Na imagem de fundo: fotografia de cena
de produção do bailado Imbapara
no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

 

Oscar Lorenzo Fernández nasceu em 4 de novembro de 1897 no Rio de Janeiro, sendo o segundo filho de uma família de imigrantes que vivia na rua Silveira Martins. Assim como outros compositores nascidos no final do século XIX, Lorenzo Fernández participou das discussões estéticas sobre a “brasilidade” na música de concerto e figurou entre os compositores identificados com o nacionalismo musical brasileiro modernista do começo do século XX.

[…]

A carreira imaginada para Oscar, no entanto, passava ao longe do campo artístico e o jovem preparava-se para a medicina quando decidiu mudar de rumo e assumir os estudos musicais. Aos 20 anos, em 1917, ingressou no Instituto Nacional de Música, instituição que sucedeu o Conservatório Imperial de Música e depois teve seu nome mudado para Escola Nacional de Música, hoje Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua carreira, portanto, é significativa do estágio de desenvolvimento em que se encontrava a formação musical especializada no Brasil, uma vez que todo o seu estudo musical foi feito nessa instituição. Lorenzo Fernández é um dos poucos compositores brasileiros de sucesso que não viajou à Europa para aperfeiçoar seus conhecimentos musicais.

O Instituto Nacional de Música mantinha um conjunto de professores com sólida bagagem.  Henrique Oswald, brasileiro, filho de pai suíço e mãe italiana, havia voltado ao Brasil depois de três décadas de permanência na Europa, sediado em Florença. Foi designado para a direção do Instituto Nacional de Música em 1903, mas não foi bem sucedido como administrador e, depois de três anos na função diretiva, assumiu a classe de piano. Sabe-se que ele foi uma referência musical ampla, principalmente para os alunos que se tornaram, como ele, compositores.

Frederico Nascimento, professor de harmonia, era português nascido em Setúbal, em 1852. Em todas as biografias dos alunos de Frederico Nascimento, há referências elogiosas ao músico, que além de ministrar disciplinas teóricas, atuou como violoncelista. Assim como Lorenzo Fernández, gerações de músicos foram formadas por Nascimento, incluindo Heitor Villa-Lobos.  Frederico Nascimento foi um divulgador das teorias harmônicas de Wagner no Brasil e coautor (com José Raymundo da Silva) de um “Método de Solfejo” em que são  discutidas técnicas de entoação úteis à música moderna, como a escala hexatônica ou as harmonias modulantes. Entre as iniciativas pela modernização do ensino, Frederico Nascimento traduziu, juntamente com Alberto Nepomuceno, o Tratado de Harmonia de Arnold Schoenberg, mas não conseguiu implantá-lo como obra didática no Instituto Nacional de Música. O músico português foi amigo e principal referência de Oscar Lorenzo Fernández, que o substituiu na cátedra de Harmonia depois de sua doença.

Os estudos teóricos foram feitos com J. Otaviano, autor de diversos manuais didáticos. Assim como muitos dos professores do INM, J. Otaviano também atuava como intérprete (piano e regência) e como compositor. Era muito comprometido com o Instituto Nacional de Música,  instituição que liderava uma renovação na linguagem musical e no ensino especializado, pois tornou-se professor depois de ter sido aluno de Henrique Oswald (piano) e Francisco Braga (composição).

A formação de Oscar Lorenzo Fernández completou-se com os cursos de composição, contraponto e fuga, a cargo de Francisco Braga. Este compositor, cuja trajetória não foi ainda suficientemente analisada, foi o principal professor de composição do período. Órfão de pai ainda jovem, iniciou seus estudos musicais pela clarineta, no Asilo dos Meninos Desvalidos, formando-se no Imperial Conservatório de Música.  Tornou-se músico profissional dedicado à composição e à regência. Francisco Braga, através de pensão do governo republicano concedida aos quatro finalistas do concurso para o Hino Nacional, viajou para a França e  estudou com Jules Massenet. Foi criador de importante obra sinfônica, além da ópera Jupyra e de obras vocais, tanto canções de câmara como obras corais.  Foi um dos fundadores (1912), diretor artístico e regente da Sociedade de Concertos Sinfônicos, mantenedora de uma orquestra que propiciou o desenvolvimento da música sinfônica no Brasil, a partir do empenho dos próprios músicos.

