“O Estado da Nação” na Casa da Música

A Residência Artística que a Casa da Música concede, desde 2008, a um Jovem Compositor luso é — ainda hoje — um espaço de afirmação sem paralelo no circuito português. A iniciativa tem dotado de um púlpito privilegiado alguns dos nomes mais promissores a emergirem do nosso vibrante tecido criativo. Uns surpreenderam aquando da sua nomeação, outros confirmaram o ímpeto já que traziam. Todos agitaram as águas, e alguns lançaram-se em plena carreira de circulação internacional. Em Maio próximo, a Casa da Música propõe “passar em revista” alguns dos resultados dessa parceria em dois concertos que intitula de “O Estado da Nação”.
 


 

O Estado da Nação I
12 de Maio de 2015
Terça-feira, 19:30 | Sala Suggia

Remix Ensemble
Pedro Neves, direcção
Leonor Melo, soprano

Vasco Mendonça Shadow Circles (2007)
Luís Cardoso Interlúdio 2 (2008)
Daniel Moreira Limiar (Homenagem a Haydn) (2009)
Daniel Martinho Antologia do Tempo 2: Ritual – fluxo contínuo (2010)
Ângela Ponte Kras en Momentum (2011)
Igor C. Silva from underground_03, para ensemble, electrónica e vídeo (2012)
Ana Seara Sinestesias (2014)

 

O Estado da Nação II
16 de Maio de 2015
Sábado, 18:00 | Sala Suggia

Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música
Takuo Yuasa, direcção

Ângela Ponte La Mer Souleveé (2011)
Daniel Moreira From Dawn to Twilight over Zabriskie Point (Homage to William Turner) (2009)
Daniel Martinho Antologia do tempo 3: Apogeu (2010)
Marco Barroso Bondage (2013)
Ana Seara Mar de Sophia (2014)
Igor C. Silva Non”sense%)8$messages#_! (for a nonsense reality) (2012)

Laureados do PJM no Porto

A Casa da Música, no Porto, acolherá até ao final da temporada dois concertos que põem em destaque alguns dos laureados da última edição do Prémio Jovens Músicos.

Dia 21 de Abril, terá lugar na Sala 2 um duplo recital a solo por João Diogo Rosas Leitão, vencedor do nível superior de guitarra, e José Valente, que, para além de ter vencido a respectiva categoria de acordeão, arrecadou também o Prémio União Europeia das Competições Musicais para Jovens.

João Diogo Rosas Leitão nasceu a 6 de Fevereiro de 1990, em Gondomar, onde iniciou os estudos aos dez anos de idade na Academia de Música da cidade, na classe de Cristina Bacelar. Em 2005 entra no Curso de Música Silva Monteiro e dedica-se ao estudo do repertório erudito com Hugo Sanches. Termina o 8.º grau com classificação máxima, em 2008, e entra na Universidade de Évora, onde estudou com Dejan Ivanovich. É mestre pelo Real Conservatório de Haia, e, para além do nível superior do Prémio Jovens Músicos 2014, venceu outros concursos nacionais, como o Concurso Nacional de Guitarra de Ourém, Concurso Santa Cecília, Concurso de Guitarra de São João da Madeira, Concurso Luso-Espanhol de Fafe e Concurso Internacional Cidade do Fundão. Volta à Sala 2 da Casa da Música para apresentar obras de Carlos Seixas (1704-1742), Alexandre Tansman (1897-1987) e do compositor e guitarrista brasileiro Arthur Kampela (1960-).

José Valente nasceu em Lisboa no ano de 1989, e iniciou os seus estudos musicais igualmente aos dez anos, sob a orientação do professor Paulo Jorge Ferreira, no Conservatório Municipal de D. Dinis, em Odivelas. É mestrado pela ESART — Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco, sob a orientação de Paulo Jorge Ferreira e Maria Luísa Correia Castilho. Antes do seu sucesso no Prémio Jovens Músicos de 2014, havia já vencido outros concursos nacionais, ao ser distinguido pelo Folefest — em 2008, na categoria júnior, em 2009, na categoria sénior e música de câmara, e em 2012, na categoria música de câmara — e pela 6.ª Edição do Concurso de Jovens Intérpretes de Caldas da Rainha. Apresentar-se-á na Sala 2 da Casa da Música com música de Sofia Gubaidolina (1931-), Patrick Busseuil (1956-) e Anatoli Kusyakov (1945-).

