Prelúdio

Joly Braga Santos foi um dos casos mais inequívocos de precocidade, originalidade e instinto musical de que há memória na música portuguesa. Podemos pensar que os restantes três compositores mais significativos da primeira metade do século XX português – Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes-Graça e Frederico de Freitas – revelaram proezas de precocidade musical desde muito cedo, porém, exceptuando talvez Freitas Branco com o poema sinfónico Vathek, nenhum dos outros conseguiu com tamanha facilidade criar obras tão monumentais e complexas como as primeiras quatro sinfonias que Joly Braga Santos escreveu entre os 22 e os 26 anos, para já não mencionar as muitas outras obras significativas compostas durante esse período fértil, como as primeiras duas Aberturas Sinfónicas (1946 e 1947), o 1.º Quarteto de Cordas (1945), a cantata A Conquista de Lisboa (1947), ou a Elegia a Vianna da Motta (1948). Ainda antes de completar 30 anos, uma idade na qual muitos outros compositores começam tão só a descobrir o seu estilo de maturidade, Joly Braga Santos terá ainda tempo para escrever duas das suas obras mais populares e conseguidas, as Variações sobre um Tema Alentejano e o Concerto em Ré para Cordas (ambas de 1951), a primeira ópera, Viver ou Morrer (1952), e ainda a derradeira das Aberturas Sinfónicas, a nº3 (1954). Ou seja, cerca de trinta obras nos primeiros dez anos de carreira (o opus 1 data dos seus 18 anos), muitas das quais orquestrais, e escritas nos mais diversos géneros, da sinfonia à ópera, das variações e do bailado ao concerto e à abertura sinfónica, da música de câmara aos ciclos vocais e à música de cena e de cinema. 

Se insisti tanto nestas primeiras linhas na precocidade, abundância e variedade do catálogo de Joly Braga Santos, foi porque estas características se revelam na sua música, que é de uma generosidade ímpar na nossa história. Antes da década de 60, que trará a Joly, tal como a Lopes-Graça, dúvidas existenciais relacionadas com as novidades das vanguardas de Darmstadt, a música do compositor não mostra sinais nem de dúvidas nem de grandes hesitações estéticas. Ela é apenas aquilo que tem de ser: genuína, directa e verdadeira. Como uma árvore dá frutos, Joly escreve sinfonias e concertos uns atrás dos outros, sempre inspirado, e revela nessas obras um talento melódico extraordinário, que atingirá o seu pico no hino final da 4.ª Sinfonia, um dos finais mais belos e empolgantes de toda a música ocidental (pesei bem a hipérbole), um final que só não é pertença de toda a humanidade porque, e aqui tocamos no ponto sensível de todos os compositores portugueses, a nossa música nunca logrou internacionalizar-se. O fascismo, por um lado, que isolou o país, a própria posição periférica de Portugal, por outro, e ainda um atávico e incompreensível menosprezo por tudo aquilo que é nacional, aliado a um snobismo entusiástico por tudo o que vem de fora – seja mau seja bom –, impediram que Joly Braga Santos atingisse o lugar que é o seu na música europeia do século XX, um lugar que poderia perfeitamente disputar com Walton, Vaughan Williams ou Sibelius, para citar apenas três dos nomes com os quais a sua música mostra parentescos estilísticos.

O caricato desta situação revela-se-nos no apreço que nos últimos anos a crítica inglesa e norte-americana tem mostrado para com as edições discográficas que têm dado a conhecer, em versões muito mais favoráveis dos que as versões da PortugalSom (imprescindíveis, ainda assim, durante quase 30 anos, para o conhecimento básico, mesmo que imperfeito, do compositor), – um apreço que destoa completamente da atenção oficial e das programações portuguesas, nomeadamente no que toca à música sinfónica e à ópera. Tal como todos os restantes compositores portugueses, a música de Joly Braga Santos nunca foi publicada, circulando em cópias manuscritas feitas quer a partir dos originais do compositor quer dos materiais dos copistas que realizaram os materiais orquestrais. A própria legibilidade de cópias feitas a partir de outras cópias, de fotocópias gastas e rasuradas por ensaios e outras provações chegou a um ponto tal que, muito recentemente, os músicos da Orquestra Gulbenkian quase se recusaram a tocar a 4.ª Sinfonia por causa da má qualidade dos materiais.

