Nos dias 27, 28 e 29 de setembro, o público do Theatro São Pedro, em São Paulo, foi convidado a uma experiência muito diversa do que se tem em mente quando o assunto é ópera: a estreia mundial de Ritos de Perpassagem, de Flo Menezes.

A montagem, sob direção musical de Ricardo Bologna e direção cênica de Marcelo Gama, mobilizou, além da Orquestra do Theatro São Pedro, três grupos musicais convidados: o Neue Vocalsolisten Stuttgart, o Coro Contemporâneo de Campinas, ligado à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Studio PANorama de Música Eletroacústica, coordenado pelo compositor e ligado à Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde é professor. Como narrador, o barítono Marcelo Ferreira.

Definida pelo compositor como “uma NeutrinÓpera em dois TransAtos”, a obra estrutura-se em cenas relacionadas com ritos de passagem que marcam situações e etapas fundamentais da vida humana. O fio condutor da narrativa, que está longe de ser linear, é o Pitagorismo. Para além da invenção da palavra filosofia, das bases da matemática e da astronomia e da escuta da “harmonia das esferas”, Ritos destaca elementos pouco conhecidos e lembrados do legado pitagórico, como a sociedade fundada por Pitágoras em Crotona, em que os bens dos membros eram por todos compartilhados, e o episódio em que, vendo peixes se debatendo aflitos em uma rede, desafiou os pescadores a acertar o seu número, em troca de os libertarem, caso errassem. Pitágoras teria sido precursor, portanto, do comunismo e do vegetarianismo.

“NeutrinÓpera” refere-se aos neutrinos, partículas ínfimas que viajam quase à velocidade da luz, atravessando os corpos sem quase nenhuma interação. Menezes compara Pitágoras a um neutrino, por ter perpassado toda a história do pensamento ocidental, porém deixando em muitas áreas o seu rastro. O paradoxo de um Pitágoras-neutrino-sem-neutralidade, assumido pelo próprio compositor, causa perplexidade e certo incômodo. Pergunto-me se a lógica desse raciocínio seria justamente o fato de não associarmos ao seu nome diversas das contribuições aqui referidas.

Em alusão à teoria da transmigração das almas, as personagens principais – Pitágoras e seus seguidores assumidos ou atribuídos (Kepler, Santo Agostinho, Marx) e figuras mitológicas (Atena, Aracne e Palas) passam por distintas vozes, por vezes simultaneamente. Há também as personagens-som, Som-Neutrino e Som-Universo, que aparecem em diferentes vozes ao longo da ópera, e a maioria dos demais, nomes ligados à filosofia e à ciência, em vozes fixas.

O espetáculo, segundo o próprio texto de apresentação no programa, “questiona o gênero operístico, a apresentação musical e a própria fruição artística”. Nesse sentido, o próprio início deu-se de maneira fluida – ou confusa, dependendo da posição, experiência e julgamento do espectador. Parte do coro, orquestra e público previamente orientado iniciou no saguão, juntando-se aos poucos aos demais, que já estavam no interior do teatro. O coro interagia com a plateia em muitos momentos, inclusive no “inter-ato”.

O “libreto” era constituído por citações de pensadores antigos, modernos e contemporâneos e textos do próprio compositor, em nove idiomas: português, inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, russo, grego e latim. A sensação de excesso de informação, que acredito ser intencional e compartilhada pela maioria dos espectadores, relaciona-se com a estética “maximalista”, termo adotado pelo próprio Flo, que, por sinal, teve entre seus mestres – além de nomes como Berio, Boulez e Stockhausen – Bryan Ferneyhough, compositor associado à complexidade.

No âmbito da experiência particular, Ritos fez-me rever [pre]conceitos em relação a essa opção pelo complexo, mostrando o ato criador para além da exibição do conhecimento pessoal, na perspectiva da contemplação e perplexidade diante do mundo e de toda uma tradição de pensamento, um excesso de logos que nos escapa. E nesse escapar do inteligível, não há outra saída senão nos refugiarmos no sensível e, quem sabe, abrirmo-nos à “delícia de nos emaranharmos na complexidade”, como descreveu o compositor no texto de apresentação.

O silêncio, por outro lado, tem também papel fundamental na obra, não apenas como parte do equilíbrio sonoro, mas também como referência à observância de cinco anos de silêncio aos ingressantes na seita pitagórica. Aliás, a possibilidade do silêncio é questionada: o silêncio é na verdade um convite a ouvir outra coisa: algo do ambiente, ou do próprio corpo.

Equilíbrio é um dos grandes méritos da obra, especialmente se considerarmos seu escopo. Equilíbrio sobretudo do ponto de vista sonoro, da articulação entre vozes, instrumentos e eletrônica, e do uso da espacialização. Destacaram-se a qualidade da performance dos corpos artísticos e sua interação. Segundo Angelo Fernandes, regente do Coro Contemporâneo de Campinas, o compositor participou de grande parte dos ensaios orientando os performers sobre suas intenções e dialogando com eles de modo a encontrar as melhores soluções para a realização da ópera. Foi certamente um desafio e uma rica experiência de formação e vivência profissional para os jovens integrantes do Coro Contemporâneo, conforme relatou o barítono Willian Donizetti. Para além da escrita pouco convencional, era audível o deslocamento em relação à zona de conforto vocal nos falsetes das vozes masculinas do Neue Vocalsolisten, particularmente no contratenor, deve-se dizer…

Voltando à narrativa, chamaram-me especialmente a atenção as cenas O mercado [o intercâmbio experimental], em que parte da orquestra sobe ao palco e toca instrumentos trocados entre si, o comovente O Porto [o poder do ilimitado], em que são projetados os poemas Horizonte, de Fernando Pessoa, e Porto, de Maiakovski, “apagados” por ondas do mar, o curioso [e um tanto vaidoso] “jogo da verdade” proposto a Marx por suas filhas e também jogado por Menezes, as referências à intertextualidade, “teia” do pensamento e da obra em questão e à transitoriedade da escrita e, sobretudo, o jogo de futebol, que nos faz pensar em homenagem [a Gilberto Mendes e seu Santos Football Music], congraçamento, polarização e tantas outras coisas díspares, e que culmina numa manifestação, unindo passado e presente, palco e platéia numa experiência política.

Na despedida, segundo o programa, “o público é incitado a continuar atento a tudo o que se escuta, pois não há início nem fim”. Sigamos atentos, na expectativa de novas experiências como esta, “atravessando ligeiramente a noite reacionária”, conforme a epígrafe de Barthes.

Sobre o autor

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Guilhermina Lopes é doutora em música pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Brasil, com tese sobre a obra musical de temática brasileira de Fernando Lopes-Graça. Realizou um estágio de pesquisa PDSE-CAPES entre 2015 e 2016 sob a coorientação de Mário Vieira de Carvalho. É actualmente investigadora colaboradora do CESEM-UNL, membro do Grupo de Investigação Música, Teoria Crítica e Comunicação, participante do projecto temático “O Musicar Local” (FAPESP – UNICAMP/USP) e segunda-secretária da Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET), gestão 2017-2019. Participou de diversos eventos académicos nacionais e internacionais, tendo apresentado comunicações em Portugal, Brasil, Chile e Espanha. Dedica-se também ao estudo do canto lírico e integra o Coro Contemporâneo de Campinas, grupo ligado à sua universidade de origem.