No passado dia 27 de Fevereiro, no Auditório da Casa das Mudas, na Calheta, Madeira, totalmente lotado, foi estreado o espectáculo intitulado “A Viagem de Sonhos”, protagonizado pelo grupo de dança contemporânea InCORPOrARTE que envolve sessenta crianças de várias escolas do primeiro ciclo do ensino básico daquele município da zona oeste da Madeira, num projecto inédito em Portugal: os espectáculos interactivos.

“A Viagem de Sonhos” é uma ideia original de Juliana Andrade, que foi ainda responsável pelas coreografias, em co-criação com os bailarinos do InCORPOrARTE, selecção musical, desenho de luz e direcção-geral. Juliana Andrade é uma jovem docente da Direcção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM). Aliás, este serviço da Secretaria Regional de Educação da Madeira conta, actualmente, com vinte grupos entre orquestras, tunas, agrupamentos, grupos de dança e de teatro, entre eles o InCORPOrARTE, que protagonizam uma temporada artística anual descentralizada pelos onze municípios da Região Autónoma da Madeira, com uma envolvência de cerca de duzentos espectáculos em cada ano.

O solista de “A Viagem de Sonhos” foi Nuno Velosa, “o rapaz que ousa sonhar e imaginar um mundo que de tão imaginário é tão real e presente”. Segundo a autora, trata-se de “dar vida ao absurdo, mas familiar, sonho de um rapaz”.

Juliana Andrade acrescenta na sinopse do espectáculo:

Por vezes cedemos aos medos, sentimo-nos sós, perdidos, por vezes viajamos sem tocar com os pés no chão, estamos nas nuvens, por vezes somos engolidos pelas nossas ideias, pelas ideias dos outros, deixamo-nos levar ao sabor do vento ou lutamos contra ele, muitas vezes percebemos que o nosso mundo está ao contrário e não deveríamos estar onde estamos, a maior parte das vezes sentimo-nos presos do lado errado do vidro, apenas como observadores que anseiam por atravessar para o outro lado, o lado da felicidade…

Este trabalho pretende fazer-nos viajar pelo inconsciente expressado incisivamente nos nossos sonhos, num ambiente irreal, absurdo e exagerado, onde seremos levados a divagar pelo “faz de conta” do nosso imaginário mais profundo. Podemos afirmar que se tratou de um momento único de rara beleza pois a concepção deste espectáculo, apesar de complexa, resultou na perfeição. De destacar a qualidade na selecção musical, a criatividade nas variadíssimas coreografias, o requinte no desenho de luz, a interacção com as crianças do ensino básico que, em suma, resultaram num conjunto de grande qualidade, apesar dos artistas serem apenas alunos.

O modelo de espectáculo interactivo foi idealizado pela DSEAM, no ano de 2008, e visa envolver crianças e jovens do ensino básico que, de forma pensada e organizada, intervêm activamente nos projectos. O director artístico do grupo da DSEAM articula o repertório e ensaios com os docentes das áreas artísticas das escolas, preparando os alunos para integrarem nos espectáculos outros jovens mais avançados nas artes (os que integram os grupos da DSEAM). Se por um lado este projecto tem o propósito de cativar mais alunos para o ensino das artes, por outro leva muito mais público aos eventos. Os pais e as famílias dos alunos são presença assídua e desta forma aproximam-se das várias artes do espectáculo. Um dos propósitos desta organização é aumentar, paulatinamente, os públicos fruidores das diversas expressões artísticas de palco.

Segundo a organização, os concertos interactivos revelaram-se um projecto fortemente motivador pelas seguintes razões:

(1) Grande motivação e orgulho, pelo facto de a plateia ser constituída, na sua maioria, por familiares; (2) Proporciona experiências pedagógicas enriquecedoras e significativas que podem ser consolidadas e douradoras; (3) Potencia a valorização da integração nos grupos da DSEAM e apela à diferenciação pedagógica; (4) A apresentação pública é motivante; (5) Proporciona a descoberta de novos talentos; (6) Propicia um clima de trabalho envolto em relações humanas de grande elevação; (7) Proporciona motivação pela repetição do trabalho; (8) Aproxima mais os alunos da escola e torna-os mais inclusivos; (9) A escolha do repertório é importante para a motivação dos estudantes e dos próprios pais; (10) É praticável a rentabilização dos saberes individuais dos estudantes. (11) É importante que os estudantes trabalhem com grupos musicais de relevo, porque o seu interesse, disponibilidade e entrega para com as obras a executar aumenta quando sabem que vão interagir numa actuação pública; (12) Adquirem autonomia na maioria das suas interpretações.

Pelo que apurámos, este espectáculo será reposto, ainda no decurso desde ano, noutras salas de espectáculo da Madeira.

 

Sobre o autor

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Carlos Alberto Meneses Gonçalves é Doutor em Ciências do Trabalho pela Universidade de Cádiz (Espanha), onde recebeu o Diploma de Estudos Avançados na área científica de Psicologia Social. É licenciado em Administração e Gestão Escolar e diplomado com o Curso Superior de Música (Piano e Canto). Foi professor em diversas instituições, incluindo o Conservatório de Música da Madeira, a Universidade da Madeira, o Instituto Superior de Ciências Educativas e o Instituto Politécnico de Setúbal. É investigador integrado do CIPEM (Centro de Investigação em Psicologia da Música e Educação Musical), no Instituto Politécnico do Porto, e do INET-md (Instituto de Etnomusicologia - Estudos de Música e Dança (FSCH/Universidade Nova de Lisboa). É Director de Serviços de Educação Artística e Multimédia da Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos do Governo Regional da Madeira.