No tempo em que eu privei com o compositor e maestro José Manuel (Joly) Braga Santos, por ser muito jovem, não tinha uma verdadeira consciência da importância da sua obra, ou da sua envergadura enquanto compositor, maestro, pedagogo e musicógrafo, como tenho hoje. Consequentemente, as minhas memórias e evocações são fundamentalmente da pessoa e não tanto do profissional da música. E, passados já bastos anos, poderá o tempo as ter já atraiçoado um pouco… mas pretendo mantê-las tal como as recordo, sem recorrer aos estudos e biografias entretanto feitos sobre ele.

O meu conhecimento com o maestro e compositor Joly Braga Santos fez-se em de 1975, era eu adolescente, recentemente chegada, como aluna interna, ao Conservatório Nacional. Nessa altura ele era simplesmente o “pai da Leonor”, sua filha mais nova, que era minha colega de turma no 3.o Ano de Educação Musical (actual Formação Musical) na Classe da Prof. Maria Amélia Abreu. Com efeito, como já referi atrás, só algum tempo mais tarde soube que se tratava não apenas de outro Professor do Conservatório Nacional, mas de um vulto já então importante da nossa música.

E o nosso relacionamento começou por ser muito curioso porque, por qualquer inexplicável motivo, (ou por alguma razão de que me não lembro agora), entre vários outros colegas da filha que, à saída das aulas também faziam o percurso do Conservatório para o “Metro” (na altura, para a estação dos Restauradores), foi a mim que ele incumbiu de “tomar conta da Leonorzinha”. Deverão aqui ser feitos dois importantes reparos: por um lado, o facto de o percurso para o referido Metro ser um pouco complexo para duas jovens adolescentes de 14 e 13 anos (eu e ela, respectivamente), recentemente saídas das “saias da mãe”, pois constava de um percurso a pé desde o Conservatório até à Rua da Rosa, daí descendo-se a Travessa da Boa Hora em direcção ao elevador da Glória, que seria tomado até à Praça dos Restauradores, onde apanharíamos o Metro até casa, saindo eu na Alameda e ela, depois de mim, em Roma. Por bastante pueril que possa parecer, nesses tempos quase “pré-históricos” de 70, e para duas jovens da nossa idade, era algo temerário, de facto, um percurso por aquelas bandas do Bairro Alto, bairro não propriamente “recomendável” pelos motivos sabidos de todos. Feito este reparo, deverá ser acrescentado que a Leonorzinha era nessa altura tímida em demasia, o que fazia sentir no pai uma necessidade de protecção que ele decidiu delegar, de certa forma, em mim. Lembro-me nitidamente das primeiras vezes em que ele vinha ter comigo, entregando-me solenemente o bilhete de Metro da Leonor, dizendo-me “Aqui está o bilhete da Leonor, tome conta dela, está bem?” ao que eu, também solenemente, respondia que sim. Comecei, então, a sentir-me, de certa forma, algo responsável por ela, eu que só tinha apenas mais um ano do que ela… E, por “inerência de cargo” fomos fomentando uma amizade, que continuou pelos anos fora em que nos mantivemos colegas, chegando inclusive a tocar juntas (ela ao violino, eu ao piano), e mesmo depois já na idade adulta. Recordo essa amizade com saudade, pois, apesar de não estarmos longe (ela é hoje violetista da orquestra Gulbenkian), não nos temos encontrado muito nestes últimos anos, mas revemo-nos sempre com prazer.

Presente na medida do possível, e embora tenha deixado pouco tempo depois de ser docente no Conservatório, o maestro ia acompanhando como figura tutelar, não apenas como músico, mas sobretudo como pai, as nossas incursões conjuntas pelo mundo da música. De tal forma, que não poucas vezes dava algumas “mãozinhas” nos trabalhos-de-casa de Educação Musical que exigiam alguma criação, como vim a saber anos mais tarde pela própria Leonor. Com efeito, entre outras, recordo certa vez que nos apresentámos numa audição de finalistas de Educação Musical (1979) na F.I.L (na altura à Junqueira), da Classe, novamente, da Prof. Maria Amélia Abreu, em que, entre alguns exercícios feitos por nós, se destacou sobremaneira um muito interessante, da Leonor…(!). E, segundo sei, esse hábito continuou, um pouco, inocentemente, pelas aulas de Harmonia. Era, com efeito, quase impossível não recorrer a pequenas ajudas caseiras quando se tinha um compositor em casa…

