Dez composições de dez compositores portugueses

Até ao início do mês de Outubro estará aberta uma campanha de financiamento participativo na plataforma ULELE. Trata-se de uma angariação de donativos para a realização do projecto “Dez Composições de Dez Compositores Portugueses”. O projecto, levado a cabo por dois quartetos, o Grupo Vocal Olisipo e o Paris Guitare Quartet, reúne dez encomendas a dez compositores portugueses, de obras para guitarra e voz sobre textos de escritores também portugueses. O objectivo será realizar um álbum editado pelo mpmp, e ainda um vídeo do concerto de estreia, sendo de igual modo realizadas edições das partituras pela AvA Musical Editions.

O projecto reúne obras de António Pinho Vargas, Fernando Lapa, Carlos Marecos, Sérgio Azevedo, Nuno Côrte-Real, José Carlos Sousa, Tiago de Sousa Derriça, Edward Luiz Ayres d’Abreu, Daniel Davis e Anne Victorino d’Almeida, que compõem a partir de textos de Álvaro de Campos, Sophia de Mello Breyner, Antero de Quental, Tomás Moital, Natália Correia, António Nobre, Florbela Espanca e Herberto Hélder.

O Grupo Vocal Olisipo é constituído por Elsa Cortez, Lucinda Gerhardt, Carlos Monteiro e Armando Possante, e dedica-se à execução de um vasto e ecléctico repertório, e mais recentemente à apresentação de obras de compositores contemporâneos, como Bob Chilcott, Ivan Moody, Christopher Bochmann, Eurico Carrapatoso, Vasco Mendonça, Luís Tinoco e Manuel Pedro Ferreira, entre outros. Tendo já actuado em salas de concertos por todo o país e colaborado com inúmeras orquestras e agrupamentos nacionais, este quarteto apresentou-se também em concertos por toda a Europa e foi já distinguindo com vários prémios e menções honrosas em concursos de interpretação.

O Paris Guitare Quartet foi fundado recentemente, no ano de 2014, tendo como membros Quitó de Sousa Antunes, Sébastien Lechanoine, Thomas Baron e Marc Salvatore. As diferentes formações e interesses dos vários músicos tornam o quarteto muito variado em termos de repertório, dedicando-se quer a música clássica dos vários períodos, quer a jazz ou a bossa-nova, nomeadamente a obras da autoria de Telemann, Bach, Brahms, Albéniz, Poulenc, Debussy, Ravel, Piazzolla, entre outros.

Para mais informações e para colaborar na realização deste projecto, clique https://fr.ulule.com/10-compositeurs/ .

Estudos Incomunicantes I/A de Álvaro Salazar

“O estilo é o homem.”

Álvaro Salazar

 

Idealizado e fundado no decorrer de 2001, o Atelier de Composição é uma associação cultural vocacionada para a divulgação e promoção da música portuguesa contemporânea. Entre as suas actividades conta-se a publicação de livros, a organização de concertos, conferências, encontros de compositores, exposições, publicações de partituras entre outros.

 

 

É pela mão do Atelier de Composição que nos surge um livro, um CD e um documentário sobre Álvaro Salazar (Porto, 1938 -). Compositor, chefe de orquestra, professor e crítico musical, Álvaro Salazar é uma figura incontornável do panorama musical nacional e internacional. A obra Estudos Incomuncantes I/A, gravada na Casa da Música no Porto, conta com a participação de Eugénia Chvets (piano I), Elsa Marques Silva (piano II), Inês Vicente (recitante), membros do Coral de Letras da Universidade do Porto (Ana João Anahory, Paula Brochado, Mariana Carrilho, Jorge Grave, Inês Marques, Pedro Marques, João Vasco Rodrigues e Matias Schöner), José Luís Borges Coelho (direcção coral) e Virgílio Melo na direcção artística. O CD apresenta-nos também um booklet  com o texto de 2007 de Álvaro Salazar, precisamente intitulado Estudos Incomunicantes, como introdução à música que se escutará (“Breve poalha alada de um alfabeto ignoto, as flébeis esparsas cintilações do nada vindas, ao nada recolhendo. Ou marcos — dir-se-á — pelo oco da noite deslizantes, insondáveis sinais que o silêncio esculpiu, medindo o Tempo o Espaço os mundos solitários. Dilui o manto negro voraz ressonâncias, as longínquas pulsões que poucos sentem mesmo se escutando”), música essa que mostra imediatamente ao ouvinte,  nos seus primeiros compassos, que estamos perante música de Álvaro Salazar. Para quem for ousado, sugere-se a audição associada a uma meditação intensa do conteúdo do texto de Álvaro Salazar, que nos transportará para a dimensão do comunicante/incomunicante. Avisa-se o leitor/ouvinte que poderá com toda a probabilidade sentir uma revolução no domínio das sensações e dos sentidos ao ouvir a obra de Álvaro Salazar. Muito interessante é a inclusão de iconografía no CD, quatro fotografias de alta qualidade artística de Bruno Nacarato, que são um registo a ter em conta para o futuro.

