Um músico português na Arábia Saudita

Geografias : Médio Oriente

 António Luís Henriques

 de A a Z

 

[dropcap size=small]A[/dropcap]rábia Saudita | É uma terra de contrastes. Um dos grandes aliados do ocidente e, simultaneamente, um dos países mais inacessíveis do planeta. Há muitas opiniões diversas sobre este país mas, acima de tudo, há muito pouca informação disponível. Nasceu aqui o Islão, uma das religiões que mais influenciaram a história universal, mas a maior parte deste território era pouco mais do que um deserto insignificante no início do século XX.

Vivo há oito anos na Arábia Saudita mas talvez seja mais correcto dizer que vivo há oito anos numa comunidade britânica na Arábia Saudita. Não é fácil sair desta bolha de conforto que me proporciona muitas liberdades dentro de uma comunidade muito tradicional. Afinal de contas, sou um professor de música num país onde a música, mesmo não sendo exactamente ilegal, é vista pelas autoridades religiosas como qualquer coisa próxima da pornografia.

[dropcap size=small]B[/dropcap]ritish International School of Al Khobar | É uma escola britânica na cidade de Al Khobar, na costa oriental da Arábia Saudita, à vista do Bahrain. Devo a esta escola o meu primeiro emprego a tempo inteiro e a maior parte da minha experiência no ensino.

Com setecentos alunos de cerca de cinquenta nacionalidades, oferecemos escolaridade desde o infantário até sair para a universidade mas temos muito poucos alunos sauditas. Esta é uma de muitas escolas britânicas espalhadas pelo mundo, um mercado muito maior que o das nossas escolas portuguesas, que existem nos PALOPs e pouco mais.

Encontrei aqui a estabilidade e felicidade profissional que nunca encontrei em Portugal. Por vezes penso em levar a minha experiência de volta mas sei que isto não passa de uma ilusão. Infelizmente não há lugar no ensino público português para pessoas com experiência fora do sistema nacional. Mal há lugar para os que sempre estiveram em Portugal.

[dropcap size=small]C[/dropcap]omposição | Tive a grande felicidade de ser um dos alunos de Composição do professor Eurico Carrapatoso no Conservatório Nacional. Sempre tive paixão pela composição mas as aulas do professor Eurico Carrapatoso ajudaram-me a analisar a magia da música de um forma objectiva.

Componho arranjos e pequenas peças em casa sem grande consequência mas, acima de tudo, ensino Composição na escola e posso gabar-me de ter bons resultados nos exames GCSE (11.º ano) que alguns alunos meus têm feito.

Infelizmente, aqui estou longe de qualquer corrente de composição contemporânea ou de qualquer movimento artístico de relevo. Por mais gosto que tenha na minha profissão, por vezes gostaria de ser menos professor e mais aluno.

[dropcap size=small]D[/dropcap]ivertimento | Como não temos aqui concertos públicos, cinema, bares ou discotecas, inventamos outros divertimentos como tocar em bandas, organizar festas, etc.. Geralmente as pessoas ou têm muita dificuldade em viver aqui ou então adaptam-se e ficam anos a fio.

A Arábia Saudita é um país difícil comparando com outros países do golfo como o Qatar ou os Emirados mas a comunidade de estrangeiros acaba por ser também mais unida. As pessoas aqui não vão para concertos de nariz empinado, a pouca música a que se tem acesso é muito valorizada.

Aqui também se faz muito desporto mas infelizmente não tenho tido tempo para isso por ser muito requisitado como músico. Os poucos músicos que aqui vivem são muito procurados.

O Reino do Bahrain na zona onde vivo também é sinónimo de diversão. Uma ilha aproximadamente do tamanho da Madeira ligada à Arábia Saudita por uma ponte de 25 Km, o Bahrain é um país mais conservador que Portugal mas que parece Las Vegas quando comparado com a Arábia Saudita. Aqui podemos beber álcool, comer carne de porco, ir ao cinema e até frequentar cafés e restaurantes na companhia de membros do sexo oposto!

