Música de câmara em Ponta Delgada e Praia da Vitória

Realiza-se amanhã, dia 30 de Abril pelas 21h30, um recital de música de câmara no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada (Açores). Este evento é organizado pela Direcção Regional da Cultura do Governo Regional dos Açores, integrando a Temporada Artística 2015.

O programa para este recital é composto pelo Quarteto com piano n.º 1 em sol menor KV 478 de Wolfgang A. Mozart, o Quinteto com piano n.º 2 op. 81 de Antonín Dvořák e o Quarteto com piano em lá menor op. 67. Serão intérpretes Vesna Stankovic-Moffat e Tamila Kharambura (violinos), Christian Euler (viola), Julian Arp (violoncelo) e Anna Ulaieva (piano).

O mesmo programa será repetido por este agrupamento no dia 3 de Maio, pelas 21h30, no Auditório do Ramo Grande, na cidade da Praia da Vitória. Contrariamente aos anos anteriores em que a Temporada de Música teve direito a site próprio, com informação detalhada sobre os vários eventos, no ano passado e neste ano a renomeada Temporada Artística promovida pela Direcção Regional da cultura tem vindo a ser anunciada através da Agenda Cultural no site deste organismo, com breves notas sobre os respectivos eventos, privilegiando artistas oriundos dos Açores ou com actividade no Arquipélago.

Dias da Música 2015 – algumas impressões (I)

Sob o signo da sétima arte, os Dias da Música, em Belém, Lisboa, chegaram e passaram. Em 64 concertos, dos quais 35 esgotados, mais 11 concertos informais, no Coreto e no Palco Música Exterior, 19 sessões de cinema, 6 debates no espaço “Aqui há conversa” e mais uma mão cheia de actividades paralelas de projectos educativos e espectáculos por alunos de escolas e academias de música. Cerca de 1700 músicos, 26646 bilhetes vendidos (até às 17h de Domingo) e taxa de ocupação de 89%. São os números divulgados pelo CCB como síntese do último fim de semana, números que impressionam q. b. mas que não fazem mais do que uma contagem daquilo que foram três dias plenos de música.

 

[alert type=blue ]Sábado, 25 de Abril[/alert]

À frente da sala Fernando Pessoa, poucos minutos antes das 16h, uma fila de ouvintes desenhava-se longa e expectante para o concerto dedicado à música do cinema português dos anos 30 e 40. O programa apresentava compositores que poucas vezes se escutam em sala de concerto. O concerto reunia canções, fados e marchas escolhidos de nomes tão diversificados como Frederico de Freitas, Luiz de Freitas Branco, Ruy Coelho, Afonso Correia Leite e Armando Rodrigues, Afonso Correia Leite, Wenceslau Pinto, Cruz e Sousa, Raul Ferrão, Raul Portela e António Melo, para filmes tão populares como Aldeia da roupa branca, O Costa do castelo ou Maria Papoila e Camões. Servindo-se de excertos dos filmes, cortados e colados sem sequência e sem coincidirem com as peças tocadas, o concerto perdeu parte da sua força porque as imagens atraíam a atenção dos ouvintes e sobrepunham-se à música. Vera Morais (flauta), Mário Franco (contrabaixo) e Francisco Sassetti (piano) usaram de todo o seu engenho para recriar aquelas peças, mas perderam-se entre as imagens e no final os aplausos aos músicos pareciam confundir-se com os aplausos a António Silva e companhia. Porém, o aspecto mais desconfortável do concerto foi a selecção de imagens de Salazar discursando frente a uma parada militar para acompanhar a interpretação de Minha casinha, canção nostálgica bem reconhecida do público. Foi um momento que me pareceu infeliz e de certa forma saudosista.

O intervalo antes do concerto seguinte permitiu desanuviar e embrenhar-me no ambiente do CCB. Um pouco espalhados pelo recinto, cabines electrónicas convidavam quem passava a responder a um inquérito rápido sobre a divulgação, frequência e preço dos bilhetes dos Dias da Música. Não creio que se possa dar muito crédito às respostas recolhidas porque todas as cabines que vi tinham o inquérito a meio, o que significa que foram iniciados por uma pessoa e terminados pela seguinte, ou deixados a meio. A iniciativa não é, no entanto, despropositada. Julgo ser pertinente realizar-se um estudo aprofundado sobre os público de música em Portugal, que analise os seus hábitos de escuta, frequência de concertos e preferências, cujos resultados poderiam, entre outros aspectos, contribuir para um debate fundamentado sobre a velha questão da necessidade de atrair novos públicos para a música clássica.

Entretanto, no Coreto, a orquestra de cordas da Academia de Música de Santa Cecília tocava o marcial tema de Star Wars. John Williams é capaz de ter sido dos compositores que mais se escutaram por estes dias, dado o seu extenso repertório em bandas sonoras de filmes, mas o meu itinerário concertístico tomou um outro rumo e outros ambientes.

No concerto que se sucedeu, o Huelgas Ensemble demonstrou com mestria domínio sobre a dinâmica na interpretação de música polifónica de Palestrina, William Byrd, Gregorio Allegri, Mozart, Bruckner e Fauré. Uma aura de solenidade envolveu o concerto, potenciada pelos crescendos tocantes na interpretação de Agnus Dei, de Palestrina, pelos efeitos sonoros e espaciais obtidos pela disposição dos cantores no Miserere, de Allegri, e pelo acompanhamento subtil (ainda que um pouco incerto) do Ensemble Darcos em Ave Verum de Mozart. No CCB o dia ainda se prolongou pelo serão fora, mas para mim terminou assim, sob o céu carregado a ameaçar chuva mas iluminado pelas vozes e interpretação do Huelgas Ensemble.

[alert type=blue ]Domingo, 26 de Abril[/alert]

Aos poucos, as pessoas foram chegando para os primeiros concertos de Domingo e foi com rapidez que se formaram filas à entrada das salas. Na fila para a sala Luiz de Freitas Branco, onde em breve soaria música barroca francesa, havia quem tentasse vender um bilhete que tinha a mais para o concerto de António Victorino d’Almeida, às 15h. Sem sucesso, no entanto – as pessoas que interpelou já tinham a hora ocupada com outro concerto.

