Universidade do Porto distingue José Luís Borges Coelho como Doutor Honoris Causa

José Luís Borges Coelho, maestro e fundador do Coral de Letras da Universidade do Porto, personalidade das mais proeminentes da música coral portuguesa dos últimos cinquenta anos, será distinguido com o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Porto, numa cerimónia que terá lugar no próximo dia 3 de Julho, na Reitoria da Universidade.

Homenageado pela Câmara do Porto, já em 1995, com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, pelo contributo que a fundação do Coral de Letras dera à Cultura da cidade do Porto, José Luís Borges Coelho é agora distinguido pela Universidade do Porto, segundo o documento divulgado pelo Reitor, Sebastião Feyo de Azevedo, em reconhecimento pelo seu “incansável trabalho, de excepcional qualidade, na direcção do Coral de Letras, que fundou, divulgando e promovendo a Universidade do Porto a nível nacional e internacional, há mais de 50 anos.”

José Luís Borges Coelho nasceu em Murça (Trás-os-Montes e Alto Douro) em 1940. Estudou no Conservatório de Música do Porto, onde se diplomou com o Curso Superior de Canto, e na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde se licenciou em História, em 1968. Naquela Faculdade fundou o Coral de Letras, que ininterruptamente dirige há cinquenta anos e com o qual deixou uma marca profunda na música coral em Portugal, notabilizando-se particularmente na interpretação da música do séc. XX. O conhecimento e a divulgação do repertório coral de Lopes-Graça são, em larga medida, devedores do trabalho de José Luís Borges Coelho à frente do Coral de Letras da Universidade do Porto.

Paralelamente ao Coral de Letras, e sempre a par de uma reconhecida actividade lectiva, Borges Coelho dirigiu o Coro Misto Sacro de S. Tarcísio, o Orfeão Universitário do Porto, o Coro do Círculo Portuense de Ópera (1983-1994) e o Ensemble Clepsidra. Colaborou em diversos filmes de Manoel de Oliveira.

A cerimónia de atribuição do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Porto ao Prof. José Luís Borges Coelho iníciar-se-á às 11h00, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade do Porto, e será presidida pelo Reitor da Universidade, Prof. Doutor Sebastião Feyo de Azevedo. A sessão contará com as intervenções do Prof. Doutor Paulo Vaz de Carvalho (Univ. Aveiro), que proferirá a Laudatio académica, e do Prof. Doutor José Paiva, Director da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, padrinho do novo Doutor Honoris Causa. José Luís Borges Coelho será o 94.º Doutor Honoris Causa da Universidade do Porto em 106 anos de história da instituição.


Saiba mais sobre as actividades do Coral de Letras da Universidade do Porto através desta ligação.

Os Espaços teatrais para a Música na Europa do séc. XVIII

O DS-CEMSP organiza, entre os dias 30 de Junho e 2 de Julho de 2017, no Palácio Nacional de Queluz, o Colóquio Internacional Os Espaços teatrais para a Música na Europa do séc. XVIII. Reunindo a participação de especialistas em várias áreas, desde a ópera às artes cénicas e da interpretação e aos seus espaços próprios, este colóquio, de acordo com o programa divulgado à comunicação social, tem como objectivo primordial a promoção de um diálogo multidisciplinar em torno da especificidade e da heterogeneidade dos espaços para o espectáculo teatral na Europa durante a época setecentista. Entre os académicos presentes – de Portugal, Itália, Espanha, França, Alemanha, Hungria, Israel, Brasil e Estados Unidos da América –, estarão, na qualidade de oradores convidados, Maria Ida Biggi, professora da Universidade Ca’ Foscari de Veneza e Directora do Istituto per il Teatro e il Melodramma da Fondazione Cini, e o Arq.º Luís Soares Carneiro, professor da Universidade do Porto.

Em conjunto com a densa rede de teatros, quer de corte, quer públicos, serão abordadas temáticas relacionadas com construções efémeras em espaços interiores e exteriores e os diferentes aspectos da teatralidade em relação com configurações cénicas e arquitectónicas, bem como os contextos que lhes são inerentes e ocasiões da vida social representativas do teatro musical.

O programa inclui um concerto intitulado Giovanni Paisiello, Arie per castrato, com obras de David Perez, Giovanni Paisiello e Luigi Boccherini, interpretado pelo agrupamento Divino Sospiro, tendo como solista o contratenor italiano Filippo Mineccia, que terá lugar no dia 30 de Junho às 19h00, na Sala de Música do Palácio de Queluz. Para os conferencistas, decorrerá ainda uma visita guiada ao Teatro Nacional de São Carlos, orientada pelo Arq.º Luís Soares Carneiro.

[alert type=white ]Os Espaços teatrais para a Música na Europa do séc. XVIII

Palácio Nacional de Queluz, 30 de Junho – 2 de Julho de 2017

COMISSÃO CIENTÍFICA

Cristina Fernandes, Giuseppina Raggi, Iskrena Yordanova, Francesco Cotticelli, Manuel Carlos de Brito, Paologiovanni Maione[/alert]

O Colóquio Os Espaços teatrais para a Música na Europa do séc. XVIII decorre em parceria com o Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa, a Fondazione Cini, a Società Italiana di Musicologia e o Teatro Nacional de São Carlos, contando com o apoio da empresa Parques de Sintra – Monte de Lua, do Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, do grupo Pestana – Pousadas de Portugal e da Direcção-Geral das Artes.

