A vida começa aos cento e vinte e um

Em 2018 assistimos às celebrações de dois centenários na música: um, de peso mundial e com uma lamentavelmente tímida representação em Portugal, o outro de cariz nacional e com modesta, mas auspiciosa, representação no estrangeiro. A diferença é que o primeiro, de Leonard Bernstein, assinala-se sobre o ano do seu nascimento, enquanto o de Fragoso se assinala sobre a data da morte.

Curioso conceito este, o de celebrar a morte de alguém que se deseja homenagear. Mas Fragoso não é um caso qualquer, e há, a meu ver, duas razões para que este aparatoso centenário tenha sido em 2018, sobre a sua morte, e não em 1997, sobre o seu nascimento. A primeira razão é que a Associação António Fragoso, força motriz por trás desta efeméride, ainda não estava pronta para a tarefa em 1997, e ninguém mais havia que tomasse tão a peito o zelo pela memória e legado deste compositor. A segunda razão, quiçá mais importante ainda, é que, mesmo à distância de cem anos volvidos, o evento mais marcante e incontornável da biografia de António Fragoso continua a ser a sua morte. É o elemento que todos parecem conhecer e que continua a provocar uma comoção generalizada, como se fosse aquilo que verdadeiramente o torna um compositor a assinalar.

A figura de Fragoso é um estandarte feito à medida para a mitologia nacional sebastiânico-fatalista, que também já era o Portugal de 1918. Há uma linha que atravessa o nosso fim de século, quando o ultra-romantismo, na Europa tornado decadentismo e em Portugal derrotismo, faz gosto de uma certa debilidade e aptidão para a desgraça. Em mais lado nenhum vemos agrupada uma elite intelectual sob o chapéu de vencidos da vida, e basta ler o que escreve António Nobre, cansado e vergado ao peso dos seus vinte e dois anos de velhice, em 1889:

 

Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!

Torres por terra! As árvores sem ramos!

Ó meus amigos! Todos nós falhamos…

Nada nos resta. Somos uns perdidos.

 

Choremos, abracemo-nos, unidos!

Que fazer? Porque não nos suicidamos?

Jezus! Jezus! Resignação… Formamos

No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

 

Este penchant pela derrota, conservador e inerte, também é, claro, um alvo gordo para outros criadores inconformistas, desde a sátira queirosiana à atitude altiva dos modernistas, mas o ambiente lá estava, e calou longamente sobre Portugal. Arrisco dizer que ainda não nos livrámos de todo dessa névoa, e falhámos a campanha para mediterranizar a música [leia-se arte / pensamento], que pedia Nietzsche faz agora cento e trinta anos, cansado que estava de tanta bruma à sua volta. Falhámos a vida, menino!

Fragoso, embora não tivesse vocação revolucionária, não era assim cabisbaixo, e certamente lhe custaria ver-se associado post mortem a estas cores pesadas, para onde ainda hoje o vemos muitas vezes votado, como peão de um destino contra o qual nada pôde. Até estranho que ninguém se tenha lembrado de escrever o Fado Fragoso em Coimbra. Terá sido apenas por falta de conhecimento?

Estamos em dívida para com o compositor, e devemos virar a página já faz tempo. Como confirmaria La Palice, Fragoso, antes de morrer, estava vivo. E foi vivo, e não ao morrer, que fez as únicas coisas que lhe podem garantir um lugar na história.

António Fragoso
António Fragoso | fotografia: espólio do compositor (Associação António Fragoso)

O primeiro obstáculo que nos salta ao caminho na apreciação da obra fragosiana é que não podemos afirmar que conhecemos a sua música. Fragoso não compôs como se devesse morrer aos vinte e um anos, com urgência e sofreguidão, e a sua obra é pequena, fragmentária, e principalmente feita de miniaturas, onde se misturam as obras de criação espontânea com os exercícios académicos e tentativas de avanço por terrenos ainda verdes. Vejamos o caso de Giovanni Battista Pergolesi, que ocupa talvez o segundo lugar no pódio da fatalidade, expirando aos vinte e seis anos em 1736: ninguém pode afirmar sobre ele aquilo que acabei de dizer sobre Fragoso. Pergolesi, quando morreu, era um compositor adulto e profissional, dominando todos os géneros que se impunham a um compositor activo em Itália no período barroco.

