O argentino Alberto Cedrón (1937-2007) é considerado um dos maiores artistas plásticos do seu país e também um dos mais abrangentes, já que a sua obra abarca desenho, ilustração, pintura, escultura, arte mural, gravura, entre outros. As suas próprias palavras indicam: “ Por diversas circunstancias del destino me tocó andar por muchos lugares de este planeta, siempre con mi profesión, oficio o como quieran llamarle. Empecé dibujando en las paredes de la cocina de mi casa a los seis años, desde allí no paré nunca. Dibujé sobre paredes, papel, piedra, latón, arcilla, chatarra; en fin materiales diversos, soportes diversos y también momentos históricos diversos” (http://www.albertocedron.com.ar/).

De 1994 a 1996 Cedrón realizou uma série de quarenta painéis de azulejo (2,20 x 1,60 m) que compõem a “História de Portugal”, desde a sua fundação até à adesão do país à antiga CEE, actual União Europeia. Estão os referidos painéis nos Jardins da Fundação Berardo, no Funchal, ilha da Madeira.

Interessam-nos cinco painéis de azulejos referentes a cinco reinados, com pormenores relevantes ao nível iconográfico musical, que serão abordados em três crónicas. Na deste mês de Agosto serão analisados os painéis referentes aos reinados de D. Dinis e D. Fernando.

No primeiro são colocados em destaque, na perspectiva do artista (ou do encomendador), os principais marcos sociais e políticos e históricos do reinado de D. Dinis (1261-1325): o desenvolvimento do comércio e criação da bolsa dos mercadores, a constituição da primeira frota naval portuguesa, a plantação do pinhal de Leiria, a criação da primeira universidade portuguesa (Coimbra), a extinção dos Templários e criação da Ordem de Cristo. Temos também o milagre das rosas, lenda relacionada com a sua esposa, a Rainha Santa Isabel. Por fim, a cultura trovadoresca.

 

 

D. Dinis foi um reconhecido trovador medieval, também ele compositor de várias Cantigas de Amor. Era neto de Alfonso X de Castela (o Sábio). Foi na corte do seu avô que se compôs (ou recolheu) a poesia e a música que integram as Cantigas de Santa Maria, uma gigantesca colecção de canções devocionais louvando a Virgem Maria ou narrando milagres a ela atribuídos.

Nesta imagem de Cedrón vemos um trovador que canta e toca um cordofone dedilhado, com formato periforme. Parece ser um instrumento do tipo do alaúde mas o cravelhame não é o correcto para tal instrumento. Assume-se que foi intenção do artista representar mais o tipo de acompanhamento dos trovadores do que um instrumento em particular. Acompanham-no duas mulheres, uma cantando e a outra não cantando. Talvez o artista pretendesse uma evocação da presença feminina nas Cantigas de Amigo.

No segundo painel, referente ao reinado de D. Fernando I (1345-1382) destacam-se as guerras luso-castelhanas, a construção da muralha fernandina de Lisboa, o tratado de aliança com a Inglaterra e o descontentamento popular pelo casamento do rei com Leonor Teles. Neste último episódio vemos vários populares aglomerados em descontente manifestação, identificando-se, em primeiro plano, um mendigo, coxo, que leva um instrumento cordofone. A prática musical estava bastante aliada à mendicidade e às esmolas, nas classes baixas. O cordofone, mais uma vez, não é exacto no que concerne à organologia. Quiçá uma sanfona e um cego pudessem melhor representar a visão do artista referente às classes populares mendicantes (conforme nos atestam outras fontes iconográfico-musicais), mas tal não foi a opção de Cedrón.

 

 

 

(continua)

Sobre o autor

Luzia Rocha

Luzia Rocha possui os graus de Licenciatura, Mestrado e Doutoramento em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa. É investigadora no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. É membro do ‘Study Group on Musical Iconography’ e do ‘Study Group for Latin America and the Caribbean’ (ARLAC-IMS), ambos da International Musicological Society. É colaboradora na Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e no Grupo de Iconografia Musical da Universidad Complutense de Madrid/AEDOM. Trabalhou como docente na Academia de Amadores de Música, Escola Técnica de Imagem e Comunicação (ETIC), Instituto Piaget (ISEIT de Almada, também como Coordenadora da Licenciatura em Música) e na Academia Nacional Superior de Orquestra e colabora actualmente como docente na Licenciatura em Jazz e Música Moderna da Universidade Lusíada. Tem participado como oradora, por convite, em conferências nacionais e internacionais e publicado artigos em periódicos com arbitragem científica. É autora do livro "Ópera e Caricatura: O Teatro de S. Carlos na obra de Rafael Bordalo Pinheiro".

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