Da Winterreise a Camané: a Virada Cultural no Theatro Municipal de São Paulo

Durante 24 horas, nos dias 20 e 21 de maio, ocorreu em São Paulo a 13.ª edição da Virada Cultural. Inspirado na Nuit Blanche francesa, o evento consiste em uma série de atividades dos mais variados gêneros em centros culturais, teatros, museus, ruas, escolas e bibliotecas. Neste ano, registrou-se uma considerável redução de público (1 600 000 pessoas, cerca de metade da média dos anos anteriores), atribuída à chuva e a uma polêmica tentativa de descentralização.

Acompanhei a programação do Theatro Municipal de São Paulo, que se iniciou às 18h de dia 20, com o ciclo Winterreise, de Schubert, pelo barítono Vinícius Atique e o pianista Anderson Brenner. Gerou interesse e atraiu público a presença do Balé da Cidade, que abordou a jornada do personagem em uma coreografia de Ismael Ivo. A abordagem contemporânea gerou, contudo, em algumas pessoas, uma quebra de expectativa em relação a um imaginário já consagrado dessa linguagem. Foi notável o desempenho de todos os envolvidos, com destaque para Atique, que demonstrou excelente técnica, interpretação e versatilidade, integrando-se aos bailarinos como participante da coreografia. Às 22h00, a Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência de Luís Gustavo Petri, apresentou canções do musical/opereta Magdalena, de Villa-Lobos. Foram especialmente divertidos os solos da personagem Teresa, brilhantemente interpretada por Luciana Bueno. Recebido por funcionários maquiados como zumbis, às 00h00 o público assistiu ao Opera Horror Show, uma bem-humorada abordagem de trechos de ópera com temas macabros, apresentada pelo Coro Lírico. A impressionante atuação do baixo Matheus França transformou o prolixo prólogo da ópera Mefistofele, de Arrigo Boito, num dos pontos altos do espetáculo. Às 2h00, foi a vez da Orquestra Bachiana apresentar-se com o cantor Thobias e parte da bateria da escola de samba Vai Vai, num espetáculo também calorosamente recebido pelo público.

O Theatro praticamente lotado à espera do concerto da OSM

No domingo às 10h00, a capitã/maestrina Naomi Munakata e o Coral Paulistano apresentaram uma divertida adaptação cênica contemporânea da peça Barca di Venetia per Padova, de Adriano Banchieri, uma caricatura, em 20 madrigais, de diversos tipos sociais do início do século XVII. Às 13h00 ouviu-se o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e o pianista Fernando Tomimura, com o Quinteto Op. 34 de Brahms. Os espirituosos comentários do violista Marcelo Jaffé tornaram o espetáculo bastante agradável e acessível a um público não habituado à música de câmara. Às 15h00, a Orquestra Experimental de Repertório, regida por Jamil Maluf, trouxe a Série Brasileira (1891), de Alberto Nepomuceno, e, em seguida, clássicos da música de raiz, em ousadas orquestrações de Renato Kefi, com a participação de Ivan Vilela na viola caipira. O último espetáculo, às 18h00, foi um concerto do fadista Camané, promovido através de uma parceria com o Consulado de Portugal. A apresentação dividiu a plateia: se, por um lado, muitos abandonaram o teatro a meio do concerto, quem ficou, ao final, pediu três bis. Causou muita comoção, apesar da evidente insuficiência de ensaios, a homenagem ao Brasil com a canção Inútil Paisagem, de Tom Jobim.

Nos intervalos o público também pôde acompanhar diversas intervenções. Em vários momentos da noite, ao som de obras de Bach tocadas na sacada, uma bailarina com uma longa e esvoaçante saia subia num balão pela fachada do Theatro, que também serviu de tela para diversas exibições de video mapping. No domingo, às 11h00, o coral infanto-juvenil Amba Vera, da aldeia indígena guarani Tenonde Porã, apresentou-se nas escadarias.

De maneira geral o evento correu tranquila e organizadamente. O próprio edifício, de 1911, e especialmente sua decoração interior foram um grande chamariz para o novo público. Fica a expectativa de que boa parte desses visitantes se tornem frequentadores ao longo do ano. Não é o que tem ocorrido; porém, os esforços nesse sentido fazem com que não se perca a esperança.

