Paulo Gaio Lima no Museu da Música

No próximo dia 1 de Outubro, às 18h00, parte das celebrações do Dia Mundial da Música, terá lugar o oitavo concerto do ciclo Um Músico, um Mecenas (2015), ciclo de concertos com instrumentos históricos actualmente preservados na colecção instrumental do Museu Nacional da Música, em Lisboa. Excepcionalmente realizado a uma quinta-feira, em vez do habitual Sábado, como vem sucedendo no caso dos concertos que, no âmbito deste ciclo, coincidem quer com o Dia Internacional dos Museus (18 de Maio), quer com o Dia Mundial da Música, o concerto de 1 de Outubro será seguramente uma oportunidade ímpar para ouvir um dos mais importantes violoncelistas portugueses do nosso tempo, Paulo Gaio Lima, apresentando um programa invulgar de transcrições de obras de Johann Sebastian Bach originalmente destinadas a outros instrumentos que não o violoncelo (o Prelúdio BWV 997, aufs Lautenwerck, e a monumental Partita para flauta BWV 1013), a que se acrescentam a primeira suite para violoncelo solo senza basso, BWV 1007, e obras raramente ouvidas em concerto de Johannes Schenck (1660-1712), Heinrich Ignaz Franz von Biber (1644-1704) e Francesco Paolo Scipriani (1678-1753), celebrado autor dos Principij da imparare à suonare il violoncello.

Paulo Gaio Lima, que neste concerto se apresentará pela primeira vez no ciclo Um Músico, um Mecenas, tocará o violoncelo histórico Stradivarius hoje conhecido como Chevillard-Rei de Portugal (n.º inv. MM 47). Construído em Cremona em 1725 porAntonio Stradivari (1644-1737), este violoncelo apresenta a forma que os estudiosos da produção do construtor conhecem como “B”, utilizada no período áureo da sua actividade, entre os anos de 1707 e 1726. O violoncelo MM 47, actualmente preservado na colecção instrumental da Museu Nacional da Música, e em cuja exposição permanente pode ser diariamente visitado, pertenceu ao grande violoncelista belga Pierre Chevillard (1811-1877), considerado um dos pais da escola de instrumentos de arco do séc. XIX, tendo sido, após a sua morte, adquirido pelo nosso Rei D. Luiz I. Único instrumento de factura de Stradivarius existente em colecções portuguesas, está hoje classificado como Tesouro Nacional e constitui uma das peças mais célebres, importantes e valiosas da colecção do Museu Nacional da Música, ela própria uma das mais ricas colecções instrumentais da Europa.

O ciclo Um Músico, um Mecenas tem como prioridade sensibilizar o público para a necessidade imperiosa que os instrumentos musicais têm de manutenção cuidada e de regularidade quase diária, factor que distingue uma colecção instrumental de quaisquer outros tipos de património museológico por natureza. Para este concerto, Paulo Gaio Lima e o luthier Christian Bayon, que preparou especialmente o violoncelo Stradivarius, constituem-se, assim, em mecenas do Museu Nacional da Música, que conta com diversos outros apoios, entre os quais figuram também o MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, e a RDP – Antena 2.

Todos os concertos têm entrada livre, condicionada à capacidade da sala. Em razão da grande afluência que os concertos têm vindo a registar, aconselha-se, porém, a chegada ao Museu com alguma antecedência. Para reservas ou mais informações, contacte o Museu Nacional da Música através do telefone 21 771 09 90 ou da página facebook.

O próximo concerto do ciclo Um Músico, um Mecenas, a 21 de Novembro, contará com a presença especial da grande cravista Cremilde Rosado Fernandes, que interpretará um programa integralmente dedicado à música de autores ibéricos do séc. XVIII.

Jornadas Maestro Manuel Ivo Cruz

Na próxima quinta-feira, dia 1 de Outubro, têm início as “Jornadas Maestro Manuel Ivo Cruz: duas gerações, a mesma paixão pela Música”, com um encontro no Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal. O encontro terá entrada livre e contará com a participação de Maria João Pinto, Mário Moreau, Sílvia Sequeira e Sofia Lourenço. No mesmo espaço estarão expostos documentos pertencentes ao Espólio Ivo Cruz e à Colecção Ivo Cruz, que reúne um relevante conjunto de partituras e obras de temática musical, bem como impressos e manuscritos raros, nomeadamente autógrafos de João Domingos Bomtempo. Também com entrada livre, estará patente uma exposição documental no foyer do Teatro Nacional de São Carlos, de 2 a 15 de Outubro.