Os casos de Mozart (falecido aos trinta e cinco anos), Schubert (falecido aos trinta e um) e Mendelssohn (trinta e oito) são outros exemplos de compositores que, embora agindo em contextos profissionais e sociais completamente diferentes, compuseram de forma fértil, segura e ininterrupta desde muitíssimo cedo e que, se tivessem morrido antes da casa dos trinta, também nos deixariam legados notáveis.

Para azar de Fragoso, no início do século XX havia um programa de conservatório a seguir por vários anos com vista à obtenção de um diploma em piano, com férias de Verão incluídas, o que significava parar para descansar durante três meses de seguida todos os anos enquanto era aluno, e nunca precisou do seu trabalho para garantir a subsistência. Em suma, teve o privilégio de poder chegar à idade adulta mais tarde. De facto, Fragoso levou a vida com o seu ritmo próprio, aprendendo e absorvendo claramente o mais que podia e a passo acelerado, extraordinariamente curioso e maduro para a sua idade, mas ainda apalpando terreno e provando os muitos frutos que havia à sua volta.

Por vezes, vemo-lo mais saudosista, outras, mais moderno. Aqui interessa-se por um sentimento nacionalista e bucólico, mas logo no dia seguinte lhe chegam as saudades da vida cosmopolita que o esperava em Lisboa, com sonhos, de resto legítimos e até necessários, de deixar Portugal em direcção a Paris. Tanto se comove com os cantos que ouve na sua aldeia, como anseia por ouvir o tal Stravinsky, de quem muito se fala pela Europa

Fragoso é assim mesmo: vário, disperso, permanentemente apaixonado, heterogéneo e permeável. Cabe-nos ser francos e admitir que no seu catálogo nem todas as entradas são obras-primas e não estão todas ao mesmo nível. É necessário ultrapassar a comoção para ouvir com claridade. Como nota Paulo Ferreira de Castro a partir de Dahlhaus, a objectividade é impossível: saberemos sempre pelo menos o suficiente para impedir uma audição puramente baseada em princípios de fruição estética e saberemos sempre que estamos perante uma das primeiras, mas também das últimas, composições de Fragoso.

É importante que se atinja um consenso, hierárquico até, sobre quais são as poucas obras, representativas e essenciais, que verdadeiramente importa exaltar e difundir, mesmo que sejam apenas duas ou três. Este consenso, a existir, não será fruto de reflexão ou discussão, mas virá com o tempo, com a participação da obra fragosiana na vida de muitas pessoas. Acredito que Fragoso ficará mais bem servido desta forma do que tentando incluir toda a sua produção por atacado na dieta do público português, coisa possível apenas em 2018, porque o centenário da sua morte atingiu altos patamares de atenção e representação institucionais.

Dá-se o caso com este compositor de não haver uma única nota sua que tenha caído em esquecimento ou que se tenha perdido com o tempo. Desde a sua morte, família e amigos houve que zelassem por ele, num caso absolutamente único na história da música em Portugal, e por ocasião do centenário e graças ao esforço tocante da AAF, toda essa música estará disponível para a posteridade, tanto gravada como publicada e acessível a quaisquer intérpretes que por ela se interessem. Longe vão os tempos em que achei que seria uma miragem encontrar uma edição usada da Petite Suite à venda num escaparate da Companhia Nacional de Música ao Chiado…

Dado este passo, que urgia e cabia à AAF, acredito que está cumprido o fundamental da sua missão, e podem deixar que o tempo faça o que lhe compete. Intérpretes e público irão querer o melhor do que Fragoso nos deixou, e aqueles que mais o amarem terão sempre curiosidade pelo resto. Não deve haver inseguranças por parte de ninguém: falamos de um compositor de génio, que terá o lugar que merece nas salas de concerto.

