Nasceu no seio de uma família de músicos, passou pela Orquestra Gulbenkian e pela Metropolitana, mas foi nos Quinta do Bill e nos Corvos que ganhou notoriedade. As suas asas eram demasiado grandes para voar em bando: partiu então para um percurso a solo, que já o levou aos quatro cantos do mundo, e agora prepara um disco de sonoridades ecléticas e electroacústicas, no qual se estreia como compositor. A Glosas  conversou com o violinista Nuno Flores sobre este disco e sobre o seu percurso profissional.

 

Depois de um longo percurso como instrumentista, quando e como surgiu o seu interesse pela composição de repertório próprio?

Decidi continuar com a música instrumental e criei os The Crow, ensemble de cordas que junta violinos, violoncelo, bateria, DJ e voz, com uma sonoridade electroacústica, e habitualmente interpretamos versões de bandas emblemáticas a nível nacional e internacional. Tocamos também temas da minha autoria. Considero-me o “violinista The Crow”, e assim sou conhecido.

Sempre houve em mim, desde novo, o interesse em evoluir para algo diferente, não queria ficar ligado ao mesmo estilo, o clássico, quis experimentar e incorporar os vários estilos e criar o meu próprio repertório, evoluindo e mostrando o outro lado de Nuno Flores, violinista. Para mim é importante enquanto músico – e digo muitas vezes  isto aos meus alunos – valorizar o que aprendemos em teoria, mas o improviso e a prática é o que nos levam a ser melhores e a crescer enquanto músicos.

Esse repertório que é por ti criado e que é trabalhado e experimentado em todos os espectáculos só sairá bem se gostares dele de verdade. Gosto de tocar um pouco de tudo… O meu percurso enquanto instrumentista continua mas claro que queria ver os meus próprios projectos em andamento e com a minha assinatura NF.

Não sou de rotinas, não me arrependo realmente deste desvio.

 

Como funciona o seu processo de composição (é compositor de “secretária” ou a música surge da interacção com o violino)?

Confesso que sou péssimo compositor de “secretária”, sou muito do improviso, muito de viajar sem direcção, muito do que a natureza me dá; respeito a natureza e daí ter-me associado até à Greenpeace. Gosto de estar em contacto com a natureza na altura de compor: a partir daí surgirá de certeza alguma música na minha mente. Digamos que tudo o que provém da natureza não me faz sentir vazio. Todos os artistas têm a sua inspiração e realmente a minha vem do contacto directo com a natureza; claro que não digo que não existam outras formas de inspiração e que não as aproveite, mas a minha advém daí a maior parte das vezes. Posso dizer que apenas utilizo a “secretária” na preparação do CD, por exemplo, ou do espectáculo.

 

 

No projecto discográfico que prepara vamos ter só música original e de sua autoria?

Este projecto discográfico dos The Crow será um CD de originais da minha autoria, e instrumental. Apostei numa selecção de estilos do que ia ouvindo e também achei interessante ter espaço para algumas músicas do meu primeiro CD, mas com outra sonoridade. Quero através do meu novo trabalho apresentar outras melodias que não sejam tão marcadas pelo rock, pelo pop. Algo leve para o espírito e positivo para quem o escute. Já em promoção deste novo trabalho, na comunicação social e com o tema de lançamento Fear of the dark”, dará para desvendar um pouco deste CD.

Acredito que será um projecto bem aceite pelo público. Porém, no momento, não entrarei muito em detalhes sobre o que virá por aí porque quero fazer surpresa e também porque prefiro falar do trabalho quando estiver pronto… mas virão coisas surpreendentes.

 

Passou pela Orquestra Gulbenkian e pela Metropolitana até que um dia mudou para outros géneros musicais. O que o levou a enveredar por estes caminhos?

Como disse anteriormente, quis partir para um projecto a solo, um projecto com a minha assinatura. Estar na Orquestra Gulbenkian e na Metropolitana foi um aprendizado para mim e é óptimo termos a educação necessária para seguirmos esta profissão, mas realmente o gosto pelo improviso e o querer tocar outros géneros fez-me escolher este caminho.

 

Todavia, continua de certa forma ligado à música erudita, nomeadamente através de uns cursos que ministra regularmente nos E. U. A. para crianças e jovens sobre a história do violino. 

Sim, é verdade, tenho tido a sorte de percorrer o mundo com o meu violino e também partilhar os palcos com grandes nomes da música internacional e nacional, como também de partilhar os meus conhecimentos com quem queira aprender, neste caso com as crianças. No início do ano, comecei a digressão The Crow Nuno Flores pelos E. U. A.. Passei por Brooklyn, Jersey City, Belleville, Nova Iorque e Minneapolis. Participei em espectáculos, partilhei o palco com diversas personalidades e partilhei os meus conhecimentos com os mais pequenos. Também estive nas rádios locais daquelas regiões para falar do meu percurso musical.

 

Como é viver da música em Portugal?

Portugal ficará conhecido sempre como o país melancólico, com a marca do fado, e quando novos sons se apresentam ficamos desconfiados, não dando crédito ao novo. É para mim uma das grandes batalhas, aceitar o novo, novos sons e ambientes, ficamos confortáveis e não educamos o nosso ouvido a ouvir nada mais senão o eterno som do fado. Por isso, em resposta à pergunta, é verdade  que já fomos mais fechados aos novos ritmos, mas temos ainda muito que despertar. E temos tanto de valor no nosso país a nível musical!  É importante abrir mais o espaço ao novo.

 

Vislumbra no futuro um regresso à música erudita, a solo, em grupos de música de câmara ou mesmo em orquestra?

Neste momento estou bastante focado na música do meu novo álbum. Mas no momento certo, num projecto que seja interessante, quem sabe…

 

O que é que lhe falta fazer na música?

Muita coisa: tenho muito por estudar, por experimentar; é algo que é infinito…

 

 


 

Nuno Flores é formado pelo Conservatório Nacional e em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa. Integrou, entre outras, a Orquestra Calouste Gulbenkian e Orquestra Metropolitana. De entre as suas colaborações, contam-se a participação com os grupos Entre Aspas, Rodrigo Leão/Vox Ensemble,  Moonspell, UHF, Paulo Bragança, Santos e Pecadores, Carlinhos Brown, GNR, Ivete Sangalo, Titãs, Blindzero,Raimundos, entre outros. Foi membro dos Quinta do Bill e membro fundador dos inovadores projectos Corvos, Ensemble Amadeus e “The Crow”.

 

Sobre o autor

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Doutorada em Música e Musicologia (ramo de Interpretação) pela Universidade de Évora, é actualmente investigadora do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Iniciou os seus estudos musicais no Instituto Gregoriano de Lisboa. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas: Estudos Ingleses e Alemães (FLUL) e em Canto (ESML). Posteriormente obteve o grau de LGSM (Licenciate by the Guildhall School of Music and Drama) através do Trinity College. Como cantora de ópera, foi “Fanny” em 'O Tanoeiro' de Thomas Cooper (Teatro da Trindade), “2.ª Dama” na 'Flauta Mágica' de Mozart e “Sebastiana”, numa versão portuguesa da sua autoria da ópera 'Bastien und Bastienne' de Mozart. Para além de se apresentar regularmente em recitais, é membro do Coro Gulbenkian.