Permanecer fiel à sua personalidade musical (Parte 4)

entrevista de Alexandre Delgado a Piedade Braga Santos

transcrição de Duarte Pereira Martins e Philippe Marques

E se passássemos ao 25 de Abril?

O 25 de Abril foi uma grande alegria para todos, incluindo para o meu pai. Levou algum tempo para que todos nós percebêssemos se aquilo era um movimento que teria algum futuro em termos de construção do estado democrático (estou a falar do PREC), portanto, toda a gente sofreu e teve angústias e não sabia como aquilo ia acabar. Houve lutas e conflitos, no caso do meu pai na Sociedade de Autores, na Emissora, saneamentos, enfim, situações de conflito normais nestes períodos de instabilidade e revolucionários, mas que foram todos ultrapassados.

Ele não foi propriamente perseguido?

Não. Foi alvo de mais críticas do que o habitual porque, como o país era livre, o Partido Comunista podia-lhe bater à vontade, mas não foi uma coisa que o incomodasse particularmente. Excepto a situação da Sociedade de Autores, que de facto foi complicada, mas que se resolveu porque houve um grupo de democratas, no verdadeiro sentido do termo: o meu pai, a Natália Correia, o David Mourão-Ferreira e até o Urbano Tavares Rodrigues (de quem aliás o meu pai era muito amigo) que acabaram por pôr termo àquele disparate. E no próprio Luís Francisco Rebello, às tantas, o bom senso acabou por imperar.

Que tipo de coisas eram?

Sanearam funcionários, houve lutas entre eles, expulsaram a Direcção.

O teu pai exercia alguma função?

Pertencia ao concelho fiscal ou a uma coisa qualquer na Direcção. E além disso era uma personalidade respeitável porque ele estava lá desde o início, não da SPA propriamente dita, mas de toda a formulação dos anos 40. A partir do momento em que ele se inscreve, no princípio dos anos 50 (ele e o Luís Francisco Rebello, que eram muito amigos, conheciam-se da Juventude Musical, imagino eu), o meu pai apoiou-o sempre na defesa do Direito de Autor, porque era das pessoas que achava que os autores tinham o direito de viver do seu trabalho. Ele lutou por isso desde os anos 40. Teve um conflito grave com o Lopes-Graça, porque este recusava-se a cobrar direitos de autor ou bens materiais por qualquer peça que fizesse. Achava que era do povo, portanto se era do povo ele não tinha que cobrar nada, mas enfim, ele tinha outros apoios e alguém o sustentava, porque senão não seria possível. Além disso sempre dava aulas aqui e acolá com grandes dificuldades, como é evidente, mas isso todos eles. Portanto teve um grande conflito com o Graça e chatearam-se; eles até se respeitavam e tinham uma esplêndida relação, mas tiveram um grande conflito por causa disso. Depois aquilo lá passou, até porque o próprio Luís Freitas Branco ainda era vivo e resolveu a disputa. Mas pronto, o meu pai estava na SPA desde o início e era uma personagem respeitadíssima, mesmo pelos compositores da música ligeira. É curioso que, quando ele decidiu por razões financeiras compor umas cançonetas (teria os seus 20 anos) foi mostrá-las ao José Galhardo e ao Frederico Valério, que acharam que ele não tinha jeito nenhum e disseram-lhe: «Ó Joly, vá lá compor sinfonias que para cançonetas temos jeito nós!». Portanto, era uma pessoa respeitada, lá organizou um grupo e fez com que todos aqueles conflitos, felizmente, acabassem.

Foi um período difícil, ele na altura ficou só com o ordenado da rádio e as encomendas, eu estava a entrar para a faculdade e a minha irmã foi para a Alemanha estudar violino logo em 78. A coisa estava complicada porque havia menos encomendas e eu tentei até arranjar um emprego mas os meus pais chegaram à conclusão de que se eu arranjasse um emprego nunca mais acabava o curso e obrigaram-me a acabá-lo. As coisas lá correram o seu curso normal, com as dificuldades habituais em famílias daquela época: prescindimos das coisas acessórias, concentrámo-nos no essencial e passámos perfeitamente aqueles anos conturbados, que foram anos também muito excitantes.

O meu pai continuava a viajar muito e a ter muitas solicitações, nomeadamente por causa do Prémio UNESCO. Às tantas é convidado, por esta altura, a seguir ao 25 de Abril, para integrar o júri do Prémio UNESCO, passa a ir a Paris todas as Primaveras. Os festivais de Espanha continuam a acontecer.

Ela vai aceitando cada vez menos encomendas por razões de saúde. No final dos anos 70 passou por tudo, teve um esgotamento grave, é-lhe detectado um problema de circulação cerebral no lobo esquerdo do cérebro (faz uma das primeiras TACs em Portugal, no Porto) e começa a ser medicado mas está, de facto, dois ou três anos sem compor nada de novo, praticamente a acabar obras de encomendas já feitas em anos anteriores.

Isso coincide com a altura em que comecei a ter aulas com ele, que foi em Abril de 81. Lembro-me que sofria horrivelmente dos olhos.

Exactamente. E porque a vista lhe começa a falhar, toma uma decisão drástica que é não compor praticamente mais obras sinfónicas, que exigem partituras de 35 pautas, portanto exigem muito mais da vista, e passa a compor obras de câmara. Nos últimos anos da vida, praticamente o que faz é compor obras de câmara.

Lembro-me de ele estar a compor os Cantares Gallegos e a cantata As Sombras, de que me ia mostrando acordes.

Os Cantares Gallegos são de 83, mas se vires a orquestração, não é uma grande orquestra e ele quis realmente fazer isso. Ainda bem que escreveu a obra, apesar da atribulação que foi a estreia. Só a conhecemos agora, mas ainda bem que a conhecemos, que está aí e que está gravada! Entretanto ele recuperou e até retomou o seu lugar de professor no Conservatório, que tinha iniciado em 71 e mantivera até 76, ano em que houve uma alteração da lei que dificultava as acumulações e ele foi obrigado a sair, porque o ordenado não cobria sequer o passe! Em 82 retoma o lugar de professor do Conservatório, que mantém até Julho de 88, até ao dia da morte. Portanto, as coisas estavam a correr francamente melhor. Compôs bastante. Tinha-lhe sido encomendada uma ópera para o Lisboa 94 [Capital Europeia da Cultura].

Uma ópera?

Uma ópera, sim senhor, sobre a “Ilha dos Amores”. Foi ele que sugeriu o tema.

Para Lisboa 94? Com tanta antecedência?

Sim, eles estavam na altura a preparar… Na altura a Câmara era gerida como deve ser. Não sei quem lá estava, se era o Sampaio ou o Abecassis, mas ele assinou o contrato em Abril de 88. Porque disse logo que precisava de dois ou três anos para compor uma ópera.

E não existe nada disso?

Não, porque o meu pai faleceu em Julho. Ele propôs o tema e propôs o libretista, que era o Vasco Graça Moura; sobre a “Ilha dos Amores” era uma escolha evidente. Mas acabou por falecer em Julho, de repente.

E quanto ao reencontro tonal dessa fase final…

Digamos que ele sofre um desencanto com a Democracia que é um pouco mais precoce que o nosso. Não sei se o PREC o marcou um pouco mais porque era mais velho, nós somos de outra geração. Não sei o que terá acontecido, mas ele deve ter imaginado que a Democracia, do ponto de vista cultural, ia trazer muita coisa que não trouxe e muita abertura que não trouxe. As ideias, as mentalidades e os hábitos no domínio da cultura são muito lentos a mudar, quando mudam! Portanto, ele talvez não tivesse visto as mudanças que antecipava, nomeadamente em relação ao ensino, ao Conservatório, às escolas… Continuava a batalhar pelas mesmas coisas, continuava a ter que exigir que lhe pagassem os direitos de autor, continuavam as orquestras a fazer fotocópias e a aldrabar. Continuava tudo na mesma! E em 88, com 14 anos de Democracia, ele se calhar desencantou-se mais cedo do que nós.

Continuava a não haver edição musical, e ele conheceu muito poucos discos com a obra dele…

Não conheceu! Quer dizer, só conheceu o da 5ª Sinfonia e o dos Três Esboços Sinfónicos dirigido pelo Cassuto.

Foi inesperada a sua morte?

Foi, porque ele estava a recuperar. Aliás, em 85 e 86 fartou-se de escrever. Em 88 recebeu um prémio pelo maior número de obras estreadas, um prémio do Festival do Estoril, daquelas galas que o Estoril fazia em que davam prémios aos artistas portugueses. Isto antes da SIC e dessas coisas, o Casino Estoril tinha uns mecenas.