Já a 17 de Maio, a intimidade do recital a solo é substituída pela efusividade da Banda Sinfónica Portuguesa, que receberá como convidados Horácio Ferreira, Prémio Maestro Silva Pereira para melhor Jovem Músico do Ano, e Daniel Davis, vencedor do Concurso de Composição SPA/Antena 2.

Sob a direcção de José Eduardo Gomes, a Sala Suggia será palco para a estreia mundial de uma nova obra para a formação da Banda Sinfónica Portuguesa: between places….

Daniel Davis nasceu no Porto, a 25 de Agosto de 1990, e é licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde trabalha actualmente no seu mestrado. Esta é a sua segunda colaboração com a BSP, após esta lhe ter conferido uma menção honrosa na edição de 2013 do seu concurso de composição. É o Jovem Compositor Residente da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras para a presente temporada.

Horácio Ferreira, por sua vez, interpretará o Concerto para Clarinete do compositor inglês Martin Ellerby (1957-), frente à Banda que ajudou a fundar. Horácio nasceu em 1988, em Santa Comba Dão, e iniciou os seus estudos na Sociedade Filarmónica Lealdade Pinheirense, com oito anos. Prosseguiu no Conservatório de Música de Coimbra, com Henrique Pereira, na Escola Profissional de Música de Espinho, onde estudou com Luís Carvalho e licenciou-se na Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo, na classe de António Saiote. Actualmente, frequenta a Escuela Superior de Musica Reina Sofía, Madrid, trabalhando com Enrique Pérez Piquer e Michel Arrignon. Integra a Orquestra xxi. Antes do nível superior de clarinete no Prémio Jovens Músicos, havia já ganho o nível médio, o Concurso da Costa Azul e o Concurso “Terras de La Salette”, bem como coleccionado várias presenças em fases finais de concursos internacionais (onde se destaca o Prémio UMP do Concours Debussy, Paris, para melhor interpretação da Première Rhapsodie).

O concerto será completado pela suíte do bailado O pássaro de fogo, de Igor Stravinsky, na transcrição para banda de Frederick Fennell, e decorrerá Domingo dia 17 de Maio, às 12h00, na Sala Suggia.

Dias da Música 2015: Luzes, Câmara… Música!

Chegada a Primavera, é também altura de ser anunciado o programa de mais uma edição dos Dias da Música em Belém, festival que decorre anualmente no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no último fim de semana de Abril. O tema deste ano junta música e cinema em mais de cinquenta concertos e actividades paralelas, como palestras ou oficinas para os mais novos. O tema em si é bastante sugestivo e levará certamente muito público ao Centro Cultural de Belém nos dias 24, 25 e 26 de Abril.

O programa, anunciado no passado dia 23 de Março, toca várias épocas e estilos de música, da idade média ao século XX, da música erudita à música popular. Esta diversidade tem marcado todas as anteriores edições dos Dias da Música (ainda que os programas acabem por se centrar sobretudo na música do classicismo e do romantismo), mas é particularmente potenciada pelo tema deste ano. Assim, para dar um exemplo, enquanto numa sala se escuta Franz Schubert pelo Ensemble Darcos (concerto B13), à mesma hora Lara Martins e João Paulo Santos interpretam peças da Broadway de Irving Berlin, George Gershwin e Richard Rodgers, entre outros (B23).

Os caminhos a escolher e as sonoridades a descobrir são muitas. Em cada uma das salas cruzam-se obras de música “apropriadas” pelo cinema e obras escritas especificadamente para a imagem. De entre as primeiras encontram-se casos como o Adagietto da 5.ª Sinfonia de Gustav Mahler, para sempre associado aos espaços e trama de A morte em Veneza de Luchino Visconti (B15, B17, C17), a abertura de Assim falava Zaratustra, de Richard Strauss (2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrik) (A1), ou o Concerto para clarinete de W. A. Mozart, que tão bem ilustra as vastas paisagens de África minha, de Sydney Pollack (B10). Pedro Burmester sugere uma viagem até aos filmes de Pier Pasolini a partir de obras de J. S. Bach (B31), recital que faz parte do projecto CINECOA, com imagens cedidas pela Cinemateca de Bolonha. E o grupo Syrinx: XXII (C19) percorre alguns dos filmes de Woody Allen através de excertos de Sonho de uma noite de Verão de Felix Mendelssohn (Comédia sexual de uma noite de Verão), de Amor das três laranjas de Sergei Prokofiev (Nem guerra, nem paz), Cheek to cheek de Irving Berlin (Rosa púrpura do Cairo) ou Concerto em fá menor BWV 1056, de J. S. Bach (Ana e as suas irmãs).

