O Estúdio GLB é uma das editoras discográficas mais relevantes no que concerne à divulgação da música de compositores brasileiros do século XX. Do seu catálogo destacam-se, em número e em importância histórica, as primeiras gravações absolutas de várias obras de José Guerra Vicente, compositor nascido em Almofala, Portugal, em 1907, e falecido no Rio de Janeiro, Brasil, em 1976.
Através de uma parceria inédita com o MPMP, plataforma constituída por centenas de músicos lusófonos em prol da divulgação do património musical de tradição erudita ocidental, que tem desenvolvido também vários projectos discográficos (e edita a revista glosas), o Estúdio GLB tem agora parte do seu catálogo acessível no iTunes, Deezer, Spotify e em outros serviços semelhantes. Os títulos em distribuição digital são catorze:
Série Música Brasileira 1
Série Música Brasileira 2
Série Música Brasileira 3
Villa-Lobos e o violoncelo I
Villa-Lobos e o violoncelo II
Brasil 500
José Guerra Vicente — Série Música Brasileira 10
Guerra- Peixe | Aguiar
José Guerra Vicente — Obras para orquestra de cordas
Nacionalistas
Trio de Brasília
Conversa a dois
Sonatas [de José Guerra Vicente]
Sinfonia Brasília [idem].
Dentre o total de 149 faixas de música, o equivalente a onze horas e dezassete minutos de música, incluem-se gravações de obras do já referido José Guerra Vicente, Heitor Villa-Lobos, César Guerra-Peixe, Marlos Nobre, Ernani Aguiar, Cláudio Santoro, Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Osvaldo Lacerda, Alberto Nepomuceno, Henrique Oswald e Luiz de Freitas Branco, participando como intérpretes o célebre pianista Luiz de Moura Castro, o Quarteto de Brasília, a violinista Ludmila Vinecka e o violoncelista Antonio Guerra Vicente (filho de José Guerra Vicente), entre outros.
Todas estas gravações podem já ser escutadas na Rádio GLOSAS, uma playlist do Spotify:
A 2 de Março foi assinado o acordo de constituição do Observatório da Canção de Protesto entre quatro instituições: Câmara Municipal de Grândola, Associação José Afonso, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense.
Este observatório, projectado inicialmente pelo município de Grândola e a Associação José Afonso em 2007, vê-se agora fortalecido com a participação de mais duas instituições. A Faculdade de Ciências Sociais e Humanas será representada pelos centros de investigação Instituto de História Contemporânea (IHC) e Instituto de Etnomusicologia – Música e Dança (INET-MD), ambos capazes de fornecer perspectivas alargadas sobre o que foi a canção de protesto.
A canção de protesto, ou canção de intervenção, designa um tipo de música popular portuguesa de linha melódica simples acompanhada geralmente por guitarra, por vezes por conjunto instrumental, que serve de suporte rítmico e harmónico. Ligada a movimentos de contestação à situação precária do país, ao regime ditatorial imposto, à guerra colonial e à falta de liberdade, a canção de protesto não se limitou a 1974 nem ao 25 de Abril. Remonta aos anos 40 como crítica às más condições em que vivia a maioria da população portuguesa e estendeu-se até inícios dos anos 80. É este património poético-musical, rico e profundamente relevante da história recente do país, que o Observatório da Canção de Protesto tem por finalidade preservar, estudar e divulgar. O acordo prevê aproximar e revalorizar os núcleos patrimoniais existentes e a realização de iniciativas como colóquios, jornadas de estudo, exposições, publicações e concertos.
A assinatura do Acordo de Constituição do Observatório da Canção de Protesto decorreu às 15h de 2 de Março na Câmara Municipal de Grândola.
Num programa integrado apenas por compositores portugueses contemporâneos – António Victorino d’Almeida (1940), César Viana (1963), Paulo Jorge Ferreira (1966) e Sérgio Azevedo (1968) – apresentou-se na Igreja da Misericórdia, em Tavira, no Sábado 28 de Fevereiro, o Duo Contracello, formado pelo violoncelista Miguel Rocha (51 anos) e pelo contrabaixista Adriano Aguiar (54 anos). O Duo Contracello iniciou a sua actividade em 1993, tendo por objectivo a execução de repertório para esta rara formação de dois instrumentos da mesma natureza: corda friccionada. Aliou-se a este desafio a dificuldade inerente à receptividade da música contemporânea.