Em 88 há Aquella tarde, poema dramático estreado nos Encontros de Música Contemporânea, o Staccato Brilhante, o Improviso para Clarinete e Piano, que é a última obra…

Sim, tudo isso em 88. Ele escreve muito nos últimos anos. São é obras mais do tipo música de câmara. Mas estava perfeitamente. Foi um embolismo cerebral, daqueles que pode acontecer a qualquer um de nós, em qualquer altura.

Um embolismo rebentou uma veia no cérebro.

Exactamente, um coágulo que rebentou com a veia. Foi fulminante. Foi a dormir, aliás. Tomou um comprimido para as dores de cabeça, foi-se deitar e não acordou. Só quando lhe levantámos a cabeça é que percebemos o que lhe tinha acontecido, porque estava toda negra atrás. Mas não sofreu, coitadinho. O meu pai era uma ternura não era? A bondade em pessoa.

O melhor do Joly vinha ao de cima na sua relação com as filhas.

Nós adorávamos o meu pai. Era uma coisa mesmo especial. Um misto de amor filial com amor maternal, porque tínhamos um sentido de protecção muito grande que nos tinha sido incutido pela minha mãe quando éramos pequenas, porque o meu pai era muito distraído. E portanto, cada vez que saímos com ele a minha mãe ficava um bocado assustada e dizia: «Tomem bem conta do pai!». Portanto, para além de tomarmos conta de nós próprias, tínhamos de tomar conta do pai. E isso deu-nos um sentido de carinho e de protecção muito especial.

E como é que vocês lidavam com a proverbial distracção?

Ríamos também! Ele era o primeiro a rir-se de si próprio, não tinha importância nenhuma. Contava-nos imensas histórias, brincava connosco, escrevia coisas para nós. Fartou-se de escrever pecinhas para nós e para os amigos, quando estávamos a estudar os vários instrumentos. Depois, estudávamos em conjunto, a minha mãe fazia uns lanches e nós tocávamos para os amigos ouvirem. Ajudava-nos a fazer os trabalhos de Composição, por vezes com resultados hilariantes porque o que ele escrevia nem sempre estava conforme as regras (as regras do Vincent d’Indy, que ainda era o que se dava no Conservatório, na época). E, portanto, as professoras, que conheciam muito bem a obra do meu pai e eram amigas dele, por exemplo a Constança Capdeville, que foi minha professora de composição, ou a Maria de Lurdes Martins, que foi professora da minha irmã, davam imediatamente por ela que aquilo não tinha sido feito por nós, porque quando perguntavam como é que tínhamos resolvido tal acorde, nós, que tínhamos copiado aquilo à pressa no metro para ir para o Conservatório ficávamos sem saber o que responder. E uma vez a Maria de Lurdes Martins zangou-se muito com a Leonor porque ela usou quintas paralelas, que era uma coisa que era um pecado capital em composição. Disse-lhe que aquilo estava errado, ela tinha-se fartado de explicar que aquilo estava errado. E a minha irmã, sem pensar no que estava a dizer nem onde estava: «Errado? Isso não pode estar errado porque foi o meu pai que fez!» (risos). No dia seguinte, quando o meu pai chegou ao Conservatório, os colegas olhavam para ele e riam a bandeiras despregadas e o meu pai não percebia (não era Carnaval, não tinha a cara farruscada…). Até que houve uma boa alma que lá lhe contou da saída da minha irmã na aula de Composição porque as pessoas choravam a rir em todo o Conservatório.

Uma história fantástica…

E levava-nos a passear ao jardim zoológico todos os fins-de-semana, adorava os animais. Os animais vinham ter com ele. Os tratadores ficavam doidos porque os cães, crianças e animais eram atraídos pelo meu pai.

O teu pai tinha qualquer coisa de criança dentro dele…

Exactamente. E os tratadores ficavam desesperados: os elefantes viam-no a aproximar-se da porta, começavam logo a puxar aquela corrente e vinham-lhe enrolar a tromba à volta da cintura. Cumprimentavam-no sempre, a Rita e já não me lembro do nome do outro. Os macacos ficavam doidos. Ele ia para a aldeia dos macacos e os tratadores ficavam malucos, para já porque ele fazia uma coisa que não se deve fazer, que é dar-lhes amendoins, e às tantas tinha 50 macacos ao pé dele a pedir amendoins. Era muito divertido, adorávamos sair com ele. A minha mãe, coitada, é que ficava um bocado assustada.

Havia idas ao cinema?

Imensas. Íamos muito, adorávamos cinema e desde que começámos a ficar mais cresciditas e a poder entrar, a minha mãe até nos fazia penteados especiais que nos punham mais velhas porque havia aquela história dos maiores de doze. E havia cinemas que tinham porteiros que faziam uma perninha mas que eram porteiros do S. Carlos ou do Trindade e que, portanto, eram conhecidos e nos deixavam passar.

De que tipo de cinema é que ele gostava mais?

Luis Buñuel. De todos os italianos – Fellini, Ettore Scola, o Vittorio De Sica (adorava o Milagre de Milão e os Ladrões de Bicicletas); era um apaixonado do Lucchino Visconti; e também cinema francês – o Claude Chabrol; também algum cinema espanhol que aparecia muito cá na época (agora praticamente não aparece, tirando o Almodóvar) – o Carlos Saura, o Buñuel, todos esses. Ele adorava cinema e íamos ver tudo e mais alguma coisa, nos antigos cinemas de reprise que agora já não existem mas que passavam aquelas cópias muito antigas dos anos 40 e 50. Às vezes íamos a pedido nosso, meu e da minha irmã – eu lembro-me que a minha irmã, quando estreou o Música no Coração, foi ver duas ou três vezes e depois no verão era sistematicamente reposto. Pois ela, como já não tinha ninguém que tivesse cabeça para a acompanhar ao Música no Coração, pediu ao meu pai. A minha mãe ficou assim um bocadinho indignada mas o meu pai disse logo que sim, claro. E adorou o filme! Os meninos a cantar muito afinadinhos aquela música que é muito bem feita, que aqueles americanos sabem compor – ficou encantado! Chegaram a casa os dois todos contentes depois de ver o espectáculo. E dizia a minha irmã para a minha mãe: «Está a ver que o pai gostou, eu disse que o pai ia gostar!»… •

Fotografia: Passeando com a família em Sevilha, durante o Festival de Música de Sevilha, em Outubro de 1973.

Artigo publicado na Glosas nº 3, p.18-30.

Permanecer fiel à sua personalidade musical (Parte 3)

entrevista de Alexandre Delgado a Piedade Braga Santos

transcrição de Duarte Pereira Martins e Philippe Marques

Com a sua mulher e Pedro de Freitas Branco durante a “Semana de Música Portuguesa” em Wurtzburg, onde foram executadas várias obras suas. Palácio dos Schönborn em Wisentheid, Alemanha, 1957.

Dos vários professores que teve lá fora, qual foi o que mais o marcou?

O Scherchen, sem dúvida, tanto como professor de Composição, quanto como Director de Orquestra.

Mais do que o Virgilio Mortari?

Mais do que o Mortari, sim. O Mortari foi professor de Composição, mas a verdade é que, depois do Luís, tinha pouco para lhe ensinar. 

Talvez em novas técnicas de composição…

Ele sobretudo aprendeu muito ouvindo, indo a muitos espectáculos, indo a muitos concertos, lendo muitas partituras, comprando partituras assim que chegavam… Era como ele gastava o dinheiro da bolsa!

Daí nasceu a grande viragem de estilo, sendo talvez os Três Esboços Sinfónicos a obra que marca essa viragem…

A viragem começou, curiosamente, com a Mérope e por influência da minha mãe. Quando ela ouviu pela primeira vez a Mérope achou que aquilo não era música do seu tempo e que o meu pai tinha de, pouco a pouco, libertar-se da influência do Luís de Freitas Branco. Portanto, foi ela que o empurrou e encorajou, para além da curiosidade natural do meu pai, a dar uma volta ao estilo, a tornar-se mais contemporâneo e a absorver tudo aquilo que eles estavam a ouvir todos os dias nos espectáculos a que iam. O Concerto para Viola foi mais um passo, digamos que ele foi progredindo passo a passo. O Divertimento I é uma obra muito específica em que ele decide fazer, exactamente, um divertimento e usar a sua linguagem habitual. Os Três Esboços Sinfónicos foram realmente a primeira tentativa. Ele não escrevia sinfonias desde a 4ª, não imaginava escrever outra sinfonia usando a mesma linguagem. Isso é revelador de que ele achava que já era uma linguagem esgotada, pelo menos do ponto de vista da forma sinfonia. E a verdade é que só escreve uma nova sinfonia dezasseis anos depois, e é a 5ª, que é uma revolução. Ele quis ir aprendendo, a par e passo, o que é que se coadunava melhor com as suas características intrínsecas, fala muito disso nas entrevistas que dá. Quer permanecer fiel à sua personalidade musical.