É sempre um prazer escutar a voz de timbre claro e cheio de Orlanda Velez Isidro e foi o seu nome que primeiro atraiu a minha atenção para o concerto com o Ludovice Ensemble, a celebrar dez anos de actividade. O filme Tous les matins du monde, de Alain Corneau (1992), que narra a história da relação entre Marin Marais e o seu mestre Jean de Sainte-Colombe, com banda sonora seleccionada por Jordi Savall, guiou o programa deste concerto, naturalmente preenchido por obras dos dois compositores, Marais e Sainte-Colombe, nas quais a viola da gamba sobressai. As melodias de La revêuse, Les pleurs ou La badinage foram tocadas nas violas da gamba por Sofia Diniz e Laura Frey, no geral bem coordenadas e com sonoridade suave. Fernando Miguel Jalôto, no cravo, cedeu por vezes à tentação de se sobrepôr e foi na última peça, Tombeau de M. de Sainte-Colombe, de Marais, que se sentiu maior unidade entre os intérpretes. Foi de assinalar as prestações dos sopranos Orlanda Isidro e Mónica Monteiro que ao interpretarem a canção Une jeune fillette, bastante graciosa, deram às suas vozes uma entoação mais brilhante e pura que contrastou com a sonoridade mais escura e madura com que interpretaram Troisième leçon du Mercredi Saint, de Couperin.

No intervalo antes do concerto da tarde, depois de aproveitar um pouco o sol no terraço do Jardim das Oliveiras, com vista para o Museu de Arte Popular e o Tejo, fui espreitar o objecto estranho no qual já tinha reparado ao passar no átrio em frente à sala Sophia de Mello Breyner. O móvel atraía a atenção de outros curiosos e compunha-se de um violoncelo, um violino, uma guitarra e uma fracção de teclado de piano incrustados no tampo, à mão de quem os quisesse experimentar e assim ver e perceber como é produzido o som desses instrumentos. A peça didáctica foi fabricada pela Ofício Artes, associação para o ensino, formação e desenvolvimento de actividades artísticas, com sede em Montemor-o-Novo, e é, sem dúvida, engenhosa.

Mesmo em frente, a sala Sophia de Mello Breyner esgotou para ouvir Joana Gama. O nome não me era estranho mas nunca antes a ouvira tocar. Rapidamente formei boa opinião: Joana Gama não só tocou com sentimento, vigor e fluidez, num perfeito jogo de mãos e acertada noção de tempo, como soube escolher bem o repertório tocado, que, embora diversificado, fazia sentido no mesmo programa. Aqui não importava tanto que a música pertencesse a um filme mas que pudesse evocar imagens. Seguindo esta ideia, Joana Gama conjugou as sonoridades frenéticas do mundo moderno da música de Satie para o filme surrealista Entre’acte de René Clair (1924), os temas minimalistas e exaustivos de Mad Rush de Philip Glass; as paisagens vastas e ambiente agreste que In a landscape, de John Cage, e que O movimento parado das árvores e Casa de granito no Minho, de António Pinho Vargas pareciam sugerir; e a música apaixonada de Michael Nyman para o filme O piano, de Jane Campion (2004). A pianista esteve sempre muito concentrada, tocando sem interrupção e sem que a música fosse ferida pelo ruído dos aplausos. Estes irromperam no final, sem dúvida bem merecidos. A fechar, Joana Gama ainda tocou com igual graciosidade e leveza o tema de Merry Christmas Mr. Lawrence de Ryuichi Sakamoto.

O último concerto mantinha-se no mesmo tipo de registo, contudo, em vez de paisagens sonoras, o pianista Stéphan Oliva abordou a música do film noir, ou filme policial e de suspense, repertório que tem vindo a trabalhar e a gravar. Sonoridades escuras, ocasionalmente pesadas e soturnas, dissonâncias e, de súbito, os inconfundíveis acordes estridentes e certeiros das facadas que Norman Bates desfere em Marion Crane no filme de Hitchcock encheram a sala, contrastando com alguns momentos mais jazzísticos e mais contemplativos (como na música de George Delerue). A improvisação tem um forte papel no trabalho de Stéphan Oliva, uma vez que a música que toca, embora anotada em partitura, é fruto da sua leitura dos filmes e das suas memórias auditivas e visuais dos mesmos. O resultado foi um recital original e uma boa forma de encerrar esta homenagem à música e ao cinema.

Saindo do CCB, caía a noite, ainda se ouvia ao longe o grupo Violinos do Moderno tocar Vivaldi no Coreto. Aos poucos o CCB foi-se silenciando e preparando-se para o concerto de encerramento.

Os Dias da Música regressam para o ano, para a sua 10.º edição e para uma “Volta ao mundo em 80 concertos”.

IV Encontro de Música e Tradição ‘Raízes do Som’

Teve início no passado dia 24 de Abril o IV Encontro de Música ‘Tradição e Raízes do Som’, que decorrerá até ao próximo dia 2 de Maio nas cidades de Évora, Beja e Portalegre. Organizado pela SOIR Joaquim António de Aguiar e pela Lua aos Quadradinhos – Associação Cultural, em parceria com a associação Lendias d’Encantar, este projecto está ligado à arte e cultura tradicionais, com expressão nacional e participações internacionais, e resultou da necessidade de reflectir sobre o património cultural, contribuindo para um melhor conhecimento e salvaguarda da cultura de transmissão oral, assim como das raízes e tradições rurais, focando-se nas bases da identidade territorial e patrimonial.