Junto do público e dos intérpretes, Joly Braga Santos foi sempre, no entanto, o compositor português mais acarinhado e tocado, se exceptuarmos o Lopes-Graça das obras corais a cappella, como as Regionais, e das obras para piano, o que também não admira, não só devido à qualidade intrínseca dessas obras, mas também à quantidade de pianistas e formações corais portuguesas, e ainda ao facto de Joly Braga Santos pouco ou nada ter contribuído para qualquer um desses géneros. O melhor de Joly Braga Santos está na música orquestral, e essa ainda é pouco tocada em Portugal, se exceptuarmos obras menores, como o Nocturno, ou na música para orquestra de cordas, como o Concerto em Ré, esse sim, bastante interpretado. Somente nos últimos anos novas versões discográficas das obras orquestrais (levadas a cabo sobretudo por Álvaro Cassuto) e uma nova geração de maestros (entre os quais Pedro Neves, Cesário Costa, Luís Carvalho e Joana Carneiro, entre outros) têm vindo aos poucos a dar nova vida a estas obras. Está também no seu começo a publicação em partitura das obras mais significativas, em versões revistas e de boa qualidade gráfica, o que irá possibilitar nos anos vindouros um aumento da procura junto da comunidade musical internacional, uma iniciativa da editora AvA – Edições Musicais (até agora sem apoio algum do Estado), em conjunto com os herdeiros do compositor. Assim, dentro de pouco tempo, teremos à disposição em CDs de boa qualidade interpretativa e em excelentes gravações de etiquetas internacionais (Marco Polo, Naxos, Dux, etc.), bem como em partitura, praticamente todas as obras relevantes de Joly Braga Santos, à excepção da ópera e das obras corais-sinfónicas, um domínio onde ainda há muito por fazer, e que conta com três óperas (Viver ou Morrer, Mérope, Trilogia das Barcas), várias cantatas e ainda um Requiem (1964).

As novas tecnologias (de software musical, nomeadamente) e melhores e mais baratas oportunidades de gravar CDs em boas condições técnicas e com boas orquestras, condições que Joly (e os restantes compositores portugueses) não podia desejar ter na altura, foram fundamentais para esta mudança de paradigma, que abrange também muitos outros compositores de todas as épocas, e que me levam a pensar que, mesmo nestes tempos difíceis, a composição em Portugal, passada e actual, vive um momento de ouro, um momento que nunca viveu antes.

Não obstante todas as dificuldades da vida musical portuguesa da época, Joly Braga Santos conseguiu, ainda assim, oportunidades únicas para trabalhar, vivendo quase sempre em exclusivo da composição graças às bandas sonoras para filmes e ao emprego na Emissora Nacional (devido em parte a Pedro do Prado) que consistia basicamente em compor obras orquestrais, oportunidade que, por razões óbvias, nunca foi concedida a Fernando Lopes-Graça (e que colocou por vezes Joly Braga Santos em situações embaraçosas, quando foi literalmente forçado a escrever a 5.ª Sinfonia – sob risco de perder o emprego, o único que tinha – para as comemorações do 40º aniversário da Revolução fascista de 28 de Maio de 1926 1). Isto possibilitou uma regularidade e um esforço direccionado para a música orquestral – género sempre pouco requisitado – que teria sido praticamente impossível não fora essa oportunidade que alijou o compositor de tempo perdido para aulas ou para outras ocupações nobres, mas não criativas, e que só o iriam afastar da sua mesa de trabalho.

Fuga 

Em geral, divide-se a sua vida criadora em, pelo menos, duas fases: a primeira fase, mais lírica, mais modal e mais tradicional em termos de formas e géneros, culminaria na 4.ª Sinfonia, escrita em 1950 (a seguinte viria somente quinze anos depois), mas prosseguiria pelos anos 50. O começo da década de 60, com obras mais densas, mais cromáticas e menos melódicas (no sentido tradicional), obras como a ópera Mérope (1958) ou o Concerto para Viola e Orquestra (1960), representaria uma fase direccionada para a apreensão das novidades técnicas das vanguardas, nomeadamente o uso de cromatismo extenso, clusters, efeitos orquestrais específicos (glissandi, técnicas expandidas, etc.), resultando num compromisso nem sempre feliz entre a natureza lírica e expansiva do compositor e a secura e agressividade de muita da música inspirada pelos gurus de Darmstadt, como Nono, Boulez e Stockhausen. 

