Um novo livro de iconografia musical

Antes da era da reprodutibilidade técnica, que permitiu a reprodução fonográfica e de imagens em movimento e, mais tarde, de imagens sonoras em movimento, não havia senão testemunhos mudos das culturas musicais do passado. Nas tradições de música notada, só sobrevivia do gesto sonoro a sua tentativa de representativa simbólica. Nas outras tradições, as mais antigas e predominantes,  nem isso: apenas o silêncio enigmático das imagens; a representação de diferentes formas, situações e artefactos de uma comunição musical cuja substância sonora se perdeu para sempre. […] Mas, precisamente porque a música é o todo holístico em que ela ocorre e não apenas som – isto é, uma rede de relações de interação que não se confina ao momento performativo, antes incorpora instituições e processos sociais complexos de “musicar” (musicking) no sentido lato cunhado por Christopher Small (envolvendo os sistemas de produção, mediação, receção e múltiplos vetores contextuais) –, as imagens que nos chegam do ato de fazer música constituem, na sua mudez, um manancial de informação extraordinariamente eloquente. […] Os ensaios reunidos nesta publicação são bem demonstrativos dessas múltiplas linhas de pesquisa de iconografia musical que iluminam diferentes estratégias, quer da comunicação musical, quer da sua representação em imagem, quer dos projetos artísticos ou estéticos envolvidos nos objetos analisados.

               Mário Vieira de Carvalho, no prefácio à obra

 

Já se encontra disponível a publicação digital Iconografia Musical – Autores de Países Ibero-Americanos e Caraíbas, livro resultante de uma colaboração entre autores de língua portuguesa e espanhola no âmbito da iconografia musical, na sequência da aprovação de um grupo de estudos sobre América Latina e Caraíbas no seio da International Musicological Society (IMS).

Produzida pelo Núcleo de Iconografia Musical (NIM) do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM), esta é a primeira publicação de um objectivo maior: o lançamento de um livro digital por ano. Com edição de Luzia Rocha (Universidade Nova de Lisboa e Universidade Lusíada), este primeiro livro conta com colaboradores de várias instituições, como a Universidade de Oviedo, Universidade Complutense de Madrid, Conservatório de Girona (Espanha), Universidade Federal de Rio Grande do Sul (Brasil), Universidade Central de Venezuela (Venezuela), Universidade de las Artes de Camagüey (Cuba) e Universidade Nova de Lisboa (Portugal).

Juntando nove artigos de investigadores do NIM, como Luzia Rocha, Luís Correia de Sousa e Sónia Silva Duarte, e de convidados das instituições já referidas, esta publicação pretende principalmente divulgar a iconografia musical enquanto ampla área da musicologia, numa selecção de ensaios abrangente, preenchendo, em parte e segundo Luzia Rocha, a lacuna existente em relação a publicações sobre iconografia musical em Portugal. É também pretendida uma rápida difusão da publicação através da sua disponibilização gratuita.

Para descarregar o livro clique aqui.

Chegou o cavaleiro das mãos irresistíveis…

[alert type=blue ]D. Sancho, um misterioso fidalgo espanhol com pouco mais de vinte anos, é recolhido por D. Guterre em sua casa depois de um acidente enquanto cavalgava… mas corre o boato de que as suas mãos possuem um poder terrível e maligno…

A inquietante revelação vem perturbar o quotidiano familiar de D. Mór, mulher de D. Guterre, e de D. Beatriz, sua filha, de quem o hóspede imprevisto se enamora.

Durante a noite, num sonho enigmático e surpreendente, desvelam-se os medos e os desejos dos personagens face à presença do cavaleiro… Será que o perigo se confirma?[/alert]


 

[dropcap size=big]A[/dropcap]s últimas produções operáticas de Ruy Coelho (1889-1986) ouviram-se há cerca de meio século. Dentre a sua vasta produção neste género — aquele a que, de resto, mais energia e tempo dedicou ao longo de toda a vida —, destacam-se, em importância histórica, Serão da Infanta, sobre Theophilo Braga — a primeira ópera com libreto português a ser estreada por elenco nacional e em língua portuguesa no São Carlos, em 1913 —, Belkiss,  grande ópera em três actos, premiada num concurso internacional em Espanha em 1924, e  La robe des noces, estreada no Théâtre des Champs Élysées, Paris, em 1959, sobre libreto do seu amigo Charles Oulmont, uma das personalidades salvas por Aristides de Sousa Mendes no sombrio ano de 1940, e com quem viria a colaborar para mais uma peça dramática em 1968: La belle dame qui n’a pas péché.

