Pianista japonesa grava música de Carlos Seixas

Desde o final de 2018, está disponível no mercado um novo CD com música para tecla de Carlos Seixas, François Couperin e Jean-Philippe Rameau, da responsabilidade da pianista japonesa Mariko Terashi.

Gravado no Japão e lançado inicialmente em 2016 (Nami Records), o disco chamou posteriormente a atenção do grupo editorial inglês Divine Art Recordings, que agora o distribui sob a etiqueta athene.

Para além da música dos dois mestres franceses, é possível ouvir neste novo trabalho discográfico as sonatas n.º 8, em Dó maior, n.º 16, em Dó menor, n.º 50, em Sol menor, e n.º 59, em Lá maior (segundo a numeração de Macário Santiago Kastner para a colecção Portugaliae Musica) do compositor conimbricense.

Apesar de ser mais regularmente gravada em instrumentos históricos, a música para tecla de Carlos Seixas conta agora com mais uma leitura em piano moderno por uma intérprete que se dedica especialmente à adaptação para piano da música para tecla dos séculos XVII e XVIII.

Mariko Terashi estudou em França com Catherine Collard e Yvonne Lefébure, tendo recebido o prémio da Fundação Cziffra. Vive no Reino Unido desde 1995, onde se apresenta regularmente como solista e integrada em grupos de música de câmara. Apresentou-se também no Japão, Espanha e colabora regularmente com a orquestra polaca Vita Activa.

Entrevista a Vasco Mendonça

Entrevista a Vasco Mendonça por António Baião Pinto, a 21 de Fevereiro de 2020, no Verride Palácio Santa Catarina, Lisboa. Assistência técnica e apoio à produção de António de Saldanha. Reportagem fotográfica de Jenniffer Pais. Com agradecimento ao Verride Palácio Santa Catarina e a Joana Delgado.

Excertos da versão a publicar brevemente na revista impressa Glosas n.º 20.


 

[…]

Como é que foi a sua primeira ida à ópera? Que idade tinha?

Um Così qualquer, longínquo… no São Carlos. A primeira que eu me lembro, e que realmente me desinstalou… porque a ópera nunca foi uma coisa… é sempre um pouco difícil no início, sobretudo porque eu estava ligado ao jazz, e a ópera tem todo aquele excesso, é uma ponte difícil de fazer. A ópera é um espectáculo em que nada é natural. É preciso fazer um exercício de suspension of disbelief, ou seja, nós temos de entrar na sala e acordar, com os autores, e quando nos pacificamos com isso temos acesso a uma das experiências mais extraordinárias da criação humana. A primeira ópera em que eu me lembro de ter sentido alguma coisa de muito especial foi The English Cat do Hans Werner Henze, encenada pelo Luís Miguel Cintra. Foi quando me apercebi de que, na ópera, havia qualquer coisa que era muito deste mundo!

Sei que tem um interesse particular pela descoberta de “novos sons”, até provenientes de matérias inexploradas. Aliás, vem-me logo à memória uma passagem da sua ópera Bosch Beach, a que assisti, no Teatro Maria Matos, em Outubro de 2016. Se bem me recordo, numa das passagens mais orquestrais, durante um “interlúdio”, pediu que os músicos percutissem batendo com os pés no chão do fosso da orquestra… ou falha-me a memória? 

Para mim, na composição, naquilo a que me proponho, faz sentido explorar e encontrar novas formas de expressão, novas formas de avançar para algum lado. Avançar para algum lado é, na maior parte dos casos, desagradável. No fundo, muitas vezes procuramos algo que nem temos bem a certeza de que irá resultar. Esse “ir para fora de pé” é conditio sine qua non, pelo menos para mim. Por exemplo, depois da minha experiência com a ópera House Taken Over, que resultou muito bem, não faria sentido estar a seguir a mesma linha, tinha de fazer algo completamente diferente. Em todos os aspectos, Bosch Beach é completamente diferente, seja na estrutura, no tipo de instrumentação, até mesmo o libretto. Uma pesquisa óbvia é a organológica instrumental — porque é que havemos de nos restringir a um léxico, que é o dos instrumentos preparados, para criar o máximo de potência sonora sem ruído? Não é esse o nosso mundo! A dança, por exemplo, se calhar numa linguagem clássica, aspirava a uma noção de beleza quase divina, mas desde coreógrafos como Vaslav Nijinski que falamos do “chão” e não do “céu”… Na música, funciona da mesma maneira: o que é sujo, o que é não preparado ou refinado, pode ser também uma fonte de fascínio e de interesse, e de enriquecimento do discurso. Nesse caso, em particular, o acto de bater no chão, além de ser um acto sonoro, era também um acto teatral. Nesta ópera é clara a oposição de mundos diversos, um de excesso, decadência e quase pornografia, e um outro, quase inarrável, que era o da crise dos refugiados no Mediterrâneo. Uma das coisas que eu pretendi foi, de alguma forma, prestar homenagem, uma vez que era impossível dar voz a essa tragédia que estava diante de nós. Esse gesto era quase um ritual, inicial, antigo, arcaico, mas de reserva, e tinha de ser executado pelos músicos da orquestra, numa tentativa de transmitir algum pudor ao tema em si…

 

 

[…]

Falar de música contemporânea é também falar de um preconceito, quer da parte do público, quer mesmo dos programadores como é que olha para este distanciamento, ou será que algo mudou nos últimos anos? 

Penso que é uma situação em que não há inocentes. Temos de fazer um exercício de lucidez em primeiro lugar — o compositor contemporâneo, do ponto de vista social, é uma coisa que não existe, é uma não-entidade! Se compararmos o papel que os compositores têm na vida das cidades, na presença pública, como intelectuais das artes, está mais próximo de um “artesão”, e com isto não quero ser mal interpretado.