Se partilho superficialmente desta divisão básica, reconhecendo que existe claramente a partir dos anos 60 uma progressiva inflexão no sentido da exploração e expansão da harmonia e do cromatismo, a qual quase nunca afasta por completo a tendência para o lirismo melódico, já não concordo com a ideia de uma divisão estanque entre as duas “fases”. Pelo contrário, neste particular estou inteiramente do lado de Alexandre Delgado – aluno dilecto de Joly Braga Santos – que nos diz o seguinte: A obra mais importante que Joly Braga Santos escreveu a seguir à 5.ª Sinfonia foi a ópera Trilogia das Barcas, baseada em Gil Vicente e estreada em 1970. Essas duas criações radicalmente diferentes, escritas tão próximo uma da outra, mostram como é inexacta a divisão estanque da produção de Joly em duas fases, uma primeira modal e uma segunda de livre cromatismo. A versão operática dos autos vicentinos, escrita em plena fase «atonal», é de um modalismo radioso, retoma o diatonismo das quatro primeiras sinfonias de uma forma que nada tem que ver com a vanguardista explosão cromática da 5.ª Sinfonia.”2 

Muitas outras obras de carácter díspar poderão ser cotejadas nestas duas décadas, de 60 e 70, pares que provam, se tal fosse necessário, que Joly Braga Santos não só nunca abandonou a sua primeira e verdadeira natureza, como fez coexistir obras mais experimentais com outras de índole contrária, tais como os pares Divertimento n.º1 / Concerto para Viola e Orquestra (1960) ou Encruzilhada / Variações Concertantes (1967). A 6.ª Sinfonia (1971), a última de todas, mostra também, tal como já o Concerto para Viola e Orquestra, que dentro da mesma peça são possíveis momentos cromáticos e momentos diatónicos, sem que o aparente conflito entre ambas as técnicas não possa, nas mãos de um mestre como Joly, resultar numa riqueza estética eivada daquela ambiguidade e tensão que toda a grande arte não pode deixar de conter para almejar ao universal, porque nada é simples neste mundo. 

Para o grande público e para os intérpretes, não restam dúvidas, porém, que é para a primeira fase, a das primeiras quatro sinfonias, do Concerto em Ré e das Variações sobre um Tema Alentejano que vai a preferência. Neste aspecto, a obra de Joly sofre o mesmo destino que as obras mais radicais dos grandes compositores do século XX, como Bartók, Britten ou Stravinsky, de quem o grande público continua a preferir o Concerto para Orquestra à Música para Cordas, Peter Grimes a Morte em Veneza, O Pássaro de Fogo à Sinfonia de Salmos. 

As primeiras obras de Joly caracterizam-se, pois, por um modalismo muito português, que o jovem compositor herda não só do seu mestre Luís de Freitas Branco (nomeadamente de obras como a 2.ª Sinfonia, ou as Suites Alentejanas), mas também da tradição gregoriana, do folclore alentejano, da nossa música medieval e renascentista, e ainda de compositores como Sibelius (6.ª Sinfonia), e dos ingleses Ralph Vaughan Williams, William Walton e Frederic Delius, dos quais herdará também a sua tendência inicial para a monumentalidade expansiva (as primeiras quatro sinfonias possuem uma duração média de quase cinquenta minutos, o que à época, e só por si, já se tornara pouco habitual). As formas e géneros são também os tradicionais: forma-sonata, rondó, ABA, variações, abertura, fuga, sinfonia, quarteto de cordas…

Do ponto de vista da orquestração, sempre eficaz, embora numa linha menos brilhante e pormenorizada do que a de Stravinsky ou Ravel, Joly Braga Santos revela-se um manipulador original de timbres, um sinfonista e orquestrador nato, cuja expressão mais natural é claramente a grande orquestra sinfónica e a expansividade que esta permite. A escrita para os metais é particularmente arrojada (ouçam-se por exemplo as Variações sobre um Tema Alentejano e o andamento final da 4.ª Sinfonia), enquanto que as cordas têm em Joly alguém que as compreende e sabe como as misturar e fazer sobressair, como demonstram duas das obras mais belas que lhes dedicou, o Concerto em Ré e a Sinfonietta.