[dropcap size=small]E[/dropcap]ducar (pela música) | Venho de uma família de professores, não é por isso estranha a minha ligação com a educação. É mais estranha a minha ligação com a música. Comecei tarde e por iniciativa própria, completamente por paixão. Vejo a educação musical como um dever quase religioso e tenho muito prazer no que faço.

Na minha escola tenho condições para oferecer um ensino de qualidade. Temos equipamento e bons alunos. Se não tivermos bons resultados é por minha culpa. O mais díficil é o isolamento do país. Os nossos alunos, pelo estilo de vida protegido que aqui têm, vivem muito afastados da realidade do resto do planeta. Como não há vida cultural aqui, é muito difícil passar uma ideia de standard de qualidade.

Para combater o isolamento, faço um ensino muito prático, todos os alunos tocam, todos cantam, todos compõem. Quero que eles vivam experiências musicais de qualidade. Muito poucos prosseguem estudos musicais, seja por pressão familiar ou por falta de oportunidades na região, mas espero que todos tenham um ensino musical que lhes dê oportunidades no futuro, para saberem ouvir, cantar e tocar, mesmo de forma amadora.

[dropcap size=small]F[/dropcap]ormação (académica) | Depois de passar três anos no Instituto Superior Técnico a estudar Engenharia Mecânica decidi que tinha de mudar de carreira. A música foi a minha segunda opção. Na altura tinha muito pouca formação musical e por isso voltar-me para a música foi como saltar para um abismo, mas nunca me arrependi.

Estudei três anos na Escola de Jazz do Hot Clube. Não sabia nada de Jazz quando comecei mas agora é dos estilos musicais que mais aprecio. Estes anos foram fundamentais na minha formação como músico. Muito do que faço hoje é inspirado na visão jazzística da música que ganhei no Hot Clube.

O Conservatório Nacional e a Escola Superior de Educação fizeram a minha segunda etapa de estudos musicais. Apostei na educação à procura de segurança e de uma vida estável, mal eu sabia na altura que isto me iria levar à Arábia Saudita.

[dropcap size=small]G[/dropcap]astronomia | Aqui temos acesso a muitas cozinhas, pela diversidade de estrangeiros a viver na Arábia Saudita. Os ingredientes também são diversos, desde que não haja porco e as carnes sejam halal (o abate tem de obedecer a um ritual islâmico).

Quando se viaja, nas estações de serviço encontra-se sempre frango com arroz delicioso e barato. Ainda hoje as pessoas comem tradicionalmente com a mão e deitadas em tapetes e almofadas. Não há muita diversidade mas a quantidade e qualidade do serviço compensa. Também posso dizer que gosto muito de carne de camelo embora seja um pitéu nem sempre disponível.

[dropcap size=small]H[/dropcap]ipérbole | Adoro hipérboles e exageros. Quando se conhecem muitos povos e culturas perdemos cada vez mais a ideia linear do que é o correcto. Há tantas formas ricas de comunicar como há diversidade humana e temos, como seres humanos, a obrigação de aprender outras formas de estar.

Não podemos perder as nossas hipérboles mesmo quando não são entendidas. Devemos sim entender as figuras de estilo dos outros povos e nações, o sentido de humor, a forma de estar e de mostrar afecto ou respeito.

[dropcap size=small]I[/dropcap]deias | Acho que deixei aqui muitas ideias, espalhadas por este alfabeto. Gostava de passar uma mensagem de paz, noto cada vez mais claramente que as guerras vêm de tendências violentas de certas pessoas aliadas à existência de armas. Não acredito que haja, por exemplo, na Síria, uma vontade democrática de guerra, mesmo que haja motivos para isso. É isso que se passa normalmente.

Um grupo minoritário de pessoas violentas com armas estão a destruir uma das civilizações mais antigas que se conhece. As grandes nações e jogos de interesses patrocinam o jogo e o povo sofre esta tragédia. Cada vez que apoiamos aquele ou o outro lado do conflito, estamos a legitimar a violência. Cada vez que damos armas ao nossos aliados de conveniência ateamos mais o conflito.