Para além do CD contamos também com um valioso livro sobre Álvaro Salazar que contém intervenções de António Pinho Vargas, Virgílio Melo, João Pedro Oliveira, Mário Vieira de Carvalho e Maria João Reynaud, bem como uma entrevista ao compositor por Pedro Junqueira Maia. O livro termina com uma útil listagem de obras, partituras e discografia. Sem dúvida, recomenda-se a leitura na íntegra.

 

 

Também interessante é o trailer do documentário sobre Álvaro Salazar visível na página do Atelier de Composição (e aqui acima). Trata-se de um trabalho de Bruno Nacarato onde se podem ver e escutar fragmentos em que Álvaro Salazar fala sobre si próprio, sobre composição e sobre esta sua obra. Destaca-se a descrição que o compositor faz de si mesmo, de forma crua e clara: “Sou um homem velho, baixo, zarolho de um olho, vendo muito mal do outro, portanto, sou o que se pode dizer, em português, um pobre diabo… também não me quero pôr de rastos. Acho que tenho alguma capacidade de compôr num mundo onde há milhares de compositores, milhões, talvez, uns melhores, outros piores”.  Sobre a sua obra fala-nos de “uma contradição assumida em muita da minha música, entre uma gramática tonal mas com repetição que polariza certas notas e certas coisas, logo dá a ideia de um tonalismo que não tem”.

 

Segunda edição de ‘Reencontros’ no Palácio Nacional de Sintra

Um ano depois de ter trazido a Portugal alguns dos mais importantes intérpretes da actualidade da música do final da Idade Média, do Renascimento e dos alvores do Barroco, o ciclo Reencontros – Memórias Musicais de um Palácio regressa ao ambiente privilegiado do Palácio Nacional de Sintra entre os dias 3 e 25 de Junho. Resultante da parceria entre a empresa Parques de Sintra, entidade responsável pela gestão do Palácio, e o Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal, o ciclo conta com a direcção artística de Diana Vinagre e desenvolver-se-á ao longo de diversos concertos e conferências que decorrerão todas as sextas-feiras e Sábados do mês, na Sala dos Cisnes, na Sala do Brasões e na Sala Manuelina do Palácio de Sintra, espaços que se contam entre os mais simbólicos e representativos da identidade portuguesa.

Não é, todavia, no interior do Palácio Real quatrocentista que terão início estes segundos Reencontros, mas, se as condições meteorológicas o permitirem, no terreiro exterior, hoje consagrado à memória da Rainha D. Amélia, com um “Baile Renascentista” de entrada livre, pela Compagnie Outre Mesure, na sexta-feira, dia 3, às 21h30 (o espectáculo será apresentado no interior do Palácio em caso de condições meteorológicas desfavoráveis). No dia seguinte, Sábado, o mesmo agrupamento apresenta, na Sala dos Cisnes, o espectáculo A Europa Exuberante, centrado na cultura do Ducado da Borgonha no século XV, com a reconstituição das danças ao cuidado de Ana Yepes e Nadia Boissard. Precede este programa uma conferência proferida pelo Prof. Doutor Manuel Pedro Ferreira, subordinada ao tema “Borgonha: emergência política e conexões culturais (sécs. IX-XV)”, na Sala Manuelina, às 20h00.

