O jovem compositor madeirense Daniel Davis, residente em Londres, viu, no passado dia 3, a sua obra Landscape of a Winter Morning (Paisagem de uma manhã de inverno) interpretada em estreia absoluta pela Orquestra Clássica da Madeira (OCM), no Centro de Congressos da Madeira.

Uma encomenda da própria Orquestra, esta peça fez parte dum programa do qual constaram também a Sinfonia n.º 8 de Franz Schubert e a Sinfonia n.º 2 de Robert Schumann. O concerto foi integrado no Ciclo Jovens Músicos da OCM e foi dirigido pelo maestro Pedro Amaral.

Daniel Davis, nascido em 1990, começou o seu percurso musical estudando percussão na Banda Filarmónica de Santa Cruz e saxofone com Roberto Coelho, e depois no Conservatório — Escola Profissional das Artes da Madeira na classe de Duarte Basílio. Participou em vários intercâmbios com a Banda Militar da Madeira e foi reforço da Orquestra Clássica da Madeira, tendo também integrado a Big Band Pestana. Começou, entretanto, a interessar-se pela composição, estudando na Escola Superior de Música de Lisboa com Sérgio Azevedo, António Pinho Vargas e Luís Tinoco, e terminando o mestrado em 2016.

Em 2014 foi nomeado Compositor Residente da temporada 2014-2015 da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras. No mesmo ano, venceu o primeiro prémio do Concurso Jovens Músicos da Antena 2/SPA com a obra …from the last breath que foi interpretada pela Orquestra Gulbenkian e Pedro Carneiro no Auditório Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Em 2016, a Banda Sinfónica Portuguesa estreou a sua obra between places… na Casa de Música, no Porto. No mesmo ano, foi o Compositor Associado do projeto Musicalmente — Música para Bebés. Em 2019, foi um dos participantes no Workshop Opera & New Technologies com Michel van der Aa no Festival d’Aix-en-Provence, apoiado pela European Network of Opera Academies e pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Davis foi um dos cinco compositores em residência, em 2019-2020, no âmbito do projeto Young Composers Scheme da Orquestra Filarmónica de Londres, e um dos representantes de Portugal na iniciativa World New Music Days, em 2020. Foi também um dos seis compositores em residência na oficina “Composing for Voice and Orchestra”, orientada pela compositora finlandesa Kaija Saariaho, na Gulbenkian. Por infeliz coincidência, a compositora veio a falecer no dia anterior a este concerto da OCM, pelo que os intérpretes o dedicaram à sua memória.

Além dos auditórios da Casa da Música no Porto e da Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, a música de Daniel tem sido apresentada em diferentes espaços internacionais, como por exemplo os auditórios da Senhora da Boa Nova em Cascais, Milton Court em Londres, Ventura em Athis Mons, (França), Conservatório Real da Antuérpia (Bélgica) e Esplanade (Singapura).

Ao longo dos seus estudos de doutoramento, terminados com sucesso em 2020, na Guildhall School of Music and Drama, em Londres, Davis foi apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Referente à obra estreada, segundo o compositor, a ideia foi a de combinar duas áreas criativas, a música e a fotografia, às quais se tem vindo a dedicar. Davis indicou que a sua inspiração se baseou em duas fotografias que ele próprio tirou numa floresta alemã. A primeira era duma árvore que se diferencia das outras e a segunda das árvores que a rodeiam, refletindo uma paisagem minimalista onde todas as árvores conduzem a visão para um caminho infinito, em que o olhar se perde. Deste modo, constrói um paralelismo entre o minimal, caracterizado pela semelhança e repetição do mesmo objeto, e a distinção de um objeto que, sobressaindo, se pode transformar no cerne do ecossistema.

 

 

A estreia desta obra, pela OCM, foi enquadrada numa iniciativa que visa valorizar o ensino artístico na Região e estimular as carreiras dos jovens músicos que tiveram a sua formação inicial na Madeira. Neste caso em particular, tratando-se de um jovem compositor que já viu o seu talento e a sua criatividade consagrados tanto em Portugal como no estrangeiro, a encomenda da OCM representa não só um reconhecimento como também um estímulo para continuar a traçar um percurso de excelência.

Sobre o autor

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Robert Andres é diplomado em piano pela Academia de Música de Zagreb (Croácia), tendo também estudado em São Petersburgo e Viena. Enquanto bolseiro Fulbright, estudou nos Estados Unidos com Sequeira Costa na Universidade de Kansas, tendo recebido o doutoramento em artes musicais, assim como um mestrado em musicologia. Desde 1993 ensina no Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira, sendo atualmente professor de quadro e delegado do grupo de instrumentos de tecla. Para além da actividade concertista, orienta regularmente masterclasses de piano e já integrou mais de uma dezena de júris de concursos internacionais. Tem escrito para revistas musicais especializadas, enciclopédias reputadas e jornais. Em 2001 a editora americana Scarecrow Press publicou o seu livro sobre os inícios da abordagem científica da técnica pianística.