Percebo, mas lamento, que os músicos e os compositores, salvo raras excepções, não possam pertencer a este diálogo quase em pé de igualdade. Se perguntar a alguém quem é o Picasso e se essa pessoa não souber, e se perguntar a essa pessoa, no mesmo círculo, e falando até de ambientes letrados, se conhece uma peça do Stravinski e a pessoa disser que não, isso não é olhado da mesma forma. Isto quer dizer que a música não faz parte da nossa vida, do nosso meio cultural e social — e isso vê-se. Agora se há culpa do nosso lado, criadores-compositores, há, eu penso que sim. Mas em nenhum momento a solução para este problema é adoptar uma postura de guerrilha — ou seja, eu sou o “grande artista incompreendido”, subo à minha torre de marfim e vocês são todos uns imbecis que não alcançam a genialidade da criação. Isto é destruidor! Nós precisamos é de colmatar a distância que existe entre as pessoas, precisamos de mostrar que a música contemporânea não é um grupo de pessoas em salas escuras, com o Ulisses do James Joyce debaixo do braço a perorar “intelectualidades”, não! Somos um grupo de artistas exactamente iguais a todos os outros, pintores, escultores, cineastas, que está a reflectir sobre o mundo em que vive! Nós somos deste mundo, não somos do mundo das “casacas” em palco, nós somos artistas contemporâneos. A partilha do que nós fazemos é essencial, se não houver comunicação isso não é possível. Faz parte de um diálogo.

Pessoalmente, eu faço sempre um esforço para neutralizar um certo carácter intimidatório que música contemporânea tem. Já disse isto várias vezes: muitas vezes as pessoas vão ter comigo, depois de assistirem ao meu trabalho, e dizem, “eu não percebo nada de música, mas gostei (ou não gostei)”. As pessoas não sentem a necessidade deste preâmbulo quando vêem um filme, as pessoas assumem o seu gosto, mais ou menos informado, e é nesse universo que nós temos de nos posicionar. Temos de nos afirmar como criadores de qualquer coisa, um pouco diferente, se calhar um pouco mais hermética, que necessita de uma atitude de maior auxílio para mobilizar as pessoas, não num sentido de condescendência, mas de modo a que esta partilha possa acontecer.

Vou dar um exemplo prosaico, mas que até pode fazer sentido: a questão da culinária. Hoje em dia, as pessoas não preparam uma refeição gourmet todos os dias, ou vão a um restaurante e pagam uma quantia alta por algo do género assim com tanta regularidade. Mas, se calhar, se estivermos a falar de uma experiência gastronómica diferente, as pessoas estão, na medida da sua disponibilidade, disponíveis para isso — provavelmente não o fazem todos os dias, mas, de certa forma, é algo que lhes pode deixar memórias gratas. O paradoxo com a música contemporânea, se calhar, não é assim tão descabido: falamos de um género de música que não está presente na nossa rotina, com a qual lidemos assim tão frequentemente, mas, às tantas, quando a vemos e a ouvimos, pode criar um momento especial que enriquece a nossa vida e, eventualmente, levar-nos a procurar coisas diferentes. Como é que isso se faz? Bem…

[…]

Há precisamente seis anos (a 21 de Fevereiro de 2014), disse ao jornal Público que olhava com uma tristeza profunda para o estado do meio cultural português. Mudou alguma coisa desde então, ou continuamos a colar a cultura, e o investimento necessário, a uma lógica económica de proveito a curto prazo?

Eu lamento dizer que, num certo sentido, as coisas não mudaram. Existe um equívoco fundamental entre cultura e indústria criativa que não me parece que se esteja sequer a tentar resolver. Há, no entanto, uma riqueza intrínseca, em determinadas produções culturais e artísticas, que não é uma riqueza monetária. Se nós entramos na discussão da sustentabilidade de todas as expressões artísticas, caminhamos para um beco sem saída. E, consequentemente, cedemos a um exercício retórico que é, muitas vezes, desonesto, embora nem sempre, e enviesado.

Se, porventura, aplicarmos critérios de sustentabilidade económica à ópera, os teatros fecham todos! Nenhuma casa de ópera é financeiramente viável, no caso da Europa continental são os Estados, nos países anglo-saxónicos são os mecenas. Seja privado ou público, tem de haver algum tipo de apoio. Isto é assim porque as pessoas reconhecem a ópera como uma expressão importante e relevante para a nossa cultura, para a nossa civilização. Temos de assumir que há dinheiro que tem de ser dado a fundo perdido; isso não significa que os artistas sejam “parasitas” — e muitas vezes esta é uma ideia veiculada por muito “boa gente”. A situação é absolutamente inversa! A minha experiência é que a classe artística, na sua generalidade, são pessoas com uma dedicação absoluta à causa pública. Eu, quando recebo um subsídio, assumo desde logo que aquele dinheiro não é para mim, trata-se do financiamento que o Estado decidiu que valia a pena gastar com o meu trabalho para servir a causa pública. Eu não tenho a menor dúvida de que a maior parte dos artistas pensa assim.

Nós, artistas, temos o dever de contribuir para uma discussão pública, até civilizacional; o entretenimento é outra coisa… o que não significa que não haja manifestações deste género que não sejam artisticamente relevantes, e o mesmo é dizer que existem produções artísticas economicamente viáveis também. Agora, lá está, entrar nesta discussão é lamentável. Lamento que não haja uma constatação disto por parte da classe política — podem fazer-se muitas declarações de amor à cultura, podemos ser solidários, mas não havendo dinheiro não há milagres.