Na semana seguinte, a 11 de Junho, o agrupamento Oltremontano, sob a direcção de Wim Becu, dará a ouvir, também na Sala dos Cisnes, um programa constituído por obras italianas da transição entre os séculos XVI e XVII, cujo título, Balliamo che l’onde, remete para uma festiva obra de temática clássica incluída no Libro Settimo de Madrigali de Monteverdi, sobre o amor arcádico de Tírsis e Clóris, personagens modeladas nos exemplos literários de Teócrito e Vergílio. Além do Ballo di Tirsi e Clori do mestre cremonense, que conclui o concerto, ouviremos obras de Alessandro Striggio, Giorgio Mainerio, Antonio Valente, Orazio Vecchi e Michael Praetorius. Em relação directa com este programa, às 20h00, será possível assistir a uma conferência apresentada pelo Prof. Doutor Manuel Pedro Ferreira sobre “Música para bailar e música para cantar”, na Sala Manuelina.

Regressando ao final da Idade Média com o estilo dos autores de Avignon que hoje conhecemos sob a designação de Ars subtilior, teremos, a 18 de Junho, um espectáculo apresentado pelo agrupamento mais célebre que, nos nossos dias, tem sido responsável pela redescoberta deste repertório de transição extremamente elaborado e complexo. Dirigido por Pedro Memelsdorff, Mala Punica (o nome em latim para “romã”) ocupa desde há décadas um lugar inquestionável no plano internacional para os amantes da música dos séculos XIV e XV. Reflectindo justamente a natureza dúplice da música litúrgica dos autores influenciados pela Ars subtilior, o programa do concerto que trazem à Sala dos Cisnes, com obras de Matteo da Perugia e Antonio Zacara da Teramo, intitula-se Missa Cantilena: Travestimenti litúrgicos no final da Idade Média em Itália (1380-1410). A última conferência do Prof. Doutor Manuel Pedro Ferreira neste ciclo, proferida novamente na Sala Manuelina e versando sobre “A era da filigrana sonora”, precederá o concerto, oportunidade raríssima em Portugal para ouvir ao vivo este repertório.

No último fim-de-semana de Junho, concluindo o ciclo, haverá dois concertos, sendo o primeiro um recital a solo da harpista Sara Águeda Martín, a 24 de Junho, na Sala dos Brasões, com repertório barroco de fontes organísticas ibéricas dos séculos XVI a XVIII, singular oportunidade para ouvirmos, em harpa de duas ordens, uma das perspectivas de interpretação mais frequentes e importantes do âmbito de uma literatura que, nos nossos dias, comummente associamos, de forma anacrónica, apenas aos instrumentos de tecla, e especificamente ao órgão, mas que era concebida indistintamente para instrumentos de corda dedilhada e de tecla, em particular até ao desenvolvimento do teclado dividido na Península Ibérica e à autonomização progressiva da técnica organística, em meados do séc. XVII.

No dia seguinte, na Sala dos Cisnes, o agrupamento Seconda Pratica apresenta um programa construído em torno da figura de Gil Vicente, Ridendo, recorrendo sobretudo à música preservada nas colecções maneiristas que conhecemos como os cancioneiros de Elvas, de Palacio, de la Colombina, Paris, Medinacelli, Uppsala e Montecassino. Um dos maiores estudiosos portugueses do teatro vicentino dos nossos dias, o Prof. Doutor José Camões, proferirá, na Sala Manuelina, uma conferência sobre “O papel da música no teatro de Gil Vicente”, precedendo este concerto.

A par da programação nocturna, o ciclo Reencontros integra ainda quatro concertos comentados, às 15h00 de cada Sábado, de entrada livre para os visitantes do Palácio, que terão lugar na inigualável Capela Palatina. Versando igualmente sobre o repertório do final da Idade Média, do Renascimento e do Barroco inicial, estes espectáculos serão apresentados, em sequência, pelo Ensemble de Alaúdes de Évora, Piccolin Ensemble, Ensemble Pictórico e Ensemble Ensemble Sopranuscontrabassus.

