Música entre Artes #9

A iconografia musical é uma área que se movimenta no âmbito das ciências musicais, explicando-nos o significado de imagens de carácter musical em determinadas fontes. Em marketing, o posicionamento é resultado de uma estratégia para obter uma ligação diferencial e positiva com o mercado-alvo, não só em termos de lucro, mas de acrescentar valor socialmente. E é precisamente esta estratégia, globalmente testada em muitas situações na sociedade, que se pretende aqui evocar no contexto de um exemplo de iconografia musical, no sentido de interpretar o seu posicionamento junto das esferas envolventes às suas áreas de intervenção e respectivo contributo social.

A estratégia de posicionamento no marketing recorre frequentemente, entre outros aspectos, a um “mix” de vários factores: mercado potencial, controlo de qualidade, design, vantagens diferenciais e comunicação. Na iconografia musical o seu mercado está bem definido: levantamento, investigação, apoio, formação, publicação e divulgação, validação nacional e internacional. O controlo de qualidade encontra-se no seu rigor de investigação, ou seja, nas “normas e critérios internacionais de tratamento, descrição e indexação de imagens com motivos musicais”, segundo a página de apresentação no CESEM, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical. No que tange à vantagem diferencial poderemos ter no seu carácter interdisciplinar a virtude de um âmbito mais vasto, quando comparado com outras áreas das ciências musicais. A comunicação desenvolve-se na “interpretação da imagem com conteúdo musical, seja sob a forma de tutoriais, seminários, cursos ou outras acções”.

Neste quadro,  a descrição acima resumida evoca a dimensão do estudo necessário para perceber como a iconografia musical é activada para responder às suas funções. E, por conseguinte, é promissor o seu novo posicionamento como área da estudos basilar no âmbito nas ciências musicais. O posicionamento proposto deve assentar em dois pilares fundamentais: rigor e comunicação. O rigor como garantia de credibilidade de todo o trabalho que é desenvolvido, e a comunicação como suporte à divulgação das várias ações que a iconografia musical desenvolve no seu contributo junto da academia e da sociedade.

 


 

 

VIVA O LADO COCA-COLA DA MÚSICA

Uma parceria Coca-cola e MTV promove encontros musicais inéditos: a campanha fez parte da estratégia de comunicação integrada que se desenvolveu no Brasil e em toda América Latina, com foco no público jovem. A ideia proporcionou fusão de ritmos, estimulando a convivência entre pessoas, união e respeito pelas diferenças. A fusão de estilos, como demonstram os cartazes, leva o conceito de que “1 + 1 = 3”. A ilustração é de Rodrigo Oliveira. Esta campanha de 2007 é demonstrativa da procura da marca em se posicionar no imaginário dos jovens através de imagens associadas à música, num movimento que se inicia ao sair da garrafa. É uma activação que visa fundamentalmente um posicionamento de ligação e diferenciação.

 


Pedro Rufino assina o “Música entre Artes #9” a convite de Luzia Rocha.

Melodias rústicas portuguesas

No dia 26 de Março, às 18h, no Museu da Música Portuguesa (Estoril), e no dia seguinte, à mesma hora, no Convento dos Remédios (Évora), lança-se o 26.º CD da série melographia portugueza do MPMP Património Musical Vivo. Trata-se da interpretação pianística, por Duarte Martins e Philippe Marques, dos 1.º e 2.º cadernos para piano solo, e do 3.º caderno para piano a quatro mãos, intitulados Melodias rústicas portuguesas de Fernando Lopes-Graça (1906-1994). No contexto da colecção, é o segundo monográfico deste compositor depois do disco Divertissement, com obras de câmara para sopros interpretadas pelo Ensemble MPMP.

As Melodias rústicas são fruto da recolha que Lopes-Graça empreende em parceria com o etnólogo corso Michel Giacometti. Nesta obra, o compositor utiliza cantos tradicionais portugueses (do Minho ao Algarve, mais as ilhas) como inspiração melódica e harmónica.

A gravação inclui a totalidade da obra. Os dois primeiros cadernos foram compostos nos anos de 1956 e 1957, década vista como um período de composição profícuo e de amadurecimento do compositor, apesar das divergências com o Partido Comunista Português, ao qual estava associado, ao mesmo tempo em que a PIDE o impede de leccionar na Academia de Amadores de Música. O terceiro caderno é mais tardio.