Do ponto de vista do lirismo, Joly Braga Santos é também um melodista nato, possuidor de um estilo muito próprio, caracterizado pelo uso de um grupetto de appoggiature, normalmente descendentes, no início das frases, ou perto do fim destas. O uso de ostinati e de harmonias por quartas e quintas, recusando sempre a banalidade tonal dos acordes de sétima e da sensível, e o modalismo arcaizante concluem este apanhado de características estilísticas, às quais se poderá ainda juntar uma facilidade para o contraponto que, sem sufocar nem “academizar” demasiado as primeiras obras, lhes aumenta o travo neo-renascentista, como é o caso do final da 3.ª Sinfonia, com as suas duas fugas, ou o último andamento do Concerto em Ré, para só mencionar estas duas obras. A fuga, uma técnica e uma textura tornadas obsoletas pelas vanguardas, mas que tinham tido uma ressurreição espantosa entre os anos 20 e 40 devido ao neoclassicismo então adoptado por muitos grandes compositores (basta lembrar as fugas da Música para Cordas, Percussão e Celesta de Bartók, ou da Sinfonia de Salmos de Stravinsky), caía agora, anos 50, no mais completo desprezo, incompatível como era com as novas preocupações técnicas e estéticas de Boulez ou Stockhausen. Não obstante, Joly consegue o milagre de, nas palavras de Alexandre Delgado (uma referência incontornável no que a este compositor concerne), tornar “fresco” um tipo de composição já tão esgotado: Neste último andamento 1, Joly escreveu uma dupla fuga com uma frescura que já não se julgaria possível nos anos 40 do século XX. A 6.ª Sinfonia de Sibelius (1923), com os seus arcaísmos e subtilezas renascentistas, é uma das influências prováveis. Mas a influência do Alentejo, onde esta obra foi escrita, é também evidente e produz uma simbiose invulgar.”3

Não obstante Delgado considerar a 3.ª Sinfonia (1949) “a mais perfeita e equilibrada das sinfonias «modais» de Joly Braga Santos”, e talvez no aspecto técnico assim seja, considero que é na 4.ª Sinfonia que coexistem todas as qualidades do seu autor a um nível até aí nunca atingido (excepto talvez no final da 3.ª Sinfonia, final apoteótico que a nova obra leva ainda mais longe). Não é por acaso, como dissemos, que entre a 4.ª Sinfonia e a seguinte tenham passado quase 16 anos sem novas obras neste género tão caro ao compositor, nem que a estreia da “Quarta” tenha sido feita pelo próprio Joly Braga Santos, à frente da Orquestra Sinfónica Nacional, enquanto que o resto do programa foi dirigido por Pedro de Freitas Branco. A 4.ª Sinfonia foi ainda composta e estreada praticamente ao mesmo tempo que as duas obras mais populares do compositor e mais frequentemente executadas, o Concerto em Ré (1951) e as Variações sobre um Tema Alentejano (1951), e apenas um ano e meio antes da primeira ópera, Viver ou Morrer. Estes dois ou três anos, entre 1949 e 1951-52 são, pois, anos de ouro numa carreira que já produzira um número significativo de obras de grande relevo, e estabelecem definitivamente o estilo de Joly Braga Santos e a sua proeminência entre os compositores do século XX português.

O hino final da 4.ª Sinfonia, mais tarde adaptado a final coral (sobre um poema medíocre de Vasconcelos Sobral, verdade seja dita 4), coroa e fecha esta fase gloriosa, da juventude de Joly. 

Não obstante o interesse pelo Alentejo, pela tradição renascentista e pelo gregoriano, Joly Braga Santos raras vezes recorreu ao folclore autêntico. A sua criatividade melódica não necessitava de ajudas externas, e nesse campo ombreia com Prokofiev, que preferia usar a sua inesgotável veia melódica a empregar temas de outrem, mesmo que esse outrem fosse o tão apreciado corpo anónimo das melodias tradicionais russas. Prokofiev, não obstante a sua relutância, não evitou por completo o uso de melodias oriundas do folclore, mas em geral fê-lo por pressão dos tempos (i.e. o Realismo Socialista então vigente na URSS) ou por encomenda (como na Abertura sobre Temas Judeus). Obras como o 2.º Quarteto de Cordas ou o bailado The Stone Flower são disso bons exemplos.