Esta história podia acabar aqui, com tudo pronto para o futuro, mas a verdade é que não. Também há presente: através do ímpeto de Eduardo Fragoso, sobrinho do compositor e presidente da AAF, continuam a chegar-nos sons fragosianos aos ouvidos, porque está em curso uma estratégia de revalorização do catálogo do seu tio, através da encomenda de orquestrações e composições rapsódicas sobre materiais originais. O próprio autor destas linhas se viu na disposição espontânea de orquestrar um Nocturno, mas outros houve que aceitaram a tarefa de, das miniaturas, fazer obras de grande escala. Eduardo Fragoso é nisto, sem tirar nem pôr, o Diabelli da Pocariça, e o repto que lançou pode vir a dar frutos notáveis, mas isso também só o tempo dirá. Certo estou de que nenhuma orquestração poderá fazer jus à versão original, nem que a beleza de uma canção de dois minutos para canto e piano se veja aumentada por passar a coro e orquestra. Fragoso será sempre superior a tudo isso, tal como, no fim de contas, qualquer original de Bach é melhor do que os seus milhares de arranjos. Mas é bonito, reconheço-o abertamente, ver acontecer esta celebração em torno de um compositor, por demais com obra tão reduzida. Tomara que se tivesse feito metade disto por outros compositores portugueses, mas mais nenhum teve esta sorte. Só quem viu centenas de pessoas sentadas, noite adentro, expostas ao frio e ao vento em pleno Largo António Fragoso, na Pocariça, escutando com devoção a música que saía das janelas abertas, numa recriação assinalável dos serões musicais que António Fragoso aí comandava, pode ter uma ideia do que é a verdadeira celebração de um compositor, incorporando-o na vida das pessoas e fazendo a sua obra mais presente do que nunca. Apraz-me ainda dar conta do facto de esse evento não ter sido exclusivamente preenchido por música de Fragoso, como de resto não eram os serões em que o próprio se sentava ao piano. Pois é assim mesmo, em contexto e não em exclusividade, de forma natural e não imposta, que se deve celebrar Fragoso. Ouvindo-o no meio de outros, a esse compositor que escrevia debaixo dos bustos de Beethoven, Schumann e Grieg, e de quem são tão claras por vezes as influências de X ou Y.

Uma coisa é certa: se em matéria fragosiana ficássemos por aqui, já era muito. Mais do que o estudo da vida e obra, interessa-me a vida da obra, e, nesse capítulo, António Fragoso tem uma estrada larga e viçosa aberta diante de si. Mais promissora, pese a sua obra reduzida, do que a de muitos venerandos mestres que a história não consagrou ou que não soubemos preservar. Antevejo, pois, e desejo, longa vida à curta vida de António Fragoso!


Texto publicado no número 18 da revista Glosas (2018).

Concerto de Natal pelo Grupo Vocal Olisipo

O Grupo Vocal Olisipo irá realizar uma actuação no próximo dia 23 de Dezembro, pelas 16h00, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, um belíssimo templo situado no coração de Lisboa. O evento, de entrada livre sujeita à lotação do espaço, inclui um programa centrado em polifonia vocal sacra para o Advento e Natal, assim como música paralitúrgica para as mesmas épocas.

O programa que o Grupo Vocal Olisipo irá apresentar na Igreja da Conceição Velha poderia muito bem integrar-se naquilo que pelo mundo hispânico se designava como ensalada, tanto no plano da diversidade de géneros como nos períodos históricos ali representados. Desta forma, o alinhamento deste concerto compõe-se de duas partes, a primeira de polifonia sacra e a segunda de polifonia e outras obras paralitúrgicas. O Alleluia, uma das obras mais conhecidas no mundo luso-hispânico de Manuel Mendes, compositor activo em Évora no final do século XVI, irá abrir o programa sacro. Segue-se um grupo de três motetes para o Advento (Amen dico vobis, Cum audisset Joannes e Omnis vallis implebitur) de Francisco José Perdigão, mestre de capela na Sé de Évora nas últimas décadas do século XVIII, constituindo muito provavelmente a estreia, ou rara interpretação moderna destas obras do compositor eborense e que estarão disponíveis em partitura brevemente através das Edições MPMP. O grupo de polifonia sacra fecha com um conjunto de obras de Estêvão Lopes Morago, compositor de origem espanhola que estudou na Sé de Évora e, mais tarde, foi mestre de capela na Sé de Viseu. Assim, de Morago surgem os responsórios para o ofício de Matinas de Natal Hodie nobis caelorum, Hodie nobis de caelo e O magnum mysterium. Deste compositor irão ser ainda interpretados os motetes para o Advento Erumpant montes, Montes Israel e Laetentur caeli.