Uma coisa que ele nunca perdeu é o élan melódico, mesmo nas suas fases mais abstractas.

A prova disso é a 5ª Sinfonia ou, por exemplo, uma obra como o Divertimento II, em que a melodia está lá – é difícil, é dura, angustiada e pungente, mas está lá. E, mesmo na 5ª Sinfonia, há sempre melodia. 

Mas é muito interessante que essa viragem tenha sido em grande parte por influência da tua mãe, é sinal de que não era para aí que ele naturalmente pendia…

Não, e os amigos reconhecem. O Cassuto, por exemplo, que assistiu a todas as conversas e discussões (das quais, aliás, era parte integrante porque foi aluno do meu pai e além disso aparecia lá em casa para lhe mostrar as partituras de tudo o que escrevia), foi testemunha privilegiada de todos os anos 60. Hoje, olhando para trás, tornou-se muito conservador (as pessoas quando envelhecem, se calhar acontece-lhes isso) e disse-me no outro dia, com um ar um bocado indignado: «o teu pai nunca devia ter deixado de escrever à maneira antiga, porque é isso que faz sucesso, é isso que atrai as plateias». Eu fiquei um bocado indignada com esta afirmação (risos), achei um pouco extremista. E falei-lhe da 5ª Sinfonia e de outras obras fabulosas… E da Sinfonietta que lhe é dedicada, que ele tem dirigido magistralmente e que é uma obra fantástica. O meu pai queria absorver uma parte das novas linguagens mas queria permanecer fiel à sua personalidade musical. Há um episódio curioso que é absolutamente demonstrativo dessa dualidade que se instala na obra dele que é a composição da 6ª Sinfonia. Depois da 5.a ele compôs coisas várias, entre elas a Trilogia das Barcas que é uma obra que no fundo é uma espécie de súmula de todos os estilos porque é uma obra ultra-contemporânea, ultra-moderna, com música concreta inclusive, mas estão lá os modos medievais todos porque o libreto isso pede e a isso obriga. Depois disso, entusiasmado com os modos medievais (que era uma coisa de que ele falava desde novo e de que o próprio Luís de Freitas Branco falava muito), escreveu o D. Garcia, com o poema da Natália [Correia] baseado na poesia medieval e trovadoresca. Depois quis escrever outra sinfonia mas chegou a meio, não sabia como havia de descalçar a bota e parou durante largos meses. Eu lembro-me dele correr o corredor da casa da Av. dos Estados Unidos da América de um lado para o outro, era um corredor enorme…

Nessa altura tinhas 13 ou 14 anos…

Sim, foi em 71-72. Lembro-me de vir da escola e ver o meu pai de um lado para o outro, numa angústia tremenda, sem saber o que fazer. E eu perguntava: «Ó pai, o que é que se passa?», «Não sei o que hei-de fazer com a 6ª Sinfonia…», «Então se não sabe ponha-a lá num canto, deixe-a lá pousada em cima da secretária e daqui a uns meses!»… Mas o facto de não conseguir terminar uma obra provocava-lhe uma angústia criativa muito grande. Entretanto houve duas ou três viagens a Espanha porque ele era júri do Prémio Manuel de Falla e convidavam-no regularmente para as conferências dos festivais, e quando veio de uma dessas viagens, talvez mais refrescado e com uma colectânea de poemas em castelhano de Camões que não se encontravam em Portugal, ficou entusiasmadíssimo. Um dia chego a casa e ele está a tocar aquele final da 6ª Sinfonia, com aquelas redondilhas maravilhosas do “Irme quiero, madre…”. Perguntei-lhe se era uma obra nova e ele volta-se para mim com um sorriso maroto e diz-me: «Não, isto é o final da 6ª Sinfonia». Eu fiquei um bocado intrigada. E depois pediu à minha mãe para ir ao escritório: «Maria José, vem cá e experimenta cantar isto», que era uma coisa que ele fazia sempre que escrevia para voz, pedia à minha mãe para cantar. E a minha mãe, claro, ficou deliciada com aquela maravilhosa música. O que aconteceu foi que a segunda parte da 6ª Sinfonia ficou pronta. Entre as duas há aquela transição que é muito bem feita porque (e aí vê-se a mestria orquestral do meu pai), embora sendo um bocado incómoda, está tão bem escrita que, se for bem dirigida, nem se dá por ela. E eu pedi-lhe para ele me dedicar a sinfonia porque fiquei absolutamente encantada com aquele maravilhoso tema.

Mas é verdade que passou de um mundo para outro completamente diferente; de tal modo que depois já não voltou a escrever sinfonias…

Não, aquela foi onde pôs o ponto final. Ele viu que esta nova linguagem que ele tinha criado resultava muito bem, por exemplo, em obras corais-sinfónicas. Se formos ver o catálogo há o Babel e Sião e a obra sobre os poemas de Teixeira de Pascoaes, As Sombras. Para obras corais-sinfónicas, que ele adorava escrever, resultava muito bem. Aliás escreve também em 74-75 muito para coro. Nessa época escreve as Composições Corais sobre Clássicos Castelhanos para coro a capella, que é uma obra maravilhosa. Desse ciclo, há uma parte que está gravada em disco, as Quatro Canciones.

Voltando atrás, como surgiu a 5ª Sinfonia?

A 5ª Sinfonia foi um drama. Foi uma encomenda do governo, através da Emissora Nacional, para a comemoração do 40.o aniversário da Revolução Nacional. Quando o Pedro do Prado falou pela primeira vez ao meu pai, falou-lhe na hipótese de ir a África, a Angola e Moçambique, fazer uma espécie de viagem de estudo para incluir temas africanos na referida sinfonia. O meu pai ficou entusiasmado com essa hipótese mas não ficou entusiasmado com a origem do pedido. E, de facto, quando chegou a casa e contou à minha mãe com um ar algo atrapalhado, ela ia tendo um ataque, e teve mesmo um ataque de fúria. Tentou demovê-lo de todas as maneiras e feitios de aceitar a encomenda. O problema é que a Emissora Nacional pô-lo entre a espada e a parede, pura e simplesmente chantageou-o.

Joly também não estaria à larga de dinheiro…

Não, ele precisava daquele ordenado, como é evidente. Ele tinha um ordenado na altura como Maestro Assistente de Captação, que era uma coisa ridícula, simbólica, mas dava para pagar a renda, a água e luz, e depois tinha de sustentar a mulher e as filhas o resto do mês. Portanto, em primeiro lugar, ele precisava do dinheiro das encomendas, não podia viver sem ele, e em segundo lugar não podia ficar sem o lugar na rádio. A alternativa era emigrar, pura e simplesmente. Coisa que ele não queria fazer porque desde miúdo que era um patriota, ele admirava o Pedro de Freitas Branco por ter voltado e fundado a orquestra da Emissora Nacional e não ter aceitado naturalizar-se francês. Fosse qual fosse o regime, ele nunca viraria as costas à Pátria. É uma coisa que ainda há pouco tempo a minha tia me confirmou, ele gostava verdadeiramente do seu país num sentido antigo, num sentido de amor à Pátria que nós agora já não sabemos muito bem o que é, a verdade é essa. E, portanto, não queria emigrar. E dizia que se era músico e se era artista tinha direito de o ser na sua terra, fosse de que maneira fosse. Toda a gente passou dificuldades naquela época, a verdade é essa.

E acabou por aceitar a encomenda…

Acabou por aceitar porque o Pedro do Prado disse-lhe muito claramente: «Se você não aceita, amanhã está na rua». Ele tinha ido ao Brasil no ano anterior. A minha mãe ainda telefonou para dois ou três amigos brasileiros através até do Manuel Ivo Cruz, que era um grande amigo, mas o meu pai recusou-se terminantemente a ser obrigado a fugir daqui por causa de uma encomenda, dizia ele que «daqui a 50 anos ninguém quer saber da encomenda e a obra está cá».

