Discípulo de dois nomes maiores do universo flautístico do séc. XX – os célebres mestres suíços Aurèle Nicolet e André Jaunet – e tendo ocupado, como instrumentista, os lugares cimeiros nas principais orquestras nacionais (Gulbenkian e Emissora Nacional), bem como os de professor no Conservatório Nacional e na Escola Superior de Música de Lisboa, Ricardo Ramalho permanecerá indubitavelmente como uma referência incontornável entre os flautistas portugueses do seu tempo, perdurando entre nós a sua marcante personalidade artística e o legado de uma notável acção pedagógica que se projecta para as gerações seguintes.

 

Na vila alentejana de Reguengos de Monsaraz, berço de notáveis músicos e refúgio rural do compositor Luiz de Freitas Branco, nascia Ricardo Ramalho a 18 de Outubro de 1926.

Iniciando a sua aprendizagem musical aos nove anos, sob a orientação de José da Silva Domingues (a quem sempre creditaria uma grata admiração),apresenta-se publicamente um ano depois, tocando flautim; com apenas dezasseis anos, integra a Orquestra Sinfónica Eborense, trabalhando simultaneamente como músico na região.

Aos dezanove anos, ingressa na Banda da Guarda Nacional Republicana, em Lisboa, após um disputado concurso com uma centena de candidatos, onde Ricardo Ramalho se fez valer executando três instrumentos: flautim, oboé e saxofone soprano. Aí viria a desempenhar as funções de flautista durante vários anos.

Em 1948, aos vinte e um anos, ingressou na Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional como 2.º Flauta e Flautim, passando a desempenhar as funções de solista a partir de 1961.

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Um dos momentos marcantes dos primórdios da sua passagem pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional deu-se precisamente sob a direcção de Paul Hindemith, em Dezembro de 1954: após uma execução de Matias, o Pintor, no Teatro de S. Carlos, em que Ricardo Ramalho se destacara no flautim, foi o compositor cumprimentá-lo pessoalmente à estante, valendo-lhe isso, no dia seguinte, a ordem superior para “mandar fazer a casaca”, ou seja, tornar-se efectivo. Hindemith não ficara indiferente à prestação do jovem no flautim e fê-lo sentir à direcção administrativa da orquestra.

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A fase mais difícil de toda a sua carreira ocorreu na década de 1970, na sequência de uma paralisia facial que o obrigou a uma longa paragem, a exigentes tratamentos e a uma resistência anímica que só um temperamento vigoroso e uma personalidade excepcionalmente forte permitiram ultrapassar. Quando muitos pensariam que estaria irremediavelmente perdido e arredado da sua carreira de flautista, Ricardo Ramalho, após uma tenaz persistência terapêutica e um esforço titânico, recupera integralmente, a ponto de poder retomar as suas funções na Orquestra Gulbenkian. Para provar a sua integral recuperação perante o Serviço de Música, a orquestra, o público e, last but not least, perante ele próprio, joga uma ousada cartada: propõe apresentar-se a solo com a Orquestra Gulbenkian, interpretando o Concerto em ré maior de Michael Haydn. Apesar do risco, e perante a determinação e a convicção de Ricardo Ramalho, o desafio é aceite, realizando-se o concerto (que seria, aliás, repetido) no âmbito de uma descentralização ao Algarve em Julho de 1977, sob a direcção de Juan Pablo Izquierdo, representando a vitória da persistência, do talento e da coragem de um homem de excepção, um profissional exemplar que não se resignou perante a adversidade.

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Em 1985, ocorreu um (re)encontro pessoal muito especial para um flautista: estando Ricardo Ramalho num hall da Fundação Calouste Gulbenkian, é interpelado por alguém que se lhe dirige e o vem cumprimentar efusivamente: nem mais nem menos do que Jean-Pierre Rampal, que se apresentava nesse dia no Grande Auditório num recital com o seu pianista de então, John Steele Ritter. Um recital memorável, ao qual se seguiu um igualmente inesquecível jantar numa conhecida marisqueira de Lisboa e onde não faltou, à sobremesa, um apontamento do concerto de Khachaturian pelo próprio Rampal (que o estudava, naquela altura), numa flauta de estudante, que, como recurso, pedira emprestada a um dos jovens comensais presentes. Sem que alguma vez tivesse tido algum aluno português,segundo o próprio afirmou em diferentes ocasiões, Jean-Pierre Rampal testemunhou o seu respeito e simpatia por Ricardo Ramalho (tal como o fizeram tantas outras personalidades maiores da vida musical), como bem o comprovam o referido encontro, essa inesquecível soirée, e até o autógrafo que lhe dedicou no programa de sala desse memorável recital.

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Prof. Ricardo Ramalho no Conservatório Nacional em 1984 (fotografia proveniente do arquivo pessoal de João Pereira Coutinho)

No ensino, com uma dedicação e generosidade sem limites, partilhou com os seus alunos, ao longo de uma vintena de anos, tudo o que tinha para ensinar e para dar. Formou alunos no Conservatório Nacional (e, mais tarde, também na Escola Superior de Música de Lisboa) que integraram o meio musical português como flautistas em orquestras profissionais e grupos musicais de referência e como professores em conservatórios e outras instituições de ensino especializado da música.

Sobretudo, deu a conhecer em Portugal uma verdadeira escola de flauta, moderna e actualizada segundo os melhores padrões europeus.

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ARTIGO PUBLICADO NA GLOSAS 11 ( Clique aqui para ler o artigo completo na versão impressa ).

Sobre o autor

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Estudou Flauta no Conservatório Nacional, em Lisboa, com Ricardo Ramalho. Prosseguiu os estudos musicais como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris (M. Debost, P. Nagie e S. Cherrier) e em Viena (H. Weissberg). Laureado nos 1.ºs concursos da Juventude Musical Portuguesa, é membro do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa e docente na Escola de Música do Conservatório Nacional, tendo orientado diversos cursos de aperfeiçoamento em Portugal e em Espanha.