A sessão de abertura do encontro teve lugar na Praça do Giraldo (Évora) no passado dia 24 de Abril com a apresentação do projecto ‘Pele e Fole’, seguindo-se a actuação dos grupos Aqui há Baile e Omiri. No dia 25 ocorreu no espaço da Associação do Imaginário a actuação do grupo Vozes do Imaginário e Nuno do Ó e Seiva. No Domingo à tarde realizou-se a arruada da Banda Filarmónica Grupo União e Recreio Azarujense pelas ruas de Évora. Ontem realizou-se um workshop intitulado ‘Sons da Tradição’ pela associação do Imaginário na Escola Básica do Rossio. No auditório Soror Mariana decorreu uma sessão de cinema com o documentário O cante alentejano é como eu, com a participação do realizador e do mestre Joaquim Soares. O workshop ‘Sons da Tradição’ repete-se hoje, dia 28, na Escola Básica do Rossio. Pelas 22h00 a SOIR Joaquim António de Aguiar acolhe o projecto ‘Há Lobos sem ser na serra – cantares do sul e da utopia’ em torno do cante alentejano, criado para o festival.

Amanhã, dia 29, realiza-se pelas 22h00 na SOIR o espectáculo ‘Sons do Vagar’, projecto da associação do Imaginário. A ‘Exposição de instrumentos musicais – sons da música’ terá a sessão de abertura marcada para o próximo dia 30, pelas 17h00, no espaço da Fundação INATEL, estando aberta nos dias 1 e 2 de Maio, das 15h00 às 18h00. No mesmo dia, pelas 22h00, actua o grupo Marafona na Praça do Sertório. No dia 1 de Maio, pelas 22h00, actuará o grupo Diabo a Sete na Praça do Sertório.

Na cidade de Beja o Encontro iniciou no passado dia 25 de Abril, com a actuação do grupo Recanto no espaço Os Infantes. Este local acolherá também no próximo dia 30 de Abril, pelas 22h00, o concerto com Sons do Vagar e no dia 2 de Maio, pelas 21h30, a sessão de cinema com o documentário O cante alentejano é como eu.

Em Portalegre o Encontro tem início amanhã, dia 29 de Abril com a projecção do documentário O cante alentejano é como eu pelas 21h30, no Teatro do Convento. No dia 30, pelas 22h00 irá actuar o grupo Recanto e no dia 2 de Maio, também pelas 22h00, o grupo Sons do Vagar.

Dia do Jazz na Escola de Artes da Universidade de Évora

No próximo dia 28 de Abril irão realizar-se no auditório do Colégio Mateus de Aranda várias actividades no âmbito da do Dia Internacional do Jazz, que se comemora a 30 de Abril. Este evento, organizado pela Escola de Artes da Universidade de Évora, contará com a participação de alunos da Licenciatura e Mestrado em Música assim como dos docentes do Departamento de Música.

As actividades iniciam-se pelas 14h00 com a palestra “A inclusividade do indivíduo e do grupo no jazz para a democracia do séc. XXI” proferida pelo Doutor Eduardo Lopes, professor do Departamento de Música da Escola de Artes. Das 15h00 às 18h00 segue-se uma “maratona” de ensembles, com a actuação dos vários combos dos alunos do Curso de Jazz. O ensemble de Mestrado em Música actuará pelas 21h30, seguindo-se o concerto da Orquestra de Jazz da Universidade de Évora, dirigida por Claus Nymark.

Para além das variantes de Interpretação, Composição e Musicologia, a Escola de Artes da Universidade de Évora passou também a oferecer a partir do ano lectivo de 2008/2009 o Curso de Licenciatura em Jazz (1.º ciclo). Mais recentemente passou também a oferecer o Mestrado (2.º ciclo) em Música na variante de Jazz, que se junto às variantes de Interpretação e Composição.

A propósito de um concerto com Annette Dasch

A soprano alemã Annete Dasch juntou-se à Orquestra Gulbenkian e ao seu maestro titular, Paul McCreesh, nas passadas quinta e sexta-feira, para interpretar o ciclo de canções Les nuits d’été, op. 7, de Hector Berlioz (1803-1869). O concerto, que decorreu no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, incluiu ainda The Walk to the Paradise Garden, de Frederick Delius (1862-1934) e a Sinfonia n.º 5, em fá maior, op. 76, de Antonín Dvořák.

Fazendo parte de A Village Romeo and Juliet – a quarta ópera do compositor inglês Frederick Delius, composta entre 1899 e 1901 –, o interlúdio The Walk to the Paradise Garden só seria estreado seis anos após a conclusão da partitura original, durante a primeira apresentação da ópera em Berlim. Foi na versão arranjada pelo maestro inglês David Lloyd-Jones (1934-) que esta peça orquestral abriu o concerto de 17 de Abril de 2015 que hoje me proponho discutir.

Paul McCreesh conseguiu motivar a orquestra para uma prestação rica em termos tímbricos e expressivos. Numa obra caracterizada largamente pela simplicidade e reformulação melódica, a circulação de motivos pelos diferentes naipes foi sendo levada a cabo com subtileza e requinte, procurando cada instrumentista trabalhar cada reincidência com cores distintas, resultando daí uma interpretação matizada mas sempre suave. Destaque, naturalmente, para os sopros de madeira, mas também para as cordas que foram capazes de construir massas sonoras homogéneas, sem nunca perder o ímpeto dramático que, por exemplo, o clímax exige (nesta secção a minha vénia aos violoncelos que tiveram, esta noite, uma prestação de alto nível). Escolha interessante, a da inclusão em programa desta obra, raramente escutada e com a curiosidade de ter evidentes pontos de contacto com as texturas orquestrais e harmónicas da estrutura de Prélude à l’après-midi d’un faune de Claude Debussy (1862-1918) e um ou outro caso de plágio a motivos de Parsifal de Richard Wagner (1813-1883).