E teve razão. Mas ‘passou as passas do Algarve’ por causa dessa sinfonia…

Sim, porque, como se sabe, a crítica musical, sendo um dos poucos domínios em que o regime não interferia, estava nas mãos de gente de esquerda e, nomeadamente, gente do Partido Comunista. E mesmo gente de esquerda ficou indignadíssima por um homem com a integridade do meu pai ter aceitado aquela encomenda infame. Portanto, toda a crítica lhe caiu em cima. Havia pateadas sempre que se tocava uma obra dele, fosse ela qual fosse, até a 4ª Sinfonia foi pateada no Tivoli. 

Tudo isso antes do 25 de Abril, numa altura que coincidia já com a fase da vanguarda.

Sim, estamos a falar em 66-68. Portanto ele tinha sido chantageado pelo regime e levava pateadas da oposição. Não era que ele se preocupasse demasiado com isso, aquilo a ele não o incomodava particularmente, mas como é evidente incomodava a família.

E não lhe criou dificuldades a nível de encomendas?

Não, não. Na altura a Gulbenkian encomendava-lhe praticamente uma obra por ano, portanto ninguém ligou a isso, excepto, obviamente, a oposição. O que, aliás, me parece uma coisa natural. Um tipo que escreve uma sinfonia a comemorar o 40º aniversário da Revolução Nacional deve estar à espera que o pessoal de esquerda lhe caia em cima, que foi exactamente o que aconteceu. O meu pai não se preocupava com isso, mas para a família era um bocado desagradável. Para a minha mãe, coitada, que era uma pessoa liberal e democrata, e que detestava o regime, aquela contemporização foi uma coisa que lhe custou a engolir, quase se divorciaram por causa disso. Mas a verdade é que a obra ficou e é das mais importantes.

É marcante e foi premiada…

Não recebeu o prémio mas ficou entre as 10 melhores classificadas dos prémios da UNESCO desse ano, ficou em quinto ou sexto lugar. Os jornais puseram isso em parangonas e fizeram-nos entrevistas aos quatro, tiraram-nos fotografias, e a minha mãe cada vez mais furiosa com o chinfrim.

Quando é que foi a classificação pela UNESCO?

Foi logo em 66, porque o Pedro do Prado, sem o meu pai saber, enviou para o concurso. E de repente aparecem aquelas parangonas nos jornais e o meu pai chega à Emissora e diz: «Mas o que é que aconteceu? Eu não percebo nada. Eu não entrei neste concurso…», «Ah, eu mandei a obra!». (risos)

Fotografia: No restaurante “Cozinha Velha”, em Queluz, com o compositor brasileiro Camargo Guarnieri. No sentido dos ponteiros do relógio, Maria de Freitas Branco (mulher de João de Freitas Branco), Maria José Braga Santos, João de Freitas Branco Paes e Helena de Freitas Branco Paes, Joly Braga Santos e Camargo Guarnieri. Meados dos anos sessenta.

Artigo publicado na Glosas nº 3, p.18-30.

Permanecer fiel à sua personalidade musical (Parte 2)

entrevista de Alexandre Delgado a Piedade Braga Santos

transcrição de Duarte Pereira Martins e Philippe MarquesArtigo

Mas voltando ainda ao impacto das primeiras obras orquestrais, começou com a Abertura Sinfónica n.o 1, em 1946…

Sim. Mas, obviamente, a 1.ª Sinfonia teve maior impacto, um grande impacto. As pessoas, segundo me contam testemunhas da época que presenciaram essa estreia (porque, como é evidente, eu não assisti) nem queriam acreditar que o meu pai, que tinha 22 anos (ia fazer 23) e parecia um miúdo, magrinho, com aqueles óculos redondos, tinha escrito aquela obra. Há fotografias da época que o comprovam, a aparecer no palco do São Carlos ao lado do Pedro de Freitas Branco. Uma estreia daquelas! E podemos dizer que foi mesmo um estrondo, um choque na sociedade lisboeta da época, porque desde as estreias do próprio Luís que não aparecia um sinfonista comparável, é evidente.

Nem comparável, nem sem ser comparável…

Sim, embora as críticas sejam muito engraçadas, porque quem as vai ler agora, à distância de décadas, vê que há alguns críticos (pelo menos um) que dizem que a música é difícil de ouvir, e que é algo estranha, e que é algo dissonante, e que é diferente do habitual, e que ele não gostou nada… O que é extraordinário, porque aquela primeira sinfonia do meu pai é do mais convencional que se pode fazer. Muito inventiva do ponto de vista melódico, com todas as qualidades que ele revelaria mais tarde, mas muito ingénua e o mais convencional possível! Do ponto de vista formal, acho…

Ainda que a linguagem não seja tão retrógrada quanto isso para a época, um pouco na linha dos sinfonistas ingleses…

Sim, sim. Se posso fazer aqui um parêntesis, a convivência mais próxima com os papéis e com a obra que tenho tido nos últimos anos tem-me feito reflectir sobre algumas coisas. Eu não sou musicóloga, só sou uma testemunha privilegiada de tudo o que aconteceu nas últimas quatro ou cinco décadas no meio da música em Portugal. Não sou musicóloga, de maneira nenhuma! Mas isso não quer dizer que não possa reflectir sobre alguns aspectos da composição do meu pai, do seu modo de compor e das soluções que encontrou para exprimir a sua vontade criativa e o que ele queria dizer. E penso que, sobretudo no início, o equilíbrio formal que tanta gente admira na obra de Joly Braga Santos tem a ver por um lado com os ensinamentos do Luís de Freitas Branco (parece-me evidente) e por outro lado com a necessidade de conter a explosão melódica e o jorro melódico que saía daquela cabeça dentro duma ordem clara e equilibrada. Essa necessidade de contenção duma criatividade exacerbada pela juventude justifica o equilíbrio formal das primeiras obras. É evidente que depois esse equilíbrio formal há-de manter-se, de outras maneiras e por outras formas, ao longo de toda a sua carreira. Independentemente das formas muito mais livres que passou a cultivar a partir de meados da carreira, essa noção de fundações que nós temos em toda a obra do meu pai (sabemos sempre onde estamos!) é inerente à sua escrita criativa.

Há reflexos clássicos de forma-sonata, mesmo quando a linguagem se torna quase atonal.

Exactamente. Mas penso que no início isso foi a tentativa de contenção do jorro melódico. Basta ouvir ae a 4ª Sinfonias, aquilo são melodias, melodias e mais melodias. Ele de alguma maneira tinha de pôr ordem nelas, não é? Estava no outro dia a pensar nisso e achei que tinha de dizer isso hoje, aqui.

E quanto às peças para canto e piano do início da carreira?

Se olharmos para o catálogo do meu pai, logo na primeira metade dos anos 40 encontramos uma extraordinária quantidade de obras para canto e piano, nomeadamente para meio-soprano ou barítono e piano, algumas das quais foram orquestradas mais tarde. Há duas razões para isso. Uma delas é a Carmélia [Âmbar], evidentemente. Outra é o facto de, na época, o Luís de Freitas Branco, para além da 4ª Sinfonia e de outras obras, estar a trabalhar em motetes e muita coisa para canto e piano; isso terá encorajado o meu pai a explorar esse meio. Por um lado era um tipo de obra que podia ser facilmente executado. Por outro, ele de facto tinha amigas cantoras no Conservatório e teve uma paixão por uma meio-soprano muito conhecida chamada Carmélia Âmbar, que ainda hoje é viva e teve a enorme generosidade de me ceder a sua correspondência com o meu pai. Nela fui recolher imensos elementos da sua rotina diária e do seu modo de composição, que agora conto nesta entrevista. Para além de ter havido uma paixão, infelizmente não correspondida…

Foi a primeira grande paixão dele?

Foi a primeira grande paixão dele, infelizmente não correspondida porque a Carmélia, na época, estava apaixonada por outra pessoa. Mas ele escreveu realmente aquela quantidade enorme de canções que agora fazem as delícias das cantoras da actualidade e que têm essa razão curiosa.

Coincidiram também com a criação da Juventude Musical Portuguesa…

Sim, de cujo núcleo fundador ele fez parte com o Luís de Freitas Branco, o João de Freitas Branco, o Nuno Barreiros, o Humberto de Ávila, todo aquele grupo a que depois se juntou a Carmélia Âmbar, o José Carlos Gonçalves…

Uma coisa que o teu pai viveu intensamente…

Intensamente! E que lhe deu um trabalhão e cuja organização o ocupava todos os dias. Isso vê-se na correspondência com a Carmélia: todos os dias ele ia lá, trabalhava, organizava, fazia telefonemas, arranjava pianos… fazia tudo! (risos) Com aquele entusiasmo da juventude.