Estreia da Sinfonia “Zeus” de Rogério Medeiros pela Sinfonietta de Ponta Delgada

No passado dia 10 de Junho, pelas 21h30, a Sinfonietta de Ponta Delgada, apresentou-se no Coliseu Micaelense, sob a direcção de Amâncio Cabral, num concerto que, em dia de Portugal, homenageou os compositores portugueses, em particular açorianos. A primeira parte contou com Duas melodias para orquestra de cordas Op. 5 de Luiz de Freitas Branco, seguindo-se a Pavane para orquestra de cordas de Francisco de Lacerda e terminando com a estreia absoluta da Sinfonia Zeus de Rogério Medeiros. Na segunda parte, ouviram-se Canzonetta pour clarinete avec accompagnement d’orchestre, Op. 19 de Gabriel Fauré, sendo solista o clarinetista João Rosado, Pastorale d’Été de Arthur Honegger e concluindo com o brilhante Idílio de Siegfried, WWV 103 de Richard Wagner.

A Sinfonia Zeus, em quatro andamentos, de Rogério Medeiros, de acordo com a nota ao programa assinada pelo compositor, “apesar de ser curta dimensão (duração e efectivo instrumental), é simbólica de um passado do qual a nossa cultura ocidental tanto herdou. Desta forma, faço assim a minha humilde homenagem aos ensinamentos gregos, em especial os musicais.” No primeiro andamento, Raios e trovões do Olimpo, sobre modos alusivos à música da Antiguidade é sugerido um ambiente de turbulência, demonstrativo do poder dos deuses, aqui recriado pelo “gotejar” dos pizzicati e o “toar” dos acordes carregados de fúria que preconizam o tema inicial, em forma-sonata, conducente ao segundo tema, melodioso e mais apaziguador, simbolizando a dualidade e o contraste de temperamentos tão característico de deuses humanizados. O segundo, Eirene, a Mensageira da Paz Triste, inspira-se nesta figura mítica, uma das filhas de Zeus, a personificação da Paz (Eirene, em grego) e sinónimo também de esperança. A paz absoluta é, no entanto, uma abstracção, utopia, um estado inalcançável pelos mortais e talvez unicamente ao alcance de seres divinos e eternos. A sensação do tempo imutável e imperturbável é, assim, talvez a característica musical mais presente que busca personificar a ideia geral do andamento.

As duas últimas secções intitulam-se Enchendo a Taça de Baco (III) e O Novelo de Teseu (IV). A tradição romana imortalizou o seu congénere grego Dioniso, deus do vinho, sob o nome Baco. O ambiente retratado neste andamento é um minuete toldado pela embriaguez através de efeitos de distorção de harmonias, sugestões de politonalidade, frases melódicas de proporções desequilibradas e outros efeitos orquestrais. Em O Novelo de Teseu alude-se ao episódio da entrada do herói de Atenas no labirinto e da luta com o monstro Minotauro. A textura contrapontística da fuga evidencia os caminhos obscuros e sinuosos por onde Teseu vai desenrolando o novelo. Funciona também como desfecho triunfal a um ciclo de mitos que nem sempre, na tradição grega, têm um final feliz.

A Sinfonietta de Ponta Delgada é um projecto orquestral profissional da Quadrivium – associação Artística que tem como principal objectivo responder à necessidade de criação de um agrupamento sinfónico na ilha de S. Miguel, servindo também como meio de formação para os jovens músicos que a integram. Esta orquestra é constituída por cerca de quarenta músicos, tendo como repertório de eleição obras do período clássico à contemporaneidade. Realizou estreias de obras de jovens compositores açorianos como Sara Ross, João Costa ou Rogério Medeiros. A Sinfonietta de Ponta Delgada conta com uma assídua actividade, com diversos concertos e colaborações no meu cultural micaelense. Amâncio Cabral formou-se no Conservatório Regional de Ponta Delgada, na Universidade Nova de Lisboa e na Academia Nacional Superior de Orquestra. Colaborou com numerosas orquestras e agrupamentos, sendo membro fundador do Quarteto Da Capo e da Orquestra de Câmara de Ponta Delgada. Foi discípulo de Jean-Sébastien Béreau (direcção de orquestra), tendo trabalhado ainda com Adriano Martinolli d’Arcy e Alberto Roque. É actualmente Director Musical da Sinfonietta de Ponta Delgada e professor de violino e orquestra no Conservatório Regional de Ponta Delgada.

Concerto de homenagem ao Maestro Eurico Martins

Considerada a orquestra de bandolins mais antiga da Europa, a Orquestra de Bandolins do Recreio Musical União da Mocidade apresentou no Sábado, 16 de Junho, no Centro de Congressos da Madeira – Casino, um concerto comemorativo da actividade do seu maestro e impulsionador, Eurico Martins, que nesse dia celebraria o seu aniversário, se não tivesse falecido prematuramente em Dezembro de 2014, com 60 anos de idade.

Actualmente com 104 anos de actividade ininterrupta, a Orquestra tem sede na freguesia de São Roque, cidade do Funchal, e nas duas últimas décadas internacionalizou-se, apresentando-se em Espanha, Áustria, França e duas vezes em Inglaterra, chegando a actuar, em 2002, no âmbito das comemorações oficiais do Jubileu da Rainha Isabel II. Várias vezes apresentou-se no Continente, nomeadamente no Teatro Nacional São Carlos e no Auditório do Centro Cultural de Belém, por ocasião do concerto comemorativo dos 30 anos de carreira do tenor Carlos Guilherme, em 2011, com quem desenvolveu, ao longo do tempo, uma colaboração frutífera. Depois de um primeiro CD, em 1996, a Orquestra chegou a gravar mais quatro CDs e dois DVDs. Em 2013, foi distinguida com a Medalha de Ouro pelo Governo da Região Autónoma da Madeira, por ocasião das comemorações do centenário da Associação.