Seguiu-se Les nuit d’été. A prestação de Annette Dasch não foi ao encontro das minhas expectativas. Não obstante o acompanhamento de McCreesh, que procurou secundar os ritmos e intensidade da solista sem nunca lhe sobrepor o som da orquestra, a soprano demonstrou insegurança na afinação, recorrendo frequentemente a portamentos para atingir certas notas, sobretudo no registo agudo. A sua dicção foi também pouco clara, provavelmente resultado de um domínio insuficiente da pronunciação do francês, o que foi aliás agudizado pelo vício de transformar a maioria das vogais em «Ás», sobretudo em momentos de maior intensidade sonora. Seguindo o texto de cada canção foi, apesar disso, possível constatar que a cantora procurou dar destaque a palavras-chaves através de variações na cor da sua emissão, sendo particularmente feliz em “Le spectre de la rose”. Isto, aliado à beleza da sua voz, redonda e brilhante, não conseguiu contudo compensar as opções técnicas que infelizmente condicionaram uma fruição incompleta da relação entre a música de Berlioz e os poemas de Théophile Gautier, como seria expectável atendendo às especificidades do repertório de canção francesa.

A segunda parte deste concerto foi preenchida com a Sinfonia n.º 5 de Dvořák. A interpretação da Orquestra Gulbenkian sob a direção de Paul McCreesh foi capaz de perpassar a energia contida na escrita do compositor checo. O sinal com que os clarinetes iniciam a obra foi um aviso para o que se seguiria: transitando pelas flautas até chegar às cordas, todos os naipes se envolveram na construção da atmosfera festiva do primeiro andamento. Com os violoncelos em modo galvanizante, os violinos só claudicaram em momentos de maior intensidade, com evidentes discrepâncias entre os músicos das últimas estantes e aqueles sentados mais à frente, visível e audivelmente mais em linha com o entusiasmo do maestro McCreesh. A interpretação do Andante com moto foi modelar quanto à noção do fraseado dos violoncelos e sopros, mas também pela clareza na exploração de secções mais contrapontísticas, enriquecendo a textura orquestral pela exposição de diferentes planos sonoros. Esta equipa foi capaz de alimentar a tensão e expectativa do público até ao efusivo final da obra, para o qual metais e percussão foram também essenciais.

Voltando um pouco atrás, é percetível pelas minhas palavras que o desempenho de Annette Dasch não foi, para mim, particularmente empolgante. Claro está que esta noção é idiossincrática e, por outro lado, a sua participação não tinha forçosamente de ser central neste concerto. Porém, no que concerne à publicidade ao mesmo, foi-o. Na página dedicada oficialmente a este evento, consta uma foto maximizável de Dasch, junto a uma súmula do seu curriculum. A par de expressões como “uma das vozes maiores do canto lírico”, aparece uma seleção do elenco de artistas com quem tem colaborado. Nada disto é particularmente diferente das práticas nas redes institucionais nacionais e internacionais. Se avançarmos para as notas ao programa, encontraremos, para além destes (e doutros), a seleção de compositores e obras que tem interpretado, bem como a das instituições onde se tem apresentado. Mais uma vez, nada de novo. E este nem é sequer um costume exclusivo de artistas musicais. Eu próprio, enquanto membro da equipa de redação da glosas, apresento-me com a minha fotografia e nota biográfica, onde incluo as fases do meu percurso profissional que entendo mais relevantes. Todavia, nem sempre aquilo que consideramos ser mais relevante é absolutamente preditivo da nossa ação futura. Por outras palavras, no mínimo, o nosso curriculum tem tanto de propaganda quanto de demonstração do nosso trabalho. Trata-se de um discurso e, portanto, do resultado de uma seleção de palavras, de adjetivos, de pessoas, de locais, de instituições. Não foi por acaso que utilizei a palavra “seleção”: trata-se de uma tentativa de legitimação da artista por via da sua associação a um cânone performativo da música dita erudita ocidental.

É evidentemente legítimo que queiramos construir uma imagem positiva acerca de nós mesmos. Não obstante, acredito que isso seja uma variável que o leitor, neste caso, ao espectador deva ter em consideração durante a sua experiência de um concerto. As instituições e os profissionais pretendem, legitimamente, captar determinados tipos de público e, para tal, produzem imagens, frases, gerem as expectativas, tanto do público como dos próprios artistas. Condicionam, portanto, a nossa capacidade de criticar. Sendo esta uma abordagem tão antiga quanto a capacidade do ser humano comunicar, nos dias de hoje a sofisticação dos meios de promoção deste star system – o marketing e a publicidade – está de tal forma desenvolvida que me parece evidente o interesse e a necessidade de os desconstruir criticamente.

Não tenho a pretensão de o fazer no espaço deste artigo que é inerente e assumidamente superficial. Contudo, a experiência deste concerto veio confrontar-me com o facto de o curriculum de Annette Dasch ser mais impressionante do que a sua interpretação de Les nuits d’été, no final de tarde do dia 17 de Abril último. Sim, o concerto foi globalmente bom, mas nada invalida que a abordagem à mesma obra por uma outra cantora, desta feita não tão mediática, não pudesse ser substancialmente mais empolgante. Sob outro ponto de vista, poderá ser também questionado o valor da produção das instituições e pessoas apresentadas como parte dos percursos descritos nos curricula incluídos nas folhas de sala ou outras vias de transmissão de informação: terá mais qualidade o trabalho realizado no âmbito de uma instituição com mais poder simbólico do que aquele de uma menos influente?

Em suma, hoje procurei que a minha crítica expusesse o meu esforço, mais ou menos conseguido, de relativizar a importância dos discursos em torno do fenómeno musical, especificamente aqueles engajados nos processos de construção do estatuto de estrela. Eventualmente, quem se der ao trabalho de ler estas palavras questionará se também elas constituirão mais um discurso. Responderei: sim! A crítica tem um imenso poder mediático que é exercido com mais ou menos consciência. Daí que seja também perigoso acreditar em tudo o que é dito. A crítica não está imune ao poder mediático das instituições, sendo que também os seus agentes fazem parte do sistema de construção, reprodução e reificação desse mesmo poder.

 

IndieLisboa com secção dedicada à Música

O festival IndieLisboa, que decorre de 23 de Abril a 3 de Maio, é marcado por uma programação diversificada, entre curtas e longas-metragens, e um conjunto de actividades paralelas (o IndiebyNight, as Lisbon Talks e as Lisbon Screenings) que o complementam, fazendo com que se afirme, ano após ano e cada vez mais, no circuito dos festivais.