A segunda parte do programa, mais diversificada em termos de períodos históricos, inicia com o vilancico Es nascido do compositor crúzio quinhentista D. Pedro de Cristo, de cuja morte, ocorrida em 12 de Dezembro de 1618, se comemoram este ano os 400 anos. Os cancioneiros quinhentistas estão também presentes, com Pues a Dios humano vemos, do Cancioneiro de Belém, e Riu, riu chiu do Cancioneiro de Upsala. Após estas obras encontra-se um grupo de vilancicos de autores do século XX: En Belen tocan a fuego de Ernest Cervera, Villancico Yaucano de Amaury Veray e Acalanto para o menino Jesus de Ernani Aguiar, intercaladas com uma vilanesca de Francisco Guerrero, A un niño llorando. Esta parte é rematada com algumas obras do cancioneiro popular português arranjadas por Christopher Bochmann (Boas festas e Menino Jesus à Lapa) e Mário de Sampayo Ribeiro (Natal de Elvas).

Nesta actuação, o Grupo Vocal Olisipo será composto por Elsa Corez (soprano), Maria Luísa Tavares (meio-soprano), Lucinda Gerhardt (meio-soprano), Carlos Monteiro (tenor) e Armando Possante (barítono e direcção).

Vianna da Motta: Correspondência com Margarethe Lemke

Mais um resultado do trabalho contínuo de Christine Wassermann Beirão sobre a obra de José Vianna da Motta (1868-1948), o volume de Correspondência com Margarethe Lemke será apresentado publicamente na próxima terça-feira, 18 de Dezembro, às 18h30, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa (Sala 1 da Zona de Congressos).

Este volume de Correspondência, edição conjunta da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) e do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, reúne correspondência trocada entre 1885 e 1908. A edição, organização e notas são da responsabilidade de Christine Wassermann Beirão, que também já publicara, em 2003, outro volume da Correspondência de Mestre Vianna da Motta, com tradução de Elvira Archer e a colaboração de José Manuel Beirão. Alguma correspondência de Vianna da Motta com a família Lemke, que o acolhera numa estadia em Francoforte-no-Meno, integrou já o volume de Diários (1883-1893), mais recente publicação desta série dedicada aos escritos do grande pianista, pedagogo e compositor. Margarethe Marie Lemke (1858-1900) foi cantora e, também, a primeira mulher de Vianna da Motta, sendo dedicatária de muitas das suas canções alemãs.

A apresentação do livro estará a cargo de Rui Vieira Nery e será seguida de um recital de João Costa Ferreira, pianista cujo trabalho recente tem também incidido de forma especialmente intensa sobre a obra de Vianna da Motta. A sessão é de entrada livre.


Poderá ler aqui um excerto do artigo de Christine Wassermann Beirão publicado no número 17 da revista Glosas: “Vianna da Motta, homem completo de espírito clássico”.

Morte e Vida Severina: um novo olhar sobre a obra de João Cabral de Melo Neto

No último dia 15 de Novembro, teve lugar no histórico Cineteatro Ouro Verde de Londrina (Brasil) a estreia do espetáculo cênico-musical Morte e Vida Severina, pelo Grupo Vocal Entre Nós. Morte e Vida Severina é um poema dramático escrito pelo pernambucano João Cabral de Melo Neto em 1955, que retrata a tortuosa trajetória dos retirantes nordestinos que saem do sertão em busca de uma vida melhor na capital litorânea. Severino, antes de uma pessoa em si, é uma identidade quase anônima. Muitos são Severinos, iguais em tudo na vida:

 

Somos muitos Severinos

iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande

que a custo é que se equilibra,

no mesmo ventre crescido

sobre as mesmas pernas finas

e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta.