É já no próximo mês de Abril que, com apoio da Direcção-Geral das Artes / Governo de Portugal, do Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada) e do Teatro Municipal do Porto, o Ensemble MPMP se propõe começar a redescobrir este património imenso, produzindo O cavaleiro das mãos irresistíveis, sobre Eugénio de Castro (1869-1944), uma ópera breve e das poucas que, no seu catálogo, foram escritas para um efectivo orquestral de menores dimensões — neste caso, orquestra clássica (prescindindo até de oboés). 

“A definitiva consagração do talento incontestável de Ruy Coelho”, escrevia-se n’A Voz depois da estreia em 1927. Num outro jornal, a compositora e crítica musical Francine Benoit registava também o seu apreço:

 

«[…] Ruy Coelho, magnificamente incansavel, dá-nos agora “O cavaleiro das mãos irresistíveis”. […] O sucesso da “première” — há instantes —, o entusiasmo do público selecto, que enchia completamente o nosso grande e belo teatro lírico, fazem prever mais representações […]. Instrumentalmente, Ruy Coelho faz prodígios; com tão reduzido número de figuras, de 26 professores apenas, manejou timbres, contrastes, em constante comentário do drama […] [O] jovem mas grande maestro [e] compositor […] recebeu ovações vibrantes, às quais nos associamos sem restrição. »

 

Para o espectáulo ora proposto, o Ensemble MPMP encomendou ainda uma nova ópera a Daniel Moreira cuja proposta dramática inscrever-se-á como interlúdio da ópera de Ruy Coelho, partindo do mesmo poema de Eugénio de Castro para o desenvolver sob outros aspectos, aqui com a recriação e adaptação literária de Edward Luiz Ayres d’Abreu.

Um elenco de excelente qualidade — a soprano Joana Seara, a meio-soprano Cátia Moreso, o tenor Marco Alves dos Santos e o barítono Job Tomé —, sob a direcção musical do maestro Jan Wierzba e com encenação de António Durães,  cenografia de Ana Gormicho, desenho de luz de Rui Simão e cinematografia de Mário Gajo de Carvalho (que participará como criador de uma peça para exibição durante parte do espectáculo) prometem uma noite certamente surpreendente para todos os melómanos portugueses.

Às récitas previstas para Almada (11 de Abril, Teatro Municipal Joaquim Benite) e Porto (18 e 19 de Abril, no Teatro Municipal do Porto — Campo Alegre), juntar-se-á ainda, na Biblioteca Nacional de Portugal, uma mini-mostra expositiva com manuscritos autógrafos e outros documentos.

Para comprar bilhetes e (ou) obter mais informações, visite aqui a página do projecto.

O garimpo musical de Régis Duprat

A revista glosas terá o privilégio de contar a partir de agora com a colaboração do ilustre musicólogo Régis Duprat, que assinará a rubrica Garimpo musical. O seu “garimpo” — terreno onde se exploram metais preciosos — consistirá, naturalmente, na exploração e revelação de inúmeros tesouros do património musical brasileiro, ao qual dedicou (e tem dedicado) centenas de páginas de investigação científica.

A primeira publicação, prevista para breve, lembrará um excerto de uma importante gravação histórica e dará a conhecer um pouco do que foi a vida e obra de André da Silva Gomes (Lisboa, 1752 ~ São Paulo, 1844), compositor que Duprat estudou afincadamente durante muitos anos.