Apesar de pouco frequente, este tipo de agrupamento já tem alguma tradição na história da música. Recordemos, por exemplo, Domenico Dragonetti (1763-1846), veneziano pioneiro na introdução do contrabaixo na música de câmara e orquestra, que se apresentou várias vezes em duo com o violoncelista Robert Lindley (1775-1855), ou Gioachino Rossini (1792-1868), que escreveu um dueto para violoncelo e contrabaixo em ré maior. Nos últimos cinquenta anos, quase todos os grandes compositores escreveram para esta formação.
O concerto integrou o projecto Música nas Igrejas, já há oito anos em vigor, realizando concertos todos os sábados, às 18h, na cidade de Tavira. De acordo com Josué Nunes, director da Academia de Música de Tavira, o projecto Música nas Igrejas tem como objectivo aliar a música à arquitectura, em particular ao património arquitectónico religioso, pois Tavira tem dentro do seu casco urbano vinte e uma igrejas, cifra que lhe valeu o cognome de “cidade das igrejas”ou “Roma do Algarve”. Estando muitas destas igrejas des-sacralizadas, a utilização das mesmas para a realização de concertos de música erudita de qualidade reavivou a sua existência e contribui para a sua preservação.
A Igreja da Misericórdia, edificada entre 1541 e 1551, situa-se Vila-a-dentro, junto à Porta D. Manuel I, e é considerada a mais notável expressão renascentista do Algarve. De acordo com a informação do Município de Tavira, que apoia logisticamente o projecto, a Igreja da Misericórdia é “obra do mestre pedreiro André Pilarte, então residente em Tavira, que trabalhou na construção do Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa. As características renascentistas estão bem patentes na composição e decoração do pórtico principal, em arco de volta perfeita, decorado com motivos inspirados em gravados italianos, rematado por um admirável conjunto escultórico que integra a imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, ao centro, ladeada pelas figuras de São Pedro e São Paulo e pelas armas do reino e da cidade. Este edifício utiliza uma tipologia de três naves e quatro tramos formados por arcos moldurados assentes sobre colunas com capitéis renascentistas cuidadosamente ornamentados. Em substituição do anterior retábulo quinhentista, pintado por Pedro da Campânia, encontramos do período barroco três magníficos retábulos: o da capela-mor e dois colaterais, datados de 1722. O retábulo principal é da autoria do mestre entalhador tavirense Manuel Abreu do Ó. Em 1754 foram abertas quatro janelas barrocas no corpo da igreja pelo distinto mestre Diogo Tavares de Ataíde, e em 1760 foram colocados dezoito painéis de azulejos figurativos azuis e brancos, executados na oficina de um mestre lisboeta. Representam as catorze obras espirituais e corporais que norteiam a actividade da irmandade da Misericórdia e alguns Passos da Vida de Cristo.”
fotografia de Rui Beja
Com a crise, a Academia de Música de Tavira que anteriormente contava com apoio financeiro de diversas fontes, permitindo a gratuitidade dos concertos, passou a solicitar uma contribuição de €5. No entanto, o projecto continuou porque conseguiu fidelizar o público. Mas que público? De acordo com Josue Nunes, 90% do público é estrangeiro e idoso: reformados que escolheram o solarengo Algarve para residir e que anseiam por alguma cultura. Raramente se regista presença portuguesa na audiência. Trata-se de um público tradicional, facto em virtude do qual um concerto composto apenas por música contemporânea constituiu um enorme risco.
fotografia de Rui Beja
Como dar a ouvir música contemporânea? Talvez uma das formas seja o exemplo dado por Adriano Aguiar que de um modo muito acessível se dirigiu ao público apresentando as obras, contextualizando-as e, sobretudo, apelando à imaginação do ouvintes. Recordou também como durante o nazismo a música atonal foi considerada degenerada, “um estigma do qual nos estamos ainda a tentar livrar!”. Luis Conceição, pianista e musicólogo, director pedagógico da Academia de Música de Tavira, traduziu para inglês as palavras de Adriano Aguiar cativando assim a assistência estrangeira. Com a motivação adequada, criado um estado de disponibilidade receptiva, abertura de mente e imaginação, ninguém arredou pé!