 

E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte Severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte Severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida).

 

Morte e Vida Severina é um clássico da literatura regionalista brasileira, e não é à toa que já contou com produções para diferentes mídias. No teatro, imortalizou-se em 1965 com a montagem do TUCA – Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, dirigida por Roberto Freire e contando com composições do iniciante Chico Buarque, dentre as quais a antológica Funeral de um lavrador. Em 1977, foi a vez de ganhar uma versão para cinema, com direção do reconhecido diretor Zelito Viana, e ainda uma adaptação para teleteatro da Rede Globo em 1981.

Apesar de sua ampla circulação, Morte e Vida Severina ainda não possuía uma versão para coro cênico. Nesta linguagem, diferentemente do teatro convencional, o enredo é praticamente todo conduzido pela linguagem musical, não apenas através de canto solo, mas sobretudo através do canto coral. Foi esta lacuna que o Grupo Vocal Entre Nós veio preencher. A diferença desta montagem está justamente na busca por contar a história através das potencialidades que surgem do canto coletivo. Há que se lembrar que Severino não é apenas um. As vozes de tantos Severinos se mostram nesse trabalho arrojado e inovador dentro do campo do coro cênico brasileiro.

Morte e Vida Severina | fotografia de Fabio Alcover

Além de contar com arranjos de canções compostas por Chico Buarque e Airton Barbosa, o grupo se aventurou a composições próprias baseadas no texto de João Cabral de Melo Neto. Revelaram-se, assim, compositores londrinenses de grande expressividade, como Bruno Bazé, Flávio Collins e Mariana Sella.

Por ser uma obra amplamente conhecida, corre-se o risco de cair em lugares-comuns quando se opta por criar uma versão. Definitivamente, este não é o caso do trabalho do Grupo Entre Nós. A direção cênica do veterano Silvio Ribeiro foge dos clichês e parte em busca de uma profundidade interpretativa que emociona pela delicadeza e pela simplicidade: gestos contidos que potencializam a expressividade da obra. Além disso, musicalmente optou-se por expandir o ideário que se tem da Música Brasileira, especialmente nordestina. Claro que não poderiam faltar gêneros caros à nossa identidade, como o frevo, o baião e a quadrilha. Porém, o grupo atravessou esses limites e dialogou também com o universo da Música Erudita, operando uma ponte entre a religiosidade brasileira e o repertório sacro setecentista.

Isso pode ser observado em dois momentos: em A Anunciação (Bruno Bazé), quando é proclamado o nascimento do filho de José Mestre Carpina, abandona-se a rítmica brasileira para dar lugar a um recitativo ao estilo das oratórias barrocas, tendo uma viola caipira emulando a sonoridade de um cravo.  Já no fim da peça, novamente somos colocados na presença da expressividade barroca, quando, numa fuga a quatro vozes à la Bach, a montagem se encerra brilhantemente.

Fuga é composição do violinista paraense Flávio Collins, que também é cantor e compositor no Grupo Vocal Entre Nós e que, com sua bagagem como músico de orquestra, acrescenta ao grupo um vasto conhecimento sobre a tradição da música erudita ocidental. A direção musical de Monique Kodama, que também canta, atua e toca flauta no espetáculo, mostra um trabalho cuidadoso que se percebe no equilíbrio entre as vozes, no preciosismo com as dinâmicas e num trabalho de técnica vocal que busca valorizar as especificidades de cada cantor. Isso foi reconhecido recentemente no CANTORITIBA – Festival Internacional de Corais de Curitiba, no qual o Grupo Vocal Entre Nós foi vencedor nas categorias Popular Avançado e Coro Misto, além de ser condecorado com o Prêmio Diamante, por alcançar a melhor nota entre todos os grupos participantes.