Nós temos artistas e compositores portugueses verdadeiramente notáveis, belíssimos intérpretes e até instituições como a vossa, o MPMP, com um trabalho importantíssimo — mas existe um limite abaixo do qual, economicamente falando, não é possível produzir com qualidade!   

 


Entrevista completa a publicar brevemente na revista impressa Glosas n.º 20,
 no âmbito do 10.º aniversário do MPMP

10 depoimentos x 10 anos (I)

Antonio Campos Monteiro Neto
investigador

A Glosas tem para mim dois grandes méritos: o de divulgar a musicologia histórica para além dos muros académicos, sem perder o rigor científico, e o de estar aberta à comunidade lusófona para a publicação de trabalhos. Por esses méritos, muito me honrou ver publicado o meu artigo “Marcos Portugal versus Padre José Maurício: a rivalidade cordial” na edição n.º 16, de Maio de 2017, dedicada aos 250 anos de nascimento do Padre José Maurício Nunes Garcia.

Em um contexto de incremento da cooperação entre brasileiros e portugueses em projetos de historiografia musical, a Glosas vem a ser um veículo adequado para a divulgação pública dessas iniciativas, em Portugal e — por que não sonhar — no Brasil. Fosse mais disseminada por aqui, contribuiria para pôr luz sobre alguns preconceitos que sobrevivem, por inércia na história da música brasileira, construídos no século XIX, a partir de efabulações sobre as diferenças entre a nossa prática musical e a que vigorava na antiga metrópole, arraigados ao ponto de ofuscar o óbvio: somos, musicalmente, o resultado da ação catequizadora dos padres jesuítas e da inclinação musical dos reis de Bragança.

A Glosas chega, em 2020, à edição n.º 20. Acompanho há alguns anos sua trajetória e, ciente das dificuldades para se manter uma publicação regular sobre assunto tão específico, parabenizo o Duarte Pereira Martins, o Edward Luiz Ayres d’Abreu, os participantes do conselho editorial e do MPMP pela marca dos 10 anos de publicação… e que a brilhante iniciativa perdure por décadas mais.

Saudações.

 

Bruno Borralhinho
violoncelista

Foi com enorme prazer que colaborei no n.º 13 da revista Glosas, em 2015, através de um breve depoimento para um dossiê especial dedicado à D. Madalena de Sá e Costa, que muito prezo a nível pessoal e profissional. Mas o meu conhecimento da Glosas era naturalmente anterior. Era e é impossível não notar e apreciar o fantástico trabalho realizado desde a sua primeira edição, sendo importante destacar o interesse e a utilidade dos temas e sujeitos abordados, mas sobretudo o grande rigor e profissionalismo da redacção e dos seus colaboradores. A Glosas tem-se destacado pela qualidade e preenche uma lacuna que vem pautando o âmbito musical português ao longo das últimas décadas ou mesmo séculos — as publicações do género têm tido uma regularidade demasiado intermitente.

Por falar em preenchimento de lacunas, é inevitável salientar o trabalho do MPMP como um todo: desde o seu Ensemble, passando pelas edições e publicações discográficas, de partituras ou de livros, este projecto tem sido, sem dúvida, uma lufada de ar fresco e um contributo fantástico para o desenvolvimento do meio musical erudito em Portugal. Saiba esse meio musical e Portugal reconhecer o valor do MPMP e da Glosas e dar-lhes condições para continuar este notável trabalho durante muitos e muitos anos!

 

Carla Caramujo
soprano

No limiar de uma nova década, a música portuguesa está de parabéns pela sua maturidade e pela valorização dos seus talentos. Internacionalmente, termina uma década intensa, marcada por paradoxos, desafiante e feminina. Muitas instituições renovam-se, e encerram-se paradigmas, fruto da tecnologia ou meramente das convulsões mundiais. O intolerável deixa de ser tolerado e o universo da música não é excepção. Será interessante perceber o que o futuro próximo nos reserva, neste aflorar daquilo que parece ser uma nova era da chamada “música clássica”.

No limiar da década de 2020 assistimos à definitiva afirmação das mulheres enquanto directoras de orquestra, com destaque para a americana Marin Alsop, a abrir portas numa árdua e vitoriosa escalada desde 2002. Pela primeira vez na história do prémio Pulitzer da Música, em 2017, os três finalistas são mulheres, sendo o prémio atribuído à compositora chinesa Du Yun com a sua ópera Angel’s bone. Ellen Reid é galardoada em 2019 com a ópera Prism. Numa sociedade marcada por séculos de misoginia e racismo, como a americana, estes são motivos de grande esperança.

Não sou feminista, mas sou uma fervorosa defensora da igualdade de oportunidades no que toca a género, etnia, religião e nacionalidade. Por isso, alegra-me perceber que, no mundo da música, o género da pessoa já não representa uma limitação ou barreira ao talento e ao mérito. Assim deve ser! Portugal não é alheio a este fenómeno, e assistimos a um crescendo molto vivace de compositores, instrumentistas, cantores, maestros e musicólogos, com várias mulheres a escreverem o seu nome na história da música mais recente. Nomes imortais como Guilhermina Suggia, Constança Capdeville, Clotilde Rosa, Maria João Pires serão sempre faróis inspiracionais de um passado e presente modestos em número mas gigantes em talento.

A última década é também marcada pelo surgimento do movimento #metoo, que abala irremediavelmente o mundo da música erudita quando, em 2017, dois dos maiores maestros do mundo são acusados de assédio sexual: James Levine (Metropolitan Opera) e Charles Dutoit (Royal Philharmonic Orchestra). Outros casos se seguiram, abrindo assim a caixa de pandora de um mundo pouco claro e muito pouco progressista em matéria de confronto com acusações de assédio sexual.

