Decorreu no passado 30 de Setembro, ao final da tarde, o concerto de encerramento dos Encontros Sonoros Atlânticos 2023. Tal como o evento que abriu o ciclo, a 16 de Setembro – um concerto do Quarteto Lisboa e Bárbara Barradas no Mosteiro dos Jerónimos –, estes Encontros terminaram em Lisboa, na Biblioteca Nacional, após um importante périplo por várias ilhas açorianas, nomeadamente São Miguel, Terceira e São Jorge (ou não fosse esta uma iniciativa que presta também uma merecida homenagem a Francisco de Lacerda).

Foi precisamente a figura do eminente compositor e maestro nascido em São Jorge em 1869 que marcou indelevelmente este concerto, com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. O programa iniciou com a Suite dans le style ancien de Vincent d’Indy, considerado hoje o mais importante mestre de Lacerda. As muito pontuais fragilidades da orquestra, com um efectivo bastante reduzido neste início de alinhamento, não perturbaram uma simpática fruição deste estilo antigo, conduzido de forma clara e deveras expressiva por Rita Castro Blanco. A propósito, a segurança da maestrina ao longo de todo o concerto foi notória, numa semana em que se tornou pública a sua estadia em 2023/2024 como Maestrina Assistente da City of Birmingham Symphony Orchestra. Brava!

Seguiu-se o momento talvez mais aguardado da tarde: a estreia da obra vencedora do Prémio Compositor Francisco de Lacerda Millennium bcp, atribuída este ano a Ecos de Trovas, de Luís Neto da Costa. A obra divide-se em sete pequenos andamentos, cada um inspirado numa (ou, no caso do andamento central, duas) trova(s) de Lacerda, num interessante exercício de paráfrase cujas sobreposições tímbricas e de motivos se tornam um desafio para a escuta do que é parcialmente reconhecível ou de algum modo adivinhável. O compositor, que recebeu o prémio no início do concerto, descreveu este jogo como “(…) se estes acordes, texturas e técnicas instrumentais brotassem dos que foram originalmente compostos, mas evitando qualquer contraste áspero ou satírico que destruam os elementos originais.” Os músicos cumpriram de forma louvável os desafios que uma obra em primeira audição absoluta sempre impõe: destacamos a participação atarefada do timpaneiro Miguel Herrera e, sobretudo, do percussionista Rodrigo Azevedo. Parece-nos que alguns dos andamentos teriam potencial para uma exploração mais longa, facto ao qual não deve ter sido indiferente a necessidade de não submeter a concurso uma obra com duração superior a quinze minutos.

A segunda parte do concerto foi preenchida, antes da conclusão com a sempre desafiante Sinfonieta (Homenagem a Haydn) de Lopes-Graça – interpretada de forma irrepreensível pela OML –, com obras de Francisco de Lacerda. Ouviu-se Dans le clair de lune, Almourol (o momento mais extraordinário do concerto, na nossa opinião, com destaque para a participação etérea do corne-inglês de Carla Pereira), Épitaphe: sur la tombe d’un héros e o segundo número das Imagens, intitulado “Nos minaretes de Soleimão – Djami (Istambul)”, este último num arranjo de Sérgio Azevedo especialmente encomendado pela AFL. Continua a ser impressionante e incompreensível, dada a qualidade musical do que ouvimos (para não referir o valor patrimonial), a falta de comparência destas obras na programação regular das orquestras portuguesas. Nem o ruído constante dos aviões que sobrevoam a Sala de Leitura Geral da BNP foi suficiente para incomodar um público numeroso que aplaudiu todos os momentos do concerto de forma entusiástica.

Por último, um bravíssimo para os Encontros Sonoros Atlânticos como um todo, que se mantêm para mais uma edição de importantes (re)descobertas e de promoção da composição contemporânea (recordamos que este concurso de composição vai já na segunda edição, tendo na primeira, em 2022, premiado Samuel Gapp). Está, portanto, de parabéns o seu director artístico, Vasco Mendonça – compositor que conseguiu, num acto louvável cada vez mais raro no panorama artístico nacional e internacional, não incluir na programação desta edição qualquer obra sua –, que refere, num texto que acompanha a brochura do festival, que é este “mais um passo (…) [n]um apoio sustentado à música e à cultura portuguesas”. Esperamos com muita expectativa pela edição de 2024!

 

Fotografia: Luís Neto da Costa @Associação Francisco de Lacerda

 

 

Sobre o autor

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Licenciado em piano pela Escola Superior de Música de Lisboa, na classe de Jorge Moyano, concluiu o Conservatório Nacional com a classificação máxima, tendo aí estudado com Hélder Entrudo e Carla Seixas. Premiado em diversos concursos, apresenta-se em concerto em variadas formações. Estreia regularmente obras de compositores contemporâneos. Gravou para a RTP/Antena 2, TV Brasil e MPMP: editou, em 2020, o CD “La fièvre du temps” em duo com Philippe Marques. É membro fundador do MPMP Património Musical Vivo, dirigindo temporadas e coordenando inúmeras gravações. Termina, actualmente, o mestrado em Empreendedorismo e Estudos da Cultura do ISCTE. Foi director executivo da GLOSAS entre 2017 e 2020.