Há ainda que destacar o trabalho da produtora Thalita Alcântara, que deu todo o suporte para que este espetáculo se realizasse, partindo da elaboração e aprovação do projeto junto ao PROMIC – Programa Municipal de Incentivo à Cultura. Morte e Vida Severina foi capaz de encher todo o Cineteatro Ouro Verde – reaberto em 2017 após um grande incêndio que o devastou em 2012 –, raridade nesses tempos de ataque à Cultura em todo o Brasil. O reconhecimento do público londrinense corrobora a trajetória de sucesso que o Grupo Vocal Entre Nós vem trilhando ao longo dos últimos 8 anos.

[alert type=white ]FICHA TÉCNICA

Direção cênica Silvio Ribeiro

Direção musical Monique Kodama

Produção Thalita Alcântara

Identidade visual Nícolas Lopes

Fotografia Bruno Ferraro e Fábio Alcover

Assessoria de imprensa Marian Trigueiros

Sonorização Júlio Anizeli e Patrick Sagioratto

Assistente de palco Davi di Pietro

Iluminação Romildo Ramos

Projeções mapeadas Matheus Doninha

Elenco Monique Kodama, Mariany Figueiredo, Clara Striquer, Thabata Alvarenga, Mariana Sella, Marian Trigueiros, Thaís Regina, Isaque Ribeiro, Flávio Collins, Caco Piacenti, Washington Souza, Thiago Barcelos, Nícolas Lopes, Bruno Bazé[/alert]

Brasil em Concerto

O Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro anunciou um novo projecto, designado Brasil em Concerto, com o objectivo de «apresentar ao público internacional a longa tradição de música de concerto no Brasil, que se estende do século XIX aos nossos dias», de acordo com um comunicado emitido por aquele órgão.

O programa resulta da iniciativa do Departamento Cultural do Ministério dos Negócios Estrangeiros, responsável pela concepção e financiamento, e congrega os contributos da Academia Brasileira de Música, da editora Naxos, da Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo (OSESP), da Orquestra Sinfónica do Estado de Minas Gerais e da Orquestra Filarmónica de Goiás, juntamente com agrupamentos corais e numerosos solistas vocais e instrumentais. Prevê-se que até 2023 sejam gravadas, num conjunto de 30 CDs, cerca de 100 obras sinfónicas, muitas das quais hoje esquecidas, de compositores brasileiros. O desenvolvimento integral do projecto, ao longo dos próximos cinco anos, terá um custo de 700 000 reais (aproximadamente 160 000€), integralmente financiado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro.

Nas palavras do embaixador Santiago Mourão, Subsecretário-Geral de Assuntos de Cooperação Internacional, Promoção Cultural e Temas Culturais do Itamaraty, “Trata-se de uma operação de enorme valor cultural. O custo não é alto, em relação ao objectivo traçado, mas o valor do resultado será inestimável. Este é um passo enorme para a recuperação do repertório sinfónico brasileiro, que ainda é muito pouco conhecido.”

Um dos propósitos assumidos à partida com este programa é constituir uma discoteca da música brasileira de épocas recentes que possa cumprir uma função de referência. Entre os compositores cujas obras figurarão nesta discoteca contam-se Alberto Nepomuceno, Carlos Gomes, Henrique Oswald, Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez, Camargo Guarnieri, Claudio Santoro, José Siqueira, César Guerra-Peixe, Edino Krieger e Almeida Prado. Destes autores há muitas obras sinfónicas e de câmara que permanecem ainda inéditas, lacuna que se procurará também suprir. Ainda segundo o embaixador Santiago Mourão, «Recebemos das nossas embaixadas muitos pedidos de informações de maestros sobre partituras de compositores brasileiros, que antes não tínhamos como atender.» Também a perspectiva da internacionalização é um factor importante deste programa. De acordo com a nota divulgada pelo Itamaraty, a editora discográfica Naxos «possui uma extensa rede de distribuição internacional e plataforma de comercialização online. Reconhecida pelo carácter quase enciclopédico do seu catálogo, e por uma direcção artística que privilegia gravações de obras e compositores menos conhecidos, a associação do projecto Brasil em Concerto com a Naxos representou um passo fundamental para alcançar a ampla difusão da música erudita brasileira.»