Eurico Martins dirigiu esta Orquestra durante duas décadas, desde 1994. Graças aos seus esforços, a partir dessa altura a Orquestra intensificou a actividade pública, chegando a dar meia centena de concertos por ano, e também a actividade pedagógica, ensinando bandolim e instrumentos congéneres desde a infância. Martins foi Presidente da Direcção da Associação Recreio Musical União da Mocidade e Director Artístico da Orquestra de Bandolins desde 1994 até ao seu falecimento. Em 2013, por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, foi agraciado pelo Presidente da República com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Depois da sua morte, a Orquestra passou a ser dirigida pelo filho, João André Sousa Martins, que também foi aluno do Conservatório – Escola das Artes da Madeira, tendo na altura ganho vários prémios em violino (Primeiro prémio do 3.º Concurso A. Capela), concluindo o curso profissional de instrumentista em 2012 e prosseguindo os estudos na Academia Nacional Superior de Orquestra.

Actuando neste concerto com 38 instrumentistas, a Orquestra apresentou-se na primeira parte dirigida por André Martins, interpretando um repertório ecléctico e adaptado para estes instrumentos, cuja vertente clássica foi composta por duas obras portuguesas, a Abertura de L’Amore Industrioso de João de Sousa Carvalho e o primeiro andamento do Concerto para cravo em Lá maior de Carlos Seixas. Cláudia Sousa e Diana Quintal foram duas cantoras que a orquestra acompanhou em várias obras mais ligeiras, desde Cohen a Morricone.

A segunda parte foi dirigida quase na íntegra pela maestrina Zélia Gomes, uma vez que dirige os dois coros que se apresentaram em conjunto com a Orquestra: o Coro Infantil da Direcção de Serviços de Educação Artística e Multimédia e o Coro de Câmara da Madeira. No meio de obras leves e coros populares de Vivaldi, Handel e Verdi, André Martins apresentou-se também como violinista.

O concerto foi uma ocasião oportuna para evocar a actividade e mérito de um músico que contribuiu significativamente para a vitalidade do agrupamento, fazendo dele um ex-libris cultural da cidade do Funchal e da Região, e cujo carisma, frontalidade e entusiasmo pela cultura serão sempre recordados por todos os que o conheciam e que testemunharam o seu trabalho.

A propósito de Beaumarchais: Entrevista ao compositor Pedro Amaral

Beaumarchais, uma nova obra musico-dramática em estreia no Teatro D. Maria II, desenvolve-se a partir de três textos do dramaturgo que lhe dá nome. Actores e cantores, teatro e ópera, integram nesta peça um inédito e divertido — e autocrítico — enredo que girará em torno da gravação em estúdio de excertos d’O barbeiro de Sevilha, d’As bodas de Fígaro e d’A mãe culpada. Lá estará, por isso, a cabina de gravação insonorizada, os microfones, mesas de mistura, monitores, todas as infraestruturas, os técnicos, a equipa de limpeza, o pessoal da portaria… Haverá verdadeiros trabalhadores que, cumprindo a sua vocação política e social, reivindicarão os seus direitos, lutarão. Conforme a sinopse anunciada oficialmente, este espetáculo poderia chamar-se Tumultos revolucionários na Deutsche Grammophon, ou Luta de classes na Decca — mas este é menos glamoroso… Oportunidade inultrapassável, pois, para uma entrevista há muito esperada na Glosas ao compositor Pedro Amaral, a quem agradecemos a gentileza em nos ter recebido para falar deste seu novo projecto e de ópera em geral.

*

Depois da ópera O Sonho, tão permeável ao imaginário simbolista, com a sua música sintomaticamente perfumada, onírica, os vestígios de comicidade na sinopse de Beaumarchais causam grande surpresa, porque intrinsecamente contrastantes.