O conjunto completo foi registado integralmente apenas uma vez, por Christina Margotto e Bruno Belthoise, em 2011.  O próprio Lopes-Graça participa de uma gravação parcial em 1957, justificando-se assim o interesse em uma nova edição, sobretudo quando integrada no catálogo do MPMP, que se tem dedicado à descoberta e difusão do património português em diversos suportes.

Duarte Martins e Philippe Marques têm trabalhado em duo na promoção do património musical para piano solo, piano a quatro mãos e dois pianos, com especial ênfase na descoberta e revitalização do repertório de autores portugueses de todas as épocas.

Importa ainda referir que o CD é fruto da criação de um espectáculo em colaboração com a Dança em Diálogos, companhia de bailado fundada em 2018 e desde então dirigida por Solange Melo e Fernando Duarte, com o objectivo de criar um bailado que envolvesse música para piano ao vivo.

 

 


Duarte Martins é licenciado em piano pela Escola Superior de Música de Lisboa, na classe de Jorge Moyano, e concluiu o Conservatório Nacional com a classificação máxima, tendo aí estudado com Hélder Entrudo e Carla Seixas. Premiado em diversos concursos, apresenta-se em concerto em variadas formações, com destaque para a canção com piano e para o repertório musical português. Estreia regularmente obras de compositores contemporâneos. É membro fundador do MPMP Património Musical Vivo, dirigindo temporadas e coordenando inúmeros concertos e gravações. Foi director executivo da Glosas – Revista de Música entre 2017 e 2020. Termina, actualmente, o mestrado em Empreendedorismo e Estudos da Cultura do ISCTE.

Philippe Marques concluiu o Mestrado em Música e o Mestrado em Ensino da Música na Escola Superior de Música de Lisboa com a máxima classificação, sob a orientação de Miguel Henriques, tendo antes estudado com Catherine C. Paiva e Hélder Entrudo. Apresenta-se regularmente em concerto como solista e músico de câmara, em Portugal e no estrangeiro, dando particular ênfase à música de compositores portugueses. Gravou a integral das sonatas de João Domingos Bomtempo, bem como um CD dedicado a obras de câmara inéditas de Ruy Coelho. Lecciona no Conservatório Nacional e na Escola Profissional da Metropolitana.


 

 

O disco está à venda na loja Codax, e ficará brevemente disponível nas habituais plataformas de streaming.

Prémio Lacerda de Composição

Foi anunciada a primeira edição do Prémio de Composição Francisco de Lacerda, dirigido a todos os compositores residentes em Portugal que tenham até 35 anos de idade. Este concurso integra a programação dos Encontros Sonoros Atlânticos Francisco de Lacerda 2022, que contempla ainda seis concertos divididos entre São Jorge, Terceira, São Miguel e Lisboa. O ciclo parte da obra do compositor e musicólogo açoriano Francisco de Lacerda para o estímulo de criação de novas peças musicais, intimamente relacionadas com os locais em que se apresentam.

Além do considerável valor pecuniário do prémio, no montante de 7500 euros — de resto, o maior em certames do género em Portugal no caso de jovens compositores —, a obra vencedora será estreada e gravada no encerramento dos Encontros, cuja segunda edição decorrerá em Lisboa entre 19 de Julho e 18 de Setembro deste ano. O júri do concurso será presidido pelo director artístico dos Encontros, Vasco Mendonça, integrando ainda os também compositores Felipe Lara, Andreia Pinto Correia e Carlos Caires e o maestro Pedro Neves, director artístico da Orquestra Metropolitana de Lisboa, que será a responsável pela interpretação da obra premiada.

A organização do(s) evento(s) está a cargo da associação cultural Francisco de Lacerda – A Música e o Mundo, fundada em 2019 na Fajã da Fragueira, na ilha de São Jorge, nos Açores. Os seus objectivos incluem a preservação do património cultural dos Açores, a educação pela arte através da música e o meio ambiente e a investigação nos legados culturais de personalidades ligadas à música, às artes performativas, às artes plásticas e à literatura, além da concepção e realização de eventos culturais e espectáculos.

 

 

As obras poderão ser submetidas até 1 de Julho de 2022, sendo o anúncio dos resultados publicado duas semanas depois. Todas as informações poderão ser encontradas aqui.

Trio de Damas, música no feminino

Música no feminino. Como? Porquê? O projeto Trio de Damas, lançado no passado dia 19 de Março pela Musicamera Produções, traz-nos algumas respostas, a par de outras tantas perguntas.