Tendo iniciado os seus estudos musicais em Olhão e concluído uma licenciatura em Direito na Universidade de Lisboa, Ivo Cruz (1901-1985) foi um dos fundadores do Renascimento Musical, movimento fortemente marcado pelos ideais do integralismo lusitano e dedicado principalmente à revalorização da música portuguesa dos séculos XVII e XVIII, e da Sociedade Coral Duarte Lobo, especialmente dedicada a esse repertório. Fundou também a Orquestra Filarmónica de Lisboa em 1937 e, como figura relevante no ensino da música, leccionou no Conservatório Nacional, instituição da qual se torna director, substituindo Vianna da Motta, em 1938, e mantendo o cargo até 1971.

Manuel Ivo Cruz (1935-2010) iniciou a sua carreira em 1954, como director de uma orquestra de câmara no Salão Nobre do Conservatório, tendo integrado o naipe de violoncelos da Orquestra Filarmónica de Lisboa. Com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, Manuel Ivo Cruz parte, em 1962, para a universidade de Salzburgo, na Áustria, terminando com elevada distinção o curso de Direcção de Orquestra da Academia Mozarteum. Em 1966 regressa a Portugal e assume o cargo de maestro titular da Orquestra Filarmónica de Lisboa, tendo colaborado com outras orquestras e, em 1975, passado a desempenhar funções de maestro-director no Teatro Nacional de São Carlos. Em 1999, doou o seu espólio pessoal à Universidade Católica Portuguesa.

Esta iniciativa resulta de uma parceria entre a Biblioteca do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa, a Biblioteca Nacional de Portugal e o Teatro Nacional de São Carlos, e tem como objectivo a promoção e divulgação dos espólios de Ivo Cruz e de Manuel Ivo Cruz.

III Encontro Ibero-americano de Jovens Musicólogos

Aproxima-se mais uma edição do Encontro Ibero-americano de Jovens Musicólogos. Este colóquio realiza-se de dois em dois anos e tem por objectivo promover  o debate e fomentar a circulação dos estudos na área das Ciências Musicais.

Depois de Lisboa em 2012 e do Porto em 2014, o III Encontro Ibero-americano de Jovens Musicólogos cruza fronteiras e chega a Espanha, indo decorrer em Sevilha nos dias 10 e 11 de Março de 2016. Todos os interessados em participar poderão enviar as suas propostas de comunicações sobre qualquer tema relacionado com música ibero-americana ou internacional, tanto segundo perspectivas da musicologia histórica como da etnomusicologia, até ao próximo dia 10 de Outubro, através da página http://www.musicologiacriativa.com.

As edições anteriores do colóquio têm juntado investigadores de vários países, interesses e graus de formação. A primeira edição, que teve lugar no Palácio Foz em Lisboa, de 22 a 24 de Março de 2012, teve a participação de 136 musicólogos e estudantes de musicologia. A edição seguinte, na Casa da Música no Porto, decorreu a 26 e 27 de Fevereiro de 2014 e reuniu de novo um impressionante número de investigadores, 128. A diversidade de assuntos abordados e discutidos em cada sessão desta duas edições, cujas actas podem ser consultadas no endereço acima mencionado, são mostra de que as Ciências Musicais são uma ciência viva, actual e multidisciplinar. Ambas as edições contaram ainda com a participação de conferencistas convidados, os professores Mário Vieira de Carvalho, Cristina Bordas e Pablo Sotuyo Blanco em 2012, e os professores Victoria Eli Rodríguez, Marcelo Campos Hazan, Paula Gomes Ribeiro e Luca Chiantore em 2014. Actividades paralelas, como workshops, animaram também estes colóquios.