Este ano o IndieLisboa  conta com nova secção, dedicada à Música, o IndieMusic. Os filmes, para ver no cinema São Jorge, são distintos e diversificados. Chama a atenção e desperta expectativas a pop opera God Help the Girl de Stuart Murdoch (Sábado, dia 25 de Abril, às 21h45, no Cinema São Jorge, sala Manoel de Oliveira). Os restantes títulos da programação, que podem ser consultados em www.indielisboa.com, abordam distintos géneros musicais, como a música electrónica, o rock, o punk ou o reggae.

 

‘Banksters’ em versão reduzida no CCB

Com duas exibições no Centro Cultural de Belém nos dias 3 e 4 de Abril, a ópera de Nuno Côrte-Real foi reduzida a um efectivo instrumental menor do que o da estreia no São Carlos, em 2011, e apresentada em versão semi-encenada. Surpreendentemente, e talvez com um pouco de desalento, foi através da folha de sala que o público se apercebeu de que não iria assistir a uma produção completa da ópera, informação que poderia ter sido mais clara na divulgação de Banksters.

O espectáculo iniciou-se com uma vénia dos músicos em palco ao personagem de Santiago Malpago, demonstrando desde já a posição de poder deste banqueiro, poder que mais tarde se revela fictício. Estando o Ensemble Darcos e o Coro Ricercare em palco, juntamente com os solistas, esta encenação tirou partido da presença dos músicos, usando-os pontualmente para explicar certas intenções dos personagens – solução inteligente para uma produção de ópera em “versão de concerto”. O outro exemplo desta encenação hábil será também o gesto de Mimi Kitsch no segundo acto, que faz levemente passar uma rosa pelo rosto de um dos músicos do Ensemble Darcos, numa atitude de sedução e capricho.

O libreto de Graça Moura reconta-nos a história de uma peça de teatro de José Régio, passando-a para o contexto da alta finança dos nossos dias. Com humor, o antigo director do CCB apresenta-nos personagens complexas e gananciosas contrastando-as com a aparição de um anjo que apela à salvação do personagem principal. Ao ser visitado por este Angelino Rigoletto, que em vão lhe tenta explicar o episódio bíblico do Anjo e de Jacob, o banqueiro resiste constantemente, acusando-o de perseguição e temendo-o sempre. Por outro lado, Rigoletto assume uma forma humana, claramente manipuladora, que também ajuda à queda de Santiago. As tentativas deste anjo despoletam uma série de artimanhas por parte de Mimi Kitsch e do Accionista, a mulher e o irmão de Santiago Malpago, que conspiram para a sua demissão no banco e consequente infortúnio.

É no segundo acto que Mimi Kitsch se junta ao Accionista e combina a queda de Santiago Malpago. Mimi planeia vingar-se do marido por este ter aludido ao seu carácter adúltero à frente dos quadros da empresa, e tenciona servir esta vingança “gelada”. Brilhantemente interpretada pela soprano Dora Rodrigues, esta personagem dominou o primeiro e o segundo actos tanto na expressão vocal como na transmissão das suas intenções ao público, por vezes confuso com o enredo da história.

É de louvar a concepção cénica realizada pelo próprio compositor da obra, embora esta produção pudesse ter beneficiado com uma encenação mais completa dada a complexidade do argumento e dos personagens. Uma possível solução teria sido a apresentação da ópera apenas como um concerto, permitindo uma melhor fruição da música de Nuno Côrte-Real.

Musicalmente, e de acordo com o musicólogo Afonso Miranda, Nuno Côrte-Real usa temas diferentes, ou leitmotifs, para enriquecer e explicar as intenções dos personagens. Um dos temas mais aparentes é apresentado pelas notas agudas do piano que acompanha Angelino Rigoletto, interpretado pelo tenor Mário João Alves, e que evoca mistério e uma sensação do transcendente. O cantor interpreta fielmente este Rigoletto contemporâneo, guardando sempre o seu carácter ambíguo que ora é moralista ora é manipulador.

É também com a presença de Angelino nos primeiro e segundo actos que se denota a presença de referências e citações na música de Nuno Côrte-Real. Naturalmente Rigoletto é acompanhado por um excerto da famosa ária do Verdi La donna è mobile, presente na sua ópera homónima. Com esta citação, no entanto, Côrte-Real justapõe o famoso tema com algumas dissonâncias, um recurso que tão bem caracteriza a duplicidade de carácter de Angelino Rigoletto.

Não se pode deixar de referir também a guitarra eléctrica, subtil em determinados trechos, e que de acordo com Afonso Miranda poderá emprestar a Angelino Rigoletto a sua condição de outsider. Ao sublinhar certas pequenas melodias, este instrumento confere um carácter metálico e frio à música deste anjo, associando-o a um carácter menos inocente.

É desta forma que a música de Côrte-Real evoca de maneira muito eficaz as intenções de cada personagem, por vezes transmitindo uma qualidade quase fílmica à música de Banksters.

Com as diferentes facetas da mulher do banqueiro, Côrte-Real expõe-nos também diversas formas musicais no segundo acto e apresenta-nos uma citação de habanera, com ela sublinhando as intenções caprichosas e de sedução de Mimi Kitsch. As referências às outras formas musicais, como o funk, tal como sugere Afonso Miranda nas suas notas programáticas, é inserida quando o banqueiro descobre os planos de Mimi para o despedir do seu cargo. Pessoalmente, esta referência musical sugere também o famoso motivo da ‘danse sacrale’ em Le sacre du printemps de Stravinsky, aludindo ao carácter impiedoso e cruel de Mimi Kitsch.

De uma forma geral, o terceiro acto destacou-se dos dois primeiros; por um lado, a excelente performance de Luís Rodrigues exemplificou a dor e redenção de Santiago Malpago, emprestando-lhe também uma nova profundidade como personagem. Por outro lado, é também neste acto que se compreende a relação complexa entre este banqueiro e Angelino Rigoletto, revelando-se a sua intenção redentora na totalidade. Esta difícil personagem que Mário João Alves tão bem interpreta neste terceiro acto aparece-nos quase como a própria consciência do banqueiro com as palavras “Já ninguém me pode ver, Já ninguém me pode ouvir”.