O serão teve lugar na Fábrica Braço de Prata, graças à colaboração de Nuno Nabais, que possibilitou a apresentação deste projeto ímpar na capital lisboeta. Curiosamente, a pequena — mas cheia — sala de nome Nietzsche parecia já introduzir o mote da tertúlia subsequente a este “concerto de degustação”, tal como lhe chamou Luís Pacheco Cunha, dadas as controversas visões do feminino na filosofia do pensador alemão.

Trio de Damas evoca três figuras da tradição pianística portuguesa, Helena Sá e Costa, Nella Maissa e Olga Prats, homenageadas por três pianistas da nova geração, Jill Lawson, Taíssa Poliakova Cunha e Inês Filipe, por esta ordem. Entre o público, estiveram presentes elementos da família da Nella Maissa e de Olga Prats, falecida recentemente, que foi também parte integrante do projeto, numa fase inicial. Além desta homenagem, Trio de Damas pretende também reforçar a divulgação da música autoral portuguesa, dada a intrincada relação entre as pianistas e os compositores a si coevos, tal como Lopes-Graça ou Croner de Vasconcelos, os quais lhes concederam, inclusivamente, um papel de “co-compositoras”. Ainda que não se conheçam datas em concreto, sabe-se que o projeto vai contar com três programas de recital de piano solo e outros três de câmara e (ou) concertos para piano e orquestra, disponíveis em https://musicamera.pt/triodedamas/, configurando-se um total de dois programas por pianista — homenageada e homenageadora — baseados numa série de obras a si dedicadas ou por si estreadas em Portugal. Os programas serão apresentados durante todo o ano pelos vários pontos do país, de Braga a Évora, dispondo também de formações locais.

Mas não é só de música do século XX que vive este projeto, já que Trio de Damas conta também com a colaboração de três compositoras contemporâneas, Sara Ross, Patrícia de Almeida e Ana Seara, as quais estão a desenvolver três peças inéditas para piano solo dedicadas a Helena Sá e Costa, Nella Maissa e Olga Prats, respetivamente. Por sua vez, a homenagem a Olga Prats contará também com um arranjo orquestral de Cuatro estacioniones porteñas do bandoneonista Astor Piazzolla, elaborado especialmente por dois argentinos, Alejandro Oliva, grande amigo de Olga, e Daniel Schvetz, e dois portugueses, Filipe Melo e Mário Laginha, pelo que consistirá numa estreia absoluta. Olga Prats era, com efeito, uma entusiasta da música de Piazzolla, tendo contribuído de forma incomensurável para o conhecimento e difusão deste compositor em Portugal.

 

 

Começado o pequeno recital, por volta das 22h, os problemas de isolamento da sala tornaram-se mais percetíveis, juntando-se depois barulhos próprios da idade heterogénea do público. Ainda assim, foi possível usufruir dos breves mas deliciosos momentos protagonizados pelas três damas da atualidade. Foi Inês Filipe e, de certa forma, Olga Prats, a primeira a apresentar-se, tocando Cinco prelúdios, Op. 1, de Armando José Fernandes, e Visions d’enfant de Constança Capdeville, a única compositora tocada nesta noite. A jovem pianista demonstrou não só o domínio do material, através da exploração de dinâmicas e ambientes, como uma versatilidade importantíssima para qualquer pianista que queira remeter para a imagem de Prats. O clímax da sua prestação foi a peça Maman, j’ai vi dans la lune, da compositora catalã, já que os seus conhecidos dotes viram-se incrementados por uma postura e linguagem corporal envolventes. Seguiu-se Taíssa Poliakova Cunha, que evocou Nella Maissa com Prelúdio e fuga, também de Armando José Fernandes, e Três danças do bailado Sonatina de Ernesto Halffter, o único compositor não português no programa apresentado. A prestação da pianista marcou-se pela preocupação com o detalhe e o diálogo constante, apresentando uma interpretação intensa e inebriante, na qual destaco a fuga. Por fim, foi a vez de Jill Lawson trazer Helena Sá e Costa, a par do incontornável Lopes-Graça. Entre os pontos altos da sua atuação, ressalto o brilhante encadeamento subjacente à seleção de noturnos e mornas apresentados. Por sua vez, a pianista demonstrou uma performance madura, evidenciando uma amálgama de qualidades interpretativas.

