Um novo CD de aventuras brasileiras

Foi lançado em Inglaterra o CD Brazilian Adventures, do grupo Ex Cathedra, com direcção de Jeffrey Skidmore, com edição Hyperion. O álbum é dedicado a música brasileira dos séculos XVIII e XIX, conhecida nos dias de hoje principalmente através do trabalho de investigadores como Curt Lange, que se dedicou principalmente ao estudo de Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805); Padre Jaime Diniz, responsável pelo estudo do compositor Luiz Álvarez Pinto (119-1789); Cleofe Person de Mattos, que se dedicou à obra de José Maurício Nunes Garcia (1767-1830); e Regis Duprat, à obra de André da Silva Gomes (1752-1844).

Destacam-se também, actualmente, as investigações de Pablo Sotuyo Blanco e Harry Crowl. Esta música é comummente conhecida como “barroco mineiro” ou como “música barroca colonial”, apesar de se encontrar mais próxima do período clássico em termos estéticos.

Foram gravadas, para este projecto, obras de José Maurício Nunes Garcia, como a sua Missa pastoril; Missa para oito vozes e instrumentos de André da Silva Gomes; bem como algumas miniaturas da autoria de Emerico Lobo de Mesquita, Luiz Álvarez Pinto e Teodoro Cyro de Sousa (1761-18??), compositor recentemente redescoberto. O CD inclui também dois vilancicos em língua portuguesa, inéditos e anónimos, descobertos recentemente pelo investigador Paulo Castagna.

 

 

Podem destacar-se, neste álbum, os solos de clarinete de Katherine Spencer na Missa pastoril de José Maurício Nunes Garcia, bem como a participação do violinista Rodolfo Richter, responsável também por alguns solos de violeta.

Ex Cathedra é um grupo formado por coro e agrupamento instrumental fundado em 1969 por Jeffrey Skidmore, que se dedica à execução de de música entre o século XII e o século XXI, principalmente a repertório antigo praticamente desconhecido, sendo também responsável por algumas estreias de música coral contemporânea.

9.º Concurso de Canto Lírico da Fundação Rotária Portuguesa

Após um ano de interregno, o Concurso de Canto Lírico da Fundação Rotária Portuguesa regressa, com a sua 9.ª edição. Desde a sua fundação, este concurso tem-se vindo a afirmar como um dos mais importantes na descoberta e promoção de novos valores do canto lírico, em especial desde que deixámos de assistir a edições do Concurso de Canto Luísa Todi. Num país onde não é fácil viver-se do canto e onde abundam mais talent shows do que oportunidades reais de trabalho, o Concurso de Canto Lírico da Fundação Rotária Portuguesa, mais do que um concurso de talentos, pretende dar aos seus laureados a oportunidade de partirem para outros voos além fronteiras.

Esta edição traz ainda como prémios importantes oportunidades de trabalho para os vencedores. Assim, para além das habituais bolsas de estudos, o vencedor terá direito a um recital na edição de 2017 d’Os Dias da Música no Centro Cultural de Belém e a outro recital na Casa de Portugal da Cidade Universitária de Paris. Foi também criado, em colaboração com o Círculo Wagner, o Prémio Richard Wagner , que consiste numa Bolsa do Goethe-Institut para a realização de um curso intensivo de alemão — língua importante para se (sobre)viver do canto lírico na Alemanha e, mais aliciante, uma visita ao Festival de Bayreuth , onde o premiado terá o privilégio (acessível a poucos!) de assistir a três óperas e de tomar parte no Programa de Bolseiros da Fundação Richard Wagner, que reúne mais de duzentos jovens artistas de todo o mundo.

O valor das bolsas de estudo a concurso variam entre os 300 euros (valor mínimo, para os Prémios de Melhor Interpretação de Canção Portuguesa e de Canção Estrangeira) e os 5000 euros (para o 1.º Prémio), e este ano o limite de idade dos participantes foi alargado para os 33 anos. Por fim, a última novidade desta edição é a realização de provas eliminatórias nos Açores, na Madeira e no Algarve.

A 9.ª edição do Concurso de Canto Lírico decorre entre os dias 2 e 15 de Maio, sendo a grande final de dia 15 no Centro Cultural de Belém às 17h00.

Para mais informações clique aqui.

 

 

 

Vianna da Motta em novo CD de Álvaro Cassuto

No passado dia 21 de Dezembro foi lançado na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), o álbum mais recente de Álvaro Cassuto (1938-), desta vez à frente da Royal Liverpool Philarmonic Orchestra, que interpreta a Sinfonia “À Pátria” e outras obras de José Vianna da Motta (1868-1948). O CD foi editado pela NAXOS e já se encontra à venda.