Aproxima-se a estreia portuguesa de ‘Onheama’ de João Guilherme Ripper

A ópera Onheama será apresentada nos dias 21 e 22 de Maio, no Cine-Teatro Municipal de Serpa, integrando-se no Festival Terras Sem Sombra. O Teatro Nacional de São Carlos participa com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, solistas e coro adulto. Participará ainda o coro infanto-juvenil do Instituto Gregoriano de Lisboa. Dirige o maestro brasileiro Marcelo de Jesus (Filarmónica do Amazonas). No elenco dos solistas participam Carla Caramujo, Inês Simões, Marco Alves dos Santos, Nuno Pereira e Carolina Andrade. A encenação é da responsabilidade do dramaturgo argentino a trabalhar em Portugal, Claudio Hochmann. 

A ópera está a ser integralmente montada em Serpa: os figurinos e a cenografia, da autoria de Miguel Costa Cabral, estão a ser elaborados na Oficina do Traje e nas oficinas de serralharia e carpintaria da Câmara Municipal de Serpa pelos funcionários da autarquia. Os protagonistas, mais de centena e meia de pessoas, incluem crianças e jovens das escolas de Serpa. 

A peça de João Guilherme Ripper, um dos mais importantes autores musicais brasileiros dos nossos dias — compositor, director de orquestra, professor e presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro —, estreou em 2014, no Festival Amazonas, de Manaus, com grande êxito, e foi reposta no ano seguinte atingindo de novo enorme sucesso. Esta é a primeira apresentação de Onheama na Europa.

Esta ópera infanto-juvenil com uma forte mensagem ecológica é inspirada no poema A infância de um guerreiro, de Max Carphentier, sendo que Onheama significa “eclipse” em língua tupi. A mitologia indígena interpreta o eclipse como a acção maléfica de Xivi, a terrível onça celeste, que devora Guaraci, o Sol, e depois sai à caça das estrelas e de Jaci, a Lua. No dia em que Xivi conseguir engolir tudo o que reluz no céu, e saciar a sua fome tremenda, o mundo acabará. Somente um guerreiro corajoso e de coração puro como Iporangaba poderá salvar a Amazónia e a Terra do terrível monstro. Triunfa a luz numa perspectiva infantil; triunfa, afinal, a vida.

 


 

 

21 de Maio . 21h30 / 22 de maio . 16h00
Cine-Teatro Municipal de Serpa
Onheama, de João Guilherme Ripper
Ópera para o público infanto-juvenil, baseada em A infância de um guerreiro, de Max Carphentier

Entrada gratuita, sujeita à capacidade da sala. Bilhetes disponíveis de 18 a 20 de maio, na Unidade Municipal de Cultura, Desporto e Juventude, na rua da Cadeia Velha, Serpa, das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30. A bilheteira abre 2 horas antes de cada concerto.

Direcção musical | Marcelo de Jesus
Encenação | Claudio Hochmann
Cenografia e Figurinos | Miguel Costa Cabral

Iara | Carla Caramujo
Nhandeci e Xivi | Inês Simões
Boto | Marco Alves dos Santos
Tuxaua | Nuno Pereira
Iporangaba | Carolina Andrade

Coro do Teatro Nacional de São Carlos
Maestro Titular | Giovanni Andreoli
Coro Juvenil do Instituto Gregoriano de Lisboa
Maestrina Titular | Filipa Palhares
Orquestra Sinfónica Portuguesa

Sofia Lourenço interpreta Daddi e Vianna da Motta

Já se encontra à venda o mais recente álbum da pianista Sofia Lourenço, Portuguese Piano Music, pela editora Grand Piano (do grupo Naxos).

O CD é dedicado à obra para piano de dois compositores e pianistas virtuosos portugueses, João Guilherme Daddi (1813-1887) e José Vianna da Motta (1868-1948), e responde à vontade de Sofia Lourenço de revisitar a obra de Vianna da Motta e  descobrir mais sobre a história da música portuguesa de meados e finais do século XIX. A descoberta estender-se-á certamente ao ouvinte que, com este CD, terá a possibilidade de escutar um compositor pouco conhecido como Daddi em peças como Andante cantabile, Barcarolla, Douce illusion e Il lamento. Também a Serenata op. 8, de Vianna da Motta, é aqui gravada pela primeira vez.