Aquando da enriquecedora tertúlia final, pôde debater-se sobre o défice de intérpretes e compositoras nas escolhas programáticas, questionando-se se existem ou não elementos que possam definir feminilidade em música. As compositoras presentes, Ana Seara e Sara Ross, ressaltaram que, ainda que a ausência dos pontos de vista femininos seja notória, seria redutor colocar esta questão como condicionante imperativa, independentemente do pender da balança, não se problematizando, portanto, a hegemonia de compositores masculinos no programa recém-apresentado. Entre várias partilhas e comentários, salientou-se também a importância dos esforços musicológicos da atualidade, os quais visam apresentar uma “música nas antípodas do segregacionismo”, palavras de Luís Pacheco Cunha.

Trio de Damas é, sem dúvida, um projeto inovador que promete dar que falar. Uma salva de palmas a todos os colaboradores, músicos e não músicos, e uma outra ovação às três damas da tradição pianística nacional, cujo legado intemporal promete fixar-se no imaginário cultural português, transcendendo as gerações que tiveram o prazer de privar com elas.

Dudamel estreia obra de Andreia Pinto Correia

Poderá Gustavo Dudamel, o enérgico e brilhante maestro-estrela, ser o próximo titular da Filarmónica de Nova Iorque? A hipótese tem sido avançada, especialmente por estes dias em que o mais internacional músico venezuelano se apresenta a dirigir um ciclo dedicado a Robert Schumann.

Para a Glosas, a felicidade maior deste ciclo está na estreia absoluta, nestes dias 17, 18, 19 e 20 de Março, entre as terceira e quarta sinfonias de Schumann, no Rose Theater do Jazz at Lincoln Center’s Frederick P. Rose Hall, d’Os pássaros da noite, quinze minutos sinfónicos da compositora portuguesa Andreia Pinto Correia, entrevistada do sexto número da nossa revista.

A partitura foi encomendada pela orquestra e inspirada na tristeza partilhada pelo casal Schumann, Robert e Clara, na sua epistolografia. Em particular, a música de Pinto Correia destaca uma carta em que Robert, escrevendo a um amigo, evoca “os pássaros melancólicos da noite [que] voam ainda em torno de mim de tempos em tempos”.

Joshua Barone, no The New York Times, sublinhou na obra a capacidade de evocação de uma noite de angústia infinda: “[it] is the account of one harrowing night, in which strings, droning or in a haze of harmonics, underlie the sorrowful cries of a trumpet. A wearying set of nocturnal episodes, it would be a fitting horror soundtrack, its mood transparent in gestures like upward runs in the winds — a sinister curlicue of moonlit fog — accompanied by matching upward glissandos in the violins. As in any night of sleepless anxiety, the darkness lingers, seemingly interminable, until it doesn’t”.

 

 

Andreia Pinto Correia nasceu em Lisboa em 1971 e vive actualmente em Nova Iorque. As suas composições têm sido apresentadas em vários palcos internacionais. Em 2020, foi distinguida pela Academia das Artes e das Letras dos Estados Unidos da América. Na temporada de 2022-2023 haverá novas composições a estrearem-se pela OSESP, Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo, no Brasil, e pela Orquestra Gulbenkian, Lisboa. Mal podemos esperar.

Nasce o EOES, um novo estúdio de ópera

Será no próximo dia 1 de Abril, no Auditório dos Oceanos do Casino de Lisboa: estreia-se o EOES, Estúdio de Ópera Encontro de Sons. O espectáculo, uma nova produção d’O elixir do amor de Gaetano Donizetti, tem o apoio da Direcção-geral das Artes e da Antena 2.

Nesta produção, o texto original foi adaptado para português por Nuno Côrte-Real. A história passa-se agora numa aldeia portuguesa, em meados da década de 1960; segundo o comunicado de imprensa, é procurado um “ambiente vintage à portuguesa”.

Cantam a soprano Cecília Rodrigues, o tenor Frederico Projecto e os barítonos André Rodrigues e Diogo Oliveira. Ao piano estará Alexey Shakitko. João Nascimento assina a coreografia, Artur Marques a direcção de actores e a produção.

