A presente linha editorial, criada no seio do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, destina-se, essencialmente, a dar a merecida visibilidade aos compositores portugueses contemporâneos formados em música sacra.

O canto e a música tornaram-se, desde muito cedo, na Igreja Cristã, o meio privilegiado de manifestação humana para o louvor e para a glorificação de Deus, criando, desenvolvendo e edificando ao longo dos últimos vinte séculos um vasto e riquíssimo património musical, considerado actualmente, pela Igreja Católica Romana, um verdadeiro “tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte” (SC 112)1.

Durante muitos séculos, a história da música ocidental foi norteada pela praxis musical da Igreja então vigente, granjeando notoriedade muitos clérigos compositores por toda a Europa. Também em Portugal muitos períodos da história da música foram fortemente influenciados pela Igreja Cristã, mais precisamente, pela Igreja Católica. Identificamos com relativa facilidade, entre os proeminentes compositores portugueses, individualidades próprias do clero e músicos contratados ao serviço da Igreja.

Num passado mais recente, e no que concerne exclusivamente à Igreja Católica, o concílio Vaticano II (1961-1965) veio alterar profundamente os cânones referentes à composição musical para uso nas celebrações litúrgicas, ao mesmo tempo que relembrava e realçava a importância da criação de cursos superiores de música sacra. Em sentido diverso do que nos ilustra a História da Música, a propósito do Concílio de Trento (1545-1563) — também conhecido como o Concílio da Contra-Reforma, no qual, e no campo estritamente musical, foram instituídos o Canto Gregoriano e a polifonia de Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594) como arquétipos a seguir — as preocupações do Concílio Vaticano II são outras e mais profundas:

Tinha-se, pois, a impressão que o conflito respeitava sobretudo o âmbito do uso da música. Entretanto, porém, a rotura aprofundou-se. A segunda vaga da reforma litúrgica radicalizou o problema até aos seus fundamentos. Trata-se agora da natureza da acção litúrgica como tal, das suas bases antropológicas e teológicas. O conflito que atinge a música sacra é sintomático e descobre um problema mais profundo, a saber: o que é a liturgia (Ratzinger 1985, 189).

Os cuidados a ter com a música nas celebrações litúrgicas prendem-se, doravante, com a sua liturgicidade (vide Antunes 1996, 199-200), com a sua capacidade intrínseca em se adequar, com maior ou menor fidelidade, ao rito litúrgico que se pretende celebrar e tornar inteligível².

Depreende-se com relativa facilidade que, devido às novas orientações conciliares, muitas obras do passado, bem como algumas modernas, deixaram de ter lugar nas liturgias actuais. Que implicações e (ou) consequências acarreta esta nova realidade para os compositores contemporâneos? Será que estes deixaram de cultivar os grandes modelos musicais consagrados pela história? Ou será que, apesar do novo paradigma, ainda encontram neles uma forma de expressão da fé? E, sendo este o caso, em que contexto e em que condições são interpretadas as suas obras?

Este assunto tem-me merecido alguma atenção ao longo de vários anos, culminando recentemente, com a publicação de um texto que aborda, entre outras, as questões suscitadas (vide Bernardino 2014, 363-399). Integrado no projecto “’A música no meio’: o canto em coro no contexto do orfeonismo (1880-2012)”, a reflexão referida revela-nos, entre outros, que vg. a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, e cingindo-nos exclusivamente à música coral de Manuel Faria, contém nos seus acervos 1 Ópera, 11 Missas, 49 obras para Coro a Cappella, 12 peças para Coro com acompanhamento de um pequeno efectivo instrumental, 53 obras para Coro com acompanhamento de Órgão, Piano ou Harmónio e 40 harmonizações de obras diversas. Relativamente a compositores ainda vivos, e no caso do Cónego Ferreira dos Santos, à data de 2010 a sua obra Coral-Sinfónica incluía: 2 Salmos, 10 Cantatas, 1 Oratória de Natal, 1 Paixão segundo S. João, 1 Requiem, 1 Magnificat e 1 Sinfonia Coral. Esta catalogação prévia contempla ainda 4 obras para Coro acompanhado de órgão e outros instrumentos. Grande parte deste repertório ainda nunca foi apresentada. É imperativo salientar que se trata de dois compositores que mais se destacaram no meio musical sacro, havendo, além destes, um grande número de compositores ainda por conhecer. Outro ângulo do texto evidencia o afastamento da sociedade contemporânea, com destaque para as ciências musicais e para as instituições culturais, da vida cultural da Igreja, ignorando, particularmente da perspectiva musical, o que ela tem produzido nas últimas décadas.

Deste modo, sob a chancela do mpmp e sob a direcção editorial de João Santos e eu próprio, ambos formados em Música Sacra pela Escola das Artes da Universidade Católica, apresenta-se ao público um novo paradigma, na expectativa de um novo e renovado rumo para a música sacra portuguesa.

Queira Deus que este projecto prospere, sempre para ad majorem Dei gloriam.

Capa do primeiro volume da colecção ‘sacra XX-XXI’


Notas

1 Constituição Sancrosanctum Concilium do Vaticano II, sobre a sagrada liturgia, n.º 112.
2 Apesar de o propósito deste texto não passar pelo debate sobre a música mais apropriada às celebrações litúrgicas, ficam algumas referências bibliográficas para uma maior compreensão do tema (vide Ratzinger 1985; Martín 1992; Antunes 1996; Donella 1998a, 1998b).


Bibliografia

Antunes, José Paulo da Costa. 1996. SOLI DEO GLORIA – Um contributo interdisciplinar para a fundamentação da dimensão musical da liturgia cristã. Porto: U.C.P. – Porto; Fundação Eng. António de Almeida.

Bernardino, Paulo. 2014. Música sacra em Portugal nos séculos XX e XXI: um tesouro a descobrir. In Vozes ao Alto. Cantar em coro em Portugal (1880-2014), coord. M. d. R. Pestana. Lisboa: MPmp.

Donella, Valentino. 1998a. Para nos entendermos. In Nova Revista de Música Sacra n.º 85, ed. A. A. Oliveira. Braga: Diocese de Braga – Comissão Bracarense de Música Sacra.

Donella, Valentino. 1998b. Para nos entendermos (segunda parte). In Nova Revista de Música Sacra n.º 86, ed. A. A. Oliveira. Braga: Diocese de Braga – Comissão Bracarense de Música Sacra.

Martín, Julian López. 1992. Canto y Musica en la Liturgia. Ponto de vista teologico. In La Música en la Iglesia-  De Ayer a Hoy, ed. A. G. Garcia. Salamanca: Publicaciones Universidad Pontificia de Salamanca; Caja Salamanca y Soria.

Ratzinger, Joseph. 1985. Liturgia e Música Sacra. In A Música Sacra nos documentos da Igreja, edC. E. Portuguesa. Coimbra: Gráfica de Coimbra, Lda.

Sobre o autor

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Paulo Bernardino é maestro, compositor, organista e pianista. Licenciado em Música Sacra pela Universidade Católica Portuguesa, no Porto, e Professor na Escola Diocesana de Música Sacra de Coimbra desde 1994, tem desempenhado desde então as funções de organista titular da Sé Catedral de Coimbra e da Capela da Universidade de Coimbra.