Na sessão de lançamento do CD, que decorreu na tarde de 10 de Maio em Lisboa, Rui Vieira Nery traçou um breve panorama do ambiente musical lisboeta de meados do século XIX e esboçou alguns aspectos da carreira dos dois compositores em foco. Embora tenha escrito peças orquestrais e para voz, tenha desenvolvido uma intensa actividade de promoção de concertos e sido professor de música, de Daddi recorda-se sobretudo que foi convidado por Liszt para tocar com ele a dois pianos as Variações sobre um tema de Norma de Bellini, quando o grande virtuoso se apresentou em Lisboa em 1845. O nome de Vianna da Motta associa-se igualmente ao de Liszt. Vianna da Motta teve a oportunidade de o conhecer em Weimar quando obteve uma bolsa de estudos do Rei D. Fernando para estudar no Conservatório Scharwenka em Berlim. Teve depois aulas com Hans von Bülow e uma longa carreira como um dos maiores pianistas da Europa. Enquanto compositor, como Nery referiu, nas suas obras encontram-se características de correntes musicais europeias e motivos de inspiração nacional, estilo que encontra reflexo nas peças escolhidas para este álbum, em que peças de música de salão se sucedem a peças inspiradas em canções ou motivos da música popular e tradicional.

Sofia Lourenço tem mantido actividade concertística, quer a solo que com orquestra, e dedicado grande parte do seu repertório à música portuguesa. Pela editora Numérica lançou um CD de Estudos e Tocatas de Domingos Bomtempo e Carlos Seixas (2004) e, também para piano solo, peças de Vianna da Motta, Luiz Costa, Berta Alves de Sousa, Maria Teresa Macedo, Fernando Lopes-Graça, Filipe Pires, Álvaro Salazar e Carlos Azevedo (1999). Foi aluna de Helena Sá e Costa, realizou os estudos de música no Conservatório de Música do Porto e concluiu o Doutoramento em Música e Musicologia, na Universidade de Évora, em 2005. É actualmente professora do curso de Instrumento de Piano na ESMAE, Instituto Politécnico do Porto.

O lançamento do CD no Porto está marcado para 15 de Maio.

Os dilemas dietéticos de uma matrioska do meio

A ópera cómica Os dilemas dietéticos de uma matrioska do meio, com texto original de Mário João Alves, música de Nuno Côrte-Real e encenação de António Durães, estreia no próximo dia 2 de Abril no Teatro do Campo Alegre, no Porto.

A acção decorre em 1866 e o enredo cómico segue a história de Ludmila, entre o imaginário e a realidade, e os dilemas que ela enfrenta: a sua mudança para São Petersburgo com a família, o conforto de uma vida social ociosa e com muitos petiscos, o encontro com Raskolnikov, personagem de Crime e Castigo de Dostoievsky, e as suas consultas com o Dr. Musa Ramelov, nutricionista do Czar.

A ópera foi uma encomenda do Quarteto Contratempus, grupo de música contemporânea fundado em 2008 por Teresa Nunes, Crispim Luz, Susana Lima e Brenda Vidal Hermida. O grupo tem assinado várias criações nos últimos anos, Semana profana (2009), Domitila (2010) e A querela dos grilos (2015). A ópera será interpretada pelo próprio quarteto, um barítono convidado e elementos de um grupo de teatro amador de cada localidade onde se apresentar a obra. Assim, no Teatro do Campo Alegre no Porto, juntam-se à voz de Nunes, ao clarinete de Luz, ao violoncelo de Lima e ao piano de Hermida o barítono Job Tomé e actores do grupo Os Plebeus Avintenses. A obra repete no Porto a 3 de Abril e seguirá depois em digressão para Matosinhos, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Faro, Leiria, Viseu, Esposende, Montemor-o-Novo, São Paulo e Rio de Janeiro.

 

Um livro didáctico para o ensino do violoncelo

Decorre actualmente, entre os dias 14 de Março e 14 de Abril, uma campanha de financiamento colaborativo (crowdfunding) para apoio à primeira edição de um livro didáctico, de concepção inédita em Portugal, destinado ao ensino do violoncelo, que a editora Gradiva publicará no próximo mês de Abril. O livro, que surge na sequência da investigação de Ana Raquel Pinheiro conducente à sua tese de mestrado, com ilustrações originais em aguarela de Maria do Rosário Júdice Maia de Loureiro, intitula-se O violoncelo: jogos para miúdos / prescrições para graúdos e reúne um conjunto de cento e setenta exercícios temáticos que procuram introduzir aos alunos de idade mais jovem que iniciam o estudo do violoncelo os conceitos técnicos fundamentais para o estudo do instrumento e complementar o trabalho de alunos mais avançados.