A participação no III Encontro Ibero-americano de Jovens Musicólogos está aberta a estudantes de licenciatura, licenciados em música e ciências musicais, estudantes de mestrado, doutorandos e recém-doutorados, assim como a investigadores ligados a centros de investigação mas sem uma posição consolidada. Desta forma, este colóquio é um bom meio e uma boa oportunidade para o jovem musicólogo aventurar-se a apresentar os seus trabalhos e reflexões a um grupo de pares fora do contexto da sala de aula.

O colóquio é organizado pelo Grupo Musicologia Criativa, que reúne investigadores de ciências musicais de Portugal, Espanha e Brasil.

Ensemble MPMP abre o Festival PJM 2015

O Ensemble MPMP apresentará na próxima quarta-feira, pelas 19h, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o primeiro concerto do Festival Prémio Jovens Músicos 2015, a ocorrer depois da cerimónia de entrega de prémios, de um painel e de um lançamento durante a tarde. Participam, sob a direcção de Jan Wierzba, os solistas Marina Pacheco (soprano) e André Baleiro (barítono) e os instrumentistas Tatiana Rosa (flauta), Miguel Costa (clarinete), Daniel Bolito (violino), Catarina Távora (violoncelo), Duarte Pereira Martins (piano) e Tomás Moital (percussão).

‘De escárnio e maldizer’ compõe-se de quatro poemas medievais portugueses com música dos jovens compositores Edward Luiz Ayres d’Abreu (Foi a cítola temperar, sobre Martim Soares), Gonçalo Gato (Comendador, u m’eu quitei, sobre Rui Pais de Ribela), Nuno Peixoto de Pinho (Foi um dia Lopo jograr, sobre Martim Soares) e Filipe Melo (Ai, dona fea, feste-vos queixar, sobre João Garcia de Guilhade).

Logo a seguir entram no palco do Grande Auditório os Sete Lágrimas, sob a direcção de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para o concerto ‘Diáspora’, e às 21h30 dá-se a Grande Final do Prémio Jovens Músicos com a participação dos solistas laureados e da Orquestra Gulbenkian sob a direcção de Jean-Marc Burfin. A programação completa do Festival Prémio Jovens Músicos 2015, que se prolonga até dia 2 de Outubro, pode ser consultada abaixo:

 

Jornadas Europeias do Património 2015

O património industrial e técnico foi o tema das Jornadas Europeias do Património 2015 que se realizaram neste fim-de-semana, nos dias 25, 26 e 27 de Setembro. De Norte a Sul do país e nas Ilhas, museus, câmaras e organizações locais responderam ao desafio. O tema remeteu para o património que faz parte da paisagem do país e do quotidiano local. Fábricas, de grandes ou pequenas indústrias, pontes, canais, linhas de caminho-de-ferro ou minas moldam a demografia, a economia e as paisagens das regiões, e é em torno deles que se fez o programa destas jornadas.

Ao longo dos três dias, um pouco por todo o país, decorreram visitas guiadas a monumentos, caminhadas, inaugurações de exposições, concertos, conferências, conversas com artesãos, projecção de documentários, concursos e maratonas de fotografia, celebrando o “património industrial e técnico”. Foi assim possível ficar a conhecer mais ou descobrir espaços e locais como as fontes e túneis de água em Alcácer do Sal, o sistema hidráulico do Mosteiro de Alcobaça, fornos de cal em Patais, Alcobaça, a ponte 25 de Abril que liga Lisboa e Almada, a Real Fábrica do Gelo, no Cadaval, as pontes de Constância, minas de volfrâmio em Moimenta do Cabril, Castro Daire, pedreiras de mármore em Estremoz, fábricas abandonadas do Mondego, no concelho da Guarda, faróis nos Açores, em Ílhavo, em Peniche e em Matosinhos, salinas em Tavira e em Aveiro, lagares de azeite em Penamacor, a barragem de Picote, em Miranda do Douro ou os campos e fábricas de descasque de arroz carolino no concelho de Montemor-o-Velho.