Reflectindo sobre a realidade internacional de uma forma abrangente, paradoxalmente, penso na minha pequenez e naquilo que foi para mim o marco da última década enquanto cantora profissional: o indubitável prazer da descoberta do repertório de autores portugueses e do repertório em língua portuguesa. No momento em que escrevo, é com enorme tristeza que, juntamente com um elenco de grande talento, vejo interrompido um maravilhoso processo de ensaios da Trilogia das barcas de Joly Braga Santos, com libreto baseado nos autos do “Inferno”, do “Purgatório” e da “Glória” de Gil Vicente. Estrearia no dia 2 de Abril, na presente temporada do Teatro Nacional de São Carlos, não fosse o seu cancelamento face à actual ameaça da epidemia. Tem sido um privilégio de uma vida descobrir, estudar e interpretar esta obra e este compositor, um dos grandes vultos da música portuguesa da segunda metade do século XX, associado a um dos maiores dramaturgos da história da literatura portuguesa e mundial. Continuo a estudar… Havemos de a levar a palco!

Este deambular pelos ensaios dos últimos dias e pelo meu trajecto “português” dos últimos anos leva-me a reflectir sobre o trabalho tão especial que fui desenvolvendo com o maestro João Paulo Santos: estreias modernas de obras de autores portugueses do século XIX e início do XX e a gravação da integral das canções de António Fragoso por ocasião do centenário da morte deste compositor, em 2018 (encomenda da Associação António Fragoso). A descoberta do repertório da época dourada do barroco português, sobretudo com Os Músicos do Tejo, foi também especialmente enriquecedora. Brevemente, poderemos ouvir uma gravação deveras eloquente de Il mondo della Luna de Pedro António Avondano, que gravámos para a etiqueta NAXOS. Ter podido participar no trabalho da Fundação Calouste Gulbenkian, quer ressuscitando obras perdidas das nossas bibliotecas, quer estreando óperas de autores portugueses contemporâneos, foi uma honra que em muito contribuiu para a minha aprendizagem e, definitivamente, para a consolidação de uma paixão pela música portuguesa.

Percorrido este caminho, pensar que, quando saí de Portugal, possuía uma única edição de canções para canto e piano de autor português e em língua portuguesa — as Trovas de Francisco de Lacerda — perturba-me, no mínimo. Por isso, fico feliz ao constatar que, na última década, com a ajuda de colegas igualmente entusiasmados pela nossa música e língua, desbravei dezenas de autores dos séculos XVIII a XIX, e cantei muitos dos nossos compositores vivos que estão a escrever linda e proficuamente. Estreei obras de Alexandre Delgado, Pedro Camacho, Nuno Côrte-Real, Pedro Amaral, e levei a vários cantos da Europa e das Américas música de Lopes-Graça, Fragoso, Freitas Branco, Vianna da Motta, Alexandre Delgado e Fernando Lapa. Este interesse pessoal, que senti ser transversal a muitos colegas durante os últimos anos, foi, sem dúvida, muito reforçado pelo surgimento da associação MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, e pela sua revista Glosas, cujo décimo aniversário celebramos agora.

O surgimento do MPMP e da Glosas é indissociável da evolução da música em Portugal na última década. Eu diria mesmo que ambas, por si só e como um todo, representam um marco da história da música portuguesa dos últimos dez anos. Como um concertante no final de uma grande ópera, que resume e reforça com grande vitalidade uma história de séculos, muitas vezes esquecida, negligenciada e muito mal interpretada.

Projectos como o MPMP contribuem para a construção e consolidação de uma identidade cultural portuguesa que, nos dias que correm, urge ser fortalecida e divulgada. A Glosas não só ressuscitou nomes perdidos da nossa história da música, homens e mulheres, como permitiu o estudo desses autores através de artigos e entrevistas publicadas, tendo ainda promovido gravações de música portuguesa com excelentes músicos portugueses. Um movimento consistente e de continuidade, documentado e pensado para as gerações futuras e para ser ouvido pelo resto do mundo!

Por último, não posso deixar de destacar o trabalho MPMP junto da lusofonia. Este tem criado pontes entre autores de vários países de língua portuguesa, com os quais partilhamos uma história comum, nomeadamente o Brasil, cuja música de corte nos séculos XVIII e XIX nos é tão familiar. A língua portuguesa que nos une levou-me, nos últimos anos, a estreitar uma relação profissional muito interessante com artistas brasileiros, tendo a música deste país ocupado um lugar muito especial no meu repertório. Ao divulgarmos música portuguesa ou em língua portuguesa, estamos, inevitavelmente, a divulgar a história de Portugal e dos países que influenciaram a história portuguesa e a evolução da língua portuguesa, nosso maior património comum. Nesse sentido, não posso estar mais agradecida ao MPMP e à Antena 2 por terem apoiado e abraçado a gravação de Domitila, ópera do compositor brasileiro João Guilherme Ripper que estará disponível brevemente, em todos os canais digitais. Coube-me a hercúlea tarefa de interpretar Domitila, tão-somente a controversa e apaixonante Marquesa de Santos, na excelente companhia do Toy Ensemble na sua formação de trio, com Ricardo Alves no clarinete, Jed Barahal no violoncelo e Christina Margotto ao piano. Um monólogo intensíssimo baseado na correspondência da Marquesa de Santos e de D. Pedro I, Imperador do Brasil, D. Pedro IV de Portugal.

Venham mais pontes, abracemos a nossa língua e cultura!

Longa vida à Glosas, ao MPMP, à língua e à música portuguesa!