 

 

Nas palavras da encenadora e directora artística da iniciativa, a cantora Sofia de Castro, o EOES procura ser “um laboratório de apoio a executantes e novos criadores, em ambiente profissional que estabeleça a ponte entre a formação académica e palcos mais formais”, disponibilizando “a cantores experientes a possibilidade de rodar os seus papéis de reportório”. Em síntese, o EOES surgiu “devido à carência de uma estrutura semelhante no nosso país”, uma preocupação que se diria comum às dezenas de estruturas semelhantes no nosso país.

Para além de o EOES se debruçar sobre “ópera de repertório”, isto é, aos títulos canónicos, propõe-se também desenvolver “opereta clássica”, não obstante a opereta surgir apenas em meados de Oitocentos, e “ópera moderna original”, termo que deverá querer reportar-se, quiçá, à ópera contemporânea inédita.

 

70 alunos afegãos no Conservatório Nacional

Na sequência da chegada a Portugal de cerca de duzentos e setenta refugiados afegãos ligados à ANIM, Afghan National Institute of Music, a Escola Artística de Música do Conservatório Nacional (EAMCN) irá acolher, por indicação recente da Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, setenta alunos de música.

 

 

No passado dia 21 de Fevereiro, nas suas instalações provisórias na Escola Secundária Marquês de Pombal, a EAMCN celebrou esta iniciativa com uma calorosa cerimónia de acolhimento. O “menu” de boas-vindas incluiu música, actividades lúdicas, troca de presentes e um piquenique partilhado. Todos os alunos foram dispensados das aulas para poder participar neste evento que, segundo a direcção da EAMCN, se revelou uma “experiência muito enriquecedora, que nos trouxe memórias para toda a vida”.

Em Portugal desde Outubro passado, as setenta crianças afegãs, com idades entre os doze e os dezassete anos, estudavam música em paralelo com a formação geral no seu país de origem. Aqui, vão poder estudar as disciplinas do currículo geral na Escola Secundária Marquês de Pombal e música na EAMCN. Entre os instrumentos que os alunos tocam encontram-se o violino, o violoncelo, a violeta, a flauta, o oboé, o clarinete, o trompete, o saxofone, a guitarra e o piano.

Neste momento, no que concerne à parte musical, os alunos estão a ser distribuídos pelas classes dos vários instrumentos e começarão as aulas em breve.

 

Adelina Caravana em “Memórias de Braga”

Realizar-se-á neste sábado, pelas 21h, mais uma sessão do Ciclo “Memórias de Braga”, a ter lugar no Salão Nobre do Edifício dos Congregados, bem no coração da cidade minhota. O ciclo é promovido pela associação cultural Braga+ e tem como objetivo o partilhar e construir memórias sobre a cidade, promovendo uma cultura de intervenção que visa a valorização do património legado, bem como a continuidade das tradições locais.

Desta vez, falar-se-á de Maria Adelina Caravana, pedagoga que marcou o ensino da música em Portugal ao fundar, no ano de 1961, o Conservatório de Música de Braga, uma escola artística inovadora e pioneira que proporcionava um ensino integrado, o qual era regido por um amplo leque artístico, sedimentado em áreas como a música, a pintura, o bailado e o teatro. Passada uma década, a escola contou com instalações patrocinadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, daí o nome que apresenta nos dias de hoje.

Esta sessão evocativa, a qual conta também com a colaboração da Professor Elisa Lessa e o apoio da Universidade do Minho, terá como convidados Carlos Alberto Pereira, antigo diretor do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, e um dos filhos da homenageada, Nuno Rigaud de Sousa. Por sua vez, João-Heitor Rigaud, compositor e musicólogo falecido recentemente, estará presente através da sua Suite n.º 2 per pianoforte solo, Post-Mortem, que será tocada pelo pianista Pedro Teixeira. A estreia desta obra, em 1999, já havia sido na cidade de Braga.

A homenagem serve-se também de uma pequena exposição, assente em documentos e fotografias complementares recolhidos por Fernando Mendes, e de uma intervenção por Miguel Simões, investigador da Escola de Música da Universidade do Minho, a qual será moderada por Rui Ferreira, presidente da associação Braga+.

 

O MPMP em Março

Principia Março com o lançamento de uma série de clubes de escuta na Biblioteca Municipal de Marvila. A decorrer entre Março e Junho, a iniciativa de Martim Sousa Tavares (coordenador de projectos educativos do MPMP) e Catarina Távora visa aproximar a escuta da imaginação e reflexão, juntando novas músicas e novos ouvintes numa reunião informal para ouvir e falar sobre música: a do nosso tempo, a mais antiga, a que temos à nossa volta e a de que raras vezes ouvimos falar… As inscrições podem ser feitas através de [email protected], reservando-se as sessões para benjamins ao público em idade escolar do 1.º ciclo (7 de Março, 10h30), e as sessões para adultos a todos os interessados (23 de Março, 18h30).