Entretanto que é que fazia para ganhar a vida?

Nesta fase deu-se uma coisa muito importante, que foi a sua entrada para o Gabinete de Estudos Musicais [da Emissora Nacional]. Na altura já ele trabalhava na rádio, na parte clássica, com o João de Freitas Branco, a pôr discos de música clássica, sentados numa sala com um gravador e um microfone.

Foram os inícios da Antena 2: eles os dois sentados no chão, só a pôr discos, sem locução! Mas a entrada para o Gabinete de Estudos Musicais permitiu ao meu pai e aos outros ter um salário para compor. Os outros eram Artur Santos, o Armando José Fernandes, o Croner de Vasconcellos… o único que não entrou foi o Graça, por razões que toda a gente conhece. A partir daí o meu pai tem um ordenado mensal, coisa que nunca tinha tido antes. Até então vivia de lições esporádicas de composição, que dava a quem lhe aparecia à frente: o João Paes foi aluno do meu pai durante anos, o António Victorino d’Almeida, o Atalaya… alunos particulares que o Luís encaminhava para o meu pai porque sabia das dificuldades que ele tinha.

O Freitas Branco também o ajudou financeiramente…

Sim. As temporadas que ele passava em Reguengos!

Mas não foi só o Freitas Branco. Havia um amigo dele, médico, que também o ajudava e que ele conheceu através do primo Fernando Paredes. É uma das razões pelas quais há tantos alunos de Medicina no início da Juventude Musical: com dois primos direitos médicos ou a formarem-se para médicos, o que o meu pai mais tinha era amigos na Faculdade de Medicina e ia lá frequentemente fazer conferências, porque eles gostavam de música, através da Juventude Musical; ele recrutou dezenas de estudantes de Medicina para a Juventude Musical Portuguesa através dos dois primos direitos. Outras pessoas que o ajudaram financeiramente foram o tio Augusto Joly, o José Carlos d’Almeida Gonçalves, em casa de quem ele passava uma parte do Verão, a tia Aurora Braga Santos, que morava a cinco minutos da casa dele e onde ele ia almoçar todos os dias e ficava para trabalhar no piano, porque ele não tinha piano em casa.

Nessa altura ele vivia com a mãe.

A avó entretanto falecera e a mãe não tinha rendimentos. Para sobreviver, como a filha tinha saído de casa para um colégio e a casa era grande, alugou o quarto a uns hóspedes e fazia bordados e comida para fora. Era o meu pai que a ajudava, o tio Augusto Joly e pouco mais. O meu pai tentava tornar-se o menos pesado possível indo almoçar ou jantar, à vez, a casa de um primo, de um tio ou de um amigo. O José Carlos Gonçalves conta isso com alguma comoção ainda hoje porque ele de facto, um dia, declarou aos amigos: “Não tenho dinheiro para comer, não posso sobrecarregar a minha mãe, vamos combinar um dia para eu ir almoçar ou jantar.”. E eles combinaram, organizaram-se e ele ia almoçar e jantar a casa de um amigo diferente ou de um primo cada dia da semana. Andava a pé, logo não gastava em transportes, e o tio Augusto Joly dava-lhe roupa que a minha avó cuidadosamente costurava à medida dele.

Joly Braga Santos montando, em Santarém, 1949.

Em 1948 o teu pai foi estudar com Scherchen.

Foi a primeira saída dele ao estrangeiro, com uma bolsa do Instituto de Alta Cultura, no Verão de 48. Esteve três meses em Veneza a frequentar o curso do Herman Scherchen e mais tarde teve aulas particulares com ele em Lugano. Esse foi realmente o seu primeiro contacto com a música europeia e com um grande professor e grande maestro. E foi a primeira saída ao estrangeiro, considerando que ele tinha passado toda a sua juventude e adolescência primeiro com a guerra de Espanha, depois com a 2.a Guerra Mundial. Em 48 já havia comboios. As linhas tinham começado a ser reconstruídas e ele foi de comboio para Veneza, uma viagem longa e complicada, mas lá conseguiu chegar. E foi lá que conheceu uma personalidade que se viria a tornar importante na sua vida que é o Bruno Maderna, para além do próprio Scherchen, com quem estabeleceu uma imediata empatia. Esse curso, para ele, foi uma abertura de horizontes, muito profícuo e uma grande felicidade. Coincidiu, aliás, curiosamente, com a composição da 3ª Sinfonia, que ele interrompeu para ir para Veneza e que só terminaria no Verão seguinte, em 49. Antes disso tinha tido o magistério do Pedro de Freitas Branco, que continuava a fazer todas as suas estreias; o meu pai ia assistir a praticamente todos os ensaios da orquestra da Emissora Nacional e portanto muito aprendeu com o Pedro de Freitas Branco. Mas esse curso do Scherchen foi para ele uma revelação.

A Abertura Sinfónica nº 3, de 1954, foi dedicada a Elisa de Sousa Pedroso.

Sim, uma mecenas das artes que, durante décadas, fez o papel que seria também o da Marquesa de Cadaval. Foi uma grande apoiante e promotora do Círculo de Cultura Musical e

da Juventude Musical Portuguesa. O meu pai conheceu a Sr.a D.a Elisa (como a tratavam na época) através do Luís de Freitas Branco, passou a frequentar o círculo que ela tinha e que se reunia periodicamente em sua casa. Ele acabou por lhe dedicar essa Abertura Sinfónica, como gratidão pelo apoio da Elisa de Sousa Pedroso ao 1.o Congresso da Juventude Musical, que passou por várias vicissitudes, incluindo as dificuldades em ter autorização do Governo (coisa que aliás se repetiria curiosamente em 68 e terá sido a Marquesa de Cadaval a fazer a mesma diligência…). A Elisa de Sousa Pedroso tinha obviamente contactos junto do Governo, diz-se aliás que era amiga e visita de casa de Salazar; e portanto conseguiu isso. Ainda por cima essa Abertura Sinfónica toca-se imenso e é minha favorita das três. Ela, com certeza, terá ficado grata. Eu não cheguei a conhecê-la, infelizmente.

Entretanto em 1955 morre o Luís de Freitas Branco…

 Na altura o meu pai já estava director da Sinfónica do Porto e foi para Lisboa disparado, foi uma tragédia. Mas pelo meio deram-se coisas curiosas. Em 1951/52 é extinto o Gabinete de Estudos Musicais; o meu pai entra em pânico porque vai perder o ordenado mensal que lhe permitia, evidentemente, pagar as suas despesas. O que lhe vale é que, entretanto (já agora conto isto aqui pela primeira vez, é uma história que ninguém sabe), nesse interregno do fim do Gabinete de Estudos Musicais, que acaba por se verificar só a partir de 1952/53 (eles já anunciam em 51, mas aquilo vai-se prolongando), ele tinha recebido uma encomenda, através da Emissora Nacional, ligada ao Plano Marshall. E o que era? O Plano Marshall tinha instituído uma organização cultural, sediada em Paris, chamada a Telecine France, que estava encarregue, digamos assim, do restauro e da reanimação da vida cultural europeia, e sobretudo da cooperação europeia. Fazia tudo, desde filmes de propaganda, que ainda hoje podemos ir ver na Cinemateca (encomendava-os a realizadores europeus), até a encomendas directas a artistas, pintores, escultores, poetas, músicos, de toda a qualidade.

A Amália teve uma encomenda do plano Marshall! E quando chega o pedido à Emissora Nacional, o Pedro do Prado indica o nome do meu pai, que faz um contrato com esta organização, que lhe paga algo como 15 mil dólares.

Era bastante para a altura.

Era! Ele refere-se na sua correspondência a esse dinheiro como “os dólares da América”. Tinha perfeita noção que se tratava de dinheiro americano, embora não tivesse sido pago em dólares, presumo que deve ter sido em francos e que o contrato tivesse vindo em francês (está lá em casa, esse contrato sobreviveu).

E qual era a obra?