Este panorama ajuda a situar o compositor Oscar Lorenzo Fernández, que compôs as primeiras obras a partir de 1919, entre elas Noturno, Duas Miniaturas, Arabesca e Miragem, todas para piano. Estas obras iniciais deixam transparecer a exploração de uma tonalidade ampliada, principalmente através da estética dos compositores impressionistas franceses Debussy e Ravel.

O ano de 1922 pode ser visto como um marco na carreira e na vida de Lorenzo Fernández, que ganha, nesse ano, os três primeiros prêmios no concurso nacional de composição promovido pela Sociedade Cultura Musical do Rio de Janeiro. Casa-se com Irene Soto, também descendente de espanhóis, e aproxima-se do grupo de artistas e intelectuais que promoveu a célebre Semana de Arte Moderna ocorrida no Teatro Municipal de São Paulo. Mário de Andrade e Graça Aranha passam a fazer parte de seu círculo de amizade.

[…]

Sua presença na discussão dos rumos artísticos e educativos brasileiros foi decisiva para a sequência de cargos e postos que o compositor viria a assumir na década de 30, a começar pela indicação de Villa-Lobos, em 1932, para integrar a equipe da SEMA, a Superintendência de Educação Musical e Artística do Distrito Federal.  Este organismo público foi responsável pela  organização do ensino de música no Rio de Janeiro e, mais tarde, em todo o território nacional.

Seguiram-se cargos como professor de Harmonia e Contraponto na Universidade do Distrito Federal (1935), como Catedrático no curso de Formação de professores especializados em Canto Orfeônico, (1939), como professor do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, (1942), e como catedrático de Contraponto e Fuga, na Escola Nacional de Música (1943).

Os anos 30 e 40 foram um momento de grande institucionalização da atividade musical no Brasil. A implantação da disciplina “Canto Orfeônico” em termos nacionais fez parte desse processo. A música já era ensinada em alguns estados, como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, mas sob o comando de Villa-Lobos foram implantadas políticas nacionais. Lorenzo Fernández atuava junto com Villa-Lobos, inclusive substituindo-o em diversas ocasiões.  Lorenzo Fernández assumiu, ainda, diversos cargos em comissões, entre elas a Comissão Nacional de Teatro, a partir de 1937, e a Comissão do Livro Didático, em 1946. Juntamente com Villa-Lobos, Lorenzo Fernández integrou o núcleo dos fundadores da Academia Brasileira de Música, em 1945. Foi ainda editor da Coleção Escolar, que publicava peças para canto orfeônico.

[…]

O ano de 1936 marca uma nova fase na carreira de Lorenzo Fernández, que passa a ser conhecido internacionalmente como compositor, depois de ter algumas de suas obras editadas e gravadas por intérpretes referenciais. O Batuque da suíte Reisado do Pastoreio foi editada pela Ricordi italiana e gravado pela Orquestra Sinfônica de Washington, nos EUA, sob regência de Hans Kindler, seguida de outras interpretações por orquestras internacionais. Em 1940, o Batuque será regido por Arturo Toscanini, em sua turnê pela América do Sul. A gravação de Toscanini contribuiu para divulgar a música brasileira e o Batuque passou a ser uma das peças brasileiras mais executadas no exterior.

[…]

O compositor foi encontrado morto em sua residência no dia 27 de agosto de 1948, deixando surpreso todo o ambiente musical brasileiro. Nessa época, Villa-Lobos já se encontrava doente, em tratamento nos Estados Unidos, e houve até quem entendesse tratar-se da morte de Villa-Lobos, e não de Lorenzo Fernández, então com 50 anos. Francesco Acquarone, autor de História da Música Brasileira, que acabara de ser impressa, publicou um folheto in memoriam, em que comenta:

 

Com o desaparecimento de Lorenzo Fernández, ocorrido poucos dias antes do lançamento da ‘História da Música Brasileira’ sentem, tanto o autor como os editores, a obrigação precípua de render ao seu espírito criador e à sua operosidade, encarecida e útil à Arte Brasileira, as homenagens respeitosas da sua amizade e da sua admiração.