 

 

Segue-se o regresso do MPMP ao Lisboa Incomum, espaço tão singular do panorama cultural da capital portuguesa, e tão bem conduzido pelo seu idealizador de sempre, o compositor Jaime Reis. Desta vez, o acolhimento faz-se no contexto do Prémio Musa 2021, certame em que aquela estrutura colaborou como parceira, e em que Jaime Reis colaborou como jurado, juntamente com Annette Vande Gorne, Flo Menezes, João Pedro Oliveira e Keita Matsumiya. A edição propunha a celebração da obra literária de Clarice Lispector, escritora cuja família se radicou no Brasil depois de fugir de uma onda de pogroms que varreram a então República Popular da Ucrânia no início do século XX — inquietante coincidência, esta de assistirmos nestes dias à invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, provocando também milhares de refugiados… O concerto será no dia 11, às 19h30, e nele escutaremos a estreia absoluta da obra distinguida, Sim., de Tiago Quintas, sobre a qual se notificou aqui.

Mais perto do fim do mês, nos dias 26 e 27 de Março, às 18h, respectivamente no Museu da Música Portuguesa, Estoril, e no Convento dos Remédios, Évora, a dupla de pianistas composta por Duarte Pereira Martins e Philippe Marques lançam o 26.º número da colecção discográfica melographia portugueza. Trata-se de um monográfico com obras de Fernando Lopes-Graça: as suas Melodias rústicas portuguesas.

Ainda no dia 27, às 10h, mas em Cascais, mais uma sessão da Glosas na Lusophonica. Depois de termos escutado o compositor Tiago Cabrita no passado mês de Fevereiro, a convidada da sessão deste mês é a jovem musicóloga Filipa Cruz, que oferecerá uma viagem musical em torno da pianista Maria da Graça Amado da Cunha e dos compositores com quem conviveu, como Fernando Lopes-Graça e Francine Benoît, colhendo preciosas informações na correspondência identificada entre os artistas e, nela, desvelando interessantes processos de aprendizagem do repertório pianístico.

 

 

Para mais informações, sugerimos a consulta da brochura digital. Até breve!

A arte contra a barbárie

Da música ao cinema, assinala-se uma frente coesa contra a invasão das tropas de Moscovo à Ucrânia, a qual tem registado efeitos colaterais nos próprios meandros artísticos. Tudo começou quando a Carnegie Hall, uma aclamada sala de espetáculos nova iorquina, decidiu substituir Valeri Gerguiev, impossibilitando-o de se apresentar como maestro da Filarmónica de Viena, bem como Denis Matsuev, que seria pianista solista num dos três concertos a decorrer na instituição. A decisão deveu-se à declarada proximidade de ambos com o líder russo, Vladimir Putin, que já apoiaram no passado. De facto, o nome de Gerguiev tem sido o mais transversal neste ‘cancelamento cultural’, dada a expansão da sua atividade. A sua permanência na Filarmónica de Munique e no La Scala de Milão, no qual havia estreado uma nova produção da ópera A dama das espadas de Tchaikovski horas antes do eclodir do conflito, atuação que já havia contado com o descontentamento de alguns elementos do público, dependeria de uma declaração a favor da resolução pacífica do conflito. Face a um silêncio total, ambas as demissões já foram divulgadas. Também a Orquestra Filarmónica de Roterdão, na Holanda, prometeu cancelar um festival planeado por Gerguiev, o qual decorreria em Setembro, à semelhança dos Festivais de Verbier, na Suíça, e de Edimburgo, na Escócia.

Mas o boicote às produções russas vai além de Gerguiev e Matsuev. No comunicado da Met Opera, instituição com proeminente exposição de produções russas, é citado também o nome da soprano Anna Netrebko, a qual é apoiante de Putin há décadas, tendo entretanto feito, cedendo à pressão que lhe foi dirigida, declarações “contra a guerra”, ainda que sem um posicionamento claro em face do conflito. Peter Gelb, diretor geral da casa de ópera nova iorquina, ressaltou que a decisão era consequente de um sentido de responsabilidade que deveria ser transversal nas companhias internacionais, as quais podem servir como ferramenta contra a opressão. Ainda assim, este comunicado veio com um atraso considerável e com uma ressalva de rutura temporária, a permanecer apenas enquanto a invasão estiver a decorrer.