Para quem não sofre de vertigens, nestes dias houve a rara oportunidade de ver de perto o mecanismo da torre do relógio do Palácio da Pena, em Sintra, enquanto que no Palácio Nacional de Mafra os visitantes subiram até aos carrilhões na companhia de José Nelson Cordeniz, que se encontra a desenvolver investigação no âmbito do doutoramento em Ciências Musicais sobre os carrilhões de Mafra. Houve também uma visita guiada gratuita à Casa dos Patudos, em Alpiarça onde, como a última glosas revelou, se pode admirar o único quadro conhecido de Domenico Scarlatti.

 

 

Foram vários os concertos e momentos musicais que tiveram lugar no âmbito destas jornadas, aqui seguindo-se uma breve selecção:

× Alcochete, Largo de S. João; 27 de Setembro, 16h: o grupo Il Dolcimelo interpretou música do Renascimento. O concerto integrou-se também nas comemorações dos 500 anos do Foral da cidade.
× Aljezur, Igreja Matriz; 26 de Setembro, 17h: Concerto “Ouvir as vozes do património”, com direcção artística da maestrina Ivelina Kavrakowa-Pereira, Raquel Correia ao piano e o Grupo Coral da Universidade do Algarve.
× Caldas da Rainha, Museu da Cerâmica; 26 de Setembro, 16: momento musical pelo Grupo Coral e Musical da Casa do Pessoal do Hospital de Caldas da Rainha.
× Caldas da Rainha, Museu José Malhoa; 27 de Setembro, 16h: grupo coral Vox Maris interpretou cantares populares.
× Coimbra, Museu Nacional de Machado de Castro; 25 de Setembro, 18h30: concerto por alunos do Conservatório de Música de Coimbra.
× Felgueiras, Igreja de Santa Maria de Airães; 26 de Setembro, 21h30: concerto pelo coro Anima Mea.
× Funchal, Palácio de São Lourenço; 25 de Setembro, 18h: concerto de música de câmara.
× Lisboa, Biblioteca da Ajuda; 26 de Setembro, 12h30: concerto de música medieval.
× Lisboa, Museu Nacional de Etnologia; 26 de Setembro, 17h: o Trio Meru interpretou música do mundo.
× Loulé, Castelo de Loulé; 26 de Setembro, 15h: concerto pelo Coral Feminino Outras Vozes.
× Porto, Casa do Infante; 27 de Setembro, 16h: recital de guitarra clássica por Francisco Berémy.
× Tomar, Convento de Cristo; 27 de Setembro, 17h: concerto “As vozes e os espaços” pelo Coro do Canto Firme.

 

Ainda a propósito de música, vale a pena destacar que se realizou um workshop de construção de instrumentos musicais no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, dia 25 de Setembro, entre as 10h30 e as 12h. A Sociedade Lírica Moitense, concelho da Lourinhã, promoveu o ateliê “Música porquê”, 27 de Setembro, a partir das 15h. No Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades Faria, no Monte Estoril, Manuel Morais apresentou dia 27 de Setembro pelas 16h uma comunicação, resultado do seu trabalho de investigação, sob o título “Guitarras portuguesas construídas em Santa Cruz-ilhas, Goa”.

Por todas estas razões, as várias instituições envolvidas nas Jornadas Europeias do Património estão de parabéns. Esperemos que a iniciativa volte a realizar-se no próximo ano. Lá estaremos para celebrar Música e Património.

Tempestade musical setecentista

 

 

Foi lançado em Portugal, no dia 1 de Outubro, na Casa Museu-Anastácio Gonçalves, o CD Rabbia, furor, dispetto – Sinfonie ed Arie, gravação da editora Paraty (Paris) pelo grupo Concentus Peninsulae, com direcção de Vasco Negreiros e participação da soprano alemã Monika Mauch, especializada em música antiga. O CD reúne obras do compositor português Jerónimo Francisco de Lima (1741-1822) e pretende explorar principalmente a importância das máquinas teatrais do século XVIII, parte fulcral da representação cénica da época. Através da colaboração de Rosana Orsini Brescia, investigadora de cenografia setecentista, e das réplicas da firma Antiqua Escena de Alcalá de Henares, numa das faixas do álbum é possível ouvir uma tempestade marítima, efeito conseguido com uma máquina que produz sons de ondas, duas de vento e três de trovões (para sons mais distantes e mais próximos), como se poderá ver nas fotografias abaixo reproduzidas.