Vão sempre haver loucos armados que não respondem à razão. Temos de nos defender destas pessoas mas não podemos aceitar que as nossas nações usem estes grupos para ganhar poder à custa de enormes tragédias humanas.

[dropcap size=small]J[/dropcap]am Sessions | Muitas e frequentes. Tenho a felicidade de conhecer bons músicos aqui na Arábia Saudita e de muitas vezes passar tardes a tocar e conviver. Muitas vezes um convívio pode-se transformar numa Jam Session de uma forma completamente improvisada.

[dropcap size=small]L[/dropcap]eituras | Adoro literatura russa, li quase todos os Tolstois e Dostoiévskis apesar de ser um leitor lento. Sou um grande fã das traduções do duo Nina e Filipe Guerra. Também leio ficção científica, particularmente Frank Herbert e Philip K. Dick. Em português gosto muito de ler David Soares. Não encontro facilmente disponibilidade temporal e espiritual para ler mas é sem dúvida das actividades que mais me preenche e satisfaz.

Não tenho procurado literatura sobre a Arábia Saudita, a minha experiência tem a ver com o contacto com pessoas, as minhas viagens e a minha vida em Al Khobar.

[dropcap size=small]M[/dropcap]úsica (Arábia Saudita) | Existe muita música entre um povo que entoa as cinco orações diárias mas esta está cercada de controvérsia. Várias correntes do Islão condenam a música como um pecado, há aqui muita gente pia que simplesmente recusa ouvir música. O poder de alterar o nosso estado de espírito põe a música ao lado de drogas como o álcool, drogas proibidas pelo Islão. Algumas outras visões aceitam a música, mas com regras, segundo as interpretações do Corão e outros textos religiosos.

Talvez aqui se reconheça o verdadeiro impacto emocional da música, tantas vezes transformada em ruído de fundo no nosso mundo. Aqui a música é temida e amada.

Se os leitores estiverem interessados no assunto sugiro que procurem o livro The Music Made Me Do It do Dr. Gohar Mushtaq, onde se pode aprender tudo sobre os malefícios da música. Felizmente, para os músicos profissionais, nem todos os muçulmanos pensam assim, só certas correntes. Apesar das restrições culturais, não deixamos de ter acesso a rádio ou mesmo a lojas de instrumentos.

[dropcap size=small]N[/dropcap]ação | Apesar de gostar de viver no estrangeiro e entre estrangeiros sou ainda muito português e não quero ser outra coisa. Tenho mesmo muito orgulho na nossa nação. Viver fora leva-nos a entender e conhecer certas coisas sobre o nosso país. Gostava que os portugueses olhassem para o espelho sem medo das qualidades e defeitos de Portugal. Temos muito a dar ao mundo, por isso não podemos ser tímidos.

[dropcap size=small]O[/dropcap]riente | O oriente tem sido uma paixão de vida para mim. Sempre amei o exótico mas depois de uma viagem a Goa com o Coro Peregrinação do Conservatório Nacional fiquei com a certeza de que havia mais do que um breve fascínio. As cores e os cheiros das terras do oriente exercem em mim uma grande atracção. Não pensei duas vezes quando tive uma oportunidade de ir viver para o oriente.

Pela minha localização geográfica e quantidade de férias, tenho tido o privilégio de visitar muitos países do oriente. Aqui se vêm facilmente vestígios das antigas proezas e também das crueldades dos portugueses. Para um país tão pequeno, tivemos um impacto tremendo sobre o mundo. Acho que não devemos esquecer o nosso passado mas sim reavivar contactos com povos que não nos esqueceram.

[dropcap size=small]P[/dropcap]úblico/Privado | Por vezes mal entendido no ocidente, o grande contraste entre vida pública e privada é uma constante no mundo árabe. Aqui raramente se vê um rosto feminino descoberto nas ruas, não porque as mulheres gostem de máscaras mas porque elas não querem partilhar publicamente a sua beleza, tal como nem toda a gente gosta de mostrar a sua vida no Facebook. Aqui a vida privada, entre família, é muito mais importante que a vida pública, e com protocolos muito diferentes.