fotografia de Rui Beja
De Paulo Jorge Ferreira ouviu-seDuplum, peça com um pé na tonalidade, outro fora dela. Explicadas as influências da 2.ª Escola de Viena, os ambientes severos de Schoenberg, Berg e Webern, despertou-se a curiosidade dos ouvintes para uma obra que, apesar da impossibilidade de previsão, nunca chegou a entrar na zona de estridência. Como o próprio compositor afirma: “o nome, Duplum, encerra uma das características base desta peça. Existem alguns momentos durante a obra em que os dois instrumentos se entrelaçam de tal forma que chega a não ser perceptível ‘quem está a tocar o quê’. Apesar de um ambiente por momentos algo misterioso, até mesmo melancólico, a imagem mais presente é sempre de grande agitação, conferida por um carácter rítmico muito marcado, vivo e, por vezes, complexo.”
Seguiu-se-lhe de César Viana o 2.º Andamento, “Lento”, da obra L’eau qui dort (A água que dorme). De novo, dirigindo-se ao público, Adriano Aguiar afirmou que aquela música apela a um sentido de oração e por isso se tornava tão adequado interpretá-la numa igreja. No entanto, chamou a atenção para o facto de que, sendo a obra inspirada nos judeus sefarditas, não deixa de ser insólito tocá-la numa igreja católica, ainda que des-sacralizada. E assim se passou da musicologia à reflexão sobre os tempos complexos em que vivemos, e se apelou à paz e à união dos povos.
De António Victorino d’Almeida, profícuo compositor, pianista, escritor, cineasta, musicólogo, figura bem conhecida do público, interpretou-se Toccata Dupla. Obra em dois andamentos, um lento, outro rápido, que parece ter sido escrita num só gesto de improvisação. Aliás, a capacidade de improvisação de Victorino d’Almeida é sobejamente conhecida: faz recitais inteiros pedindo um tema ao público e improvisando, depois, sobre ele. Sobre esta obra o compositor afirmou: “o contrabaixo deve encarar-se como uma voz autónoma, particular e inconfundível, razão pela qual escrevi esta pequena tocata – por natureza uma obra virtuosística –, ao longo da qual tanto o violoncelo como o contrabaixo transmitem as suas respectivas mensagens na plena fruição da sua natural independência expressiva. E por isso a tocata é dupla.”
Finalizou o concerto Divertimento Concertante de Sérgio Azevedo: seis mini-peças em que nenhuma delas chega a alcançar três minutos: Entrada, Valsa, Presto, Arioso, Marcha e Ostinato. Um desafio de contenção, de ida à essência, que evoca Debussy mas também o prazer e o humor, bem patentes na virtuosa interpretação dos executantes. Sérgio Azevedo afirmou: “Fundamentalmente, tentei equiparar os dois instrumentos, não deixando que o violoncelo, naturalmente mais ágil e agudo, e de timbre mais penetrante, dominasse. Trata-se verdadeiramente de um duo, e de um duo de características concertantes dada a dificuldade de cada parte. No entanto, formalmente, é uma suíte, um conjunto de peças separadas, de peças de carácter (scherzo, valsa, marcha, etc.), embora unidas por uma ambiência sonora comum.”
Ao longo de duas décadas de existência o Duo Contracello actuou em Portugal, Espanha, França, Suíça e Estados Unidos da América. Em Portugal destaca-se a sua participação nos Festivais de Música de Espinho, de Leiria, no Porto 2001 e no Festival CriaSons. O seu repertório, que se estende de Couperin a Berio, tem sido enriquecido com obras originais especialmente dedicadas ao duo, algumas das quais tivémos a oportunidade de ouvir neste concerto.
O novo CD, Duo Contracello III, será lançado no próximo dia 23 de Março na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, em Lisboa, às 21h30, continuando a assumir o espírito de missão que os caracteriza: divulgar música portuguesa contemporânea.