Há quem coloque também esta questão sob uma ótica mais objetiva. Afinal, é ou não ético coagir artistas, num cenário democrático, a fazer declarações em que não acreditam, apenas para poderem continuar a desempenhar funções que tinham até então? O maestro Semion Bichkov, de nacionalidade russa-americana, afirma que sim, posição partilhada pelo pianista russo Alexei Volodin e por Elena Kovalskaia, a qual se demitiu, em forma de protesto, do seu cargo como diretora do Teatro de Moscovo.

“Ficar em silêncio hoje é trair a nossa consciência e os nosso valores, o que, em última análise, define a nobreza da natureza humana” (Bichkov, 2022).

Já antes da invasão das tropas, muitos artistas russos manifestavam alguma preocupação em relação a eventuais retaliações e exclusões generalizadas do discurso cultural internacional. Produções associadas ao Teatro Mariinski, cujo diretor é também Gerguiev, e ao Ballet Bolshoi foram afastadas dos palcos da Met Opera e da Royal Opera House, em Londres, sob o pretexto de serem financiadas pelo Estado Russo. Mas Vladimir Urin, diretor do Teatro Bolshoi, é um dos vários artistas que clamam por um “cessar-fogo” neste conflito cultural. Neste sentido, e a seis meses da 83.ª edição da Quincena Musical, o diretor do festival espanhol, Patrick Alfaya, ressalva a necessidade de cautela em relação a proibições impostas a artistas russos, na sua generalidade.

“A linha vermelha para vetar um músico é a defesa de uma agressão, não a sua nacionalidade” (Alfaya, 2022).

Em consequência deste debate e onda de cancelamentos, também Robert Brufau, diretor do L’Auditori, sala de concertos catalã, salienta que é essencial distanciar o indivíduo da estrutura estatal a que lhe é associada.

“Colocar o foco no artista é um erro, especialmente em países como a Rússia, no qual a liberdade de expressão tem consequências” (Brufau, 2022).

Em Portugal, ainda nada aconteceu neste sentido, embora haja, naturalmente, intérpretes russos a trabalhar nas formações das grandes casas de espetáculos portuguesas. Ressalve-se que, em Abril, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Casa da Música receberão Grigori Sokolov. O pianista encontra-se atualmente numa digressão por Espanha, a qual também tem envolvido alguma controvérsia, dada a ausência de qualquer declaração categórica da sua parte. Ainda assim, e curiosamente, Sokolov incluiu no seu programa, após a invasão à Ucrânia, como encore, o Prelúdio Op. 23 n.º 10 de Rachmaninov. Para a crítica Teresa Cascudo, este detalhe é bastante significativo: “É especialmente importante para mim recordar que Rachmaninov foi um dos mais famosos exilados do regime estabelecido na Rússia em 1917, do qual o actual presidente da Federação Russa se declara, hoje em dia, por via de facto, herdeiro. Os sinos do Prelúdio […] dobraram, como o resto da obra de Rachmaninov, pelo povo russo”. Será que as duas instituições portuguesas exigirão alguma declaração clara, à semelhança do cenário internacional, arriscando-se a perder concertos, já esgotados, por um dos mais brilhantes pianistas da atualidade, definindo, portanto, a arte pela nacionalidade do seu intérprete, ou preferirão definir o intérprete pela sua arte, à semelhança dos nossos parceiros ibéricos?

 


(1) “To remain silent today is to betray our conscience and our values, and ultimately what defines the nobility of human nature” (Bychkov, 2022).

(2) “La línea roja de Quincena para vetar a un músico es que defienda una agresión, no por su nacionalidade” (Alfaya, 2022).

(3) “Posar el focus en l’artista és un error sobretot en països com Rússia, on la llibertat d’expressió té conseqüències” (Brufau, 2022).

(4) “ganó para mí una especial relevancia recordar que Rachmaninov fue uno de los más célebres exiliados del régimen instaurado en Rusia en 1917, del que el actual presidente de la Federación Rusa se declara, actualmente por vías de facto, heredero. Las campanas del Preludio […] doblaron, como en el resto de la obra de Rachmaninov, por el pueblo ruso” (Cascudo, 2022).

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