[dropcap size=small]Q[/dropcap]ualidade (de vida) | Depende de cada indivíduo. Há pessoas que odeiam viver na Arábia Saudita e vêem isto como um sacrifício mas também há pessoas que adoram o estilo de vida que aqui têm. A Arábia Saudita a nível público não oferece os bares, as discotecas, salas de concerto ou até cinemas a que muitas pessoas estão habituadas. Aqui compete a cada indivíduo criar os seus passatempos e disso depende muito a qualidade de vida das pessoas.

[dropcap size=small]R[/dropcap]ealização (pessoal) | Como um músico na Arábia Saudita, sinto-me como uma espécie rara. Não há muitos músicos e não há muita música mas os poucos que existem acabam por ser muito procurados. Há para mim uma grande satisfação em dar às pessoas aquilo a que é difícil ter acesso.

A vida aqui também me tem realizado noutros aspectos, profissionalmente, a nível cultural e economicamente. Tenho tido oportunidades de viajar para sítios com os quais só podia sonhar anos atrás.

[dropcap size=small]S[/dropcap]audade(s) | Felizmente posso ir a Portugal com uma certa frequência para matar saudades mas há coisas que não há mesmo aqui como o Coro de Câmara de Lisboa, os concertos na Gulbenkian, as noites no Hot Club ou a noite de Santo António. Apesar de tudo, sou mesmo emigrante por vocação e tenho gosto em estar fora; tenho pena dos emigrantes por necessidade.

[dropcap size=small]T[/dropcap]eimosia(s) | Sem teimosia não se vai longe mas aqui por vezes temos de deixar o ego de lado se queremos sobreviver. Isto não é o meu país e por isso não posso exigir que tudo funcione como em Portugal. É preciso ser-se firme mas com respeito pelas pessoas e pelas formas de estar. Por vezes penso nas dificuldades dos imigrantes que foram para Portugal vindos de sistemas completamente diferentes.

Todos nós podemos ter um grande impacto no nosso meio se formos persistentes mas é preciso também escolher bem as batalhas.

[dropcap size=small]U[/dropcap]nião Europeia | A União Europeia faz sentido mas ainda mais sentido faz a União Global. Hoje, mais do que nunca, vivemos numa economia global. Os países não se podem fechar e ignorar o resto do universo que os rodeia. Faz cada vez mais sentido a união e cooperação. A ideia de nação é boa quando nos dá identidade e cultura mas muito má quando nos limita e nos separa.

Estava um pouco farto da Europa quando vim para o Médio Oriente, sobretudo da visão eurocêntrica do mundo. Há muito mais mundo fora da Europa mas a riqueza cultural e científica do velho continente é uma enorme referência. É preciso respeitar todas as culturas, até mesmo as europeias.

[dropcap size=small]v[/dropcap]iagens | Situação económica estável e muitas férias só podiam resultar em muitas viagens. A Arábia Saudita está também numa situação geográfica privilegiada, dando-me fácil acesso à Ásia, Europa e África.

Gosto sobretudo de viajar com mochila às costas, com poucos planos, gastar pouco dinheiro, conhecer pessoas e paisagens. Conheço a maior parte dos países do Médio Oriente. Fui imensas vezes à Índia, sudeste asiático, Japão e alguns países africanos. Antes da guerra da Síria começar, passei um verão com amigos no meu Corolla a conduzir da Arábia Saudita até Portugal e depois a regressar.

Tenho a sorte de poder viajar dentro da Arábia Saudita, um país quase completamente fechado para o turismo e com muita beleza por explorar. A gasolina barata ajuda muito.

[dropcap size=small]X[/dropcap]urdir | Eu não sabia o que esta palavra quer dizer mas, pelo que li, faz sentido ser usada. A nossa vida pode ser uma excursão organizada da qual nos queixamos quando não corre bem ou então pode ser aquilo que quisermos desde que tomemos as rédeas, sem medos. É bom arriscar se soubermos aceitar as consequências quando as coisas correm menos bem.