É com um coro de anjos que a ópera de câmara Banskters termina, exultando a morte e rendição de Santiago Malpago, o banqueiro e personagem principal, interpretado por Luís Rodrigues. Com o etéreo “Dolcissima Morte, vienni a me”, cantado pelo Coro Ricercare, é-nos oferecido um final catártico, final adequado após as inúmeras manipulações e artimanhas sofridas pelo banqueiro. Numa última confissão, a voz de barítono de Luís Rodrigues canta as palavras ao estilo vicentino do libreto de Vasco Graça Moura: “Perdoa se te obriguei, A vir com máscara humana, Em minha perseguição, E as vezes que vagueei, Nos braços da maldição”. É realmente com esta ária que o lado intrinsecamente humano de Santiago Malpago é revelado, desta vez acompanhado por uma melodia melancólica no violoncelo, tocado por Mats Lidström, convidado do Ensemble Darcos.

Juntamente com a música e concepção cénica de Nuno Côrte-Real, o sprechtgesang dos solistas e a teatralidade que o texto de Graça Moura traz à obra, Banksters alude a diversas técnicas e momentos da história da ópera sem nunca perder a sua contemporaneidade.

 

O cavaleiro das mãos irresistíveis: uma antevisão

Decorreu no serão de ontem o ensaio-geral de O cavaleiro das mãos irresistíveis, a comédia lírica em um ato e seis cenas, com música e libreto do compositor português Ruy Coelho (1883 – 1986), a partir do conto homónimo de Eugénio de Castro (1864 – 1944). Trata-se de uma nova produção desta obra, que teve a sua estreia absoluta em 1927, no Teatro Nacional de São Carlos, sob a direção do próprio autor. Do elenco – totalmente nacional – fazem parte a soprano Joana Seara (D. Beatriz), a meio-soprano Cátia Moreso (D. Mór), o tenor Marco Alves dos Santos (D. Sancho) e o barítono Job Tomé (D. Guterre). Trata-se de uma iniciativa do MPMP – Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, com direção musical do maestro Jan Wierzba, à frente do Ensemble MPMP. A encenação é de António Durães, cenografia de Ana Gormicho, desenho de luz de Rui Simão e cinematografia de Mário Gajo de Carvalho. Esta iniciativa conta com o apoio da Direcção-Geral das Artes / Governo de Portugal e dos Teatros Municipais Joaquim Benite, em Almada, e Campo Alegre, no Porto, onde decorrerão, respetivamente, a estreia, hoje às 21h30, e as duas récitas suplementares, a 18 de Abril, às 21h30 e 19 de Abril, às 17h00.

Este espetáculo não é apenas composto por música de Ruy Coelho. Mantendo o seu objetivo de divulgar o património musical de países de língua portuguesa, o MPMP não perdeu a oportunidade de contribuir para o estímulo à produção contemporânea: da encomenda a Daniel Moreira (1983) nasceu Cai uma rosa…, episódio lírico em seis cenas, com libreto por Edward Ayres d’Abreu que, inspirado no mesmo poema, funcionará como interlúdio a O cavaleiro das mãos irresistíveis. Em entrevista à RTP – Antena 2, o compositor explicou que um dos seus propósitos foi dar a conhecer partes do poema de Eugénio de Castro que haviam sido eliminadas no libreto de Ruy Coelho. Com esta estratégia, o público verá resolvidos alguns dos problemas gerados por esses cortes, ao mesmo tempo que se assegura a unidade dramatúrgica de todo o espetáculo. Recorde-se, quanto a isto, que, devido à sua curta duração – cerca de quarenta minutos – as reposições desta ópera durante o século XX incluíam habitualmente a apresentação conjunta de outras obras.

O enredo conta a história do D. Sancho, um cavaleiro espanhol que, ferido por ter caído da sua montada, é acolhido por D. Guterre – fidalgo conimbricense –, sua mulher D. Mór e D. Beatriz – a filha do casal, prestes a iniciar o noviciado. O amor entre Sancho e Beatriz acaba por despontar. Mas tudo é complicado por uma carta recebida por D. Guterre, alertando-o para o poder corrompível das mãos de D. Sancho que, por isso, jamais deveriam ser desenfaixadas dos parches que haviam sido aplicados sobre as feridas causadas pelo acidente. O desfecho da trama guardo-o para que o conheçam ao vivo, em Almada ou no Porto.

Faço, agora, uma declaração de interesses: escrevo este artigo na Glosas, um dos ramos de intervenção, precisamente, do MPMP que – repito – é a plataforma organizadora da produção que me proponho discutir. Depois do alerta, gostaria de partilhar convosco algumas das minhas impressões acerca daquilo a que assisti. São impressões superficiais, resultado de uma primeira e única audição de duas obras que eu não conhecia, nem tão-pouco através de partituras. Leve-se isso em consideração quanto ao peso das minhas palavras!

Considero que é sempre difícil tentar descrever a música e, mais ainda, num primeiro contacto. Correndo o risco de ser redutor e de cair na armadilha de contribuir para a cristalização e reprodução de certo tipo de modelos discursivos, algumas passagens da composição de Ruy Coelho encontram paralelismos na linguagem de compositores de ópera italiana ainda ativos nas primeiras décadas do século XX, como Puccini (1858 – 1924), ou na delicadeza de certas passagens de influência clássica nalgumas óperas de Richard Strauss (1864 – 1949). Coelho não se fica, contudo, por aqui: polariza a multiplicidade da sua partitura acrescentando-lhe traços que, mesmo ténues, a enriquecem com alguns dos recursos desenvolvidos pelas escolas expressionistas da Europa Central. Não nos esqueçamos também de que período histórico estamos a falar: esta ópera estreia em 1927, no ano seguinte ao do “Golpe de 28 de Maio”, numa época em que as artes estavam ainda largamente concentradas na busca e construção de uma expressão nacional. A isto não terá sido alheia a inclusão de elementos, quer rítmicos, quer melódicos, habitualmente associados às músicas tradicionais ibéricas. Oiça-se, por isso, o motivo de D. Sancho, que parece baseado em melismas e ornamentos que nos remetem quase automaticamente para a música espanhola – Ruy Coelho terá pretendido utilizar um tópico musical identificador da origem da personagem.