No entanto, algumas obras de Braga Santos, até por essa razão, são significativas, nomeadamente o belíssimo Divertimento n.º1 (1960), para pequena orquestra, uma das obras mais felizes do compositor, que usa quatro melodias tradicionais e as combina num trabalho polifónico original e extremamente eficaz, em mais um daqueles momentos que provam, se necessário fosse, a consumada mestria contrapontística do seu autor (ver página seguinte). Contemporâneo deste Divertimento, composto no mesmo ano, 1960, e uma das melhores obras que se podem incluir entre aquelas que revelam o interesse crescente de Joly pelo cromatismo expandido, é o Concerto para Viola. De entre os três concertos escritos pelo compositor para instrumentos solistas (piano, viola, violoncelo), este é claramente o mais conseguido, e um dos mais notáveis (e não temo, novamente, a só aparente hipérbole) de todo o século XX. O piano nunca foi o instrumento favorito de Joly Braga Santos, que sempre se exprimiu melhor, como afirmámos, no meio orquestral, e o Concerto para Piano (1973) sofre desse desinteresse e de um pianismo pouco adequado. Já o Concerto para Violoncelo, uma das últimas obras do compositor (1987), a cuja estreia tive a oportunidade de assistir, na Fundação Calouste Gulbenkian, sofre um pouco dos problemas inerentes a este instrumento (o equilíbrio solista/orquestra), mas mais ainda de uma atmosfera sombria e de um melodismo menos inspirado do que o costume, um melodismo que “quebra” mal se inicia, só revelando os seus encantos depois de audições repetidas (em particular os primeiros dois andamentos, menos líricos que o terceiro), e que dificilmente conquistará a afeição do público musicalmente menos informado. É, pois, uma obra que funciona melhor em disco do que ao vivo, graças à possibilidade de a gravação equilibrar eficazmente o solista com a orquestra, embora não seja, de todo, uma obra negligenciável 5. Não obstante, e ao contrário do Concerto para Viola, dificilmente o Concerto para Violoncelo poderá ombrear com as melhores obras deste género e deste período, nomeadamente com o 2.º Concerto de Shostakovich, ou mesmo, numa linha mais neoclássica e folclorista, com o fácil Concierto como un Divertimento (1981), de Joaquín Rodrigo, a cuja estreia portuguesa também tive a sorte de assistir algum tempo antes da estreia do concerto de Joly Braga Santos.

Mas voltemos ao Concerto para Viola, o ponto alto da música concertante de Joly Braga Santos, e uma obra de charneira, que marca a passagem entre a década de 50 e os anos 60 e 70. Dedicada ao ilustre violetista François Broos, que a estreará no TNSC (com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional dirigida pelo autor), o Concerto para Viola terá em Anabela Chaves a sua intérprete de eleição, sendo a interpretação da violetista a única existente no mercado (em gravação de 1981). O Concerto para Viola equilibra, a meu ver, as tendências modais e cromáticas de Joly Braga Santos, num todo coerente e muito atraente, pese embora o tom grave que, de qualquer modo, costuma ser o atribuído ao mais melancólico dos instrumentos.

O início da obra, um tema orquestral que sugere um modalismo gregoriano cromaticamente expandido, muito característico do autor nesta fase, é rapidamente desenvolvido, antes da entrada da viola (que, por uma vez, mostra alguns ecos de outro compositor específico, neste caso Hindemith, o que não é de admirar) em direcção a uma pequena explosão cromática, após o que a viola pacifica as hostes e faz a música regressar a uma ambiência modalizante, também ela arrastada aos poucos para harmonias mais densas e cromáticas. Para além de Hindemith, ecos de Shostakovich e Holst podem ser descobertos, se para aí estivermos virados, mas trata-se apenas disso, de meros ecos, que em nada prejudicam a extraordinária originalidade de Joly Braga Santos.

Tudo isso é, no entanto, feito com mestria, nunca tendo nós, auditores, a impressão de incoerência ou de falta de controlo do resultado. A secção central, rápida, do 1.º andamento, é dominada por uma ideia quase popular, com laivos de música renascentista de dança, uma característica do autor desde as primeiras obras, aqui levada a um ponto de sofisticação e integração ímpar, e que voltará a repetir-se mais tarde nessa secção, numa reprise que conduzirá ao fim deste massivo andamento, tão longo como o terceiro (dez minutos) e que rodeia um frágil scherzo (marcado Allegro energico) com metade desse tempo. Este andamento central, embora escrito em 1960, é mais um daqueles momentos que, tal como afirmamos atrás, podia perfeitamente pertencer à fase mais modal do compositor, só aqui e ali procurando uma maior dureza, mormente nas poucas interrupções da orquestra, rapidamente desmentidas pela viola, que impõe a sua ancestralidade modal/renascentista e a alegria da dança.