 

 

Jerónimo Francisco de Lima é ainda um compositor por conhecer, realidade que Vasco Negreiros acredita que “vai mudar com este CD”. Destacando-se principalmente na composição de ópera e música sacra, o compositor estudou no Seminário da Patriarcal de Lisboa e, depois de concluir os seus estudos em Itália, regressa ao Seminário da Patriarcal como organista e maestro.

Concentus Peninsulae é um grupo formado quer por instrumentistas portugueses, quer por espanhóis, dedicados essencialmente à música antiga, e ultimamente à divulgação da obra de Jerónimo Francisco de Lima. É dirigido por Vasco Negreiros, maestro formado em Análise, Teoria e Direcção Coral pela escola PROARTE, no Rio de Janeiro, e em Direcção pela Staatliche Hochschule für Musik de Karlsruhe e pela Staatliche Hochschule für Musik und darstellende Kunst, Heidelberg-Mannheim, Alemanha, tendo realizado o Doutoramento em Música com a dissertação “O filho da velhice – questões de Interpretação” (2005), com orientação de João Pedro Oliveira e co-orientação de Owen Rees. Além de maestro, Vasco Negreiros destaca-se também nas áreas de Educação Musical, Musicologia e Direcção Coral, bem como na composição, tendo apresentado várias obras em concertos de música contemporânea e sido premiado com o 3.º Prémio (o 1.º não foi atribuído) no Concurso Internacional de Composição para Coro Infantil, em Julho de 2009, na Bulgária.

 

Vasco Negreiros, maestro (fotografia de Pablo Suarez)

 

Entrevista a Vasco Mendonça

Queria começar por felicitá-lo pela distinção do programa Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative. Como está a correr a parceria com Kaija Saariaho?

Está a correr bem. Este programa é, sobretudo, um prémio. A ideia deles é, num determinado período, associarem um artista com um perfil internacional já estabelecido a um artista mais jovem, em início de carreira ou que começou a carreira há pouco tempo. Eu não conhecia o projecto quando fui convidado a candidatar-me (o programa funciona por convite). Cada um dos pares define o método de trabalho, ou a forma como decorrerá a sua interacção; o que nós temos feito são encontros esporádicos e discussões sobre questões de carreira, exposição… O projecto é muito interessante, por um lado, pelo processo de selecção, feita com bastante cuidado pelo mundo inteiro. Isso significa que, sendo escolhidos, há um certo reconhecimento do nosso trabalho a nível internacional, que é o fundamental. Por outro lado, está desenhado de forma a não haver qualquer tipo de obrigatoriedade de apresentação de uma obra ou espectáculo. Há uma espécie de encerramento do programa, a que eles chamam fim-de-semana de artes, onde é suposto que os vencedores em cada uma das áreas apresentem algum do seu trabalho, sem que tenha, todavia, de ser alguma coisa feita durante este ano.

[…]

E por que motivo é a voz mais importante do que, por exemplo, a música apenas orquestral?

É algo muito pessoal. Eu tenho uma ligação muito forte à voz. Nunca tive nenhum tipo de carreira como cantor, mas sempre gostei muito de cantar, de fazer coro. Acho que é um instrumento especial, em primeiro lugar, por ser o único instrumento que está dentro de nós. Depois, obviamente, pela capacidade de transportar texto. Por último, há para mim qualquer coisa de muito comovente na figura do cantor – e isto já é talvez uma consideração de cariz mais teatral –, que é aquela fragilidade e o risco que eu comparo, por vezes, ao de profissões como, por exemplo, piloto de Fórmula 1, a vulnerabilidade da interpretação vocal em palco. É uma coisa que me comove muito.

[…]

O contexto extra-europeu interessa-lhe ou fascina-o de alguma maneira?

Fascina-me na medida em que tenho sempre curiosidade por algo que não conheça. Tenho necessidade de encontrar coisas e gosto muito de ser confrontado com elas. Mas devo dizer que, activamente, não sinto necessidade de me colocar nesses contextos. Neste momento, digamos que o Ocidente, na Europa, é mais o meu campo de acção.