 

 

Régis Duprat nasceu no Rio de Janeiro em 11 de Julho de 1930. Formado em História pela Universidade de São Paulo na década de 1950-60, teve como professores Florestan Fernandes (Sociologia), Emilio Willems e Egon Schaden (Antropologia e Etnologia) e Sérgio Buarque de Hollanda (História do Brasil), este último como orientador da tese de doutorado, defendida na Universidade de Brasília. Na Música foram seus professores Johannes Oelsner (viola de arco e música de câmara), Olivier Toni e Claudio Santoro (Harmonia, Contraponto e Composição).

Em Paris, na década de 1960, estudou com Fernand Braudel (História) na Escola de Altos Estudos, Jacques Chailley (Musicologia) no Instituto de Musicologia da Sorbonne e Marcel Beaufils (Estética Musical) no Conservatório de Paris.

Actuou como músico profissional na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo, na Orquestra da Rádio Nacional, diversos quartetos de cordas e gravações da MPB.

Especialista em música do período colonial brasileiro, descobriu em 1958 o manuscrito musical mais antigo do Brasil, o Recitativo e Aria de compositor anónimo da Bahia, datado de 1759. Em 1980 trouxe à luz musicológica o manuscrito musical de Mogi das Cruzes, São Paulo, que antecede cronologicamente o da Bahia, com data estimada de 1730. Resgatou a obra do mestre-de-capela da Matriz e Sé de São Paulo, André da Silva Gomes, realizando o catálogo de obras, edição de partituras, concertos e gravações de inúmeras obras. Coordenou o projecto de recuperação e catalogação dos manuscritos musicais da Coleção Francisco Curt Lange do Acervo de Manuscritos Musicais do Museu da Inconfidência de Ouro Preto, que resultou na publicação de catálogo de obras, edição de partituras, concertos e gravações de inúmeras obras. Resgatou o repertório de bandas do Vale do Paraíba do séc. XIX e, juntamente com seu irmão Rogério Duprat, gravou cinco LPs.

A sua contribuição para a história da música popular brasileira abrangeu géneros desde o século XVIII (modinha e lundu), os séculos XIX-XX (dobrados, valsa, polca, maxixe, tango e os diversos géneros híbridos) até a ascensão do rádio e da indústria fonográfica (samba e música caipira/ sertaneja).

Envolvido com a música contemporânea, foi signatário do Manifesto Música Nova (1963). Professor na Universidade de Brasília no período inaugural daquela instituição, integrou a equipa docente formada pelo compositor Claudio Santoro. Contribuiu para a implantação e consolidação da pós-graduação na área de música no Brasil e foi co-fundador da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música – ANPPOM. É sócio honorário da Sociedade Brasileira de Musicologia e coordenador da secção de música erudita da Enciclopédia da Música Brasileira (ed. Marcos Marcondes, São Paulo: Art Editora, 1977, 1998 e 2001). É autor de mais de 150 trabalhos publicados, entre livros, capítulos de livros, artigos em periódicos académico-científicos, palestras, partituras, entrevistas, LPs e CDs.

É ainda membro eleito da Academia Brasileira de Música (cadeira n.º 10). Recebeu o Prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais (1970) e o Prêmio Clio de História da Música (1996). Foi Professor Titular da Universidade Estadual Paulista e da Universidade de São Paulo.

 

Canto e piano na ilha das Flores

Amanhã, dia 21 de Fevereiro, pelas 20h00, terá lugar no auditório do Museu Municipal de Lajes, ilha das Flores, um recital de canto e piano, promovido pela Câmara Municipal de Lajes das Flores, que inicia o ciclo de comemoração dos quinhentos anos do Concelho de Lajes e Paróquia de Nossa Senhora do Rosário.

Neste recital o público poderá ouvir o barítono José Corvelo (natural de Fajãzinha, uma das freguesias do concelho) e a meio-soprano Larissa Savchenko, acompanhados pela pianista Carla Seixas, com um programa que inclui várias árias a solo e duetos de óperas de W. A. Mozart, Gioacchino Rossini e Giuseppe Verdi.

O recital está integrado na sessão solene de abertura das comemorações dos quinhentos anos da fundação do Concelho de Lajes das Flores e Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, que contará com as intervenções do Presidente da Câmara Municipal, Dr. Luís Maciel, e do Ouvidor Eclesiástico da ilha das Flores, Padre David Barcelos.