 

Carla Seixas
pianista

A revista Glosas já vive comigo há dez anos. Lembro-me de um grupo de alunos da Escola de Música do Conservatório Nacional, que eu já achava excepcional pela aptidão no trabalho e sobretudo pelo grande gosto musical… Quando este grupo se uniu e fundou o MPMP não fiquei surpreendida, na medida em que convergiam directamente uns com os outros no amor e no encantamento por aquela que é uma das mais belas das artes, a música.

Coleccionei a revista desde o primeiro número. Era sempre uma enorme alegria quando recebia a próxima. Ao longo dos anos fui desvendando muitos segredos, histórias, mentalidades e muita música que até aí me eram desconhecidos…

Bravo, MPMP; bravo, Glosas! Sempre comigo, na minha vida!

 

Miriam Cardoso
flautista

E assim se passaram dez anos… Lembro-me da conversa com Edward, do convite para fazer parte da associação, que prometia fazer pela música portuguesa aquilo que nunca tinha sido feito. Fiquei muito entusiasmada, comungava dos mesmos ideais e sem dúvida queria fazer parte, mas, por motivos profissionais, à data, não me foi possível. Ainda assim, o vínculo manteve-se, e de uma forma não menos activa. Nestes dez anos mantivemos uma relação profícua e materializámos projectos que de outra forma seria mais difícil levar adiante.

Em 2013, tive a oportunidade de glosar um artigo e dar a minha perspectiva sobre o Concerto para flauta e orquestra de Frederico de Freitas. Tentei materializar em palavras o que Frederico de Freitas colocou de forma impressionante numa partitura. Das palavras materializadas na Glosas passei aos concertos do Entre Madeiras Trio (de que sou membro fundador) promovidos pelo MPMP, e tantos foram, em vários palcos na cidade de Lisboa, alguns que nunca tinham acolhido música de câmara contemporânea portuguesa, género que ganhou outra dimensão e outra divulgação com esta associação. Propiciámos muitas estreias, numa parceria entre músicos e compositores, e em vários momentos com a chancela do MPMP, presente também através de toda a produção do primeiro CD do Entre Madeiras Trio. Um processo longo, nem sempre fácil, mas enriquecedor.

Dez anos passados, muitas coisas foram feitas, outras naturalmente ficaram por fazer, mas posso dizer que o Edward conseguiu cumprir aquilo a que se comprometeu: fazer pela música portuguesa aquilo que nunca tinha sido feito.

 

Fernando Costa
violoncelista                            

Como ouvinte, docente e intérprete, dedicado de forma regular à divulgação de música portuguesa, é para mim perceptível a crise progressiva no que respeita à abordagem que muitas vezes é feita pelo mundo da música erudita, e é fundamental que este quadro se inverta. Deste modo, é de enaltecer o aparecimento de um discurso manifestante, de movimentos de apreciação musical e de projectos que olhem para a música erudita e portuguesa.

Assim se enquadra este movimento patrimonial pela música portuguesa, que pretende colocar a música de compositores portugueses num patamar superior de visibilidade. A música portuguesa é, sem dúvida, a figura central deste movimento. Criam e recriam uma série de oportunidades para tentar colocar os intérpretes e compositores portugueses a par das grandes referências europeias ou mesmo mundiais, e a sua dedicação e atenção dada à cultura musical do nosso país é enorme.

Serve este meu breve testemunho para evidenciar, de certa forma, as potencialidades e a importância da existência de projectos como o MPMP e a revista Glosas, deveras enquadrados no meio, que acreditam verdadeiramente na mensagem que está a ser transmitida. Um dos factores de diferenciação deste projecto passa, desde logo, pela capacidade de chegar ao seu público-alvo, com um objectivo bem definido de promoção, divulgação e circulação dos nossos compositores e intérpretes, e o aumento da preponderância deste património a nível nacional, bem como a sua internacionalização.

Entendo que as pessoas não conhecem o que se faz em Portugal, país muitas vezes ignorado ou esquecido nas grandes rotas da circulação musical, ainda que haja nele valores tão grandes como em qualquer outro país. Com um projecto ambicioso, factores fortes como a visibilidade e a credibilidade que têm mostrado, torna-se mais fácil a aproximação desta grande música ao público português. Parabéns e obrigado!

 

Hugo Vasco Reis
compositor

Acompanho a actividade do MPMP desde o seu início, assistindo a vários concertos, ouvindo as edições discográficas, lendo as comunicações, revista e partituras. Falamos algumas vezes e debatemos ideias. Conheço a sua seriedade, dinâmica, exigência e perseverança, sendo a sua qualidade consolidada ano após ano, através de novas ligações e experiências. O trabalho que desenvolvem na divulgação da música portuguesa de carácter escrito é transversal e digno, na minha opinião, de ser seguido e apoiado, criando assim possibilidades de dinamizar e valorizar um sector musical que tem poucos canais de comunicação. Nestes dez anos que passaram, as descobertas foram muitas. Desejo que a motivação de continuar rejuvenesça a cada ano que passa e que seja um ponto de encontro — concordando ou discordando — de compositores, intérpretes, musicólogos e melómanos.

 

Inés Badalo
compositora

La asociación MPMP es todo un ejemplo a seguir, tanto por contribuir a la divulgación de la música portuguesa del presente, como por recuperar obras del pasado. En definitiva, por velar y mantener vivo un legado musical así como por ampliarlo con obras de nueva creación, descubriéndonos un pasado que nos ayuda a comprender nuestro presente.

¡Felicidades a todo el equipo humano que hace que sea posible y por muchos años más!