Quando somos realistas olhamos para factos, estatísticas e não para medos infundados gerados por excesso de noticiários televisivos e filmes de Hollywood. Há muita coisa errada com a Arábia Saudita mas é um país muito seguro a nível de crime, por exemplo. Mesmo o terrorismo é tão raro que quando acontece é logo notícia. Já noutros países o crime é uma realidade diária.

[dropcap size=small]Z[/dropcap]anga(s) | Acho a zanga uma fraqueza, uma derrota, mas nem por isso deixo de ter zangas. Há aqui uma visível diferença de tratamento de pessoas de várias proveniências, o que me irritaria muito mais se não fosse apenas uma imagem do que se passa realmente no nosso globo. Vivemos num luxo tremendo na Europa devido ao trabalho escravo de pessoas que vivem longe da nossa vista, dos nossos corações e sobretudo das leis de trabalho europeias.

Temos acesso a roupas e tecnologia como nunca tivemos e não questionamos nada disto mas quando estes escravos incovenientemente nos aparecem à porta da Europa achamos que nos vêm cá roubar os empregos.

Tive a felicidade de viajar pela Síria antes da guerra. Fiquei profundamente impressionado com a sua generosidade, com a forma como nós fomos tratados por qualquer estranho com quem nos cruzámos. Neste momento de crise gostava que os outros países do mundo fossem um pouco mais como os sírios que partilharam comigo mesmo quando pouco tinham.


Nasci em Lisboa em 1976 mas cresci na margem sul, onde vivi até 2007, quando emigrei para Al Khobar, na Arábia Saudita. Nos verões acampei muitas vezes com os meus pais pela Espanha, França e Itália; acho que esta experiência me marcou muito. Fiquei sempre com curiosidade pela descoberta, intrigado pelo desconhecido. Em jovem eu tinha muito interesse pelas ciências e sonhava ser um cientista. Mais tarde mudei para a Engenharia tentando ser mais prático. Infelizmente não me dei bem no Instituto Superior Técnico, não estava pronto paro o desafio nem tinha motivação para tal. Fui forçado a descobrir a minha verdadeira vocação, e não o meu maior talento. A música foi a minha saída para esta crise. Pela música redescobri-me e formei-me como ser humano. Liguei-me a artes e letras, sem esquecer as ciências. Primeiro estudei na Escola de Jazz do Hot Clube e depois, simultaneamente, ingressei no curso de Contrabaixo da Escola de Música do Conservatório Nacional e na variante de Educação Musical da Escola Superior de Educação de Lisboa. Tive professores excelentes e oportunidades excelentes. Gostava de mencionar especialmente o meu professor de contrabaixo, Manuel Rêgo. Ao longo dos meus estudos musicais estive envolvido em vários projectos. Fui por muito tempo baixista da Squad, banda de Thrash Metal, e cantei no Coro de Câmara de Lisboa. Em 2007 fui trabalhar para a British International School of Al Khobar na Arábia Saudita onde trabalho até agora. Toquei várias vezes contrabaixo em projectos ocasionais no Bahrain como a produção de Don Giovanni em 2010. Toco também na Dhahran Big Band, com os Manic Street Teachers e Mo Zowayed, músico do Bahrain que vai brevemente lançar um EP de temas originais.

Joana Gama celebra Erik Satie (1866-1925)

Em 2016 celebra-se o 150.º aniversário de Erik Satie e a pianista Joana Gama assinala a efeméride com um ano dedicado ao compositor.

Satie.150 irá percorrer várias salas de concerto do país numa celebração da obra do compositor francês, sobretudo conhecido pela Gymnopédie n.º1 e pelas suas composições estáticas. Joana Gama intercalará as peças de Satie com peças de John Cage, admirador e divulgador da obra de Satie, Carlos Marecos, Arco Pärt, John Adams e Alexander Scriabin, contemporâneo de Satie. O programa pretende, assim, homenagear aquele compositor mas também o seu estilo de composição e herança musical, que se sente nas peças dos restantes compositores do programa.