 

A parte inicial do livro de Acquarone é dedicada aos três compositores que despontavam como os líderes do modernismo musical brasileiro. “Aos três grandes – Heitor Villa-Lobos, Lorenzo Fernández e Francisco Mignone – pertencem estas páginas, dedicadas que lhes foram pelo autor”. Os críticos fizeram muitas conjecturas sobre qual teria sido o papel de Oscar Lorenzo Fernández, caso tivesse vivido por mais tempo, e a percepção unânime do ambiente artístico musical foi a de pesar por uma morte precoce, em plena atividade. Passados mais de 60 anos de seu desaparecimento, pode-se avaliar que é tempo de descobrir ou redescobrir este compositor, dotado de uma técnica segura e de inventividade, com belas realizações em seu catálogo de obras.

 

 

[…]

Canção de câmara

Para Vasco Mariz, autor de A Canção Brasileira, as 48 canções para canto e piano são a melhor parte da produção composicional de Lorenzo Fernández. O próprio compositor fez algumas versões para canto e orquestra. Sobre essas versões orquestrais, Mário de Andrade comentou que, apesar de bem realizadas, uma vez que Lorenzo Fernández era hábil orquestrador, a transposição para orquestra fazia perder o caráter de intimismo presente na forma camerística.

Entre os intérpretes contemporâneos que estrearam suas obras, podemos destacar sua irmã Amália Lorenzo Fernández, que iniciou seus estudos como pianista, mas desenvolveu carreira como cantora. Lorenzo Fernández tem um lugar conquistado no repertório de canções e praticamente todos os cantores brasileiros têm algumas de suas canções no repertório. Entre as mais conhecidas poderíamos citar Berceuse da Onda, a partir do poema de Cecília Meirelles, em que se mistura a intensidade dramática e expressiva à mitologia marítima, representando uma mãe d’água (a sereia brasileira) que atrai uma criança para o fundo do mar com seus vocalises e suas ofertas de conchas e peixes. Outra canção a ser destacada é Essa Nega Fulô, a partir do conhecido poema de Jorge de Lima.

Lorenzo Fernández possui diversas canções com caráter contemplativo e outras canções em que se destaca o lirismo associado a personagens ou situações brasileiras. A Toada pra você, com texto de Mário de Andrade, é um dos exemplos da fusão de texto e música a partir da simplicidade, buscando uma expressão que valorizasse a “meiguice” brasileira. A canção causou tanto sucesso que se transformou em uma espécie de ideal do lied brasileiro, identificado por alguns críticos como “voceísmo”, ou seja, a exploração do canto associado com o falar brasileiro, de que o “você”, como forma familiar de tratamento, é o mais perfeito exemplo.

[…]

Ópera

Malazarte foi desenvolvida em conjunto com Graça Aranha, que se responsabilizou pelo libreto, embora Lorenzo Fernández tenha continuado sozinho, depois da morte do romancista. Há outra ópera sobre o mesmo tema, Pedro Malazarte, de autoria de Camargo Guarnieri, com libreto de Mário de Andrade. A personagem Pedro Malazarte foi muito explorada na literatura de cordel brasileira, mas as origens dessa personagem são europeias, com variantes encontradas em diversos países. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, a menção mais antiga é do Cancioneiro da Vaticana (datado entre os séculos XIII e XIV). O perfil característico dessa personagem é ser astuto e cínico nas mil possibilidades de enganar os outros, sem sentir culpa ou remorso.

A recepção da obra não foi unânime, pois tanto Mário de Andrade como Renato Almeida pronunciaram-se com ressalvas. Os críticos especializados na obra de Lorenzo Fernández, no entanto, elogiam a ópera, principalmente pelo sucesso em criar tanto a música como o libreto com as características de uma ópera nacional nascente. Convém lembrar que Lorenzo Fernández conhecia bem o passado operístico. Proferiu palestras sobre Carlos Gomes, o maior compositor brasileiro no gênero, que é o patrono de sua cadeira na Academia Brasileira de Música.