 

José Luís do Pico Orjais
músico e divulgador cultural

Quando era criança — acabo de cumprir os meus primeiros cinquenta anos —, na minha casa era acostumado a escutar os discos e cassetes de Amália Rodrigues, do Zeca Afonso ou de Vozes na Luta. Ao começar a experimentar a guitarra, os primeiros acordes foram — junto com muitas outras canções ligeiras — para aquele reportório que a minha família coleccionara em tempos em que, no Reino de Espanha, as músicas havia que as escutar com o mínimo volume possível. Um dia, sendo aluno de liceu, um professor colocou no magnetofone uma cassete da Brigada Victor Jara, acho que a que diz Adeus, ó Vale de Gouvinhas, Marião. Fiquei espantado quando o meu professor identificou aquelas quadras como portuguesas, porque para mim estávamos ante uma canção genuinamente galega, instalada no meu reportório íntimo quase desde o berço. Nesse dia, as fronteiras culturais entre Galiza e Portugal caíram — infelizmente apenas no meu cérebro — e nunca mais vi as terras de além-Minho como estrangeiras.

Já de adulto, a primeira palestra que dei foi sobre as afinidades entre o folclore galego e o português, glosando — nunca mais oportuna esta palavra — os lugares comuns transitados por galegos como Fermim Bouça Brei e os seus companheiros da revista Nós, e por parte portuguesa Santos Júnior, Augusto César Pires de Lima ou a grandíssima Michaëlis de Vasconcellos. Mais tarde, tive a honra de colaborar em congressos e publicações que me uniram definitivamente a Portugal. Filhos deste convívio pan-galaico são meu Cancioneiro Lusófono (Edições da Galiza), as Dez Cancões Galegas de Frederico de Freitas (AVA Musical Editions) em parceria com a pianista Helena Marinho ou, mais recentemente, O legado sonoro de Jacinta Landa Vaz (aCentral folque), no que tive a fortuna de assinar de lado do meu grande mestre Domingos Morais.

Na minha admiração pela música e músicos portugueses, dois nomes sobranceiam por cima de qualquer um. São o de Fernando Lopes-Graça e o de Frederico de Freitas.

Do mestre Lopes-Graça admiro a sua obra musical, ensaística, etnomusicológica… mas também o seu testemunho vital, podendo fazer minha muitas das suas frases mais panfletárias: “[a música] a minha religião (1)” ou “sou antibelicista e pacifista como compete a um militante comunista (2)”. É mais que provável que um dos primeiríssimos lugares do Reino de Espanha onde se escutou música de Lopes-Graça fosse a cidade de Ponte Vedra (Galiza) (3), em meados do século XX. Mesmo alguns meses atrás aventei a hipótese de que a obra Três líricas castelhanas de Camões do maestro de Tomar fosse composta para a Coral Polifónica de Ponte Vedra (4).

Frederico de Freitas tem uma longa história com a Galiza. Em Agosto de 1939, recém-terminada a guerra espanhola, chefiou a estreia da obra Chucurruchu, do galego Antonio Iglesias Vilarelle, diante dos microfones da Emissora Nacional. Curiosamente, o Antonio Iglesias foi o maestro da Polifónica pontevedrina, razão pela qual a cidade do rio Leres é, como veremos, palco principal do convívio luso-galaico. O facto insólito de Frederico de Freitas estrear uma obra menor dum músico galego menor só se pode entender em termos da fraternidade pessoal dos maestros, mas também pelo contexto de alianças peninsulares durante e imediatamente depois da contenda bélica.

Anos mais tarde, na década dos sessenta, as Dez canções galegas de Frederico de Freitas escutaram-se em Ponte Vedra no seu Festival de la Canción Gallega, junto com outras de Joly Braga Santos, Ruy Coelho, Cláudio Carneyro, Macedo Pinto, João de Freitas Branco e Rosado Peixinho(5).

E, depois de toda uma vida dedicada a investigar, aprender e divulgar as nossas músicas, chegou às minhas mãos um exemplar de Glosas. Todos os investigadores e investigadoras precisamos de sentir-nos parte duma comunidade científica e mesmo dum grupo geracional com quem partilhar, expor, contrastar… A Glosas e o MPMP supõem, ao meu ver, um passo adiante no compromisso de músicos teóricos e práticos na defesa e revelação em valor do colectivo, em definitiva do nosso património musical. Mas também é um modo de dizer aos poderes competentes (?) que estamos organizados, que somos perigosos porque somos cultos, que sabemos o valor real daquilo que manipulamos e que estamos dispostos a divulgar, porque tudo quanto é de nós-outros/as deverá passar a ser, imediatamente, de nós-todos/as.

Saúdo pois, e parabenizo, a revista Glosas e o MPMP desde a Galiza, o berço da lusofonia, no meu nome e no dos companheiros e companheiras das Irmandades da Música Galega (6), colectivo formado por professores de conservatórios galegos, intérpretes, investigadores, editores… Talvez encontremos, nalguma encruzilhada, um lugar para a conversa e a acção. Assim seja.

(1) Fernando Lopes-Graça, “Reflexões sobre a música”, Seara Nova, Lisboa, 1941.
(2) Entrevista a Fernando Lopes-Graça (1983), Arquivos da RTP.
(3) https://ilhadeorjais.blogspot.com/2019/07/n-234-os-cantores-del-instituto-e.html
(4) https://ilhadeorjais.blogspot.com/2019/07/n-235-os-cantores-del-instituto-e.html
(5) Compositores portugueses no Festival de la Canción Gallega. Descarga gratuita do texto completo em http://commons.folque.com/textos/ .
(6) Fazem parte da directiva: Fernando Lopez-Acuña (Presidente), Margarita Viso Soto, Alejo Amoedo, Julio Alonso Monteagudo, Javier Ares Espiño, Julio Cabo, Juan Berná Pérez, Moncho de Orzán e José Luís do Pico Orjais.

