VI Seminário Música, Teoria Crítica e Comunicação

O CESEM, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, promoverá nestes meses de Junho e Julho a sexta edição do seminário Música, Teoria Crítica e Comunicação. Serão seis sessões, decorrendo entre os dias 9 de Junho e 13 de Julho, onde vários investigadores da instituição, afectos ao Grupo de Teoria Crítica e Comunicação, exporão os trabalhos que têm actualmente em curso.

A primeira sessão deste seminário decorrerá no dia 9 de Junho, pelas 18 horas, na sala 1.05 do Edifício I&D da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL. Focado aos estudos de recepção, o painel moderado por Paulo Ferreira de Castro contará com comunicações de Cesário Costa (que nos fala sobre a estreia portuguesa da Sagração da Primavera), Rui Magno Pinto (investigador que disserta presentemente sobre a emergência de uma cultura sinfónica em Lisboa e que ora abordará a programação dos Concertos Clássicos pela Associação de Música 24 de Junho), Luís Miguel Santos (sobre a recepção da produção sinfónica de Beethoven na imprensa no início do séc. XX) e Isabel Pina (do poema sinfónico de Freitas Branco, Viriato, no contexto do Integralismo Lusitano).

A segunda sessão, pelas 14 horas de 14 de Junho, constela-se à volta da ideia de acção dramática em contextos não convencionais. À mesa — intitulada Perspectivas sobre Música e Teatro — debater-se-á os conceitos de “música de cena” (pela comunicação de Francisco Pessanha) e de “música de câmara cénica” (por Katrin Stöck). Por sua vez, Edward Luiz Ayres d’Abreu abordará a “ópera radiofónica”, apoiado no exemplo seminal em contexto luso de Viver ou morrer, de Joly Braga Santos.

A terceira sessão aglomera os contributos de jovens investigadores do CysMus (Grupo de Estudos Avançados em Música e Cibercultura), que, no âmbito do Grupo de Estudos Avançados em Sociologia Musical da instituição, trabalham na intersecção da música com a Internet, jogos, cinema e televisão e restantes meios audiovisuais. As comunicações serão proferidas por Marcelo Franca (que discorrerá sobre a componente audiovisual no activismo metal, música a que dedica a sua atenção), João Porfírio (sobre o ambiente sonoro doméstico), Filipa Cruz (sobre a ideia de omnipresença no cinema de terror), Joana Freitas (da produção recente de Hans Zimmer) e Júlia Durand (sobre a música sob licenciamento para uso em audiovisual). A sessão decorrerá pelas 14h00 de dia 29 de Junho.

As comunicações da sessão de 7 de Julho (pelas 14h00) têm em comum entre si a atenção para com personagens judaicas: Alma Rosé, uma das líderes da tremenda Mädchenorchester de Auschwitz — na comunicação de Ana Brinca —, e António José da Silva, o Judeu, de cuja produção a musicóloga Andréa Teixeira parte para analisar o papel cultural da família de Pompeu de Pina em Goiás.

A quinta sessão subordina-se à relação entre música e imagem: numa primeira parte, Luís Soldado e Nicholas McNair abordam o cinema mudo; na segunda, Jelena Novak — investigadora particularmente atenta ao uso do vídeo na produção (pós-)operática da contemporaneidade — apresenta a comunicação Installing the operatic. Esta sessão decorrerá às 14 horas de 11 de Julho.

A última — a sexta sessão deste sexto seminário — tratará de cruzamentos interdisciplinares para lá dos já abordados e de alguns olhares “de fora”: Claudia Fischer, do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresentará o que chama playlist relativamente ao “conto musical” (produções literárias que lidam com a temática da música), onde  — à semelhança do trabalho que editou em livro — junta os autores românticos Kleist, Wackenroder e E.T.A. Hoffmann; Paulo Ferreira de Castro, por sua vez, discorrerá sobre o romance de Tolstoi, A Sonata a Kreutzer; Marta Soares, do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras, sobre a apropriação da música pela pintura, apoiada no exemplo de Amadeo de Souza-Cardoso; Pedro Eiras, convidado do Instituto de Literatura Comparada da Faculdade de Letras do Porto, sobre Cesariny. A sessão final decorrerá pelas 14h00 de dia 13 de Julho.

[alert type=white]VI Seminário Música, Teoria Crítica e Comunicação
9 de Junho – 13 de Julho
14:00 – 17:00 (excepto 9 de Junho: 18:oo – 21:00)
Edifício I&D, Sala 1.05
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa
Av. Berna, 26
Lisboa, 1069-061 Portugal[/alert]

II edição do Festival de Música “O Conservatório sai à rua”

Nos dias 12 e 13 de Maio, o Conservatório Regional de Ponta Delgada promoveu a II edição do Festival de Música O Conservatório sai à Rua A escola ofereceu à cidade de Ponta Delgada concertos realizados em simultâneo e em locais distintos da cidade, pelas classes de conjunto da escola. Para esta edição foram escolhidos o Largo da Igreja Matriz de Ponta Delgada, o Coreto do Campo de São Francisco, o Mercado da Graça e o Largo do Colégio. Participaram as classes de Coro Infantil, Juvenil e de Câmara, o Ensemble de Saxofones, a Orquestra de Cordas, a Orquestra Juvenil, o Conjunto de Guitarras e Violas da Terra, a Orquestra de Sopros Juvenil e a Orquestra de Sopros. Os cerca de 300 alunos envolvidos apresentaram uma selecção de obras estudadas nas respectivas classes de conjunto desde o início deste ano lectivo.