Ao longo dos últimos anos Joana Gama tem-se dedicado a diversos projectos, como Quest, em conjunto com Luís Fernandes (electrónica) ou Idolecto, com Tânia Carvalho (voz). Colaborou nas curtas-metragens La Valse (2012) de João Botelho, Incêndio (2011) de Karen Akerman e Miguel Seabra, e A Cidade e o Sol (2011) de Leonor Noivo, e em espectáculos de dança como Trovoada (2014) de Luís Guerra e Pele (2013) da Companhia Útero. A sua execução é cuidada e a interpretação sentida. O recital com que se apresentou nos Dias da Música 2015, no Centro Cultural de Belém, em que interpretou peças de Satie, Cage, António Pinho Vargas, Michael Nyman e Philip Glass, ficou na memória de quem o escutou pelo modo intimista com que abordou as paisagens sugeridas.

Gama nasceu em 1983 em Braga e iniciou a aprendizagem de música aos cinco anos no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, onde estudou piano com Ema Pais Martins, Ana Rita Lima e João Paulo Teixeira. Ingressou depois na Royal Academy of Music, de Londres, na classe de Vanessa Latarche, e em 2005 concluiu a licenciatura em piano na Escola Superior de Música de Lisboa na classe de Tania Achot. Obteve o Mestrado em Interpretação em 2010, sob orientação de António Rosado e Benoît Gibson, na Univesidade de Évora. Actualmente, a par da actividade artística, encontra-se a realizar o Doutoramento sobre música contemporânea portuguesa para piano na mesma instituição.

O primeiro recital do ciclo Satie.150 aconteceu já na ontem, quinta-feira, dia 7 de Janeiro, pelas 19h, no CCB, em Lisboa. O programa anunciado incluiu Sonneries de la Rose + Croix (Air du Grand Prieur), Gnossienes n.º 1, Gymnopédie n.º 1, Embryons Desséchés, Sonatine bureaucratique e Cinéma de Satie e ainda China Gates de Adams, Três prelúdios sobre o mar de Marecos, Für Alina de Pärt, Dream de Cage e Vers la flamme de Scriabin.

A este recital seguem-se mais onze localidades e onze recitais, um por mês: Guimarães a 27 de Fevereiro, Vila Real a 26 de Março, Viseu a 19 de Abril, Ponta Delgada a 6 de Maio, Espinho a 3 de Junho, Sardoal a 2 de Julho, Cacela Velha a 25 de Agosto, Serpa a 24 de Setembro, Faro a 1 de Outubro, Castelo Branco a 11 de Novembro e Braga a 3 de Dezembro. Para celebrar a obra de Satie está também programada a projecção de Entre’acte, de René Clair, para o qual Satie escreveu música, na Cinemateca, a 17 de Maio (aniversário do compositor), e Joana Gama irá interpretar a exigente Vexation na próxima edição dos Jardins Efémeros, em Viseu.

Satie.150 conta com o apoio da Antena 2. 

A propósito do concerto de fim de ano pela Orquestra Clássica da Madeira

No passado dia 29 de Dezembro, assistimos a mais um fantástico concerto pela Orquestra Clássica da Madeira, no Teatro Municipal Baltazar Dias, na cidade do Funchal, com a sala totalmente esgotada com residentes e turistas que puderam deliciar-se com as obras de dois compositores franceses: Édouard Lalo (1823-1892) – Sinfonia Espanhola, Op. 21, para violino e orquestra – e Georges Bizet (1838-1875) – L’Arlésienne, suítes números 1 e 2.