A obra desapareceu! Desapareceu tal como os arquivos da dita organização. Eu procurei em todo o lado, incluindo o arquivo Marshall, a Biblioteca do Congresso, a Biblioteca Jean Monet e o arquivo Jean Monet, porque, como se sabe, o plano Marshall deu origem à Comunidade Económica Europeia e podia ser que o arquivo Jean Monet tivesse ficado com estes arquivos, visto que estavam sediados em Paris. A Biblioteca Nacional de França também não tem nada, foram eles que mandaram para a Library of Congress. Do arquivo Marshall, sabem da organização mas não têm nada nos arquivos nem sabem onde estão.

Até parece uma coisa portuguesa…

Pois! E imaginas o trabalhão que isto me deu. A obra era uma abertura sinfónica para uma orquestra até relativamente pequena, para ser executada (e terá sido) em Paris num grande concerto em que foram executadas obras do Bruno Maderna e de gente nova daquela época. Estamos a falar de 49, a encomenda é desse ano. E será esse dinheiro que ele recebe em finais de 49 que lhe permite sobreviver ao susto do encerramento do Gabinete de Estudos Musicais, antes de ir para o Porto em 54-55.

Como é que surgiu essa oportunidade?

O meu pai tinha já uma preparação muito boa quando foi convidado, através dos bons ofícios de um senhor muito influente na altura, no Porto, chamado Rebelo Bonito, junto do Ino Savini, para se tornar primeiro Maestro Assistente e depois, com a saída do Savini, Maestro da Orquestra do Conservatório.

Durante esse anos no Porto, que para ele foram felizes e em que ele se sentiu realizado, teve a oportunidade de dirigir não só os clássicos (os compositores do cânone, como se diz agora), mas também os contemporâneos e os colegas. Promove concertos de música moderna (então não se dizia de vanguarda) mas de música portuguesa, com obras do Graça, do Artur Santos, do Croner de Vasconcellos e de todos os outros. Do Luís de Freitas

Branco também, evidentemente: dirige imenso Freitas Branco, muitas coisas que o Pedro dirigia. Para ele foram anos, por um lado, felizes e realizados e, por outro, de encomendas, muito trabalho. Outro aspecto da ida para o Porto foram os contactos com algumas personalidades da vida musical portuguesa que eram influentes na época e que viriam a continuar a ser influentes e com quem ele travou uma amizade até ao fim dos seus dias, nomeadamente as irmãs Helena e Madalena Sá e Costa, a Guilhermina Suggia, que ele conheceu lá, e os compositores do Porto, mais novos, que ele não conhecia. Foram anos, para ele, muito felizes.

Ele morava sozinho?

Morava em casa de uns senhores, terá sido o Rebelo Bonito que lhe arranjou um quarto em casa de uns amigos que tratavam dele. Entretanto, no âmbito das actividades da Juventude Musical Portuguesa, vinha constantemente a Lisboa, tinha sempre cá trabalho. E é num desses concertos da Juventude Musical Portuguesa que conhece a minha mãe, que estava na altura a estudar canto com o Tomás Alcaide e piano com o Lourenço Varella Cid. Adorava música, não quis terminar o liceu, não quis prosseguir os estudos na faculdade e o avô, José Falcão Trigoso, que era um pintor conhecido em Lisboa e no Porto e que foi quem a criou, tinha-a, de facto, encorajado a seguir essa via dos estudos musicais. Nesse âmbito ia aos concertos, foi lá conheceu o meu pai no princípio de 56 e apaixonaram-se.

Joly Braga Santos, cumprimentando o concertino Vasco Barbosa e recebendo os aplausos do público, no final da estreia da ópera Mérope, no Teatro Nacional de São Carlos em Lisboa, em Maio de 1959

Em que ano nascera a tua mãe?

Em 1935, portanto faziam uma diferença considerável, 11 anos. Casaram em Janeiro de 57, os dois de luto ainda, porque entretanto aconteceu uma tragédia: o meu bisavô adoeceu e acabou por falecer em Dezembro de 56. A minha mãe ficou desesperada porque, para ela, o avô tinha tido exactamente a mesma função, no fundo, de pai que o Luís de Freitas Branco tinha tido para Joly. Era essa realmente a relação que eles tinham, a de pai e filho. Tudo aquilo foi uma tragédia e a minha avó encorajou-os a casar o mais depressa possível. Alugaram uma casa em Gondomar e foram viver para o Porto. O meu pai tinha reiteradamente solicitado ao Instituto de Alta Cultura, após a viagem de 48, uma nova bolsa de estudo para voltar a Itália, para estudar. Foi sempre recusada, por uma razão ou por outra, sempre com informações negativas da PIDE, provavelmente porque ele terá andado metido naquela história do MUD juvenil na época. Alguns amigos da Juventude Musical Portuguesa tê-lo-ão incitado a assinar um papel ou outro. Ele detestava política e era a última pessoa a meter-se em coisas políticas, mas enfim…

Assinou?

Assinou. Resumindo e concluindo, as bolsas foram-lhe constantemente negadas. Até que houve uma intervenção de uma amiga da minha avó, muito amiga da irmã do Marcello Caetano, que na altura era Ministro do Ultramar, acho eu. Para grande surpresa dos meus pais, que não sabiam absolutamente de nada, parece que o Marcello terá ido assistir a um concerto com uma obra do meu pai e estava sentado ao lado do Director do Instituto de Alta Cultura (isto foi contado posteriormente pelo próprio Director), perguntando-lhe: “Mas afinal este rapaz está cá? Já o mandaram estudar para fora?” E o Director do Instituto de Alta Cultura, que acabara de recusar mais um pedido, ficou muito atrapalhado e resolveu mandar o meu pai para fora rapidamente. Resultado: recebem um telefonema no dia 1 de Abril de 57, julgando obviamente que era uma brincadeira de algum amigo mais brincalhão, a dizer que lhes tinha sido concedida a bolsa. De facto, recebem a carta a 15 de Abril.

A minha mãe desmancha a casa rapidamente e viajam de barco para Roma. O meu pai começa as aulas no Conservatório e a minha mãe decide inscrever-se também, uma vez que estava ali sem fazer nada… fez lá o exame de admissão ao Conservatório, passou e entrou logo para o 4.o ou 5.o grau. Viveram aqueles anos em Roma, com viagens. Aproveitaram para ir ao Festival de Siena, aos festivais todos, viajaram, foram a concertos.

Em 57-58 estiveram em Lugano durante uns meses, enquanto o meu pai fez um curso com o Scherchen. Entretanto eu nasço em Outubro de 58, no intervalo entre duas bolsas; os meus pais voltam a Itália em Março de 59 e levam-me com eles para Roma.

Em 1960 aparece lá o Peixinho, já com uma bolsa da Fundação Gulbenkian (tinham acabado de abrir as primeiras bolsas); eles conhecem-se através da Embaixada e travam amizade. Foram anos de abertura, de aprendizagem, de descoberta de novas músicas. Conheceram Malipiero por causa do Festival de Siena, assim como conheceram o Luigi Nono, que o meu pai já tinha conhecido em Veneza, mas retomaram o contacto em Roma. O meu pai continua a compor furiosamente. Compõe Viver ou Morrer, o Divertimento I, o Concerto para Viola, digamos que são as grandes obras desta fase. O Divertimento é estreado num concerto de música portuguesa que o meu pai é convidado a dirigir em Nápoles, em 61. A Mérope é estreada em São Carlos com um sucesso estrondoso, em 1959. Logo a seguir vêm o Concerto para Viola e o Divertimento I, perto de 61. O Concerto de Viola é estreado pelo François Broos, para quem o meu pai o escreve, em 1960, em São Carlos, mais uma vez dirigido pelo Pedro de Freitas Branco. O meu pai dirige a Mérope e depois dirige este concerto em 61, já pouco antes de voltar para Portugal definitivamente. Foi um concerto transmitido pela RAI, só de música portuguesa, em que se estreia uma obra do Peixinho, outra do Cassuto e esta do meu Pai. Mais algumas obras de compositores portugueses dos séculos XVII e XVIII compõem o resto do programa.

Fotografia: Joly Braga Santos com senhora não identificada, Sequeira Costa, Grazi Barbosa e João Paes, em Reguengos

Artigo publicado na Glosas nº3, p.18-30.

Permanecer fiel à sua personalidade musical (Parte 1)

entrevista de Alexandre Delgado a Piedade Braga Santos

transcrição de Duarte Pereira Martins e Philippe Marques

Podíamos talvez começar pelas origens familiares do teu pai…

Primeiro do lado do pai, que talvez tenha tido mais influência na vida dele, embora tenha falecido muito cedo. O meu avô, António Braga Santos, vinha de uma família com posses: o seu pai, Manuel Joaquim dos Santos, tinha enriquecido no Brasil. António e as duas as irmãs tiveram uma educação primorosa, tanto do ponto de vista literário como musical. As duas raparigas tocavam piano e o meu avô tocava violino. Segundo me disse a minha tia Leonor, irmã de meu pai, chegaram a colaborar com a Sociedade de Concertos e com a Academia de Amadores de Música.