Nas últimas semanas tornou-se mediática uma luta que dura há muitos (demasiados) anos. Um vasto leque de adjectivos tem definido as condições do edifício da Escola de Música do Conservatório Nacional (EMCN). Desde deplorável, vergonhosa, inconcebível, gritante, calamitosa, triste, criminosa, e por aí fora – todas estas palavras juntas são pouco para descrever a realidade que é da exclusiva responsabilidade das sucessivas performances de «assobio para o lado», protagonizadas por responsáveis da tutela (ministros, secretários de estado, directores de vários organismos públicos) nos vários governos PS, PSD e CDS. São estes os responsáveis por toda esta história decadente de má qualidade!
A história é demasiado longa para ser aqui narrada; não obstante, o comunicado de Fevereiro de 2015, da Associação de Pais da EMCN, reúne alguns dos principais dados a partir de 2000. Já os factos estão à vista de qualquer um que arrisque passar pela Rua dos Caetanos, no Bairro Alto, em Lisboa. Para aqueles que não conhecem esta realidade de perto e queiram, por curiosidade, experienciar uma escola que funciona num edifício em ruínas, é bom que tomem algumas precauções. Basta a leitura do “Auto de Vistoria”, da Unidade de Coordenação Territorial da Câmara Municipal de Lisboa, com a data de 3 de Dezembro de 2014, para percebermos a gravidade da situação:
A última «grande campanha de obras» no edifício onde a EMCN está instalada desde a década de 30 do século XIX data de 1942;
A «queda de elementos metálicos e de madeiramentos para a via pública» é comum, bem como a «sujidade generalizada», o envelhecimento, a degradação, a «fissuração dispersa» e as «extensas áreas enegrecidas» das paredes exteriores e interiores;
Verifica-se a «insegurança em relação ao risco de incêndio devido às infiltrações em contacto com a rede eléctrica que evidencia vetustez e elementos em falta»;
«Os elementos estruturais que poderão oferecer maior risco são as paredes, por risco de queda de elementos de revestimento e por apresentarem fendilhações e (ou) deformações significativas, bem como outros elementos, nomeadamente os madeiramentos estruturais degradados, com anomalias resultantes de infiltrações prolongadas de águas, referindo-se os vigamentos nas zonas localizadas junto às fachadas (onde se observam as manchas de humidade no interior das salas), alguns vigamentos da estrutura da cobertura, dos tectos e dos pavimentos».
Ora, se por um lado podemos ver aqui, em toda a plenitude, o desrespeito dos membros dos sucessivos governos pelo ensino artístico em Portugal, por outro lado, o simbolismo de toda esta situação é demasiado evidente para não ser referido. Na minha opinião, o edifício da EMCN é talvez a melhor representação simbólica de todos os constrangimentos e condicionantes do campo artístico e cultural em Portugal.
Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, no livro O Capitalismo Estético na Era da Globalização (2014), afirmam que se pode «reconhecer nas artes o laboratório do mercado de trabalho tal como ele se desenvolve no neo-capitalismo desregulado. Com efeito, o que domina a organização dos ofícios da arte é o trabalho como free-lance, o emprego intermitente, a flexibilidade contratual […]. Multiplicam-se os empregos atípicos, os empregos a tempo parcial, temporários, trabalho independente: o momento é de individualização e de multiplicação das formas do salariado. Pierre-Michel Menger sublinha [em Portrait de l’artist en travailleur. Métamorphoses du capitalisme (2002)], justamente a ironia da nossa época na qual as artes, que durante muito tempo fizeram figura de realidade oposicional à hidra capitalista, aparecem hoje como vanguarda da hiperflexibilidade do mercado de trabalho» (Lipovetsky e Serroy, 2014: 72).