Há quem diga, no entanto, que o futuro da música poderá não estar na Europa.

Seguramente! Aliás, tenho visto coisas maravilhosas vindas, por exemplo, da América do Sul. Há também compositores maravilhosos em actividade na Coreia. Mas, num certo sentido, é uma espécie de língua franca e cada um vai trazendo o seu gosto local e, portanto, tem mais a ver com a sensibilidade de alguém em específico do que propriamente do contexto cultural. Claro que é importante, mas interessa-me mais procurar um compositor específico.

E de alguma maneira consegue ver na sua obra a influência da cultura portuguesa?

De que eu tenha consciência, não. Naturalmente que o facto de ser deste país e de ter nascido e crescido nesta cultura tem implicações nos meus métodos, nas minhas soluções. Agora, isso será tudo numa esfera muito abstracta, muito profunda. Superficialmente ou visivelmente, por exemplo, a questão da música tradicional não tem influência, nem acho que deva ter, porque é uma coisa que nunca me interessou. O fado nunca me interessou até agora, só para dar um exemplo. Não consigo encontrar um paralelo com esse tipo de implicações, no sentido de informarem as minhas decisões artísticas.

[…]

 

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA NA GLOSAS 12!Clique aqui para aceder às versões impressas )

Masterclass de violoncelo barroco no Palácio de Queluz

Integrada na Temporada de Masterclasses do Centro de Estudos Setecentistas de Portugal (CESMP), com iniciativas durante os meses de Setembro e Outubro de 2015, decorre entre 18 e 20 de Setembro, entre as 10h e as 17h30, no Palácio Nacional de Queluz, uma masterclass de violoncelo barroco e a palestra “O violoncelo, da origem ao séc. XIX” por Diana Vinagre. De acordo com a violoncelista e investigadora, esta masterclass será uma introdução à prática historicamente informada do instrumento, tanto em violoncelo solo como em baixo contínuo, sendo uma iniciativa direccionada a instrumentistas de todos os níveis.

Interessada principalmente nas práticas históricas do seu instrumento, Diana Vinagre estudou na Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa, e posteriormente no Conservatório Real de Haia, Departamento de Música Antiga e Práticas Históricas de Interpretação, em violoncelo, onde conclui a licenciatura e o mestrado. Tendo colaborado e gravado, desde cedo, com vários agrupamentos, Diana Vinagre foi, em 2007, seleccionada para integrar a Orquestra Barroca da União Europeia, contexto em que se apresentou várias vezes enquanto solista. No ano lectivo de 2006-2007 foi detentora de uma bolsa de estudo para investigação de mestrado concedida pelos Conservatórios de Haia e de Amesterdão, e encontra-se de momento, num projecto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a realizar a sua investigação de doutoramento na FCSH-UNL acerca do violoncelo em Portugal entre 1750 e 1834, sob orientação do Prof. Dr. Rui Viera Nery. É fundadora do Ensemble Bonne Corde, agrupamento que se dedica a repertório do século XVIII.

 

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A temporada de masterclasses, workshops e seminários começou já nos dias 2 e 3 de Setembro, com uma masterclass de alaúde por Pietro Prosser, prosseguindo, após a de Diana Vinagre, com o seminário “Itinerários Musicais da Lisboa setecentista: corte, teatros, espaços eclesiásticos, assembleias e salões domésticos”, por Cristina Fernandes, nos dias 26 e 27 de Setembro. De 2 a 4 de Outubro, com Gianluca Capuano, o workshop será dedicado aos coralistas, nomeadamente à prática da música italiana do século XVII, sendo os dias 9, 10 e 11 de Outubro dedicados ao violino barroco, com Iskrena Yordanova, e 23, 24 e 25 ao “Canto nos Períodos Barrocos e Clássico”, com Lydia Vierlinger.