O terceiro e último andamento é como que um espelho do primeiro, fazendo ressoar logo de início, nas cordas graves, o motivo principal com que já abrira o concerto. A indicação de Allegro lamentoso denota a ambiguidade emocional que esta obra carrega, entre a tristeza e uma certa alegria melancólica, ambiguidade que se presta maravilhosamente a ser expressa pela viola e transforma este concerto numa das mais belas prendas concedidas aos violetistas, não se compreendendo porque é tão raramente tocado. E se me demorei tanto tempo nele foi porque o considero, não obstante tantas mais que poderia citar, uma das melhores obras não só de Joly Braga Santos como de todo o século XX no que a concertos para viola diz respeito. Com uma geração de excelentes jovens violetistas e maestros portugueses, com boas orquestras nacionais e com o auxílio das edições que estão a ser preparadas pela AvA – Musical Editions, espero que a situação comece a mudar e que o Concerto para Viola de Joly Braga Santos obtenha o lugar de destaque que sempre mereceu no repertório nacional e – porque não? – internacional.

As décadas de 60 e 70 serão dominadas (embora não exclusivamente, como vimos) por obras mais experimentais, mais cromáticas, algumas das quais sofrem, não direi de uma falta de sinceridade, porque nunca ninguém obrigou naturalmente Joly Braga Santos a subscrever estéticas que não eram as suas, mas de uma tentativa de compromisso entre o seu lirismo e modalismo atávicos, e formas de expressão derivadas das várias linhas de vanguarda que a partir dos anos 60 imperarão por todo o mundo musical e artístico em geral. Joly Braga Santos ver-se-á um pouco na situação daqueles pintores figurativos que, subitamente, foram confrontados (não pelo público, mas pelas galerias e “experts”) com o abstraccionismo expressionista dominante. Adaptar-se ou morrer foi para muitos a solução. Outros, que mantiveram intactas as suas estéticas, sofreram uma longa passagem por um exílio espiritual que somente nos anos 80 se voltará novamente a seu favor. Actualmente estamos na situação contrária: as vanguardas radicais dos anos 60 morreram, e o público, que nunca abandonou os seus gostos tradicionais, foi vingado, por vezes de forma injusta para com grandes criadores da modernidade, como é característico de todas as revoluções.

Recorrendo novamente ao livro de Alexandre Delgado sobre a Sinfonia em Portugal, e a respeito da 6.ª Sinfonia, subscrevo inteiramente a sua opinião sobre este assunto delicado: “Voltemos ao ano de 1972, em que Joly Braga Santos escreveu a sua última sinfonia. Joly cumpriu esta encomenda numa fase difícil do seu percurso, em que se exacerbou o conflito entre ser moderno e ser sincero. A 6.ª Sinfonia é uma obra que reúne essas duas pulsões de uma forma tão extrema que o resultado, na sua junção de estilos musicais incompatíveis, pode ser visto como pós-moderno, numa altura em que essa tendência ainda mal despertara internacionalmente.”6

Lamentavelmente, e os leitores compreenderão porquê, deixarei de parte comentários mais específicos sobre as óperas e outras obras coral-sinfónicas (como o já mencionado Requiem) nesta breve panorâmica da obra de Joly Braga Santos, dado que não existem por enquanto gravações comerciais disponíveis, e que algumas das que existem nos arquivos da RDP não são de molde, quer pela qualidade da execução quer pelas condições das gravações, a lançarem uma luz favorável sobre as obras. Sendo também este um artigo breve e não exaustivo, absolutamente nada académico (sou compositor e admirador da obra, não musicólogo), que pretende tão-só uma panorâmica do percurso de Joly Braga Santos, preferi incluir nos comentários detalhados apenas aquelas obras a que o público tem fácil acesso.

Sendo assim, terminarei esta breve panorâmica considerando algumas obras escritas a partir dos anos 60 que considero excepcionais, tirando as acima mencionadas pelas razões expostas, deixando também agora de lado as sinfonias, dado que nesta edição da glosas estas obras já são objecto de análise, e até pelo facto de, constituindo um ciclo, todas elas serem dignas de menção.