Parafraseando a autora, nas palavras introdutórias da publicação,

Todos os professores de instrumentos de cordas deparam com a necessidade de transmitir a alunos de iniciação, sobretudo aos muito jovens, conceitos ilusoriamente simples, como sentar-se correctamente, posicionar o violoncelo ou segurar o arco. Numa altura em que não tinha sequer computador ou Internet e não encontrei quaisquer materiais didácticos que me pudessem ser úteis, tive de conseguir fazer os exercícios introdutórios que conhecia de uma forma criativa e apelativa para os alunos que iniciavam a aprendizagem do instrumento. Foi através do diálogo com outros professores e da partilha de ideias com colegas que fui construindo a minha própria colecção mental ou, como costumo dizer, a minha biblioteca imaginária. […] O professor de instrumento tem de ser um músico e um pedagogo, mas simultaneamente um especialista em comportamento, um observador e um organizador dotado de imaginação e facilidade de adaptação.

Estes objectivos ficaram tradicionalmente reservados às perspectivas criativas de cada professor, exigindo, como sabem quantos se dedicam à pedagogia dos instrumentos de cordas, grande dispêndio de tempo e possibilidades. Devido à escassa bibliografia quer teórica, quer prática sobre o assunto e à inexistência de material pedagógico em língua portuguesa, tem sido sobretudo através de experiência pessoal que os professores conseguem proceder às abordagens iniciais dos conceitos técnicos, usando as suas próprias palavras e exercícios complementares.

Um dos aspectos mais relevantes da concepção de O violoncelo: jogos para miúdos / prescrições para graúdos é a sua adaptabilidade à didáctica de outros instrumentos de cordas, como o violino, a violeta e o contrabaixo. O livro divide-se em seis capítulos: Jogos estratégicos, Jogos de postura e posicionamento do violoncelo, Jogos para a construção da técnica de arco, Jogos para a construção da técnica da mão esquerda, Jogos para o vibrato e Jogos de imitação de sons. Tendo em atenção a utilização pedagógica e o trabalho individual que permite, os exercícios e jogos são acompanhados por fotografias exemplificativas, da autoria de Bruno Raposo, representando dois alunos de violoncelo da autora, Hugo Estaca e António Veloso.

A autora desenvolve, paralelamente a uma longa actividade pedagógica, intensa carreira como violoncelista, quer em repertório dos séculos XIX e XX, quer, como intérprete de violoncelo barroco, nos mais importantes agrupamentos especializados de música antiga em Portugal.

Entre os apoios à publicação deste projecto contam-se a Fundação GDA e a Academia de Música de Santa Cecília. O livro conta ainda com a certificação da ESTA Portugal (European String Teachers Association).

O acesso directo à plataforma onde a campanha decorre pode fazer-se através da ligação electrónica http://ppl.com.pt/pt/prj/o-violoncelo.

 

 


 

 

Ficha técnica

título: O violoncelo: jogos para miúdos / prescrições para graúdos
autora: Ana Raquel Pinheiro
ilustrações: Maria do Rosário Júdice Maia de Loureiro
fotografia: Bruno Raposo
editora: Gradiva

 

A Viagem de Sonhos, espectáculo interactivo

No passado dia 27 de Fevereiro, no Auditório da Casa das Mudas, na Calheta, Madeira, totalmente lotado, foi estreado o espectáculo intitulado “A Viagem de Sonhos”, protagonizado pelo grupo de dança contemporânea InCORPOrARTE que envolve sessenta crianças de várias escolas do primeiro ciclo do ensino básico daquele município da zona oeste da Madeira, num projecto inédito em Portugal: os espectáculos interactivos.