 

[alert type=red ]ATENÇÃO: As datas foram adiadas para 7 e 8 de Novembro. Para mais informações contacte [email protected] .[/alert]

Mais um inédito de Francisco António de Almeida em CD

Está para muito breve o lançamento da primeira gravação da obra Trionfo d’Amore, scherzo pastorale, do compositor setecentista Francisco António de Almeida. A gravação esteve a cargo do agrupamento Os Músicos do Tejo, com direcção de Marcos Magalhães, do grupo vocal Voces Caelestes e dos solistas Ana Quintans como Nerina, Carlos Mena como Arsindo, Joana Seara no papel de Termosia, Fernando Guimarães como Adraste, Cátia Moreso como Giano e João Fernandes no papel de Mirenio. Trionfo d’Amore, scherzo pastorale é uma serenata para seis vozes composta para a celebração do dia do nome do rei D. João V, tendo estreado a 27 de Dezembro de 1729 (dia de S. João Baptista) no Palácio da Ribeira, em Lisboa.

 

 

Existe apenas um manuscrito autógrafo de Il trionfo d’amore, em depósito na biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa, e desconhece-se o autor do libreto. Este, de temática mitológica, segue a história de Nerina, apaixonada por Arsindo mas prometida a Adraste, e Arsindo que, denunciado por Termosia, enamorada dele, é, logo no início da primeira parte, condenado à morte por sacrilégio. O engano, a traição e a morte cruzam-se ao longo da obra; contudo, o amor puro e constante acaba por triunfar e a unir, finalmente, Nerina e Arsindo.

Nas palavras de António Jorge Marques, musicólogo e autor do texto do livrete do CD, nesta obra Almeida demonstra ser um compositor imaginativo e melodicamente inventivo, de bons recursos técnicos. Francisco António de Almeida viveu durante a primeira metade do século XVIII. Terá nascido por volta de 1702 e crê-se que morreu em 1755 como uma das muitas vítimas do terramoto que assolou Lisboa. Pertenceu assim à mesma geração dos compositores António Teixeira (1707-1774) e João Rodrigues Esteves (c. 1700-c. 1751) que estudaram no Seminário da Patriarcal e que foram agraciados com bolsas da coroa para irem estudar para Roma, onde puderam contactar com a tradição operática aí praticada e onde absorveram técnicas de composição do stilo concertato. Almeida exerceu o cargo de organista da Igreja Patriarcal de Lisboa e, em 1752, recebeu das mãos do rei D. José I o título de Mestre de Música da Real Câmara. Compôs as óperas La pazienza di Socrate (1733), La finta pazza (1735) e La Spinalba, ovvero il vecchio matto (1739), a serenata L’Ippolito (1952) e a oratória La Giuditta (1726).

A aguardada edição em CD de Il trionfo d’Amore tem a etiqueta da Naxos, editora que em 2011 lançou a gravação de La Spinalba, ovvero il vecchio matto, também com interpretação de Os Músicos do Tejo.

No dia 2 de Outubro, no âmbito do programa do Festival Jovens Músicos 2015, na Fundação Calouste Gulbenkian, será feita a apresentação deste novo CD. Os Músicos do Tejo actuarão mais tarde nesse dia no Grande Auditório. Interpretarão obras de Francisco António de Almeida e C. P. E. Bach. A entrada é livre.

Coro Gulbenkian e Maria João Pires premiados

Os prémios Gramophone 2015 foram revelados e, entre os galardoados, encontram-se a pianista Maria João Pires e o Coro Gulbenkian, nas categorias Concerto e Ópera, respectivamente.

Estes prémios, dos mais importantes da indústria discográfica, são atribuídos anualmente pela revista britânica de música clássica Gramophone. A selecção dos nomeados foi feita pelo painel de críticos da revista a partir das quase 700 críticas a discos e DVDs publicadas nas páginas da revista entre Junho de 2014 e Julho de 2015, reduzidas, por meio de pré-selecção, a 72 títulos distribuídos por 12 categorias.

 

Ouça o álbum no Spotify através desta ligação.