Sendo um dos maestros portugueses com maior projecção internacional, Álvaro Cassuto tem sido fundamental na divulgação de repertório português das várias épocas, principalmente de música do século XX. É um dos maiores divulgadores a nível internacional da obra de Luiz de Freitas Branco (1890-1955), Joly Braga Santos (1924-1988), Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e Vianna da Motta, entre outros. Nascido no Porto em 1938, Álvaro Cassuto estudou direcção de orquestra com Pedro de Freitas Branco (1896-1963) e com Herbert von Karajan, sendo também licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa e formado em Direcção de Orquestra pelo Conservatório de Viena. Foi maestro da Orquestra Sinfónica da Radiodifusão Portuguesa e da Orquestra Sinfónica Portuguesa, bem como fundador da Nova Filarmónica Portuguesa e, mais recentemente, maestro da Raanana Symphony Orchestra, de Israel, e da Orquestra Sinfónica de Bari. Destacando-se também como compositor, Álvaro Cassuto tem uma obra que poderá inserir-se na vanguarda portuguesa da segunda metade do século XX, juntamente com compositores como Jorge Peixinho (1940-1995) e Emmanuel Nunes (1941-2012).

Desta vez o maestro apresenta-nos uma das obras mais emblemáticas do compositor e pianista virtuoso Vianna da Motta, obra que marcou a tentativa de desenvolvimento da música sinfónica por parte dos compositores portugueses de finais do século XIX e início do século XX, que consideravam o século XIX português demasiadamente marcado pela hegemonia da ópera italiana. A Sinfonia “À Pátria” constitui um símbolo da evolução nacional portuguesa, estando Vianna da Motta, segundo Manuela Toscano, principalmente “interessado em restaurar um passado perdido e preencher uma falta”1, utilizando um nacionalismo pejado de modelos beethovenianos, como o género sinfonia, lisztianos, pela proximidade da sinfonia ao género poema sinfónico, e wagnerianos, através de efeitos tímbricos particulares.

1 Manuela TOSCANO, “Sinfonia À Pátria de Viana da Mota: Latência de Modernidade”, Revista Portuguesa de Musicologia, n.º 2, 1992, p. 195.

 

Tempestade musical setecentista

 

 

Foi lançado em Portugal, no dia 1 de Outubro, na Casa Museu-Anastácio Gonçalves, o CD Rabbia, furor, dispetto – Sinfonie ed Arie, gravação da editora Paraty (Paris) pelo grupo Concentus Peninsulae, com direcção de Vasco Negreiros e participação da soprano alemã Monika Mauch, especializada em música antiga. O CD reúne obras do compositor português Jerónimo Francisco de Lima (1741-1822) e pretende explorar principalmente a importância das máquinas teatrais do século XVIII, parte fulcral da representação cénica da época. Através da colaboração de Rosana Orsini Brescia, investigadora de cenografia setecentista, e das réplicas da firma Antiqua Escena de Alcalá de Henares, numa das faixas do álbum é possível ouvir uma tempestade marítima, efeito conseguido com uma máquina que produz sons de ondas, duas de vento e três de trovões (para sons mais distantes e mais próximos), como se poderá ver nas fotografias abaixo reproduzidas.

 

 

Jerónimo Francisco de Lima é ainda um compositor por conhecer, realidade que Vasco Negreiros acredita que “vai mudar com este CD”. Destacando-se principalmente na composição de ópera e música sacra, o compositor estudou no Seminário da Patriarcal de Lisboa e, depois de concluir os seus estudos em Itália, regressa ao Seminário da Patriarcal como organista e maestro.

Concentus Peninsulae é um grupo formado quer por instrumentistas portugueses, quer por espanhóis, dedicados essencialmente à música antiga, e ultimamente à divulgação da obra de Jerónimo Francisco de Lima. É dirigido por Vasco Negreiros, maestro formado em Análise, Teoria e Direcção Coral pela escola PROARTE, no Rio de Janeiro, e em Direcção pela Staatliche Hochschule für Musik de Karlsruhe e pela Staatliche Hochschule für Musik und darstellende Kunst, Heidelberg-Mannheim, Alemanha, tendo realizado o Doutoramento em Música com a dissertação “O filho da velhice – questões de Interpretação” (2005), com orientação de João Pedro Oliveira e co-orientação de Owen Rees. Além de maestro, Vasco Negreiros destaca-se também nas áreas de Educação Musical, Musicologia e Direcção Coral, bem como na composição, tendo apresentado várias obras em concertos de música contemporânea e sido premiado com o 3.º Prémio (o 1.º não foi atribuído) no Concurso Internacional de Composição para Coro Infantil, em Julho de 2009, na Bulgária.

 

Vasco Negreiros, maestro (fotografia de Pablo Suarez)

 

Mais um inédito de Francisco António de Almeida em CD

Está para muito breve o lançamento da primeira gravação da obra Trionfo d’Amore, scherzo pastorale, do compositor setecentista Francisco António de Almeida. A gravação esteve a cargo do agrupamento Os Músicos do Tejo, com direcção de Marcos Magalhães, do grupo vocal Voces Caelestes e dos solistas Ana Quintans como Nerina, Carlos Mena como Arsindo, Joana Seara no papel de Termosia, Fernando Guimarães como Adraste, Cátia Moreso como Giano e João Fernandes no papel de Mirenio. Trionfo d’Amore, scherzo pastorale é uma serenata para seis vozes composta para a celebração do dia do nome do rei D. João V, tendo estreado a 27 de Dezembro de 1729 (dia de S. João Baptista) no Palácio da Ribeira, em Lisboa.