 

Miguel Menezes
contrabaixista

Em tempos particularmente estranhos, e num momento em que a produção musical se encontra parada sem o vislumbrar de um Norte aparente, é importante celebrar estes momentos. Sinto-me honrado e privilegiado por poder dar o meu contributo em alguns dos projectos artísticos que saem da cabeça de um grupo de jovens dinâmicos, determinados e insubordinados, projectos estes que primam não só pelo bom gosto nas escolhas, pela diversidade de frentes em que actuam, mas também pelo arrojo: no processo incessante de orgulhosamente “vasculhar” o que de melhor se fez e se continua a fazer musicalmente entre fronteiras, e na sua vontade de o difundir.

Parabéns, MPMP, por estes 10 anos de existência, e por tudo o que daí resultou.

 


Textos escritos no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

A propósito do aniversário da revista GLOSAS e do MPMP

A revista Glosas e a associação MPMP comemoram, em Maio de 2020, dez anos de existência. Quando me solicitaram um depoimento sobre a minha experiência com esta associação, eu não poderia ter reagido senão com o maior entusiasmo, dado o apreço que tenho pelo trabalho que tem vindo a desenvolver. De facto, a associação MPMP tem dedicado notórios esforços à interpretação, edição, promoção e divulgação da música de autores portugueses e brasileiros, potenciando também a criação e a investigação sobre as temáticas a que se dedica.

É certo que, ao longo da última década, temos assistido a um acréscimo de interesse, tanto por parte da comunidade musical como da própria academia, sobre a música de autores portugueses e brasileiros, bem como sobre o vasto património musical erudito de ambos os países. Têm-se multiplicado projectos de edição musical e discográfica, trabalhos académicos, concertos, recitais e outras iniciativas versando sobre a produção musical que ocupa o Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. Felizmente, para todos nós, a associação MPMP não está sozinha, inscrevendo-se a sua actividade numa tendência mais vasta e abrangente.

Longe de lhe tirar mérito, esse facto parece-me ser, pelo menos em parte, sintomático do impacte que a referida associação tem tido na promoção do respeito e do interesse pela cultura musical portuguesa e brasileira. De facto, o trabalho desenvolvido pela associação tem alavancado o muito que havia – e há ainda – a fazer, imprimindo uma dinâmica muito própria (jovem, contemporânea, dedicada, apaixonada até, ousaria eu dizer…) à hercúlea tarefa de, simultaneamente, resgatar o património musical do passado e contribuir para a criação de condições que favoreçam a criação musical actual. Por outro lado, é assinalável que o tenha vindo a fazer de modo múltiplo e integrado, promovendo edições de livros, partituras, registos fonográficos e da própria revista Glosas, mas também a interpretação de obras (nomeadamente através da constituição e actividade performativa do Ensemble MPMP) e a criação musical contemporânea (através do concurso de composição Prémio Musa e de vários projectos de edição dedicados a compositores do nosso tempo). Em suma, o percurso que a tem trilhado é exemplar, e o labor que tem desenvolvido, além de benéfico, é pertinente e necessário.

Naquilo que me diz respeito, tive o grato prazer de me associar ao Ensemble MPMP, enquanto intérprete, participando no terceiro concerto do “Ciclo Latitudes”, que teve lugar no Auditório Vianna da Motta, na Escola Superior de Música de Lisboa, a 5 de Novembro de 2013. Para além disso, as minhas interpretações de duas obras para piano, electrónica e formações orquestrais diferentes, que me foram dedicadas por compositores que tanto admiro e estimo como João Pedro Oliveira1 e Carlos Caires2, encontram-se registadas em CDs com a chancela MPMP. De resto, tenho podido beneficiar amplamente da actividade da associação MPMP, enquanto leitora assídua da revista Glosas, enquanto consumidora de numerosas outras publicações MPMP, e enquanto público dos concertos promovidos pela mesma associação.

Por todas estas razões, que configuram sincera gratidão, desejo uma longa e profícua vida à associação MPMP e à revista Glosas.

Conto com ambas, como espero que saibam que podem contar comigo!


1 2013. João Pedro Oliveira: Mosaic, Vários intérpretes (faixa 4: Abyssus ascendens ad aeternum splendorem, para piano, orquestra e electrónica; Ana Telles, piano; Orquestra Filarmonia das Beiras; António Lourenço, direcção), Colecção Melographia Portugueza vol. 4. Lisboa: mpmp.

2 2019. Criação, circulação, registo áudio e edição de obras de música portuguesa contemporânea (faixa 1. Carlos Caires: Pianissimo, para piano, orquestra de sopros e electrónica; Ana Telles, piano; Orquestra de Sopros da ESML; Alberto Roque, direcção). Lisboa: mpmp | ESML. MPMPCD48


Artigo escrito no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

Para onde vai um movimento

Recentemente, num bem-intencionado exercício de reflexão e autoconhecimento, os órgãos sociais do MPMP procuravam encontrar a palavra que melhor descrevesse este Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. Uma palavra apenas, nada mais. O consenso pareceu recair sobre o termo movimento.

O MPMP é então um movimento, consagrado tanto pela sigla que lhe dá nome como pelo espírito de quem responde por ele.

Lembro-me de, face a esse resultado, consultar o dicionário a propósito da palavra e constatar de que forma este termo é invulgarmente flexível.

Acto ou efeito de mover ou de mover-se. Sem surpresas. Mas também deslocação, mudança, evolução, agitação, animação, revolta e outras mais. Parece que a própria expressão movimento se transfigura entre coisas bem diferentes, e se o exercício era escolher uma palavra que, isolada, permitisse concisão, logo se optou por uma que se expande como uma pequena constelação de possibilidades.