Sobre a primeira obra, interpretada pelo violinista Alexander Kagan, de nacionalidade russa, com trinta e um anos de idade e com um currículo vastíssimo, podemos apenas referir que fez uma interpretação com uma incrível perfeição, levando o público a manifestar-se de forma entusiástica com “bravos” e aplausos que trouxeram o solista por várias vezes ao palco. Sobre as suítes de Georges Bizet, ouvimos a orquestra cada vez mais homogénea e com um som especial e muito próprio, fazendo uma excelente interpretação sob a batuta do maestro convidado Luís Andrade, nascido na Madeira e actualmente a residir na Alemanha.

Este jovem e promissor maestro, também com um vasto currículo como violoncelista, regressou à terra que o viu nascer para dirigir a orquestra onde os seus pais formam músicos. No final o público “exigiu” um extra que foi de imediato aceite pelo maestro, dirigindo duas obras de Strauss, como “aperitivo”, para o concerto de ano novo que aconteceu no dia 1 de Janeiro de 2016.

Sem dúvida um concerto memorável que deixará em todos os que o puderam ouvir, muito em especial os turistas, mais uma boa recordação desta Região Autónoma da Madeira que, para além de todas as suas belezas naturais, gastronomia, simpatia do seu povo, tem uma orquestra com uma inegável qualidade, que a coloca a par das melhores orquestra portuguesas.


Luís Andrade, maestro

Luís Andrade nasceu na Ilha da Madeira a 4 de Março de 1979. Proveniente de uma família de músicos, aos quatro anos começou a estudar violino com a sua mãe e, aos sete, violoncelo com o professor Agostinho Henriques no Conservatório de Música da Madeira. Em 1995 foi para Kiev (Ucrânia) estudar violoncelo com V. Tchervov, tendo-se graduado com distinção em 2001. Entre 2000 e 2004 estudou violoncelo com Alexander Petrasch no Conservatório de Maastricht (Holanda), tendo também terminado com distinção. Teve ainda como professores de violoncelo e de música de câmara Alan Weiss, Avi Schoenfeld, Radu Aldulesco, Michael Strauss, Mixail Milman e Fine Art Quartet. Em 2003 Luís Andrade graduou-se em Direcção de Orquestra pela Academia Nacional da Ucrânia P. I. Tchaikovsky tendo estudado com E. Duchenko e, em 2004, pelo Conservatório de Maastricht onde estudou com Jan Stulen. Em Julho de 2010 terminou o Mestrado em Direcção de Orquestra no Conservatório de Maastricht com Enrico Delamboye, tendo dirigido no seu exame final a 3.ª Sinfonia de Brahms com a Limburgs Symfonie Orkest. Como maestro dirigiu a Orquestra de Câmara dos Alunos da Academia Nacional da Ucrânia P. I. Tchaikovsky, Orquestra Sinfónica de Kiev, Promenade Orchestra, “Arka” Sinfonie Orkest, Joseph Hollman Chamber Orchestra, Ensemble Liatochinsky Kiev, a Limburgs Symfonie Orkest e mais recentemente a Netherlands Symphony Orchestra. Desde Agosto de 2010 é membro efectivo da The Netherlands Symphony Orchestra na qualidade de Violoncelista. Em Janeiro de 2013, quando se preparava para um concerto como membro da Orquestra Sinfónica de Holanda, foi chamado nos últimos cinco minutos para substituir o maestro que ficou doente. A sua prestação foi um sucesso, tendo sido convidado para dirigir a mesma orquestra em 2014, 2015 e 2016. Na temporada de 2013-2014 foi convidado a voltar à sua terra natal para realizar três projectos com a Orquestra Clássica da Madeira, sendo novamente convidado para dirigir a Orquestra nas duas temporadas seguintes.


Alexander Kagan, solista

Alexander Kagan nasceu numa família de músicos em Moscovo. Mudou-se para a Alemanha aos cinco anos, onde começou a estudar violino. Em 1995, regressou a Moscovo para dar início aos estudos profissionais na Escola de Música “Gnessin”. Em 1999, graduou-se pelo Colégio Musical do Conservatório de Moscovo e, posteriormente, no Conservatório Estatal Tchaikovsky de Moscovo, com Sergei Kravchenko e Irina Sytina. Depois, estudou com Kolja Blacher em Berlim. Foi premiado no Concurso Internacional Glazunov em Paris, no Concurso Internacional David Oistrakh em Odessa, no Concurso Internacional Assembly, e em Itália no Concurso Internacional de Moscovo e Pinerolo.