Nos concertos do dia 12 de Maio, pela tolerância de ponto, foi possível maior envolvimento de toda a comunidade civil e escolar, tendo estado significativamente mais presente para desfrutar dos diferentes espectáculos oferecidos nesse dia. De entre o diversificado e interessante repertório apresentado por todos os grupos intervenientes, salienta-se o do Coro Infantil, com canções compostas pela professora da classe, Ana Paula Andrade. Canções inéditas em melodia e poema, integralmente de sua autoria, contendo não apenas um carácter pedagógico — complementar às aprendizagens e interesses dos alunos que o frequentam, com idades compreendidas entre os 3 e os 10 anos —, mas também transmitindo-lhes valores.

No dia 13 de Maio, por força de constrangimentos meteorológicos, todos os espectáculos previstos no Largo do Colégio tiveram de ser transferidos para a Igreja do Colégio — Núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado, situada no mesmo largo. O último concerto do festival concluiu-o em apoteose, com três obras que reuniram em palco as classes de coro e orquestra de sopros, que o público aplaudiu calorosamente.

Concretizada mais uma experiência musical para todos os alunos envolvidos, já há quem acalente projectos para a III Edição.

II edição do Festival de Música “O Conservatório sai à rua” — concerto final, dia 13 de Maio
II edição do Festival de Música O Conservatório sai à Rua: concerto final, dia 13 de Maio

III Forum “Gestão Orquestral e Compromisso Social”

No dia 15 de maio, realizou-se na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) o III Forum Gestão Orquestral e Compromisso Social. O forum visou reunir diversos representantes culturais ligados à música de concerto em discussões sobre questões administrativas, artísticas e de responsabilidade social.

A programação iniciou-se com a mesa-redonda Curadoria Musical, com a participação da maestrina Mônica Giardini (curadora da série Música na Biblioteca, no Memorial da América Latina), de João Marcos Coelho (curador dos concertos de música contemporânea no Espaço Cultural CPFL) e do maestro Júlio Medaglia (responsável pelo programa Prelúdio, na TV Cultura). Giardini e Coelho destacaram a importância de acolher o público e fazer com que se sinta participante, seja por meio do incentivo ao contato direto com os artistas ou de abordagens que promovam a relação da música com outras artes ou temáticas. Medaglia alertou para a necessidade da ampliação do universo sonoro no ensino escolar básico.

Uma instigante e provocativa palestra foi-nos apresentada por Maria Elisa Pasqualini, coordenadora do Arquivo Artístico do Theatro Municipal de São Paulo. Ao abordar as questões legais envolvidas no uso de partituras, apontou as grandes responsabilidades dos arquivistas nos processos de negociação com editoras, diálogo com maestros e diretores, organização, manutenção e disponibilização do material para os músicos, mostrando a atribulada rotina de profissionais pouquíssimo valorizados em um sistema carente de formação especializada na área.

Pela tarde, tivemos a mesa Divulgação da música de concerto, com Nelson Kunze (diretor da revista Concerto), Rebello Alvarenga (idealizador do portal Música e Sociedade) e Mariana Garcia (analista de comunicação da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais). Kunze destacou a relação entre a atividade musical e a crítica como uma via de mão dupla. Mariana comentou sobre os diferentes programas da orquestra, destacando as ferramentas didáticas e de divulgação nas plataformas online. Alvarenga iniciou sua fala afirmando que o século XIX, com as noções de gênio e autonomia da música, está agora “cobrando o preço pelo que ele próprio criou”: o distanciamento do público, apesar da manutenção de um discurso de senso comum sobre a “grande arte”. Comentando as atividades de seu portal, atentou para a importância da seriedade e qualidade de conteúdo e para a necessidade de, por vezes, se temperar a abordagem com irreverência e humor.

Na última mesa, Os novos públicos da música de concerto, Vânia Pajares, diretora e regente de teatro musical, afirmou que o afastamento do público dos teatros é um problema de acesso e não de gosto. Abel Rocha contou sua experiência como regente e diretor artístico da Orquestra Sinfônica de Santo André, apresentando iniciativas de inserção social, como a realização de programas com grupos menores em diferentes espaços da cidade e “concertos sensoriais” para deficientes auditivos.