As comemorações irão estender-se pelo ano de 2015 com diversos eventos culturais envolvendo diversas instituições e individualidades do mais ocidental concelho português.

 


 

José Corvelo é licenciado pela Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, na classe de José de Oliveira Lopes. Foi-lhe atribuído o prémio Eng.º António de Almeida, que distingue os melhores alunos finalistas das universidades portuenses. Participou em masterclasses com Oliveira Lopes, Fernanda Correia, Rudolf Knoll, Lamara Tchekónia, Ambra Vespasiani, Enza Ferrari, Ettore Nova e Daniel Muñoz. Apresenta-se frequentemente em recitais com os pianistas Luís Magalhães, Carla Seixas, Pedro Ludgero, João Vale, Joana David e João Queirós. Foi solista em obras como os Magnificat em dó e sol de Telemann, nas Paixões segundo S. Mateus e S. João de Bach, O Messias de Haendel, A Criação e Stabat Mater de Haydn e óperas como La serva padrona e La contadina astuta de Pergolesi, D. Quixote chez la Duchesse de Boismortier, The Little Sweep de Britten, Hin und Zurück de Hindemith, La donna di genio volubile de Marcos Portugal, A flauta mágica, As bodas de Figaro, Don Giovanni de Mozart, entre outras. Foi dirigido por maestros como Ferreira Lobo, Osvaldo Ferreira, Rafael Montes Gómez, Julian Reynolds, Stephen Darlington entre outros.

De origem ucraniana, Larissa Savchenko iniciou os estudos musicais no Conservatório Nacional do país de origem, obtendo o diploma de Canto Lírico. Na Ópera de Kiev interpretou óperas como Rigoletto de Verdi, Fausto de Gounod, Evgeny Onegin, Iolanta e A noiva do Czar de Rimsky-Korsakov, entre outras. Foi também solista em obras como os Requiem de Mozart e Verdi e o Stabat Mater de Rossini. Foi professora de Canto no Conservatório Regional de Ponta Delgada e em 2001 começou a leccionar na Escola de Música do Conservatório Nacional em Lisboa. No Teatro Nacional de S. Carlos integrou o elenco de óperas como Alexander Nevsky, Charodeika, Jeanne d’Arc au bücher, Iolanta e Aleko e Madama Butterfly. Foi solista ainda em obras como a Petite messe solenelle de Rossini e Stabat Mater de Dvorák. Em 2007 integrou o elenco de Iolanta em Itália, sob a direcção de Vladimir Fedoseev, e em 2008 da Cavalleria rusticana com a Companhia Portuguesa de Ópera. Integrou ainda a ópera Outro fim de António Pinho Vargas.

Nascida em Luanda, Carla Seixas iniciou os seus estudos no Conservatório Nacional com Noémia de Brederode e Olga Prats, prosseguindo-os com Sequeira Costa e Tânia Achot. Diplomada em 1977 com classificação máxima, frequentou enquanto bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian a classe de piano de Sequeira Costa na Universidade do Kansas. Estudou ainda em Paris com Jean Fassina. A sua actividade tem-se repartido pelo repertório a solo e pela música de câmara, tendo-se apresentado já nas principais salas de concerto portuguesas e inúmeros países. Com a soprano Lia Altavilla gravou o ciclo de canções Saudades da Terra do compositor açoriano Francisco de Lacerda; o CD, agora esgotado, está disponível no canal Youtube do MPMP. Entre 1978 e 2011 foi professora de Piano na Escola de Música do Conservatório Nacional, leccionando actualmente na Academia de Santa Cecília.

Zeca Afonso em Tavira: intervenção mas não só

Para comemorar a constituição do núcleo do Algarve da Associação José Afonso (AJA) realizou-se no Sábado 14 de Fevereiro um evento que reuniu alguns dos mais famosos nomes da música portuguesa.