O meu contacto com o referido maestro iria intensificar-se, novamente como figura paterna, quando fui colega da sua outra filha mais velha, Piedade (Piúcha, como era chamada), na Licenciatura em História da Universidade Nova. Fizemos um trabalho em conjunto (a transcrição paleográfica da Crónica de D. Duarte, do Rui de Pina), para o também saudoso Prof. Doutor Oliveira Marques, trabalho que, na fase final, nos levou muitas horas de sessões de conjunto em casa dela. Foi assim que pude privar mais intimamente com o maestro Joly Braga Santos, conhecendo-o no seu ambiente familiar. Recordo o homem íntegro, carinhoso, solícito e simples, e as conversas com ele e sua mulher (D. Maria José) que, fora dos momentos de trabalho, vinham por vezes ter connosco, contando às vezes episódios familiares ou da sua vivência artística e profissional. Recordo muito o que contavam: a forma como ambos se conheceram, como passaram algumas vicissitudes nas suas vidas artísticas (a D. Maria José fora cantora), e como algumas vezes, sobretudo em Itália, se me não falha a memória, o maestro se viu na necessidade de fazer algumas composições “a metro”, como eles diziam (ora, quem as não tem?), para satisfazer encomendas prementes e necessárias em momentos mais atribulados da sua vida no estrangeiro; recordo episódios acerca da criação de algumas peças para puro entretenimento doméstico, como algumas obras singelas e, eventualmente, menos conhecidas, que escreveu para conjuntos instrumentais que envolvessem violino, viola e flauta transversal, para condizerem com os instrumentos tocados por suas filhas e um amigo delas (o Diogo Paes, creio, que seria flautista), e assim poderem brincar um pouco com a música.

Desses momentos domésticos recordo, também, divertida, a odisseia da compra de um frango assado para o jantar inesperado, face ao adiantado da hora de uma das tais sessões de trabalho, que o maestro foi incumbido de ir comprar à Pastelaria “Suprema”, creio, mesmo ali ao lado, com mil recomendações para não se esquecer “disto e daquilo”… Era, aliás, proverbial a distracção frequente do maestro para as coisas mais comezinhas (que não para as importantes), sendo por isso natural tantas recomendações; mas, apesar de tudo, ele lá se desenvencilhou muito bem com o dito frango e demais compras. Recordo, também, a propósito, diversas histórias familiares acerca de alguns seus acidentes, felizmente não fatais, por vezes no atravessar de uma rua, por ir distraído com alguma composição sua na cabeça, só voltando à realidade para acenar aflito ao carro, antes de ser atropelado… E, recordo, ainda, o facto de ter visto “ao vivo” as capas dos discos das suas obras, na sua maioria ilustrados com quadros do pintor Falcão Trigoso (avô paterno de sua mulher), que amplamente adornavam as paredes de sua casa…

Finalmente, mais tarde, no ano lectivo de 1987/1988, viríamos ambos a ser colegas, pese embora por pouco tempo, quando ele regressou ao Conservatório como docente, já eu aí sendo professora de Instrumento de Tecla. Lembro-me do caloroso reencontro e de alguns momentos de conversa que então estabelecíamos por vezes.

E aproximo-me do momento mais doloroso de recordar, que foi a sua demasiado inesperada e prematura morte, em finais desse ano lectivo. São, pois, o espanto e o sofrimento causados pelo seu desaparecimento físico, e os inevitáveis e tristes cerimoniais fúnebres, que naturalmente acompanhei junto da família, as últimas memórias que tenho deste excelente músico e compositor que, no final de contas, não tive oportunidade de, então, apreciar cabalmente. E, ao rebuscar no baú das recordações estas memórias um tanto adormecidas, sinto-me a um tempo dolorida e saudosa, mas também grata e orgulhosa por ter privado bastante de perto com este grande músico que não tem sido tão divulgado quanto merecia. •

Texto originalmente publicado na Glosas 3, 2011, p.36-38.

Sobre o autor

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É docente do Conservatório Nacional, Licenciada em História (1982) e em Ciências Musicais (1988) pela Universidade Nova de Lisboa, Mestre em Musicologia Histórica (2008), pela mesma Universidade. Possui igualmente o Curso Superior de Piano, concluído em 1984 no Conservatório Nacional. Tem-se dedicado preferencialmente à musicologia (conferências, artigos, recensões, etc.). Fez parte da Comissão Científica da reconstituição da "Embaixada do Rei D. Manuel de Portugal ao Papa Leão X em 1514" (Lisboa / Expo Sevilha 1992). Foi redactora especializada em diversos volumes da 'Nova Enciclopédia Larousse' (Círculo de Leitores, 1998), e co-autora nos vols. IX e X da 'Nova História de Portugal' (Presença). Com J. M. Pedrosa Cardoso tem já publicados dois volumes de um 'Manual de História da Música' (Sebenta), estando em preparação uma reedição da obra completa.