“A Viagem de Sonhos” é uma ideia original de Juliana Andrade, que foi ainda responsável pelas coreografias, em co-criação com os bailarinos do InCORPOrARTE, selecção musical, desenho de luz e direcção-geral. Juliana Andrade é uma jovem docente da Direcção de Serviços de Educação Artística e Multimédia (DSEAM). Aliás, este serviço da Secretaria Regional de Educação da Madeira conta, actualmente, com vinte grupos entre orquestras, tunas, agrupamentos, grupos de dança e de teatro, entre eles o InCORPOrARTE, que protagonizam uma temporada artística anual descentralizada pelos onze municípios da Região Autónoma da Madeira, com uma envolvência de cerca de duzentos espectáculos em cada ano.

O solista de “A Viagem de Sonhos” foi Nuno Velosa, “o rapaz que ousa sonhar e imaginar um mundo que de tão imaginário é tão real e presente”. Segundo a autora, trata-se de “dar vida ao absurdo, mas familiar, sonho de um rapaz”.

Juliana Andrade acrescenta na sinopse do espectáculo:

Por vezes cedemos aos medos, sentimo-nos sós, perdidos, por vezes viajamos sem tocar com os pés no chão, estamos nas nuvens, por vezes somos engolidos pelas nossas ideias, pelas ideias dos outros, deixamo-nos levar ao sabor do vento ou lutamos contra ele, muitas vezes percebemos que o nosso mundo está ao contrário e não deveríamos estar onde estamos, a maior parte das vezes sentimo-nos presos do lado errado do vidro, apenas como observadores que anseiam por atravessar para o outro lado, o lado da felicidade…

Este trabalho pretende fazer-nos viajar pelo inconsciente expressado incisivamente nos nossos sonhos, num ambiente irreal, absurdo e exagerado, onde seremos levados a divagar pelo “faz de conta” do nosso imaginário mais profundo. Podemos afirmar que se tratou de um momento único de rara beleza pois a concepção deste espectáculo, apesar de complexa, resultou na perfeição. De destacar a qualidade na selecção musical, a criatividade nas variadíssimas coreografias, o requinte no desenho de luz, a interacção com as crianças do ensino básico que, em suma, resultaram num conjunto de grande qualidade, apesar dos artistas serem apenas alunos.

O modelo de espectáculo interactivo foi idealizado pela DSEAM, no ano de 2008, e visa envolver crianças e jovens do ensino básico que, de forma pensada e organizada, intervêm activamente nos projectos. O director artístico do grupo da DSEAM articula o repertório e ensaios com os docentes das áreas artísticas das escolas, preparando os alunos para integrarem nos espectáculos outros jovens mais avançados nas artes (os que integram os grupos da DSEAM). Se por um lado este projecto tem o propósito de cativar mais alunos para o ensino das artes, por outro leva muito mais público aos eventos. Os pais e as famílias dos alunos são presença assídua e desta forma aproximam-se das várias artes do espectáculo. Um dos propósitos desta organização é aumentar, paulatinamente, os públicos fruidores das diversas expressões artísticas de palco.

Segundo a organização, os concertos interactivos revelaram-se um projecto fortemente motivador pelas seguintes razões:

(1) Grande motivação e orgulho, pelo facto de a plateia ser constituída, na sua maioria, por familiares; (2) Proporciona experiências pedagógicas enriquecedoras e significativas que podem ser consolidadas e douradoras; (3) Potencia a valorização da integração nos grupos da DSEAM e apela à diferenciação pedagógica; (4) A apresentação pública é motivante; (5) Proporciona a descoberta de novos talentos; (6) Propicia um clima de trabalho envolto em relações humanas de grande elevação; (7) Proporciona motivação pela repetição do trabalho; (8) Aproxima mais os alunos da escola e torna-os mais inclusivos; (9) A escolha do repertório é importante para a motivação dos estudantes e dos próprios pais; (10) É praticável a rentabilização dos saberes individuais dos estudantes. (11) É importante que os estudantes trabalhem com grupos musicais de relevo, porque o seu interesse, disponibilidade e entrega para com as obras a executar aumenta quando sabem que vão interagir numa actuação pública; (12) Adquirem autonomia na maioria das suas interpretações.

Pelo que apurámos, este espectáculo será reposto, ainda no decurso desde ano, noutras salas de espectáculo da Madeira.