As obras que considero, então, como das mais conseguidas nestas quase três décadas de labor criativo, desde o início dos anos 60 a 1988, ano da morte do compositor, são a Sinfonietta para cordas (1963), o bailado Encruzilhada (1967), o Concerto para Violino, Violoncelo, Orquestra de Cordas e Harpa (1968), o Divertimento n.º2 (1978), e o Staccato Brilhante (1988). Entre elas encontram-se três obras para orquestra de cordas que continuam, agora de forma mais complexa, a provar a mestria do compositor neste meio difícil e tão frequentemente mal aproveitado. A Sinfonietta é uma obra brilhante, cujo alucinante último andamento não deixa de provocar sempre o entusiasmo do público, com a sua mistura de modernidade e acessibilidade virtuosística. Tive a ocasião de a ouvir tocada ao vivo por excelentes músicos em Londres, em 1996, e é uma obra que pode ombrear com o que de melhor se escreveu para orquestra de cordas no século XX. Já o Divertimento n.º2, também para cordas, uma obra mais curta, possui um carácter mais abstracto. A ambiguidade entre cromatismo e diatonicismo que já tive ocasião de relevar a respeito de outras obras tem uma interessante fusão no curioso Concerto para Violino, Violoncelo, Orquestra de Cordas e Harpa, uma formação rara, que hoje em dia se pode fruir num excelente CD da Naxos na série de obras de Joly Braga Santos que Álvaro Cassuto tem gravado nos últimos anos. Um primeiro andamento mais tenso e abstracto liberta a sua energia num segundo andamento rápido com algum sabor bartókiano, remetendo para obras como a Música para Cordas, Percussão e Celesta do ponto de vista da formação instrumental. Mais um tipo de concerto grosso que denota o interesse de Joly Braga Santos pelo rico passado da música barroca, mesmo que, do ponto de vista puramente musical, este período não seja tão audível no neoclassicismo do compositor como o renascimento em geral, ou o maneirismo seiscentista da Escola de Évora em particular. Uma das razões que também impedem uma maior difusão destas obras prende-se com a dificuldade crescente da música. Se o Concerto em Ré pode ser facilmente interpretado por uma boa orquestra de alunos, já qualquer outra das obras para cordas aqui citadas dificilmente chegaria a um estado razoável de qualidade técnica, quanto mais interpretativa. Somente executantes e orquestras de topo podem tocar estas peças com qualidade, um problema comum a muita música escrita nos últimos cem anos.

Por fim, quer o bailado Encruzilhada, quer a derradeira peça orquestral, Staccato Brilhante, se podem incluir entre aquelas obras que qualquer público, seja ele muito ou pouco informado, poderá apreciar. Pertencem àquela categoria de peças felizes, inspiradas, cujos rasgos melódicos e ímpeto rítmico são contagiantes. O Staccato Brilhante impressiona também por ser a penúltima obra de Joly, em plena posse das suas capacidades. Nos curtos quatro minutos que demora esta breve abertura (encomendada por Álvaro Cassuto precisamente para essa função), o compositor mostra pela última vez todas as características do seu génio: facilidade melódica, ritmos ostinato e fulgor orquestral, fusão perfeita entre diatonicismo e cromatismo, tudo apresentado aos ouvintes na forma de um estilo original e imediatamente reconhecível. Quanto ao bailado Encruzilhada, escrito em 1967, e que teve coreografia de Francis Graça, é uma obra de trinta minutos para pequena orquestra, uma orquestra clássica mas da qual Joly Braga Santos extrai prodígios de sonoridade. O primeiro quadro, uma endiabrada tarantela, contém uma das mais memoráveis melodias do compositor, não por acaso afim do estilo de William Walton (naquele que é, talvez, o momento de maior proximidade entre Joly Braga Santos e outro compositor), que amava Itália a ponto de ter abandonado Inglaterra para ir viver num ilha do Mediterrâneo, pertença desse país. A tarantela, uma dança que Walton escreveu por diversas vezes, como que salta do meio da orquestra após uma introdução rápida que estabelece uma atmosfera rítmica e moderadamente dissonante, com a qual a melodia dançante nos violinos vai estabelecer um contraste extremamente eficaz.

Poucas vezes, mesmo no “período modal”, terá Joly Braga Santos escrito uma música tão exuberante e feliz, tão despreocupada e exaltante. Somente o Concerto em Ré, no último andamento, consegue esta felicidade solarenga. Não esqueçamos que as sinfonias, todas elas, mantêm, em geral, uma ambiência solene, trágica ou monumental, para a qual o modalismo contribuiu com a sua aura melancólica. Uma certa gravidade impera em muitas das obras de concerto de Joly, gravidade que se tornará ainda mais pesada a partir dos anos 60, como vimos, pelo que estes raros momentos de felicidade completa são como que o tímido raio de sol que nos aquece o corpo, e a alma, num belo dia de Outono.