Piano

O piano foi o instrumento a partir do qual Lorenzo Fernández se iniciou na composição. Das diversas peças para piano solo, destacamos os Três estudos em forma de sonatina (1929), a Valsa Suburbana (1932), as três Suítes Brasileiras (1936-1938) e a Sonata Breve (1947). O Jongo da 3ª Suíte Brasileira é um exemplo, entre outros, de como Lorenzo Fernández explorou as capacidades percussivas do instrumento, especialmente em sua associação ao ostinato rítmico e à aceleração contínua, típica de algumas danças africanas.

Seu primeiro Concerto para Piano e Orquestra foi estreado por Arnaldo Estrela no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sob regência do autor. Também para piano e orquestra são as 15 Variações Sinfônicas sobre o tema Morocututu. A preocupação formal é revelada em boa parte de sua obra pianística, em que as danças brasileiras e os elementos rítmicos e melódicos característicos do folclore nacional foram aproveitados no quadro das formas clássicas.  Arnaldo Estrela, Miguel Proença, Cristina Ortiz, Arnaldo Cohen e Nelson Freire são alguns dos pianistas que gravaram obras de Lorenzo Fernández.

[…]

Música orquestral

Lorenzo Fernández era regente de orquestra e demonstrou habilidade em lidar com a grande forma. Em sua curta carreira, produziu obras sinfônicas que podem ser agrupadas em três blocos: as suítes sinfônicas, as sinfonias e os bailados, gênero que se tornou popular no Brasil, sob influência do sucesso dos balés russos liderados por Diaghilev.

Os dois bailados, Imbapara e Amaya, foram coreografados por Maria Olenewa. A bailarina russa emigrou para a França e, em Paris, integrou a companhia de Ana Pavlova e de Leonid Massine, com as quais veio ao Brasil respectivamente em 1918 e em 1921. Fixou-se no Brasil em 1926 e teve uma importante presença como bailarina e coreógrafa, atuando também na formação de jovens bailarinos e criando a primeira escola de dança profissionalizante no Brasil. A gravação de Imbapara feita por Francisco Mignone em 1942 pode ser facilmente acessada em bibliotecas digitais. É uma gravação histórica que reúne dois dos maiores músicos de sua geração. O enredo gira em torno de um cacique indígena vencido e condenado à morte, que tem sua última noite de amor com a índia Potyra, antes de ser cruelmente golpeado pela tribo inimiga.

O Batuque da Suíte Sinfônica Reisado do Pastoreio é responsável pela divulgação do nome de Lorenzo Fernández no panorama internacional. A obra, que tem grande efeito pela vitalidade rítmica e pela orquestração exuberante, foi gravada por Saul Caston com a Sinfônica da Filadélfica, Arturo Toscanini com a NBC de Nova York, Leonard Bernstein com a Filarmônica de Nova York, Eleazar de Carvalho com a Orquestra Sinfônica Brasileira, Edorado de Guarnieri com a Sinfônica Municipal de São Paulo, Claudio Santoro com a Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília e Roberto Minczuk com a Sinfônica do Estado de São Paulo.

[…]

 

ARTIGO PUBLICADO NA GLOSAS 7 ( Clique aqui para ler o artigo completo na versão impressa ).

Sobre o autor

Avatar photo

Musicóloga, Doutora em Educação, foi aluna de importantes compositores brasileiros como Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira e Mário Ficarelli. É docente e pesquisadora na Universidade de São Paulo desde 2004, sendo especialista em Repertório Coral e Práticas Corais. É líder do Grupo de Estudos e Pesquisas Multidisciplinares nas Artes do Canto e coordena projectos de Edição Musical, com ênfase na música brasileira. É graduada em Piano pela Faculdade Mozarteum de São Paulo, e em Comunicação Social pela ECA-USP (Jornalismo). Os seus temas de pesquisa relacionam-se com musicologia, história cultural, história da educação, estudos sobre biografia e autobiografia, relações entre música e literatura, relações entre oralidade e escrita.