Um importantíssimo ponto aqui levantado foi a necessidade de se abordar questões de gestão no currículo universitário de música, preso a um modelo anacrônico de formação de compositores e intérpretes. Feliz iniciativa nesse sentido; o forum merece e precisa ser mais divulgado entre os músicos em formação.

Estreia do Concerto para Saxofone Alto de Anne Victorino d’Almeida

Passada uma década sobre a sua criação, viu a estreia mundial, a 20 de Maio, o Concerto para Saxofone Alto e Orquestra de Anne Victorino d’Almeida. O solista, exímio nesta apresentação, foi o jovem saxofonista madeirense Elvis Sousa, que recentemente conseguiu, em detrimento de cerca de oitenta candidatos, a única vaga no programa de Mestrado do Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris. Sendo o único saxofonista português de sempre a conseguir um lugar nesta instituição de referência, terá também o privilégio de se aperfeiçoar com um saxofonista de referência, o sexagenário Claude Delangle, cujo nome é sinónimo da escola francesa de saxofone.

A estreia foi inserida no quarto concerto da série de Jovens Solistas da Orquestra Clássica da Madeira, apresentado no Teatro Municipal Baltazar Dias e tendo como maestro convidado o alemão Ernst Schelle. Além da primeira audição do Concerto, para a qual a Orquestra e o maestro deram um contributo atento e sintónico, constaram do programa a Abertura em Estilo Italiano, D. 590 de Schubert e a Sinfonia n.º 2 de Beethoven.

Tendo eu sido privado da possibilidade de ouvir este concerto ao vivo, foi-me feliz e amavelmente cedida, pela OCM, uma gravação em vídeo. Se bem que uma gravação nunca é equivalente a uma experiência vivida, no caso de uma estreia mundial, mesmo perdendo algo da qualidade do som, ambiência acústica e sensação da proximidade, o infortúnio de não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo transformou-se em vantagem, dando-me a oportunidade de ouvir a obra várias vezes e, assim, não ter de depender apenas da primeira impressão fugaz.

Como referiu na entrevista para o Diário de Notícias da Madeira, a compositora associou o impulso que a levou a compor o Concerto a um concerto que realizou em 2006 com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, com o pianista Bernardo Sassetti e o saxofonista Carlos Martins. Querendo recriar os dias dos ensaios e do concerto, voltou para casa “com imensa vontade de escrever”. O nascimento da filha mais nova também terá tido repercussões imediatas no carácter da obra, que foi escrita em em 2007.

Sendo também violinista, Anne Victorino d’Almeida, filha mais nova do compositor António Victorino d’Almeida, mantém uma carreira artística intensa, como membro fundador do Quarteto Camões e do agrupamento Rumos Ensemble, tendo já integrado o Quarteto Lopes-Graça, e é professora de violino desde 2004 no Conservatório Nacional, em Lisboa.

Os três andamentos (Allegro – Andante non tropo – Allegro) do Concerto, que já foi editado pela editora AvA, têm uma duração de cerca de 19 minutos.

Desde os primeiros compassos torna-se óbvio que a linguagem desta obra não desafia o ouvido e cria o interesse utilizando sobretudo ritmo e timbre como ingredientes básicos. Não se abstendo de padrões rítmicos e sequências harmónicas familiares, a compositora frequentemente utiliza ostinatos como fontes de energia e pulsação, às vezes imponentes, às vezes criando o fundo para o saxofone, a pairar por cima num discurso cantante. A energia rítmica e motora emana sobretudo da parte dos timbales, cuja ubiquidade não perturba a impressão de uma textura transparente e muito bem equilibrada com registos do instrumento solista. O saxofone ora dialoga com a orquestra, ora continua as ideias propostas por outros instrumentos, integrando-se organicamente na textura comum.

Resulta muito bem o contraste entre o segundo andamento, em que os momentos nostálgicos e meditativos da parte solista, com o seu timbre tão característico, não passarão despercebidos pelos amantes da série televisiva Agatha Christie’s Poirot, e o último, em que o glockenspiel e os violinos introduzem um tema vivaz, infantil na simplicidade, anedótico no fraseado e folclórico nos contornos melódicos, frequentemente de inflexão pentatónica. Frases pitorescas da conversa entre a percussão, cordas e o solista exibem às vezes a plasticidade de uma banda sonora.

Nas cadenzas do primeiro e segundo andamento intervém também a orquestra, seja isso, respectivamente, por ostinatos que esmorecem para terminar o andamento ou por pizzicatos dos violoncelos a pontuar o solilóquio do solista, enquanto a cadenza do último andamento resume mais uma vez o espírito lúdico-infantil e brincalhão e conduz à coda.

Desinibido no seu eclectismo e muito bem-sucedido na conjugação com o tratamento original e atraente, este concerto permite ao solista aplicar uma visão muito individual e personalizada, pelo que se pode esperar, sobretudo tendo em conta que a obra já está editada e disponível, que em breve tenhamos a oportunidade de ouvir outras tantas abordagens e perspectivas, por saxofonistas portugueses e não só.

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