A primeira gravação que figurará neste catálogo é da Orquestra Filarmónica de Minas Gerais, sob a direcção de Diomar Silveira, num disco com obras de Alberto Nepomuceno (1864-1920), cujo lançamento está agendado para Fevereiro de 2019. Um dos discos com sinfonias de Claudio Santoro (1919-1989) estará a cargo da Orquestra Filarmónica de Goiás (das 14 sinfonias do compositor, apenas cinco foram, até hoje, gravadas), enquanto a OSESP gravará, numa primeira fase, obras de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e de três compositores de São Paulo: Francisco Mignone (1897-1986), Camargo Guarnieri (1907-1993) e Almeida Prado (1943-2010).

Serão gravadas pela primeira vez obras tão significativas da Música Brasileira como a série completa de sete Choros orquestrais de Camargo Guarnieri, a oratória Candomblé de José Siqueira (1907-1985), ou os Pequenos Funerais Cantantes de Almeida Prado, compostos sobre poemas de Hilda Hilst.

A apresentação pública do projecto Brasil em Concerto realizou-se a 22 de Novembro, no Palácio Itamaraty (sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro), com um concerto da Orquestra Filarmónica de Goiás, em que foram interpretadas obras de Edino Krieger e Claudio Santoro. A ocasião marcou também os 90 anos de Edino Krieger e iniciou as celebrações do centenário de Claudio Santoro, em 2019.

Abertura do 2.º Festival CriaSons – Tendências da Música Contemporânea

A segunda edição do Festival CriaSons 2018/2019 – Tendências da Música Contemporânea tem início esta segunda-feira, 10 de Dezembro, às 18h00, com um concerto na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, em Lisboa. O concerto inaugural tem um programa da responsabilidade do compositor Fernando Lapa, sob o título Atmosferas.

O programa terá duas obras em estreia absoluta: Poemas de Amor e de neblina, de Fernando Lapa (aqui estreada numa nova versão), e Rizoma, de Hugo Vasco Reis. Serão também ouvidos Tempo de Outono, de Carlos Azevedo, Quatro ou cinco Movimentos fugidios da água, de António Pinho Vargas, e In Memoriam Béla Bártok, Op. 126 – Suite n.º 8, de Fernando Lopes-Graça. Segundo o próprio Fernando Lapa, todas estas obras “respiram uma clara ambiência poética, com forte marca expressiva, mesmo nas obras apenas instrumentais. Ainda que nem sempre explícito, este repertório tem muitas sugestões visuais, desde as cores às formas, texturas, gestos ou ambientes. O vento, a água, as estrelas, o céu, a lua, a noite, o Outono, as terras, os tempos, as memórias…”. Serão intérpretes Jill Lawson (piano), Paulo Gaspar (clarinete), Luís Pacheco Cunha e Pedro Oliveira (violino), Isabel Martín Garcia (violeta), Catherine Strynckx (violoncelo) e o Ensemble Vocal CriaSons, sob a direcção de Brian MacKay.

O Festival CriaSons – Tendências da Música Contemporânea é um evento de concepção e organização da Musicamera Produções e tem direcção artística de Brian MacKay. Neste segundo festival, seis compositores (Eurico Carrapatoso, Alexandre Delgado, Amílcar Vasques Dias, Fernando Lapa, Cândido Lima e Alejandro Erlich Oliva) encarregam-se de programas diferentes, cada um dos quais contendo obras da sua própria autoria, muitas em estreia absoluta, a par de outras obras da contemporaneidade que considerem relevantes nos seus percursos individuais, e ainda das obras de seis jovens compositores seleccionados através do concurso CriaSons deste ano (Camila Menino, Edward d’Abreu, Hugo Vasco Reis, Miguel Jesus, Samuel Pascoal e Tiago Derriça).

O festival tem apresentações em numerosos teatros e auditórios do País, explorando ainda digressões internacionais, ao longo de todo o ano de 2019. As novas obras terão ainda edições em CD e em partitura.


Para mais informações, consulte esta ligação.

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