 

 

Cai uma rosa… surge plenamente integrado na continuidade musico-dramatúrgica de O cavaleiro das mãos irresistíveis. Como é óbvio, esta afirmação é uma visão muito pessoal, todavia a completa dissolução do tonalismo e da melodia dita tradicional por via do uso, por um lado, de intervalos extremos, por outro, de cordas de recitação, a par da exploração de contrastes tímbricos e de intensidade sonora, tanto pela orquestra, como pelos cantores, pareceram-me estratégias adequadas à descrição do carácter fragmentário, simbólico, por vezes incoerente e, sem dúvida, pulsional do espaço onírico. A coerência musical entre esta obra e a de Ruy Coelho é mantida por alusões sub-reptícias ao material da segunda que o compositor nos desafia a encontrar. O episódio lírico de Daniel Moreira transporta a ação para o sonho de Beatriz, atormentada pelo amor por D. Sancho, incompatível com um futuro eclesiástico e com o respeito pelo poder parental. A dialética entre o fosso e o palco é instrumental no conflito entre a voz das personagens subjugadas à sociedade e a sua interioridade acometida por fortes desejos contrários a esse poder.

O trabalho em curso demonstrado no ensaio-geral de ontem foi um bom prenúncio para a estreia desta noite e das duas récitas previstas. Destaque para Marco Alves dos Santos, que foi capaz de fazer face aos desafios de ambas as partituras com segurança. Atacou as notas agudas com clareza e demonstrou deter um registo médio de grande beleza. Cátia Moreso, que na D. Mór de Ruy Coelho é um pouco secundarizada, encontrou espaço na versão de Daniel Moreira para explorar diferentes registos e densificar a sua construção da personagem. Joana Seara e Job Tomé, desempenhando com eficiência as secções mais líricas e aquelas mais extremadas, foram, neste ensaio, dos quatro intérpretes, os mais prejudicados pelos acertos ainda em aperfeiçoamento quanto ao equilíbrio sonoro entre a orquestra e os cantores, nomeadamente em momentos de fortissimo. Ainda em relação à orquestra, destaque para o solo de violino, no intermezzo da cena 4 de O cavaleiro das mãos irresistíveis, e a serenata de D. Sancho, na cena 5, com acompanhamento pela harpa.

Não é demais assinalar que esta produção se concretiza com escassos meios financeiros, não obstante ter beneficiado do apoio pontual pela Direção-Geral das Artes. Nas palavras de Edward Ayres d’Abreu – que, para além de libretista de Cai uma rosa…, é o presidente da direção do MPMP – “o ensemble MPMP é uma estrutura sem estrutura e sem pessoas a trabalhar a tempo inteiro”. A apresentação destas duas óperas surge na sequência de um percurso iniciado em 2012, e que conta já com uma digressão ao Brasil, em março do ano passado. A componente dramatúrgica do espetáculo que hoje estreia será uma das dimensões mais visíveis dos constrangimentos que acometem organizações culturais desta dimensão: a sobriedade da cenografia e dos figurinos e o investimento na construção de atmosferas emocionais e psicológicas por meio de projeção de imagens e desenho de luzes terão sido a opção possível, de que a simplicidade eficaz da encenação de António Durães me pareceu corolário. O posicionamento de cada personagem em diferentes planos do palco e o uso de cores e intensidades luminosas contrastantes contribuíram para uma noção mais clara dos processos mentais que nelas iam decorrendo.

Mas permitam-me cumprimentar este grupo de profissionais por escolherem apresentar uma ópera. Permitam-me fazê-lo por o concretizarem nestes dois teatros, destas duas cidades. Não quero ser demagógico ao ignorar que isto se terá devido a questões práticas de disponibilidade e abertura institucional. Mas o resultado final é que uma população com as características como a de Almada terá acesso a um espetáculo de ópera, com qualidade, a um preço mais acessível – 10 euros – do que os praticados no TNSC – Teatro Nacional de São Carlos[1]. Este parece-me ser um passo importante na deselitização da ópera em Portugal a que instituições com mais poder simbólico têm resistido. A centralização deste género musical no TNSC tem sido prejudicial à sua democratização. Perenemente sujeito a suborçamentação por governos sucessivos, instabilidade nas equipas de gestão administrativa e artística, bem como à intervenção de outros grupos de influência – de que a ação da comunicação social parece muitas vezes ser reflexo – a sua programação tem-se vindo a fixar num repertório canonizado, por oposição à exploração não só de obras já esquecidas – a função de “[…] preservação  da  herança  cultural,  recuperando e  divulgando  o  património  músico-teatral  de  origem nacional ou conservado em Portugal” [2] – como daquelas que são resultado do trabalho de artistas contemporâneos – a função de “encomenda a autores portugueses de novas obras” [3]. Os preços dos ingressos são impeditivos da “formação de novos públicos” a que o seu organismo gestor se propõe, limitando-se, para tal, a enunciar a intenção de realizar “[…] produções itinerantes e de um programa educativo,  sobretudo  dirigido  ao  público  infanto-juvenil” [4]. Acrescente-se – permitam-me a expressão – o eufemismo que, no mínimo, tem sido o Festival ao Largo

Esta produção da MPMP é também um contraste face ao panorama operático nacional ao dar oportunidade a artistas nacionais de se apresentarem em papéis principais. Não sendo prática habitual, dá mostras do proselitismo reinante nas instituições dominantes. Os curricula de muitos dos nossos profissionais das artes e a qualidade evidente do seu trabalho demonstram quão injusto é o tratamento que lhes tem vindo a ser dado e a absoluta necessidade de serem proporcionadas as oportunidades de trabalho e mediatização de que têm direito enquanto representantes do seu próprio país e agentes vinculados ao desenvolvimento cívico das populações[5].