Vitorino abriu o concerto numa formação que incluiu Zé Francisco na guitarra, Sérgio Costa no baixo, Rui Alves na bateria, Paulo Borges nas teclas e Daniel Salomé no clarinete. Em breve se lhes juntou a bela voz de Filipa Pais. Modificaram-se letras de acordo com a conjuntura actual, sendo que “tive o diabo na mão” se transformou em “tive um coelho na mão”. O tema A morte saiu à rua foi dedicado a Alípio de Freitas, convidado de honra presente no público. A este eclesiástico revolucionário, opositor da ditadura e preso político, autor do livro Resistir é Preciso dedicara José Afonso um tema no álbum As minhas Tamanquinhas. Janita reordou-nos A formiga no carreiro, Era um redondo vocábulo e A Ronda das Mafarricas: “estavam todas juntas, 400 bruxas…” As alusões à senhora Merkel não se fizeram esperar.

 

 

A voz clara e límpida de Francisco Fanhais soou então em Olha o sol que vai nascendo, e o cantar de outros poemas como Jerusalém essa terra prometida de leite e mel “porque sem utopias não vivemos, são elas que nos fazem caminhar, são elas que nos fazem não desistir”, afirmou emocionado.

 

 

O concerto incluiu também as vozes locais algarvias de Afonso Dias, Tânia Silva e Luís Galrito.

 

 

Fechou o concerto o sobrinho do homenageado, João Afonso, a cuja guitarra e voz se lhe juntou Sérgio Cardoso Pires. A interpretação de Que amor não me engana comoveu o apinhado auditório.

 

 

O concerto terminou em festa, com todos os músicos em palco e luz à sala, fronteiras entre artistas e público esbatidas, num Grândola Vila Morena sentido e arrojado.

 

 

 

De tanto cantar abriu-se o apetite, o vinho correu e a conversa fluiu no jantar de convívio. Francisco Fanhais, fundador e presidente da AJA desde 1987, contou como começou em 1969, espicaçado por José Afonso, a pôr a voz ao serviço da liberdade. Hoje considera que “chegámos a uma situação em que não nos podemos calar!”. Consciente das conotações políticas da música do homenageado, afirmou que “há pessoas que intervêm pela música e não música de intervenção!”…

Aliás, esta percepção foi partilhada por outros músicos. Paulo Borges frisou a importância de se “distinguir uma canção maravilhosa, independentemente de ser política ou não”. Também Sérgio Costa considera que “Zeca é em tudo brilhante, independentemente da ideologia e talvez por isso mesmo veicule tão bem o que se quer dizer”. Sérgio Cardoso Pires adjectivou José Afonso de “homérico”, emocionado pela enorme honra e prazer que é interpretar a sua música cuja beleza, profundidade e força tocam a alma humana. “Zeca era um homem inteiro!” e essa inteireza, o seu sentido de justiça, a sua completude, no seu entender, transparecem na sua arte.

João Afonso confessou sentir uma grande responsabilidade, aliada a um enorme prazer ao interpretar a música do tio, cuja qualidade e diversidade não se resume a questões de intervenção ou políticas, até porque “é preciso não entrar em demagogias fáceis nem em populismos! Há que ouvir, ler, informar-se!”. Considerou ainda que a multiplicidade de universos na música de José Afonso permitiu que o projecto “Um redondo Vocábulo”, que desenvolveu com o pianista João Lucas, obtivesse um grande êxito na Islândia, onde obviamente não se fala português e a música vale por si, desvinculada das conotações de intervenção política que por vezes se tornam redutoras.

Mozart, Wagner e Jerónimo Francisco de Lima em Évora

No próximo dia 27 de Fevereiro, o auditório do Colégio Mateus de Aranda, da Escola de Artes da Universidade de Évora, acolhe pelas 21h30 o segundo concerto do ciclo “A Sinfonia Clássica”, integrado na temporada regular 2015 da Orquestra Clássica do Sul, dirigida por Vasco Pearce de Azevedo.

A obra central no programa deste concerto é a Sinfonia n.º 36 em dó maior KV. 425 de Wolfgang Amadeus Mozart, também conhecida como a ‘Sinfonia Linz’, por ter sido escrita nesta cidade austríaca (e aí estreada) em apenas quatro dias.