Nos concertos com composições escritas especificamente para filmes, será possível escutar os mais populares temas de John Williams, de filmes como A Lista de Schindler e A Guerra das Estrelas, ou as sonoridades escuras e inquietantes do cinema de terror e de thrillers, como é exemplo a música de Bernard Herrmann para o filme Psico, de Alfred Hitchock. No Sábado, o Quinteto de Richard Galliano presta homenagem a Nino Rota (B6) e, um pouco mais cedo, Gonçalo Pescada e Yan Mikirtumov apresentam obras de Ennio Morricone (B26). Do cinema soviético chega uma obra emblemática de Sergei Eisenstein e S. Prokofiev, Alexandre Nevsky, interpretado pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa sob a direcção de João Paulo Santos (B5).

O cinema português também está representado pelas mãos de Mário Laginha, que irá executar as composições de Bernardo Sassetti para o filme Alice (B9) e pela interpretação de Vera Morais, Mário Franco e Francisco Sassetti que apresentam peças de Frederico de Freitas, Luiz de Freitas Branco, Raul Portela, Wenceslau Pinto e Ruy Coelho, entre outros, para filmes como A Severa, Bocage, Camões, Aldeia da roupa branca ou O Costa do castelo (B28).

Pode-se escutar também árias de ópera (B24), opereta (C12), ou clássicos dos anos de ouro dos estúdios da MGM (C9). Artur Pizarro, que irá tocar em mais do que um concerto, e Rinaldo Zhok interpretam obras para piano retiradas de desenhos animados (C16), num recital indicado para os mais pequenos e para os mais crescidos (quem é que não ouviu pela primeira vez a Rapsódia húngara n.º 2 de Franz Liszt tocada por Tom & Jerry ou por Bugs Bunny?).

O programa detalhado pode ser consultado no site do CCB e merece ser bem estudado para escolher o que ouvir e que percursos fazer.

A programação paralela é igualmente rica. Para além do habitual ciclo “Aqui há conversa” na Sala de Leitura, que reúne alguns convidados para debater questões e assuntos relacionados com o tema do festival, e dos concertos no Coreto (foyer do piso 2 do Grande Auditório) e na Praça Exterior do CCB, de entrada livre e programa variado, irão ser exibidos vários filmes, cujas bandas sonoras são interpretadas nas salas de concertos. No Espaço Cinema poder-se-á, assim, assistir a filmes musicais ou nos quais a música desempenha um importante papel como Morte em Veneza, Mary Poppins, O submarino amarelo, Psico, Fantasia, Serenata à chuva e Laranja mecânica. Nos dias 22, 23, 25 e 26 de Abril serão também exibidos alguns filmes mudos de Charlie Chaplin, Buster Keaton e George Méliès, acompanhados ao piano por Filipe Raposo. Decorrem também várias oficinas, dirigidas aos mais novos. Repete-se igualmente nesta edição os concertos por alunos de conservatórios, academias e escolas de música, na Sala Amália Rodrigues, ao longo dos três dias do festival.

Este ano, pela primeira vez, os Dias da Música saem das portas do CCB e, em conjunto com o festival de cinema Indie Lisboa (que decorre de 23 de Abril a 3 de Maio), celebra a música no cinema com um concerto pelo Alis Ubbo Ensemble e a projecção de Around the world in 50 concerts, da realizadora Heddy Honigmann,  no cinema São Jorge, a 23 de Abril.

Algumas informações úteis: a letra na numeração dos concertos representa o dia do concerto, A para Sexta-feira (o concerto de abertura), B para Sábado e C para Domingo. Ao adquirir os bilhetes facilita muito saber o código do concerto. Apenas o Grande Auditório tem lugares marcados, para as restantes salas é costume fazer-se fila à porta, por isso, se quer garantir um bom lugar, convém ir para a fila cedo e ter sapatos confortáveis. O portador de bilhetes para concertos tem acesso a todo o recinto (ao Coreto, ao espaço “Aqui há conversa” e às vendas de livros e CD); encontra-se também à venda um bilhete de recinto. Para as sessões de cinema é necessário adquirir bilhete. As oficinas são de entrada livre mas têm lugares limitados e algumas requerem ser portador de bilhete para um concerto ou ter o bilhete de recinto. Atenção que os bilhetes já estão à venda e podem esgotar. Todas as informações e programação em www.ccb.pt .

