Belozorovich me deu: acreditar em mim próprio, nos meus ouvidos e na minha personalidade artística. Com ela, tornei-me num músico com luz própria, livre e repleto de cores e texturas na minha busca pianística e musical.

XÉ curioso, porque, quando olho para esta letra, não penso à primeira no nosso “xis”, mas na sua correspondente no alfabeto cirílico, que se lê sensivelmente como um “j” espanhol. E o mais engraçado é que, com esta letra começam algumas das palavras mais horríveis, mais básicas e mais estruturais da língua russa.

Zeza | A minha avó materna é o maior exemplo de amor, bondade e pureza. Uma fonte de paz eterna que está sempre comigo.


João Bruno Soeiro

João Bruno Soeiro nasceu em Lisboa em 1983. Começou a estudar música somente aos 19 anos na Academia de Amadores de Música, com Teresa Menéres e Vera Belozorovich (Piano), Eurico Carrapatoso (Composição) e Fernando Flores (Música de Câmara).

Em 2009 é aceite na Academia Gnessin, em Moscovo, onde conclui o Curso Superior de Piano na classe da Professora Maria Gambarian, em 2013. Nesse mesmo ano recebe uma bolsa de estudos para ingressar no mestrado em Composição de Música para Cinema, TV e Videojogos, na Berklee College of Music, que conclui com distinção no ano seguinte.

Desde aí que se tem dedicado maioritariamente a essa actividade, dividindo também o seu tempo na colaboração, como engenheiro de som e produtor, com o CineLab SoundMix, o maior e mais importante estúdio privado de pós-produção áudio na Rússia.

Recentemente lançou o seu primeiro álbum, “Vizinhos”, sob o heterónimo B.U.B.A, através do mpmp: a banda-sonora do documentário com o mesmo nome, realizado por Cândida Pinto para a Bienal de Veneza de 2016, sobre a arquitectura social de Siza Vieira.

Sobre o autor

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Luzia Rocha possui os graus de Licenciatura, Mestrado e Doutoramento em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa. É investigadora no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. É membro do ‘Study Group on Musical Iconography’ e do ‘Study Group for Latin America and the Caribbean’ (ARLAC-IMS), ambos da International Musicological Society. É colaboradora na Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e no Grupo de Iconografia Musical da Universidad Complutense de Madrid/AEDOM. Trabalhou como docente na Academia de Amadores de Música, Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC), Instituto Piaget (ISEIT de Almada, também como Coordenadora da Licenciatura em Música) e na Academia Nacional Superior de Orquestra e colabora actualmente como docente na Licenciatura em Jazz e Música Moderna da Universidade Lusíada. Tem participado como oradora, por convite, em conferências nacionais e internacionais e publicado artigos em periódicos com arbitragem científica. É autora do livro "Ópera e Caricatura: O Teatro de S. Carlos na obra de Rafael Bordalo Pinheiro".