Do programa também constam a abertura da ópera Le nozze d’Ercole ed Ebe do compositor setecentista português Jerónimo Francisco de Lima e o poema sinfónico Siegfried-Idyll WWV. 103 de Richard Wagner.

No seguimento do protocolo de colaboração assinado entre a Universidade de Évora e a Orquestra Clássica do Sul a 30 de Outubro de 2014, irão participar neste concerto vários alunos do Departamento de Música desta universidade.

Fundada em 2002 como Orquestra do Algarve, em Setembro de 2013 foi reorganizada como Orquestra Clássica do Sul, com o objectivo de levar a sua missão às regiões do Algarve, do Alentejo e da Península de Setúbal, assim como à região espanhola da Andaluzia. Contando com o patrocínio da Caixa Geal de Depósitos enquanto mecenas extraordinário, a orquestra tem o Turismo do Algarve, a Universidade do Algarve e também os municípios algarvios como associados, aos quais se juntou em 2014 a Universidade de Évora. O protocolo celebrado entre estas duas instituições oficializou a parceria de promoção e divulgação da cultura musical, fomentando a actividade artística da OCS em Évora e a colaboração formativa, proporcionando estágios e prática orquestral aos alunos do Departamento de Música da universidade.

Se houvesse guitarras no céu…

No próximo dia 27 de Fevereiro, pelas 21h00, o Museu do Pico apresentará no Auditório do Museu dos Baleeiros Não me importava morrer se houvesse guitarras no céu, filme sobre o “bailho” da chamarrita nas ilhas do Pico e do Faial.

O documentário do realizador Tiago Pereira, produzido pela Associação Cultural Música Vadia com financiamento da Direcção Regional da Cultura do Governo Regional dos Açores, pretende consciencializar a opinião pública sobre a existência e valor enquanto património imaterial desta prática musical coreografada proveniente dos Açores: o baile mandado da chamarrita.

Esta dança, praticamente desconhecida no continente português, tem uma grande repercussão em vários tecidos da comunidade, em especial nas ilhas do Faial e Pico. O filme pretende, assim, descobrir e transmitir as influências a que estas comunidades do canal foram expostas e o modo como se foram actualizando nas suas práticas quotidianas. Procura-se também descobrir o que é hoje a chamarrita e como se envolve com as pessoas e se mistura com outros contextos assim como outros sujeitos.

Musicalmente, é mostrado como um músico personagem procura na chamarrita sons que o cativem, técnicas especiais de tocar o instrumento tradicional – que neste caso é a viola da terra – e as formas como se funde com as ilhas e com o seu isolamento.

Não me importava morrer se houvesse guitarras no céu pretende ainda contribuir para mudar a mentalidade negativa de olhar e pensar a cultura tradicional e popular portuguesa, dando a conhecer uma ideia de cultura mais rica e singular do que se possa presumir, e provocando um olhar renovado para as particularidades das práticas quotidianas que muitas vezes se desprezam, banalizam ou se perdem com o desaparecimento das gerações mais velhas. Educar para a consideração e valorização do património imaterial é, sobretudo, a mensagem a ser destacada por este filme.

Joel Vaz e Diana Botelho Vieira: de Benjamim Britten a Sérgio Azevedo

No passado dia 14 de Fevereiro realizou-se um recital de oboé e piano na Igreja do Convento dos Remédios em Évora, promovido pela Associação Eborae Musica, cujo Conservatório Regional de Évora funciona em parte deste antigo convento carmelita.

Foram intérpretes Joel Vaz (oboé) e Diana Botelho Vieira (piano), solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, que colaborou com a associação eborense na organização do recital. O programa compôs-se pelas obras Temporal Variations de Benjamin Britten, Obsession para oboé e piano de Makoto Shinohara, Duo Concertante de Antal Dorati e Pocket Sonatina para oboé e piano de Sérgio Azevedo.