Eu penso que cada projecto operático deve constituir um género próprio. Se observarmos a produção de Richard Strauss, por exemplo, veremos que cada uma das suas óperas tem uma designação diferente. Na verdade, ópera — obra — é uma designação geral que quer dizer tudo e nada. No meu caso, de facto, O Sonho é um projeto estético completamente diferente de Beaumarchais: é um drama lírico simbolista, actualizado, sobre a inacabada Salomé de Fernando Pessoa. Prefiro aliás designá-lo como poema cénico. Quando terminei essa obra, em cujo lado etéreo investi bastante, tinha o grande desejo de fazer algo contrastante, como uma ópera cómica. Uma diferença essencial estaria no ritmo da acção, diferença que, aliás, se encontra nos primórdios da prática operática: do ponto de vista teatral, a opera seria é um espectáculo muito lento; pelo contrário, até pelas circunstâncias em que era apresentada, a opera buffa, como intermezzo que começa por ser, exige grande rapidez de acção, grande fluidez cénica. O génio de Mozart e Da Ponte esteve, justamente, em conjugar as duas práticas, colocando lado a lado personagens e elementos típicos de uma e articulando-os com o ritmo da outra. Deste ponto de vista, as cenas iniciais de Don Giovanni constituem provavelmente o exemplo máximo desta conjugação. O que me interessava, portanto, depois d’O Sonho, que, como o próprio título sugere, se passa num tempo lento, indefinível, eu queria escrever uma ópera de grande fluidez teatral. Pensei em várias coisas… Pensei, por exemplo, em Alice no País das Maravilhas, que daria uma ópera fenomenal (e deu, recentemente, com a compositora sul-coreana Unsuk Chin). Ao mesmo tempo, pensei também em trabalhar sobre o Fausto de Pessoa, o que resultaria numa ópera dramática. O ritmo não seria certamente o mesmo do de uma ópera cómica, mas o libreto, que escrevi a partir dos textos de Pessoa, tinha uma temporalidade completamente diferente da d’O Sonho. Propus o projecto ao Teatro Nacional de São Carlos, que me abriu imediatamente as portas, com um grande entusiasmo do Jorge Salavisa, primeiro, e do Martin André, mais tarde, com quem chegámos a estabelecer todos os detalhes, incluindo calendário e um plano de ensaios preciso. Infelizmente começou a crise financeira e o projecto acabou por não se realizar. Entretanto, em finais de 2015, fui contactado por Risto Nieminen, director artístico da Gulbenkian Música, que, numa ideia conjunta com Tiago Rodrigues, director artístico do Teatro D. Maria II, desejava juntar um compositor e um homem de teatro para construir um espectáculo que, de algum modo, unisse as duas instituições num projeto comum. O compositor sou eu, o encenador é o Jorge Andrade, da companhia mala voadora. Neste sentido, Beaumarchais não é tanto uma ópera mas, se quisermos ser rigorosos, serão cenas de ópera dentro de um espectáculo de teatro.

Há, portanto, momentos sem música?

Sim, bastantes. Mas quando há música não passa a ser teatro musical: é mesmo ópera. Abrem-se parêntesis, interrupções em que se assiste a uma cena de ópera.

Nesses parêntesis em que se cantam cenas de ópera há citações às conhecidas versões de Mozart (Le nozze di Figaro), Rossini (Il barbiere di Siviglia) ou Milhaud (La mère coupable)?

Na minha partitura não há nenhuma. Em determinada parte do espectáculo surgem três passagens d’As Bodas, uma delas acompanhando um actor e duas outras com os cantores profissionais. Mas na ópera propriamente dita, na minha partitura, não há citações de nenhuma dessas três obras. De resto, desgraçadamente, a obra de Milhaud é, em toda a História da Música, das obras que mais bem representa, inadvertidamente, a ideia de fealdade. Sendo neoclássica, abusa de harmonias distorcidas, e esta distorção do vocabulário clássico, por vezes extraordinária num compositor como Stravinsky, é verdadeiramente inestética em Milhaud.

(…)

Os momentos operáticos seguem a ordem das peças de Beaumarchais?

Seguem. Há quatro unidades cénicas com música e estão ordenadas conforme os textos originais.

E em que língua cantam os cantores?

Em francês, o que corresponde ao texto original de Beaumarchais, ao passo que os actores falam em português deambulando em torno das peças mas não as representando directamente. Sempre vi este projecto desta forma: a ópera é uma representação, o teatro uma desconstrução.

Teatro dentro do teatro, portanto.

Exactamente: teatro cantado dentro do teatro falado. O teatro falado refere-se a Beaumarchais na terceira pessoa, à distância. O teatro musical representa realmente as peças de Beaumarchais, interpreta-as, encena-as musicalmente.

(…)

Surpreendeu-se, enquanto compositor, ao escrever este peculiar Beaumarchais?