De onde vinham os proventos da família?

Esse avô brasileiro emigrou muito novo, com 14 anos, e fez fortuna na cidade de Santos, daí o ter mudado o nome de Baltazar para Santos. Voltou para Portugal nos anos 70-80 do século XIX, quando tinha uns 40 anos, para casar-se com uma rapariga que tinha conhecido por um retrato que um familiar lhe tinha enviado. Ela vinha de uma família com algumas terras na região de Santarém e foi na quinta da família que lhes nasceram os três filhos: o meu avô, António Braga Santos, e duas irmãs. Uma delas, a tia Santana, casará mais tarde com o famoso médico José Bénard Guedes, fundador do IPO e dos Hospitais Universitários de Lisboa, e da Radiologia em Portugal também. A outra, a tia Aurora, terá um casamento muito jovem com um senhor inglês, também conhecido nos meios lisboetas, um Shirley, do qual entretanto se divorcia porque ele, pelos vistos, era um doidivanas. A rapariga vai então como enfermeira para a frente em 1917 e quando volta conhece o famoso médico cirurgião José Paredes, de quem tem um filho, o actual cirurgião Fernando Paredes. Portanto, as duas irmãs do meu avô casaram e tiveram ligações com médicos de renome na época.

Entretanto o meu avô recebe a sua herança e casa-se, já tardiamente, por volta dos 37 anos, com a minha avó Virgínia Joly. Ela vinha de uma família de comerciantes da Baixa lisboeta, ourives de origem francesa que vieram para Portugal em finais do século XVIII, no reinado de D. Maria I. Durante muito tempo, por causa das raízes do lado da minha avó e por causa do nome do meu pai achei que eram de origem cristã-nova, mas não! Fui à Torre do Tombo verificar isso e nem de um lado, nem do outro. O Joly é um nome comum no Sul da Bélgica e no Norte da França. Essa família que se estabelece na Baixa de Lisboa em finais do século XVIII e que, felizmente, prospera, estabeleceu relações de casamento nomeadamente com a família Batalha, dos ourives da Casa Batalha.

A minha tia conta que o meu avô e a minha avó se terão conhecido num baile de Carnaval. Ele ficou apaixonado, a minha avó em nova era muito bonita. Ela ofereceu alguma resistência porque tinha tido um namorado que fora a grande paixão da vida dela, mas tinha falecido na batalha de La Lys, em 1918. Ficara, portanto, solteira aqueles anos todos, até ter mais de trinta anos. Na época não era uma idade casadoira…

Pouco tempo depois de estarem casados nasce o meu pai, em 1924, na moradia que tinham na Rua Pinheiro Chagas, casa essa que já não existe. Sete anos depois, em 1931, nasce uma filha, a minha tia Leonor.

Mas o meu avô teve uma desgraça na vida: tornou-se fiador de uma pessoa que não pagou a sua dívida e todos os rendimentos e a pequena fortuna que lhe tinham cabido por herança foram para pagar isso (na altura 700 contos eram uma fortuna – isto nos anos 20, mesmo a seguir ao casamento, ainda antes de nascer o meu pai). Teve que vender a casa e o recheio todo para pagar a dívida e teve que, obviamente, arranjar um emprego. Conseguiu um lugar na Rua das Escadinhas de São Cristovão, em plena Baixa, como guarda-livros e contabilista de uma empresa. Onde é que ele passava as tardes? Num sítio óbvio para tomar café, sobretudo um rapaz que era músico e que também gostava de escrever os seus poemas nas horas vagas, ou seja, no Martinho da Arcada. Terá conhecido o Fernando Pessoa nessa época. Eu sempre suspeitei, pela maneira como o meu pai falava de Fernando Pessoa e do pai dele, e pela precocidade, apesar de tudo, das primeiras canções, que teria havido alguma relação familiar…

Que não é nada conhecida…

Não, eu descobri isso há cerca de dois meses. Eles de facto conheciam-se perfeitamente: o meu avô chegava a casa e contava as suas conversas com o Pessoa e com os outros… Com o Botto, e com toda a gente que frequentava o Martinho da Arcada. Eu tentei, nos papéis que a minha tia conservou, verificar se havia alguma referência ou algum papel do Pessoa. Infelizmente, não. O que restou foram só poemas do meu avô, bonitos, enfim, uma poesia amadora, mas bem feita, rimada. Nada de especial, mas comovente porque se refere a muitos factos familiares e a outros da época, como, por exemplo, vitórias do Benfica e coisas muito engraçadas desse género. É um documento engraçado sobre a época. E era realmente no Martinho da Arcada que ele escrevinhava os seus poemas, tal como os outros que o frequentavam.

Por coincidência, tanto pelo lado da mãe como pelo lado do pai os avôs do meu pai faleceram muito cedo. Deixaram, portanto, filhos menores. A minha avó Virgínia é póstuma, o pai dela faleceu estava a mãe grávida; o meu avô António e as irmãs foram criados pela mãe viúva e tinham alguém para gerir a fortuna. É um milagre que duas senhoras viúvas, embora com alguns rendimentos, tenham conseguido criar de maneira capaz, e com sucesso, tanto de um lado como do outro, aquelas crianças.

A minha avó Virgínia tinha dois irmãos. Um deles era muito conhecido em Lisboa nos anos 20 a 40: chamava-se Augusto Joly e tornou-se falado por ter posto um processo à Câmara de Alpiarça por causa da herança Relvas. Era corretor, trabalhava na Bolsa e ele próprio conseguiu algum dinheiro. Era uma personagem engraçada e que merecia, talvez, uma biografia.

Quando o meu avô António teve que vender a casa, foi com a mulher e os dois filhos morar para casa da sogra, na Rua Capitão Renato Baptista, entre os Anjos e o Campo dos Mártires da Pátria; foi lá que o meu pai viveu até se casar em 1957.

Entretanto o meu avô sofria de dores de cabeça e de alguns problemas de saúde e acabou por falecer precocemente em Março de 1938. O meu pai já na altura andava no Conservatório, onde se inscreveu no ano lectivo de 36/37. Conta-me a minha tia que nunca se pôs sequer a hipótese de o meu pai continuar os estudos num sítio que não fosse o Conservatório, porque desde muito pequeno o pai dele tinha percebido, tinha entendido a vocação. Tinha-lhe dado aulas de violino e depois tinha-o posto mesmo a ter aulas com um professor. Nunca se pôs sequer a questão de ele seguir outra carreira que não fosse a música e quando acabou a Escola Primária inscreveu-se imediatamente no Conservatório. Acabou a Primária um pouco tardiamente, não sei exactamente porquê. É verdade que as crianças, na época, entravam mais tarde para a escola e também é verdade que o meu pai tinha recordações péssimas: ele detestou a Escola Primária! Estamos a falar do princípio dos anos 30, ou seja, da mudança para o Estado Novo. Portanto, uma escola duríssima do ponto de vista disciplinar. O meu pai era uma criança irrequieta, distraída…

Deve ter levado muitas reguadas…

A personalidade que veio a adquirir mais tarde já estava na infância, não é? A questão disciplinar deve ter sido para ele um sofrimento pavoroso. Mas a verdade é que lá concluiu a Primária com louvor e distinção e entrou para o Conservatório sem quaisquer problemas. Ele tinha o apoio do pai, que era um homem culto e encorajava as crianças no amor pelas artes, pela música e pela poesia. Todas as noites se sentava ao pé deles, antes de adormecerem, e obrigava-os a decorar um poema. Daí que toda a gente que conheceu o meu pai se lembra dele declamar estrofes d’Os Lusíadas, sonetos de Antero, vindos enfim daquele amor pela poesia que tinha.

Isso veio então mais do lado do pai do que do lado da mãe.

Completamente pelo lado do pai. A mãe também tinha tido uma boa educação mas era de facto o pai que se encarregava desta educação das crianças.

E a mãe tinha alguma ligação ao meio musical?

Não, não. Era uma pessoa relativamente mais simples. 

A morte do pai foi um grande choque. 