Ao analisar o estado do ensino artístico em Portugal, bem como das práticas culturais, verificamos exactamente este «laboratório do mercado de trabalho» tal como descrito. Ora, é urgente pensar e discutir estruturalmente todo o ensino artístico! É urgente deixarmos de tapar os olhos quando confrontados com professores de música que demoram 10, 15, 20 anos a se tornarem efectivos numa escola – há vários exemplos como este na própria EMCN. É urgente a solidariedade e luta por uma maior dignificação da grande maioria dos professores de música em todo o país que sobrevivem com salários de apenas nove meses, apenas pagos à hora – na verdade as entidades patronais reduzem a hora a 45 minutos –, ignorando todo o tempo de estudo, preparação das aulas, desgaste dos próprios instrumentos, deslocações entre escolas com o seu próprio carro sem direito a subsídios, entre muitas outras condicionantes. É fulcral fazer uma revisão de fundo ao enquadramento legal dos professores de música, de forma a que estes tenham condições para lutar pelos seus próprios direitos e confrontar – quando necessário – as entidades patronais, que não poucas vezes utilizam a chantagem e a necessidade dos próprios professores para não efectuarem os pagamentos de salários, muitas vezes por seis meses – aliás, como foi também tornado público recentemente.
Estas e muitas outras questões – sobre as quais é urgente reflectir criticamente e agir em colectivo de forma a encontrar soluções para a dignificação do campo artístico – assumem uma importância ainda maior ao reflectirmos sobre o seu impacto na própria classe profissional. Músicos e professores de música por todo o país encontram-se literalmente desamparados, pois devido a todas estas condicionantes que resultam do sistema capitalista não se pode dizer que exista um sentimento de pertença a uma comunidade, a uma classe profissional. Se nada for feito, o futuro dos alunos de hoje tenderá obrigatoriamente a ser ainda pior que o presente dos seus professores.
De notar ainda o silêncio embaraçoso do Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual (CENA) a este respeito, quando se exigiria do mesmo uma participação activa e mobilizadora. A título de exemplo, um debate semelhante foi lançado na Alemanha em Novembro de 2014, com algum impacto nos média. Os professores de várias Musikhochschule (Escolas Superiores de Música) denunciaram precisamente estas situações contratuais que descrevi e receberam um grande apoio da comunidade musical e artística, bem como da sociedade civil – o apoio da violinista mundialmente reconhecida Anne-Sophie von Mutter teve um grande destaque, por exemplo.
Se é de aplaudir de pé a mobilização por parte da direcção, dos professores, dos pais e dos alunos da EMCN, não posso deixar de fazer três apelos para que este esforço mobilizador seja o início de uma luta que tarda em ser travada. O que se joga aqui não são simplesmente umas obras de recuperação de um edifício histórico ou o direito a condições dignas para o funcionamento de uma escola pública:
Esta luta tem de ser o início de muitas outras lutas. Não deitemos fora a oportunidade criada pela mobilização que se tem verificado nas últimas semanas;
É necessário o envolvimento de toda a comunidade musical e cultural – universidades, escolas superiores, outros conservatórios, escolas de música, instituições culturais e de promoção da cultura, associações de ensino e divulgação de cultura, sindicatos, etc. – porque esta luta tem de ser o início da luta pelo direito à cultura em Portugal, bem como pelo direito a condições dignas para os seus agentes – profissionais, académicos, alunos, pais, públicos;
É urgente o envolvimento da sociedade civil. Tal como a mobilização verificada no apoio ao movimento ‘Não TAP os Olhos’, pela não privatização da TAP – apenas para citar o mais recente –, o apoio e a solidariedade de outros sectores de actividade e da sociedade em geral também tem de ser demonstrado neste caso. Na minha opinião, os públicos de arte têm aqui um papel fundamental. Ao fazerem parte de toda esta estrutura e ao integrarem o tecido social de produção de conteúdos e actividades artísticas têm de tomar necessariamente a parte dos próprios artistas e não daqueles que os querem constantemente humilhar e não dignificar.
Durante os abraços, as vigílias, os concertos de protesto e as manifestações, têm de ser lançadas as bases para as lutas que têm de ser travadas amanhã (e este amanhã é mesmo literal)! Não nos podemos esquecer de que as condições de trabalho e de ensino não são constituídas apenas por infra-estruturas. Mesmo que estas sejam renovadas, urge lutar pela dignidade de uma classe profissional que teima em não se afirmar enquanto tal. Com trabalho, empenho, mobilização e uma perspectiva mais alargada desta luta e das que se avizinham, estará a ser criada uma oportunidade histórica para a construção de um futuro melhor, mais justo e mais democrático. Resta-nos lutar e colocar todo o nosso empenho para que isso aconteça. Não deixemos escapar esta oportunidade!