Claro que sim, muitíssimo! A ópera leva-nos ao inimaginável. É curioso que, quando estudamos História da Música, não nos damos conta do quanto ela foi propulsionada pelo género operático: dá-se uma hipervalorização da música pura instrumental, ou mesmo da música não pura mas instrumental, como o poema sinfónico. Ora o curso da História foi profundamente alterado por obras capitais como Orfeo, de Monteverdi, Don Giovanni ou Tristão e Isolda. Na minha modesta experiência pessoal a escrita de uma obra dramática incita-me à procura de soluções composicionais às quais provavelmente nunca chegaria no domínio da música pura. Em Haendel e Mozart isso também acontece, e mesmo em Bach no contexto de uma cantata — veja por exemplo os desvios cromáticos abruptos, quase inconcebíveis, que no coro inicial da BWV 115 incarnam a tentação demoníaca e que não teriam qualquer sentido num contexto de música pura. Não creio que Wagner tivesse ido tão longe na ambiguidade cromática se não tivesse escrito Tristão e Isolda, e o diatonismo inicial d’Os Mestres Cantores não é menos revelador. A dramaturgia empurra-nos para áreas totalmente inesperadas, para a realização de aspectos que talvez estivessem latentes, mas que apenas despertam quando suscitados por um elemento exterior concreto. Para dar apenas um exemplo: Fígaro é um homem de muitos talentos e, para além de tudo, é poeta popular, escreve poesia e música. Ora, como compor a música que Fígaro compõe?… Ele não se exprime, certamente, como um compositor serial… [risos] Intuitivamente, quando comecei a ouvir, interiormente, o que Fígaro estava a compor, ocorreram-me de imediato sonoridades sevilhanas — e não me apercebi logo da razão, só depois realizei que era a sonoridade óbvia porque, claro, a cena tem lugar em Sevilha. A intuição foi mais rápida que a inteligência. Ao início, na passagem em que Fígaro está a compor um poema engraçado exprime-se naturalmente numa sevilhana, que é a música que ele conhece e que ele, como artista popular, pratica. Como pode imaginar, jamais supus que viesse um dia a compor uma sevilhana! Naturalmente, encaixo naquelas harmonias a minha própria linguagem harmónica, sustentada num sólido cantus firmus que atravessa toda a peça, baseado no número 4 e, portanto, na omnipresença de terceiras maiores [quatro meios tons]. Mas, para todos os efeitos, o que se ouve é uma sevilhana — e nem sempre muito bem feita, porque Fígaro faz modulações um tanto incongruentes, porque é um músico amador. Foi uma experiência muito interessante do ponto de vista composicional… [risos]

 


Ficha artística

encenação Jorge Andrade

composição Pedro Amaral

 

com

Orquestra Gulbenkian

maestro Pedro Amaral

maestrina assistente Rita Castro Blanco

pianista Joana Gama

 

actores Anabela Almeida, Bruno Huca, Isabél Zuaa, Jorge Andrade, Marco Paiva, Tânia Alves

cantores (1.º elenco) André Henriques, Carolina Figueiredo, Eduarda Melo, Joana Seara, Luís Rodrigues, Manuel Rebelo, Marco Alves dos Santos, Pedro Cachado

cantores (2.º elenco) Filipa Passos, José Bruto da Costa, Lucinda Gerhardt, Manuel Gamito, Pedro Casanova, Sara Afonso, Tiago Gomes

cenografia e figurinos José Capela

luz Daniel Worm d’Assumpção

fotografias de cena José Carlos Duarte

imagem de divulgação António MV

vídeo de divulgação Jorge Jácome e Marta Simões

direcção de produção Joana Costa Santos

apoio à produção e comunicação Jonathan da Costa

gestão e programação cultural Vânia Rodrigues

co-produção Teatro Nacional D. Maria II, Fundação Calouste Gulbenkian, mala voadora

A mala voadora é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal — Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes e associada d’O Espaço do Tempo e da Associação Zé dos Bois.

 


 

O texto integral da entrevista ao compositor será publicado na Glosas 16.

Música na Fábrica

Com direcção artística de Max Hoehn e Inês Simões, o festival Música na Fábrica estreia este ano entre 30 de Junho e 2 de Julho na Fábrica L., Lx Factory. Destacam-se três estreias nacionais de ópera na programação, assim como vários concertos dedicados à música contemporânea e workshops.

Sob o nome de Café Carnage, o Opera Lab Europe apresenta três óperas a cappella de três compositores do repertório contemporâneo que exploram a voz humana na sua expressividade máxima: King Harald’s Saga, um monodrama para soprano solo de Judith Weir; The Waiter’s Revenge de Stephen Oliver; e Hummus, uma breve ópera para sete cantores de Zad Moultaka. Com encenação de um dos directores do Festival, Max Hoehn, nomeado para o International Opera Awards de 2016, Café Carnage reúne nestas três óperas de curta duração um elenco constituído pela Soprano Inês Simões, também directora do Música na Fábrica, James Hall (contratenor), Nicholas Morris (barítono), Marina Pacheco (soprano), Austin Gunn (tenor), Job Tomé (barítono) e Nélia Goncalves (meio-soprano). As três óperas decorrem às 21h00 de sexta e sábado, com últimas récitas às 19h30 de domingo.


Dos três concertos do duo de Pedro Segundo (Percussão) e Ross Stanley (Orgão Hammond), a decorrer nas noites de cada um dos dias do festival, até um concerto de multimédia para violino barroco, electrónica, percussão e baixo contínuo com Maria da Rocha & The Beet Root Consort, a realizar na tarde de sábado, o festival apresenta-nos uma programação maioritariamente contemporânea e variada a nível de estilo e instrumentação. Fruto de uma residência artística na Electronic Music Studio, em Estocolmo, Maria da Rocha apresenta-nos obras para violino moderno, electrónica e sintetizadores analógicos num concerto que também reúne obras do Período Barroco, interpretadas por The Beet Root Consort em instrumentos de época.