E não será exactamente essa a condição deste Movimento, que tanto se desloca quanto evolui, expande, retrai, agita e anima? Não será, de facto, o movimento o seu estado natural de existência, logo, sendo forçado a viver o movimento animado, permanente, errante, errático, inesperado? E se assim é, pode um movimento ser contínuo, tal como o moto tenta ser perpetuo?

Para a mente humana é incompreensível a continuidade absoluta do movimento.

É com estas palavras que Tolstói abre a terceira parte do III livro de Guerra e Paz, que, mais que um romance, é um tratado construído sobre uma visão orgânica e fluida da história e de todas as pessoas e acontecimentos que deram forma aos seus infinitos movimentos. E o que é isso de um movimento contínuo ser um conceito incompreensível, quando toda a vida é em si mesma um movimento?

Muito simplesmente, todos nós vimos e vamos para algum lado, mas não resistimos à aspiração de atingir um estado de estagnação, por estranho que isso possa parecer. Para a mente humana, o descanso dos nossos sofrimentos vê-se consagrado no momento em que atingimos certo patamar a partir do qual não precisaremos mais de nos cansar com o esforço do movimento terreno, podendo finalmente gozar dos benefícios desse estado novo e superior. É claro que é uma ilusão, e já diz o ditado que parar é morrer. O movimento é estar vivo, e manifestação da própria vida.

O mesmo se aplica a este Movimento. Começado há dez anos, seguramente de forma tão diferente e até ingénua face àquilo que veio a ser, é e será. Eu não estava lá para ver, mas só pode ter sido assim, da mesma forma que uma semente plantada não revela logo a forma como irá lançar as suas raízes. O que o MPMP é hoje não poderia ter sido adivinhado nem projectado por ninguém há dez anos, e na sua condição assumida de movimento é impossível prever onde estará daqui a outros dez.

De acordo com a visão líquida de Tolstói, o MPMP simplesmente cresceu porque era uma semente viçosa e promissora, plantada em terra fértil e cuidada por muitas mãos sabedoras, que dessa forma cresceu através dos seus ciclos de desafios e bonança, precariedade e estabilidade, abundância e escassez, marginalidade e reconhecimento. Sempre em movimento e, logo, sempre vivo. Pelo caminho ficaram dez anos, os primeiros dez, que num ecossistema delicado como o nosso deixam uma marca já indelével na música portuguesa e em Portugal, um legado que, mais que celebrar e louvar, agora pretendemos ler e interpretar.

E o que é isto de o Movimento ser Patrimonial pela Música Portuguesa? É dado por certo que Portugal sempre foi um país mais atento às suas letras do que aos seus sons, pelo menos é isso que proclama a nossa diplomacia oficial quando se gaba de um património literário de referência, tal como a Holanda faz com a sua pintura ou a Áustria com a sua música. Mas mesmo nas letras, que é como quem diz na nossa língua, quando foi que vivemos o nosso património como quem habita uma casa? No Renascimento, éramos permeáveis aos castelhanos. No Barroco, aos italianos. Quando românticos, decadentes ou até colonialistas-ultrajados-pelos-ingleses, adulávamos os franceses. Já no século transacto, passámos uma meia centena de anos fatalmente ensimesmados, descobrindo (ainda que por decreto governamental) que afinal também tínhamos língua própria.

Não surpreende, pois, que tenha sido no próprio país da língua de Camões que este, mesmo sendo príncipe dos poetas de seu tempo, viveu pobre e miseravelmente e assim morreu.

Na música, como sabemos, o caso do património é ainda mais delicado. Também tem o seu ecossistema entretecido de produtores, mediadores e consumidores, com um passado, presente e, seguramente, futuro. Até aqui nada de novo, tudo é como manda a regra, mas é necessária a ressalva de esta ser uma cadeia extremamente frágil, por vezes invisível, perenemente marginal e só raras vezes independente.

É importante não perder de vista que o património, por si só, é um artefacto. É preciso que esteja vivo e activo para verdadeiramente existir, e é neste sentido que a pulsão arqueológica de resgatar velhos manuscritos esquecidos no arquivo da Sé de Lamego se abre, como que em zoom out, para uma perspectiva de rede em que este património adormecido deve ser absorvido por um ecossistema em funcionamento. Quando primeiro ouvi falar do MPMP, julguei que fosse esse o tipo de defesa que faria do nosso património: tirar o pó aos mestres do passado, da mesma forma que um bom restauro devolve a um velho óleo as suas cores originais. Só mais tarde, quando fiz o meu próprio zoom out, entendi que fazer apenas isso seria insuficiente, pois o contributo de cada agente deste ecossistema tem de ser em várias frentes, tal como um corpo de bombeiros acode ao mesmo incêndio por diversas vias. Mas ainda antes de eu entender isso, já o MPMP o fazia, de então até hoje. É precisamente assim que o vejo, inserido numa rede vasta, desdobrando-se em funções permeáveis e comunicantes, activo em várias frentes: produção, descoberta, interpretação, difusão, criação, mediação, pensamento, diálogo, tudo actividades imputáveis ao MPMP ao longo dos seus primeiros dez anos e campos em que serviu o seu meio, ao invés de se servir deste. E tudo isto feito com esse espírito de movimento, numa lógica aturada e caso a caso.

Quero evitar dizer que o MPMP escreveu história, porque isso seria o mesmo que dizer que o legado destes dez anos já faz parte do passado. Prefiro dizer que, através da existência activa do MPMP, o ecossistema da música portuguesa e da música em Portugal se fortaleceu, o que equivale a dizer que precisamos de mais, sempre mais movimentos como este à nossa volta.

 


Artigo escrito no âmbito
do 10.º aniversário do MPMP

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