 

O disco de Maria João Pires interpretando os concertos para piano n.º 3 e n.º 4 de Beethoven, com a Orquestra Sinfónia da Rádio Sueca dirigida por Daniel Harding, concorreu com gravações dos concertos para piano n.º2 e n.º 4 de Beethoven pela Orquestra de Câmara Mahler e Leif Ove Andsnes (piano) e com gravações de concertos para violino de Bruch e de Prokofiev (Guro Hagen, violino, Orquestra Filarmónia de Oslo e Bjarte Engeset) e de Mozart (Arabella Steinbacher, violino, Festival Strings Lucerne e Daniel Dodds); a Suite on English Folk Tunes, op. 90, de Britten e os concertos para oboé de Macmillan e de Vaughan Williams (Nicholas Daniel, oboé e corne inglês, Britten Sinfonia e James Macmillan); e obras de Dvorák para violoncelo, piano e orquestra (Alisa Weilerstein, violoncelo, Anna Polonsky, piano, Orquestra Filarmónica Checa e Jiri Belohlávek).

O disco de Maria João Pires, com Daniel Harding e a Orquestra Sinfónica da Rádio Sueca, foi lançado pela editora ONYX em 2014 e é dedicado ao maestro Claudio Abbado, falecido a 20 Janeiro do mesmo ano. A crítica de Bryce Morrison para a revista Gramophone recebe com entusiasmo mais uma gravação daquelas obras de Beethoven, desejando que a parceria entre os intérpretes e a editora se traduza na gravação do ciclo completo dos concertos para piano do compositor. Morrison aponta a pureza e luminosidade da interpretação de Pires no concerto n.º 4 e a sua interpretação diáfana no Largo do concerto n.º 3, sempre em equilíbrio com o maestro e a orquestra.

 

 

Na categoria Ópera, o grande vencedor foi Elektra de Richard Strauss, com a Evelyn Herlitzius no papel de Elektra, Waltraud Meier (Klytemnestra), Adrianne Pieczonka (Chrysothemis), Tom Randle (Aegisthus) e Mikhail Petrenko (Orestes), a Orquestra de Paris dirigida por Esa-Pekka Salonen e o Coro Gulbenkian, gravado ao vivo no Festival de Aix-en-Provence. A crítica de Hugo Shirley incide em cada um dos solistas, apontando a prestação sólida de Herlitzius, a direcção atenta ao pormenor de Salonen e a execução clara da Orquestra de Paris como os pontos chave do DVD. Apesar da realização agitada e da produção de Patrice Chérau algo desapontante, segundo Shirley, esta gravação conseguiu mais votos, ficando à frente de finalistas de peso como as gravações de Der fliegende Holländer, de Wagner (Terje Stensvold, Anja Kampe, Orquestra Real do Concertgebouw e Andris Nelsons), Parsifal, de Wagner (Jonas Kaufmann, Peter Mattei, Coro e Orquestra da Metropolitan Opera e Daniele Gatti), Lulu, de Berg (Barbara Hannigan, Dietrich Henschel, Orquestra Sinfónica La Monnaie e Paul Daniel), Death in Venice, de Britten (John Graham-Hall, Coro e Orquestra da Ópera Nacional  Inglesa e Edward Gardner) e Moses und Aron, de Schoenberg (Franz Grundheber, Andreas Conrad, Orquestra Sinfónica Baden-Baden e Freiburg e Sylvan Cambreling).

Outros galardoados dos prémios Gramophone foram o pianista Piotr Anderszewski, na categoria recital, com o disco das Suítes Inglesas n.ºs 1, 3 e 5; a Orquestra do Festival de Lucerna, dirigida por Claudio Abbado, na interpretação da Sinfonia n.º 9 de Bruckner foi a mais votada da categoria orquestra e o Concerto Italiano, dirigido por Rinaldo Alessandrini, recebeu o galardão na categoria ‘Barroco vocal’ pela gravação de Vespri Solenni per la festa di San Marco, de Monteverdi.

A cerimónia de entrega dos prémios terá lugar em St. John’s Smith Square, Londres, a 17 de Setembro. Durante a cerimónia serão ainda anunciados os vencedores dos prémios ‘Gravação do ano’, para o qual o disco de Maria João Pires também está nomeado, ‘Artista do ano’, ‘Jovem artista do ano’, ‘Editora do ano’ e ‘Carreira’.

As críticas aos 72 discos finalistas podem ser lidas na publicação gratuita Gramophone awards shortlist.

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