O Música na Fábrica apresenta também um concerto de José Valente, acordeonista vencedor do 1.º prémio no Prémio Jovens Músicos, na edição de 2014, que interpretará obras de Astor Piazzola, J. S. Bach, Anatoly Kusyakov, Camille Saint-Säens e Sofia Gubaidulina, esta última com De Profundis, num concerto às 17h00 de sábado, segundo dia do festival. Logo de seguida, às 19h00, Ricardo Rocha apresenta algumas das suas composições dedicadas à guitarra portuguesa contemporânea. No domingo às 17h30, haverá também oportunidade para assistir a um concerto dedicado ao repertório coral, a realizar pelo Coro Juvenil do Instituto Gregoriano de Lisboa, com direcção artística de Filipa Palhares.

O Música na Fábrica alberga ainda dois workshops na sua programação. O Workshop Impro’Voices Orchestra decorre na manhã de sábado e explora a improvisação vocal e a criação musical em tempo real, sob a direcção de Luís Bragança Gil. Para as famílias, decorre também uma oficina de música para pais e crianças até aos 3 anos na manhã de domingo, orientada por Cláudia Coelho e Bárbara Barradas.

Para mais informações, consulte esta ligação.

Carlos Seixas | Sonatas (IV)

texto de Duarte Pereira Martins e José Carlos Araújo


Decidimos dedicar o quarto CD desta gravação integral ao mais recentemente descoberto conjunto de sonatas de Carlos Seixas. Copiado em meados do séc. XVIII e proveniente da livraria do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, o manuscrito 5015 conserva-se desde 1994 na Biblioteca Nacional, em Lisboa. O primeiro possuidor deste códice, por quem o conjunto das doze sonatas ali preservadas poderá ter sido coligido, foi o organista crúzio D. Jerónimo da Encarnação, contemporâneo da sua composição, tendo o manuscrito passado para a guarda do mosteiro após a sua morte, em 1780.

A biblioteca de Santa Cruz foi responsável pela cópia e preservação de grande parte da obra do mestre conimbricense, que deverá ter tido desde a juventude uma ligação ao mosteiro que se perpetuou até depois da morte, em 1742. Através do catálogo de D. Pedro da Encarnação (Bibliothecae Regalis Monasterii S. Crucis Collimbriensis Catalogus II, p. 631, art.º 42) conhecemos o título original desta colecção, em que se conservam oito sonatas (II, III, IV, VII, VIII, IX, XI, XII) como exemplares únicos: Tocattas per Cembalo del sig.r Giuseppe Antonio Carlo e Sexas.

Objecto de uma edição crítica da responsabilidade do musicólogo João Pedro d’Alvarenga, em 1995, quando estas obras foram também gravadas pela primeira vez, na interpretação de Rui Paiva no cravo histórico de Joaquim José Antunes, de 1758 (colecção instrumental do Museu da Música), o ms. 5015 é considerado uma das mais antigas fontes – senão mesmo a primeira – do corpus seixasiano. O códice, ricamente encadernado, parece ter sido organizado de forma metódica, atendendo à disposição das primeiras oito sonatas por uma ordem ascendente de tonalidades, a partir de Sol. A caligrafia, visivelmente cuidada nos primeiros fólios, torna-se mais confusa e irregular à medida que avançamos na colecção, contrastando, por exemplo, com a consistência do copista a quem devemos o manuscrito coevo proveniente da colecção Ivo Cruz (ms. CIC 110, Biblioteca Nacional), de muito maiores dimensões.

[alert type=white ]CARLOS SEIXAS | Sonatas (IV)

O quarto volume da inédita integral para tecla de Seixas dedica-se ao conjunto de 12 sonatas do manuscrito 5015 da BNP.[/alert]

Para reflectir a diversidade estilística deste conjunto recorremos a dois instrumentos de tradições muito diferentes, cujas características estruturais e sonoras realçam aspectos distintos da composição para instrumentos de tecla em Portugal na primeira metade do século XVIII. Pela primeira vez nesta integral são usados instrumentos modernos, reproduções fiéis de originais dos sécs. XVII e XVIII devidas a dois dos mais célebres luthiers dos nossos dias e pertencentes a colecções privadas de Lisboa.

Sessões de gravação (cravo Klinkhamer-Amir 2006, cópia de Vater). fotografia: Ana Salazar/MPMP

O primeiro cravo, construído por Ton Amir e Johannes Klinkhamer em Amesterdão em 2006, é uma reprodução de um original de Christian Vater (Hannover, 1738), hoje no Germanisches Nationalmuseum (Nuremberga). Assinado de forma discreta, apenas sob o tampo harmónico, este instrumento simples de características invulgares é o único cravo construído por Vater que nos chegou, dentre uma produção extensa. Reunindo diferentes aspectos de tradições europeias, como a antiga francesa e a alemã, evidentes na concepção da caixa, o encordoamento integral em latão, numa escala curta, confere-lhe características italianizantes e uma grande clareza tímbrica.