A sua actividade recente incluiu actuações com a Orquestra Filarmónica de São Petersburgo, sob a direcção de Alexander Dmitriev, e a Orquestra Filarmónica de Moscovo, sob a direcção de Yuri Simonov, a Orquestra de Câmara “Hermitage”, a Orquestra Filarmónica de Kiev em Odessa, a Orquestra Filarmónica de Saratov, a Orquestra Filarmónica Académica de Nizhni-Novgorod, sob a direcção de Alexander Skullsky, a Norddeutsche Rundfunk Orchestra, os Solistas de Moscovo, sob a direcção de Yuri Bashmet, a Orquestra de Câmara da Georgia, sob a direcção de Ariel Zuckerman, e a Orquestra do Teatro Olímpico, em Vicenza, sob a direcção de Marco Guidarini. O seu repertório inclui os concertos de Beethoven, Brahms, Bruch, Mendelssohn, Lalo, Mozart, Paganini, Prokofiev, Stravinsky, Tchaikovsky, Wieniawski e o Concerto Duplo do compositor Arménio Mansuryan, dedicado aos seus pais Natalia Gutman e Oleg Kagan. Alexander Kagan tem uma profícua actividade em música de câmara e toca em agrupamentos com músicos como Elisso Virsaladze, Vasiliy Lobanov, Pavel Vernikov, Vladimir Mendelsson, Hagai Shaham, Eduard Brunner, Natalia Gutman e Kolja Blacher, com concertos em festivais e em localidades como “December Evenings”, Ars Longa e “Dedication Festival”, em Moscovo, o Kuhmo Chamber Music Festival na Finlândia, o Chamber Music na Mittlefest em Civedale, Itália, Storioni Chamber Music Festival (Eindhoven) e o International Chamber Music Festival, em Lübeck.

Novo passo na nomeação para o São Carlos

Deverá ser entregue hoje ao Ministro da Cultura uma lista de nomes perfilados para o cargo de Director Artístico do Teatro Nacional de São Carlos, avança notícia do jornal Público.

A lista, da lavra de um grupo de personalidades da área, trabalha sobre os cerca de quinze nomes que se candidataram através de concurso internacional, lançado ainda pelo anterior Executivo e concretizado durante o passado mês de Outubro. O parecer entregue a João Soares não é vinculativo, devendo orientar apenas informalmente o processo de selecção.

As conclusões serão fechadas durante o dia de hoje, em reunião do grupo, constituído por Adriano Jordão (pianista e actual vogal do conselho de administração da Opart, organismo tutelar do Teatro), Joana Carneiro (maestrina titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa), João Paulo Santos (director do Gabinete de Estudos Musicais e director musical de cena), Paulo Ferreira de Castro (musicólogo e ex-director artístico do São Carlos) e Risto Nieminen (director do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian).

Os nomes a concurso e as escolhas do grupo não serão tornados públicos. Conhecemos, no entanto, um candidato: Elisabete Matos. A prima donna do nosso teatro lírico anunciou ao Diário de Notícias, no passado Domingo, que decidiu avançar para tirar o São Carlos da “deriva em que tem vivido”. “Durante três anos fui amadurecendo a ideia”, confessa. A conferir peso às suas intenções tem a experiência “de vida e de carreira” e “o conhecimento da realidade portuguesa e do funcionamento do Teatro”.

Na apresentação da actual temporada, Joana Carneiro afirmou que o “maior desafio” que a estrutura encara “tem a ver com a necessidade de encontrar um director artístico”, à falta do qual “não pode trabalhar a longo prazo, não pode construir relações sólidas com artistas, com encenadores e outros teatros”. O Teatro Nacional de São Carlos, o único do género em Portugal, está sem direcção artística desde 2013.

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