Dias da Música em Belém conta com a parceria da Câmara Municipal de Lisboa, da RTP, da Antena 2 e do Indie Lisboa.

Concerto de Quaresma: encontro e diversidade

Poderão um coro amador, um quarteto de cordas profissional e uma banda filarmónica entender-se?

Esta foi a aposta de Francisco Brazão, maestro do Coro dos Amigos, para o concerto de Quaresma realizado na igreja matriz de São Brás de Alportel (Algarve) em pleno Domingo de Ramos. A igreja estava apinhada de gente cujos olhares se concentravam na direcção do altar-mor, onde os coralistas se dispuseram na tradicional meia-lua. Eis senão quando, rostos surpreendidos, se viraram ao ribombar do tambor que sou à entrada da nave direita da igreja. Ao passo marcado pela percussão seguiram em marcha os dois trompetes e os dois trombones da banda filarmónica de São Brás interpretando a obra Funeral of Queen Mary de Henry Purcell (1659-1695), composta, precisamente, para coro e metais, que contou ainda com Mary Legg ao órgão. Os elementos da filarmónica voltaram a desfilar pelo público enquanto se encaminhavam para a saída da igreja, na sua marcha evocadora de andores e procissões. Impressionaram no forte e perturbaram os corações na surdina de timbre aveludado.

Seguiu-se-lhe Singet dem Herrn (Cantai ao Senhor) de Johann Pachelbel (1653-1706), obra mais dinâmica e alegre. O Coro dos Amigosque conta com quase 40 elementos de nacionalidades  inglesa, alemã, holandesa, canadiana e portuguesa (apenas 4 elementos) reduziu-se então para 16 dando lugar ao Canticorum que interpretou Hear my prayer de Purcell, All in the April Evening de Hugh S. Roberton (1874-1952), In jejunio et fletu do português Diogo Dias Melgaz (1638-1700),  In monte oliveti do também português Manuel Cardoso (1566-1650), da idade de ouro da polifonia lusa, e Ave verum corpus de William Byrd. A direcção do Coro dos Amigos afirma que esta estratégia de existência de um coro mais pequeno – Canticorum – com elementos mais antigos e experientes acrescenta versatilidade e lhes permite preparar repertório mais rapidamente.

 

 

O coro completo voltou a reunir-se para a interpretação de Alles was ihr tut (Tudo o que vós fazeis) de Dietrich Buxtehude, cantata com a qual homenagearam o maestro fundador Walter Sulzer que criou o coro em 2006 e o dirigiu até 2013. A partir deste momento o concerto foi enriquecido com a participação de três elementos do Quarteto de Cordas Sul’Arte, constituído em 2013 por músicos profissionais a trabalhar no Algarve: José Gomes no primeiro violino, Helena Duarte no segundo violino, Ângela Silva na violeta e Mikhail Shumov no violoncelo, que abrilhantaram ainda as obras Jesus bleibet meine Freude de Johann Sebastian Bach (1685 -1750) e, para finalizar, Insanae et vanae curae de Joseph Haydn (1732-1809). A paixão do trio contagiou o coro e as vozes soltaram-se num crescendo interpretativo que não podemos deixar de reconhecer.

A fechar o evento, fez questão de falar o senhor pároco, relembrando ser ele o detentor das chaves daquela igreja, congratulando-se por nela ter a oportunidade de acolher neste dia música  sacra e erudita mas na semana seguinte fanfarra e muita música popular, para celebrar a alegria da ressurreição, convidando todos os presentes para ali se reunirem de novo no próximo domingo de Páscoa. São atitudes de abertura e flexibilidade como esta que proporcionam os momentos de encontro que testemunhámos neste concerto.

Tratou-se de um concerto coerente, de repertório bem doseado entre sofrimento evocador da presente quaresma e antecipação das alegrias da ressurreição. Apesar das diferenças de desempenho que, sem dúvida, se registaram neste grupo tão heterogéneo, o que marcou foi a conjugação de esforços, a coragem desta ousada proposta de Francisco Brazão e, sobretudo, o prazer de fazer e ouvir música.

 

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