 

Joana Gama e Luís Fernandes nos Açores

O recente Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas (Ribeira Grande, S. Miguel) irá acolher um concerto pela pianista Joana Gama e Luís Fernandes no próximo dia 16 de Março, pelas 22h00. Este concerto insere-se na programação da terceira edição do Festival TREMOR, que se realiza na ilha de S. Miguel de 15 a 19 de Março próximo, e realiza-se em parceria criativa e residência artística com o Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas, com o apoio da Direcção Regional da Cultura.

O programa do concerto será preenchido com música do projecto Quest (do qual resultou a gravação de um CD em 2014, pela editora Shhpuma), que combina o piano com a electrónica. O piano é o elemento central para manipulações e subversões da electrónica neste projecto que surgiu do fascínio pelo cruzamento de universos e que levou os intérpretes a este original projecto autoral.

Para além da sua actividade pianística no âmbito da música erudita e académica, Joana Gama tem estado envolvida nos últimos anos em diversos projectos que associam a música a outras artes como a dança, a fotografia, o teatro ou o cinema, tendo colaborado com a coreógrafa Tânia Carvalho, o fotógrafo Eduardo Brito na exposição Terras Interiores, e participado na peça Pele do Útero. Em 2014 estreou o projecto Quest com Luís Fernandes, do qual resultou o CD com o mesmo nome. Tem gravado também diversas vezes para a Antena 2.

O trabalho do músico, artista sonoro e programador cultural Luís Fernandes tem-se desenvolvido paralelamente nas áreas da composição musical, execução e curadoria artística. É elemento fundador da banda pop “Peixe: Aviã”, mentor do projecto The Astroboy e membro dos duos Palmer Eldritch e Quest. Tem colaborado regularmente com artistas como La La La Ressonance, Old Jerusalem e Blac Koyote. O seu trabalho alarga-se à composição de música para cinema, vídeo e instalações, incluindo-se a curta-metragem Mahjong de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata e a exposição Porto Poetic, uma homenagem aos arquitectos Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura na Triennale di Milano com o alto patrocínio do Museum of Modern Art. A sua discografia conta com mais de quarenta edições oficiais e o seu trabalho tem sido destacado em publicações como The Wire, The GuardianLes Irockuptibles, PúblicoExpresso. Foi curador convidado para o festival BIE da Bienal de Cerveira 2013.

Preço de entrada: 3 euros. Mais informações sobre este concerto e o festival no sítio do festival TREMOR.

Faleceu o violinista Vasco Barbosa

Faleceu ontem, dia 20 de Fevereiro, o ilustre violinista Vasco Barbosa.

Vasco Barbosa iniciou os seus estudos com o pai, Luís Barbosa, o mais importante violinista português da sua geração. Com o apoio de uma bolsa de estudo do Instituto para a Alta Cultura, partiu para a Suíça em 1947, onde estudou com o virtuoso alemão Georg Kulenkampff. Seguiu-se Paris, onde se aperfeiçoou sob a alçada do violinista e compositor romeno George Enescu, e Nova Iorque (com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian), onde trabalhou com o reputado pedagogo arménio Ivan Galamian.

 

 

Foi, durante décadas, concertino da Orquestra da Emissora Nacional e da Orquestra do Teatro de São Carlos, acabando por ser consagrado “concertino honorário” da presente Orquestra Sinfónica Portuguesa. No âmbito da música de câmara, destacam-se o duo com sua irmã Grazi Barbosa ou o Quarteto Atalaia (por ele fundado). Leccionou na Academia de Música de Santa Cecília. Notavelmente, manteve ainda uma intensa carreira internacional como solista. Como confirmação de um estatuto semelhante ao de seu pai, foi agraciado com numerosos prémios: Prémio Guilhermina Suggia, Óscar da Imprensa, Prémio Moreira de Sá, Prémio da Secretaria de Estado da Cultura, Prémio Almada. Foi ainda distinguido com a Ordem Militar de Santiago de Espada. No passado ano de 2015, a Camarata Atlântica havia promovido o primeiro Concurso Nacional de Cordas Vasco Barbosa, em homenagem ao grande violinista.

Foi um importante intérprete e divulgador da música para violino de compositores portugueses do século XX. Dentre as suas gravações destacam-se neste âmbito o Concerto para violino de Luiz de Freitas Branco e as duas sonatas para violino e piano de Ruy Coelho.

Voltar ao topo