Esta breve, necessariamente incompleta panorâmica, não podia ficar completa (passe a contradição) se não mencionasse a música de câmara, um corpo de obras não demasiado numeroso, mas que ainda assim conta com algumas páginas importantes, nomeadamente os dois quartetos de cordas (1945 e 1957), o Quarteto com Piano (1957), a Aria a Tre con Variazioni (1984), a Suite de Danças (1984), o Trio para Piano, Violino e Violoncelo (1985), ou o Sexteto (1986). Estas e outras obras do catálogo de câmara do compositor revelam uma outra faceta, mais intimista, mas que almeja quase sempre à monumentalidade e sonoridade da grande orquestra, meio privilegiado de Joly Braga Santos. Como Prokofiev, que escreveu pouca música de câmara mas de alta qualidade, a de Joly é escassa em número mas notável do ponto de vista musical, sendo que tem ficado um pouco na sombra pelas mesmas razões que a de Prokofiev ficou durante tantos anos: o brilho magnífico, ofuscante, das obras para orquestra. •

Notas

1) Embora muito esteja ainda por estudar, e falte, como de costume, uma biografia completa e abrangente de Joly Braga Santos que permita reflectir sobre as posições ideológicas e políticas do compositor, nada indica que fosse um apoiante do Estado Novo. A própria 5.ª Sinfonia, uma das suas obras mais dissonantes e radicais, está a léguas da estética acarinhada pelo Estado Novo, e pode até ser interpretada como uma reflexão musical sobre a brutalidade dos tempos, não obstante o acorde de Mi maior com que termina, que dá ao final um tom aparentemente “optimista”. Joly Braga Santos tomou inclusive algumas posições corajosas, como a de apoiar – sendo ainda um mero estudante – o seu professor e mentor Luís de Freitas Branco, quando este foi afastado do Conservatório.

2) A Sinfonia em Portugal, Caminho, 2002, 2a ed., p.241

3) Idem, p.219

4)

Juventude, pura juventude / A Manhã, o Amor /

Tão do fundo Pátria vertical / A crescer em esplendor. //

Levemente num caminho novo / Onde o cântico é dom /

Poderoso dom de ser-se leve, / Alva flor de som. //

Juventude pássaros no sangue, / Ó incêndios de luz! /

P’la distância ‘inda mais além / Que à distância conduz. //

Labaredas no destino onde / Jovens ó por Amar! /

Destruindo o barro que vos esconde / Com um só vosso olhar. //

Amor, ó Dom, / Indestrutível Dom, mais além /

/ Oh, no espaço Amar. //

5) Questões que nada terão que ver, creio, com a idade e eventuais problemas de saúde do compositor, porquanto a derradeira obra orquestral (e a penúltima) que escreveu, o Staccato Brilhante, é uma pequena pérola de humor e musicalidade. E também não se depreenda das linhas acima que considero, pessoalmente, o Concerto para Violoncelo uma obra de menor qualidade. Aliás, é uma das que eu mais aprecio, na sua ambiência soturna e grave, mas reconheço que dificilmente se tornará numa das obras mais tocadas e queridas de Joly Braga Santos junto do público melómano, com muita pena minha.

6) Ibid., pag.243

Texto originalmente publicado na Glosas 3, 2011, p.11-17.

  1. ª Sinfonia

Sobre o autor

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Sérgio Azevedo nasceu em Coimbra em 1968. Estudou Composição na Academia de Amadores de Música com Fernando Lopes-Graça e concluiu os estudos superiores com 20 valores na Escola Superior de Música de Lisboa, onde trabalhou com Constança Capdeville e Christopher Bochmann. Em 2012 concluiu o Doutoramento na Universidade do Minho. Ganhou diversos prémios e as suas obras têm sido encomendadas e tocadas em vários países pelos mais prestigiados intérpretes. Publicou em 1999 'A Invenção dos Sons' (Caminho), em 2007 'Olga Prats, Um Piano Singular' (Bizâncio), e colabora com 'The New Grove Dictionary of Music and Musicians'. É professor na ESML e colaborador da Antena 2 desde 1993. É o responsável artístico da edição completa das obras de Fernando Lopes-Graça, iniciativa do Museu da Música Portuguesa (Cascais). Foi membro convidado do CESEM desde a sua fundação até 2007. Em 2011 ganhou o Prémio Autores, da Sociedade Portuguesa de Autores, na categoria de 'Melhor trabalho de música erudita 2010' com o seu 'Concerto para Piano e Orquestra'.