Joel Vaz é licenciado pela Academia Nacional Superior de Orquestra, na classe de Sally Dean. Possui o ‘Master Concert’ da Haute École de Musique de Genève, na classe de Roland Perrenoud. Já colaborou com várias orquestras e agrupamentos entre os quais se destacam a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, Camerata Venia, Orquestra Gulbenkian, Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Orchestra de la Suisse Romand. Apresentou-se como solista com a Orquestra Académica Metropolitana, Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras e a Orquestra de Câmara da Guarda Nacional Republicana.

Diana Botelho Vieira possui o Mestrado em ‘Piano Performance’ pela Chicago College of Performing Art, na classe de Ludmila Lazar, e a Licenciatura em Piano, Música de Câmara e Acompanhamento pela Academia Nacional Superior de Orquestra, na classe de Alexei Eremine. Encontra-se actualmente a realizar Doutoramento na Universidade de Évora. Apresentou-se em salas de concertos conhecidas nos E. U. A. como o Northwestern University Lutkin Hall, Rudolph Ganz Concert Hall, PianoForte Foundation (em Chicago), Charles Mosesian Theater, Brown University Auditory, New England Music Conservatory (em Boston) assim como na Casa de la Música, no Equador, e em Portugal. Participou também em vários festivais e masterclasses.

A Associação Eborae Musica foi criada em 1987 e, para além do Conservatório, desenvolve uma importante actividade musical na cidade de Évora, com a organização de workshops como as Jornadas “Escola de Música da Sé de Évora” e a Oficina de Canto Gregoriano, e vários ciclos de concertos em que se incluem “A Quaresma na Escola de Música da Sé de Évora”, “Música nos Claustros”, “Música no Inverno” e “Musicando” e ainda o “Prémio José Augusto Alegria – Concurso para Jovens Intérpretes” e um Prémio de Composição.

O programa deste recital irá ser repetido dia 21, pelas 18h00, no Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria.

 

HARMOS Classical 2015

Começa já no dia 3 de Março mais uma edição do Festival HARMOS Classical, uma iniciativa cultural que decorre desde o ano de 2006, dedicada à música de câmara, e que desde esse ano tem trazido agrupamentos provenientes dos cinco continentes à zona norte do nosso país.

Anualmente, esteve evento conta com a colaboração e participação da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (ESMAE), pólo do Instituto Politécnico do Porto, sua anfitriã, bem como com o apoio da Casa da Música.

Entre as Cidades HARMOS contam-se Barcelos, Lousada, Guimarães, Fafe, Vizela, Vieira do Minho, Famalicão e Póvoa do Lanhoso, entre outras, neste que é um festival dedicado, sobretudo, ao trabalho desenvolvido nas instituições europeias de ensino superior artístico, mais concretamente musical.

Na sua génese, o HARMOS pretende desmistificar e tornar acessível este género musical a um público que se pretende cada vez mais abrangente, não só por não se assumir como um espectáculo elitista  antes pelo contrário  mas também por trazer um grupo de intérpretes todos eles jovens, que continuamente desenvolvem e renovam esta prática musical.

Nesta edição de 2015 é possível contar com a presença do Trio Calvino, Helios Trios, Barbican Quartet, Animato Quartet & Anne Brackman, Stratos Quartett, originários de Basileia, Amsterdão, Londres, Leipzig, Bruxelas, etc., e dos respectivos conservatórios e escolas superiores de música destas cidades (Guildhall School of Music and Drama Londres, Koninklijk Conservatorium Den Haag, Universität für Musik und darstellende Kunst Wie, Austria)…

Entre os agrupamentos portugueses regista-se a presença do Quinteto de Sopros e do Opus III, da ESMAE, bem como do Quarteto Costa da ANSO (Academia Nacional Superior de Orquestra).

Desde 2013 o HARMOS leva a cena outro festival, o HARMOS Plural, que por sua vez abre portas a instituições fora do espaço europeu em homenagem à arte sonora, ao jazz, à world music, ao rock, pop e música electrónica. Ao contrário do HARMOS Classical, este festival aproveita para explorar espaços ao ar livre e espaços improvisados. O conceito HARMOS afigura-se assim como um meio divulgador e como um motor para a promoção da coesão no que se refere ao acesso cultural por parte dos mais diversificados públicos.

A sua programação completa poderá sem consultada aqui.