Convido-vos, assim, a assistir a O cavaleiro das mãos irresistíveis e a Cai uma rosa…, fazendo votos para outros grupos sigam o exemplo do MPMP no sentido da construção de uma cena musico-teatral mais plural e dinâmica.


 

[1] Poderá consultar as quantias praticados na temporada lírica do TNSC em http://tnsc.pt/bilheteira/. Sendo certo que esta instituição também tem bilhetes a custo de 10 euros, a quantidade de lugar a esse preço é diminuta.

[2] Artigo 2.º, alínea f) dos Estatutos do Organismo de Produção Artística, E.P.E. (OPART, E.P.E.) – gestor do Teatro Nacional de São Carlos.

[3] Artigo 2.º, alínea h) dos estatutos da OPART, E.P.E.

[4] Artigo 2.º, alínea e) dos estatutos da OPART, E.P.E.

[5] Veja-se o caso de Elisabete Matos, que só após se notabilizar em instituições estrangeiras de grande poder, viu reconhecido o seu valor artístico, sendo convidada, agora com regularidade, para atuar no único teatro de ópera em Portugal. Contudo, alerto para o facto de haver mais vida para além desta cantora.

Música portuguesa em Vila Nova de Gaia

Joaquim Gonçalves dos Santos (1936-2008) foi o “compositor a descobrir” da rubrica com o mesmo título do primeiro número da revista glosas (Maio de 2010). O texto assinado por Nuno Costa traçava o percurso pessoal e artístico de um compositor bastante activo e dedicado à música religiosa, mas não só. Vem este apontamento a propósito do concerto de professores do Fórum Cultural de Gulpilhares, em Vila Nova de Gaia, no qual se fará ouvir “Salmo 99”, das Impressões Bíblicas Servite Domino in Laetitia deste compositor. O intérprete será o pianista Filipe Andrade, também ele estudioso da obra de Joaquim dos Santos e que está de momento a preparar a sua tese de mestrado em torno do repertório para piano do compositor.

O concerto decorre a 11 de Abril e junta alguns dos professores da escola de música Fórum Cultural de Gulpilhares. Filipe de Andrade apresenta um programa inteiramente consagrado a música portuguesa para piano do século XX, interpretando de Ivo Cruz (1901-1985) “Canto de Luar”, da Aguarela n.º 3 e, de Amílcar Vasques-Dias (n. 1945), “Nocturno 1 – Geografia dos Rebeldes”, de 12 Nocturnos em teu nome, para além da peça de Joaquim dos Santos. Os restantes executantes voltam-se antes para composições de autores franceses, espanhóis, brasileiros e argentinos, dando, assim, a ouvir peças ou excertos de Debussy, Granados, Falla, Villa-Lobos e Piazolla. Tocam Daniela Anjo e Carlos David, num duo de flauta e guitarra, Patrícia Quintas e Augusto Pacheco, num duo de canto e guitarra, Ana Sousa e Olga Ramos, em piano a quatro mãos, e o Gaya Quartet, composto por Isabel Anjo, Daniela Anjo, Samuel Peruzzolo e Francesca Serafini.

Para quem tiver vontade de conhecer um pouco da música de Joquim dos Santos, sugere-se a consulta do blogue que lhe é dedicado. Apesar de não ser actualizado há algum tempo, encontram-se a partir desta ligação alguns vídeos e gravações áudio de várias peças da sua autoria bem como partituras de algumas obras, transcritas por Nuno Costa.

 

Novo livro para celebrar Simões da Hora

Para alguns leitores da glosas, o nome Joaquim Simões da Hora é, possivelmente, desconhecido. Contudo, o livro da autoria de Tiago Hora, recentemente editado pela Colibri e que será lançado no próximo dia 10 de Abril, irá certamente contribuir para contrariar esse facto. Este livro dá a conhecer os percursos de intérprete, de pedagogo e de divulgador desta importante figura do meio musical português das últimas décadas do século XX, abordando igualmente aspectos relacionados com o desenvolvimento das práticas da música antiga em Portugal, na linha de Santiago Kastner.

Joaquim Simões da Hora (1941-1996) foi organista, dedicado à música antiga, sobretudo de autores ibéricos, e à redescoberta do seu repertório, professor da classe de órgão no Conservatório Nacional, acarinhado pelos seus alunos, e divulgador, tanto em programas de rádio que concebeu ou em que participou (nomeadamente “Em órbitra” e “Flores de música”), como enquanto produtor e supervisor artístico de edições da Valentim de Carvalho e da MoviePlay, e ainda enquanto organizador de cursos como a Semana de Música Antiga Ibérica e a Semana Internacional de Música Antiga, entre outros.

Esta biografia revela ao leitor um pouco das várias facetas de Simões da Hora. Porém, conhecê-lo verdadeiramente, à sua personalidade e ideais, passa por escutar a música que gravou. De entre os registos discográficos que efectuou contam-se o Órgão da Sé Catedral de Évora (1975), O Órgão de Santa Maria de Óbidos (1981), O Órgão da Sé Catedral do Porto (1985) e Batalhas e meios registos: música ibérica para órgão do século XVII (1994).

Este livro resulta da investigação realizada por Tiago Hora para a sua tese de mestrado em Musicologia Histórica (FCSH-UNL). Tiago da Hora é actualmente doutorando em Ciências Musicais na mesma faculdade e colaborador do CESEM-UNL e do CITAR-UCP, participando com regularidade em colóquios nacionais e internacionais. Exerce ao mesmo tempo trabalho na área da produção e coordenação de projectos no domínio da interpretação e da divulgação da música em Portugal.

O lançamento do livro Joaquim Simões da Hora: intérprete, pedagogo e divulgador terá lugar dias 10 de Abril no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, à Avenida de Berna, Lisboa, pelas 18h. Contará com as apresentações do prof. David Cranmer, orientador da tese de mestrado de Tiago Hora, e do prof. Rui Vieira Nery, que assina o emotivo prefácio desta obra e que privou de perto com Joaquim Simões da Hora. A entrada é livre.

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