A morte do pai foi uma tragédia. Para já, o choque emocional. E depois o choque financeiro. O tio Augusto Joly, irmão da minha avó, deu-lhes uma ajuda inicialmente: pôs a minha tia num colégio interno de freiras, onde ela fez o seu curso e depois seguiu a carreira de assistente social. Mas o meu pai, que já tinha 13 anos e estava no Conservatório, foi mais ou menos entregue à sua sorte, com imensos problemas de consciência por ser ainda demasiado novo para poder trabalhar e ajudar a mãe. A carreira dele no Conservatório foi extremamente atribulada. Na época havia mais cadeiras de cultura geral do que há agora mas o que lhe interessava verdadeiramente era aprender composição e cometeu talvez o erro, normal numa criança de 13 anos que quer emular o pai, de se inscrever na cadeira de violino como instrumento.

Que não era uma coisa muito natural para ele…

Não… O violino para ele foi um tormento. O professor de violino idem, que era o velho Flaviano Rodrigues, enfim, com aquela escola de violino antiga. Entretanto, inscreveu-se também em piano porque se apercebe que o piano é igualmente necessário para a composição, mas vai perdendo os anos, ou por faltas, ou por desistência.

Foi aluno de quem?

Fez o primeiro ano de piano com Virgínia Vitorino. Entretanto faz as cadeiras de Acústica e de História da Música com o Luís de Freitas Branco e é aí que eles se encontram pela primeira vez, logo em 1940: foi nessas duas cadeiras que o Freitas Branco foi professor dele, no princípio dos anos 40.

O primeiro professor de Composição que o meu pai teve foi o Artur Santos. E eu suspeito que, além do João de Freitas Branco, tenha sido este que tenha chamado a atenção do Luís para o talento particular do meu pai. O João de Freitas Branco conta, no seu famoso artigo publicado na revista do São Carlos (que ainda é, obviamente, um artigo de referência), que terá chamado a atenção do pai para o caso do Joly que, de facto, andava a perder cadeiras e a perder um bocado o seu tempo naquilo. Entretanto deu-se a reforma do Ivo Cruz, a chamada “contra-reforma”. O meu pai terminou as cadeiras do Luís com altas notas (16 e 18), portanto este já o conhecia como aluno mas não o conheceria como compositor. E nessa altura ele já tinha umas coisinhas escritas, que provavelmente terá mostrado ao seu amigo João.

Dessas tentativas prévias de composição, há coisas anteriores à ida para o Conservatório?

Não, as primeiras coisas que aparecem são já do Conservatório e são obviamente exercícios, no princípio dos anos 40. Há umas peças para piano que são obviamente exercícios escolares e coisas de circunstância escritas para as primas, que também tocavam piano. A primeira coisa mais a sério para piano (instrumento para o qual o meu pai escreveu pouquíssimo) são duas peças que fez para o Sequeira Costa, quando este ia estudar para Paris: uma delas é uma adaptação duma peça coreográfica anterior, a outra é uma chamada Elegia Trágica, que seria instrumentada pelo João Paes muitos anos mais tarde.

Mas o que eu presumo que tenha acontecido é que o João de Freitas Branco tenha chamado a atenção do pai e que este, muito correctamente, tenha ido perguntar a opinião do seu ex-aluno e querido amigo Artur Santos, que tinha acabado de entrar como professor do Conservatório com uma altíssima média. Sei disso por causa duma conversa a que assisti entre o meu pai e o Artur Santos num gabinete do Quelhas. Eles eram muito amigos, começaram a falar de outros tempos e às tantas o meu pai agradeceu-lhe: “Eu nunca mais me esqueço que o Senhor Professor deu as maiores referências ao meu querido Mestre!”, “Mas também foi meu Mestre!” – dizia o Artur Santos. 

Isso conduziu às aulas particulares com o Freitas Branco.

A aulas particulares, porque ele queria andar para a frente e o sistema do Conservatório arrastava-o, não encaixava… Por insistência do próprio Luís, lá continua matriculado, lá vai fazendo uma cadeira ou outra, até que, em 45, surge aquela história estúpida, que eu não vou contar agora aqui porque já foi contada várias vezes, do processo disciplinar, por parte do Ivo Cruz…

Aquilo que o João de Freitas Branco conta no artigo é exactamente o que aconteceu? O teu pai terá dito que se recusava a levantar-se ‘porque nenhum respeito lhe merecia um perseguidor do seu mestre’?

Exactamente! E o meu pai achava que, estando em São Carlos, estava fora do domínio da autoridade do Ivo Cruz, com toda a razão! E o Secretário-Geral dá razão ao meu pai! E diz que a queixa do Ivo Cruz é improcedente. Só que o Ivo Cruz passa por cima do Secretário-Geral e apesar das cartas do Artur Santos e de outros professores do Conservatório para o Secretário-Geral da Educação dizendo que aquilo era um disparate e que não se podia pôr na rua um aluno daqueles, que era uma vergonha para o Conservatório, vai ao Ministro, ou ao Director Geral de Educação na época, que eram obviamente pessoas do regime, e pronto…

O teu pai foi efectivamente expulso?

Foi efectivamente expulso.

Pode dizer-se que o percurso académico dele ficou concluído a partir daí, depois teve só aulas particulares…

Ficou concluído. Quer dizer, o percurso académico em Portugal. Mas quero só acrescentar que estamos a falar de 45. Nessa altura já o meu pai tinha escrito as Cinco Canções sobre poemas de Fernando Pessoa, estava a escrever os Três Sonetos de Camões, estava a iniciar a composição da 1ª Sinfonia, que é terminada em 46, tinha escrito o Nocturno, que tinha sido tocado pelo Silva Pereira e pelo João de Freitas Branco no Conservatório. Tinha já 15 peças, portanto muita coisa escrita! É uma das razões pelas quais o Artur Santos escreve para o Secretário-Geral a dizer que é um escândalo que um rapaz que vai estrear a sua primeira sinfonia em São Carlos dirigida pelo Pedro Freitas Branco seja expulso do Conservatório! Era uma coisa um bocado escandalosa! Mas é o que realmente acontece. E eu suspeito que ele até terá suspirado de alívio, por ter uma desculpa para se ver livre daquilo.

Como passou a ser a rotina dele? A relação com o Freitas Branco era praticamente diária…

Sim. Sobretudo a partir da estreia da 2.ª Sinfonia, que é, digamos, a confirmação definitiva (se é que era precisa!) do talento do discípulo. Ele fica, então, comovidíssimo e escreve-lhe uma carta extraordinária! Desde essa altura, a conversa entre eles começa a ser diária até no sentido de rotina que o próprio Luís de Freitas Branco tinha estabelecido para si mesmo.

Portanto, o meu pai acompanhava-o nas temporadas que ele passava no Alentejo. Recorde-se que o Luís o convidara a escrever na Arte Musical logo em 1942, quando o meu pai tinha 18 anos; foi com essa idade que publicou o seu primeiro artigo, o que diz muito, apesar de tudo, do respeito que já tinha ganho.

E as aulas particulares quando é que começaram, sabes exactamente?

As aulas particulares devem ter começado logo em 42/43. São anteriores, são bastante anteriores à saída dele do Conservatório. Mas ele era uma esponja!…

Tudo isso coincidiu com o processo contra o Freitas Branco, essa é a relação umbilical desta história…

Claro, evidentemente! No fundo, o Ivo Cruz armou aquela confusão por causa do meu pai ter sido testemunha abonatória do Luís de Freitas Branco no processo do professor, no processo do Mestre. E portanto aquilo foi uma desculpa que ele arranjou para pôr aquele aluno na rua.

O teu pai alguma vez sanou esse trauma em relação ao Ivo Cruz (pai)?

No fim da vida, sim. Em grande parte devido à influência da minha mãe. Porque a minha mãe era muito amiga do maestro Manuel Ivo Cruz, filho dele. De infância, de adolescência, porque o Manuel Ivo Cruz e o meu tio João Falcão Trigoso tinham sido colegas no Liceu e a minha mãe gostava muito de música, o Manuel Ivo também, iam aos concertos, à ópera, encontravam-se, eram amigos de adolescência, desde miúdos. Por isso juntos tentaram sanar aquilo e lá conseguiram! O meu pai, no final da vida, lá concedeu uma reconciliação. Ainda por cima eles tinham uma casa em Cascais, sítio onde também nós passávamos as férias. Portanto encontrávamo-nos ali naquele meio social, que na altura era minúsculo, e era um bocadinho aborrecido o meu pai continuar a virar-lhe as costas.

Artigo publicado na Glosas nº3, p.18-30.

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