Cravo von Nagel 1992, cópia de Giusti (teclado: pormenor). fotografia: Ana Salazar/MPMP

Reinhard von Nagel construiu em Paris, em 1992, a cópia que utilizámos de um instrumento italiano anónimo de grandes dimensões datado de 1693, com dois registos independentes de 8’ e inserido numa caixa exterior decorada. Preservado actualmente na Smithsonian Institution (Washington), este instrumento, cuja assinatura se perdeu, mas que podemos atribuir a Giovanni Battista Giusti, representa plenamente as características da construção de cravos no centro de Itália no final do séc. XVII, que influenciou decisivamente a tradição ibérica do século seguinte. A cópia estendeu a oitava superior até ré3, indispensável para a música de Seixas, que em Lisboa terá decerto conhecido instrumentos muito semelhantes.

Estes instrumentos poderão ser ambos ouvidos ainda ao longo de outros volumes da integral, em que procurarão, como aqui, salientar aspectos particulares da obra seixasiana.


CD disponível aqui.

Texto originalmente publicado na Glosas 10 (2013).

Estreia na Madeira o “Requiem Inês de Castro”

No dia 9 de Junho, a Igreja de São João Evangelista do Colégio, no Funchal, foi pequena demais para receber todos quantos quiseram estar presentes na estreia madeirense do Requiem Inês de Castro, da autoria do compositor madeirense Pedro Macedo Camacho. Estreada em Março de 2012 na Sé Nova de Coimbra, esta obra entretanto teve outras cinco apresentações, sendo esta última incluída nas celebrações dos 70 anos do Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira Eng.º Luíz Peter Clode (CEPAM).

O projecto foi fruto de uma colaboração inter-institucional, juntando a Orquestra Académica do CEPAM, os coros do CEPAM (sob a direcção artística do Prof. Nuno Santos), o Coro de Câmara da Madeira e o Coro Juvenil da Direcção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (ambos com direcção artística da Prof.ª Zélia Gomes), e contou ainda com o apoio da ANSA – Associação Notas e Sinfonias Atlânticas, da Diocese do Funchal, da Câmara Municipal da Ribeira Brava e também da Associação Machico XXI, uma vez que o concerto foi repetido no dia 11 de Junho, na Igreja do Caniçal, e será ainda apresentado no dia 16, na Igreja Matriz da Ribeira Brava.

Ao corpo executante de quase 230 músicos juntaram-se os solistas Maria João Pereira (soprano), Carla Isabel Moniz (soprano) e Stefan Hatházi (tenor), sob a direcção maestro Francisco Loreto.

Tendo estudado piano no CEPAM e composição com Eurico Carrapatoso no Conservatório Nacional, Pedro Macedo Camacho alargou a sua actividade também para as áreas do Jazz e da composição de bandas sonoras (tanto para jogos como para filmes e anúncios), tendo sido nomeado e premiado várias vezes pela sua música nestas vertentes.

Acrescente-se que, depois do Requiem, foi ainda interpretado o Hallelujah de Messias, de Handel, e, como extra e na sequência do acolhimento caloroso do público em pé, o Coro Triunfal da ópera Aida, de Giuseppe Verdi.

Quarteto Lopes-Graça estreia obra de Erlich-Oliva na Madeira

Inserido na Temporada da Música de Câmara da Orquestra Clássica da Madeira, teve lugar, no dia 1 de Junho, no Salão Nobre da Assembleia Legislativa da Madeira, um concerto pelo Quarteto Lopes-Graça. O agrupamento convidado apresentou um programa intitulado Bridges over troubled Cultures, em que propositadamente assume o papel de mediador entre as vertentes clássica e propriamente contemporânea da Música Contemporânea, que neste caso especifico contrapôs obras de L. Gianneo, S. Revueltas, Joly Braga Santos e Fernando Lopes-Graça, de um lado, e Diego Kovadloff e Alejandro Erlich-Oliva, do outro.

Os dois compositores dos nossos dias estiveram presentes e fizeram uma breve apresentação das suas obras. O Quarteto n.º 1 de Kovadloff foi escrito em 2014 e dedicado ao Quarteto Lopes-Graça, enquanto a obra de Erlich-Oliva, Três Canções para soprano e quarteto de cordas, foi escrita no ano passado e teve neste concerto a primeira audição mundial, tendo sido dedicada aos intérpretes da estreia, a soprano Nataša Šibalić e o Quarteto Lopes-Graça.

A escolha dos três poemas representa, conforme explicado no o texto do compositor, uma “homenagem – humilde e sincera – a três grandes nomes referenciais da poesia portuguesa dos séculos XVIII, XIX e XX”: Florbela Espanca (A vida e a morte), a Marquesa de Alorna (Sozinha no bosque) e Natália Correia (Do dever de deslumbrar). Declarando que “não está a mais qualquer gesto coadjuvante da luta pela afirmação e defesa da condição feminina” na sociedade contemporânea, Erlich-Oliva concebeu, então, um gesto artístico afirmativo, três canções de expressão muito concentrada e sóbria, com a voz integrada organicamente numa textura dinâmica e envolvente. Contribuindo a estas qualidades com uma plasticidade de execução assinalável, os intérpretes granjearam um acolhimento entusiástico por parte do público presente.

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