Severa — o fado de um fado

Encontra-se aberto até ao próximo dia 31 de Março um programa de financiamento colectivo para a edição de um CD da soprano Ana Barros, do pianista Bruno Belthoise e do guitarra portuguesa convidado Miguel Amaral. Severa — o fado de um fado propõe-se revisitar alguns dos fados mais tradicionais à luz  da renovada contemporaneidade de tradição erudita ocidental, aqui representada pelos compositores Carlos Marecos, Carlos Azevedo e Sérgio Azevedo.

O projecto mereceu a colaboração da Antena 2, do Instituto Camões, do Prof. Dr. Rui Vieira Nery (consultor científico), de João Braga (consultor artístico) e do Museu do Fado, que desde cedo reconheceu o seu valor atribuindo-lhe o carimbo ‘Fado — Património da Humanidade’.

Para além da gravação de um disco, o projecto inclui ainda a realização de concertos.

Para visitar a página de financiamento colectivo, clique aqui.

Ver ainda:


 

Ana Barros estudou Canto na Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo do Porto, frequentando as classes de Rui Taveira e Fernanda Correia. Foi membro do elenco do Estúdio de Ópera da Casa da Música, onde trabalhou com P. Harrison, L. Marshall e J. Cohen. Contactou ainda com Jill Feldman, Philip Langridge, Gundula Janovic, Laura Sarti e Elisabete Matos. Teve a oportunidade de cantar sob a direcção de José Luís Borges Coelho, Rui Massena, Antonio Saiote, Manuel Ivo Cruz, Martin André, Christoph König, Giovanni Andreoli e Marc Tardue. Apresentou-e no Teatro Rivoli, Casa da Música, Coliseu do Porto,  Fundação Calouste Gulbenkian, São Carlos, São Luiz, Teatro da Trindade e Culturgest. Estreou obras de Vasques-Dias, Côrte-Real, Eugénio Amorim, Fernando Lapa, Carlos Azevedo, Faria Gomes, Chagas Rosa, Sara Carvalho e Alexandre Delgado, entre outros.

Pianista, escritor e improvisador, Bruno Belthoise é vencedor da Fundação Laurent-Vibert e recebe o Prix de la Fondation de France em 1988. Obteve o Diploma de Execução na École Normale de Musique de Paris em 1989 e foi “Revelação Clássica” ADAMI em 1997. Solista e membro do Trio Pangea, estreou várias obras de compositores como Emmanuel Hieaux, Alexandre Delgado, Bernard de Vienne, Fernando Lapa, Sébastien Béranger ou Sérgio Azevedo. Bruno Belthoise executa um repertório que vai de J. S. Bach até aos compositores contemporâneos. Gravou uma vintena de CDs que acompanham a sua trajectória de intérprete criativo. A sua curiosidade natural levou-o a pôr o seu talento ao serviço dos compositores portugueses do século XX. Na sua carreira tem sido apoiado por instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Instituto Camões, o Ministério da Cultura e a Antena 2.

Miguel Amaral nasceu no Porto em 1982. Iniciou os estudos de Piano com a professora Madalena Leite de Castro com 6 anos. Estudou Guitarra Portuguesa com Samuel Cabral e José Fontes Rocha. Inicia os estudos de guitarra portuguesa com Pedro Caldeira Cabral. Estuda Análise, Harmonia e Contraponto com Daniel Moreira e Composição com Dimitris Andrikopoulos. Das suas mais recentes apresentações como solista, destaca-se o recital na Casa da Música em 2009, e em Outubro de 2011 o recital na Gulbenkian, inserido no festival Prémio Jovens Músicos, com transmissão em directo na Antena 2, onde, para além das suas composições, estreou obras de Mário Laginha, Andrikopoulos, Daniel Moreira e Igor C. Silva. Em 2013 lança Chuva Oblíqua, o seu álbum de estreia. Integra o Novo Trio de Mário Laginha, gravando o disco Terra Seca, no qual assina a peça Fuga para um dia de Sol. Desde 2010 faz parte da orquestra do espectáculo “Sombras” de Ricardo Pais.

 

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