 

 

Existe apenas um manuscrito autógrafo de Il trionfo d’amore, em depósito na biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa, e desconhece-se o autor do libreto. Este, de temática mitológica, segue a história de Nerina, apaixonada por Arsindo mas prometida a Adraste, e Arsindo que, denunciado por Termosia, enamorada dele, é, logo no início da primeira parte, condenado à morte por sacrilégio. O engano, a traição e a morte cruzam-se ao longo da obra; contudo, o amor puro e constante acaba por triunfar e a unir, finalmente, Nerina e Arsindo.

Nas palavras de António Jorge Marques, musicólogo e autor do texto do livrete do CD, nesta obra Almeida demonstra ser um compositor imaginativo e melodicamente inventivo, de bons recursos técnicos. Francisco António de Almeida viveu durante a primeira metade do século XVIII. Terá nascido por volta de 1702 e crê-se que morreu em 1755 como uma das muitas vítimas do terramoto que assolou Lisboa. Pertenceu assim à mesma geração dos compositores António Teixeira (1707-1774) e João Rodrigues Esteves (c. 1700-c. 1751) que estudaram no Seminário da Patriarcal e que foram agraciados com bolsas da coroa para irem estudar para Roma, onde puderam contactar com a tradição operática aí praticada e onde absorveram técnicas de composição do stilo concertato. Almeida exerceu o cargo de organista da Igreja Patriarcal de Lisboa e, em 1752, recebeu das mãos do rei D. José I o título de Mestre de Música da Real Câmara. Compôs as óperas La pazienza di Socrate (1733), La finta pazza (1735) e La Spinalba, ovvero il vecchio matto (1739), a serenata L’Ippolito (1952) e a oratória La Giuditta (1726).

A aguardada edição em CD de Il trionfo d’Amore tem a etiqueta da Naxos, editora que em 2011 lançou a gravação de La Spinalba, ovvero il vecchio matto, também com interpretação de Os Músicos do Tejo.

No dia 2 de Outubro, no âmbito do programa do Festival Jovens Músicos 2015, na Fundação Calouste Gulbenkian, será feita a apresentação deste novo CD. Os Músicos do Tejo actuarão mais tarde nesse dia no Grande Auditório. Interpretarão obras de Francisco António de Almeida e C. P. E. Bach. A entrada é livre.

‘Press the Keys’: clarinete e electrónica

Frederic Cardoso lança agora o seu primeiro álbum. Expressando o gosto pela música contemporânea e electroacústica do intérprete que deu origem ao projecto, Press the Keys dá destaque à música portuguesa para clarinete e electrónica composta nos últimos quatro anos, apresentando nomes como André Rodrigues, Ângela da Ponte, Filipe Lopes, Igor C. Silva, João Ferreira e João Pedro Coimbra. É ainda de destacar a presença da peça Shovelhead de Steven Snowden, que conta com a sua estreia nacional neste álbum.

 

 

O projecto apresenta-se como uma oportunidade de exploração das potencialidades da música electroacústica, dedicando-se da mesma forma à divulgação das novas criações para clarinete e electrónica. Apesar de ter surgido recentemente, o projecto esteve já presente em vários festivais como Euro Classical Online Festival, Festival MoitaMostra, Festival SET, 13th International Conference of Society for Music Information e Encontros Musicai.

 


 

Frederic Cardoso (1988) estudou clarinete com José Cardoso e Jaime Dias na Academia de Música de Tarouca, Filipe Silva na Escola Profissional de Arte de Mirandela e António Saiote e Nuno Pinto na Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo do Porto, onde se Licenciou e obteve o grau de Mestre em Interpretação Artística. Dedica uma parte significante do seu trabalho à música de câmara e à música contemporânea, sendo membro e co-fundador de vários grupos: Quinteto Scherzo, Quinteto de Sopros Argo Navis, Ar de Rastilho Fanfare Band, Ósculo, Black&White 6tet, 2Low, e Frederic Cardoso Clarinet & Electronics Project. Como clarinetista estreou cerca de quarenta obras, sendo dedicatário de obras de André Rodrigues, Antero Ávila, Filipe Lopes, Igor C. Silva, João Ferreira e João Pedro Coimbra. Colaborou com a Banda Sinfónica Portuguesa, Fundação Orquestra Estúdio, Orquestra Filarmonia das Beiras, Fundação Orquestra Estúdio e Remix Ensemble Casa da Música. Actualmente é Professor de Clarinete, Orquestra de Sopros e Director Pedagógico no Conservatório de Música de Paredes.

São Carlos 2015-2016: de Cordeiro da Silva a John Adams

A próxima temporada do Teatro Nacional de São Carlos inicia-se a 18 de Setembro de 2015 com um concerto coral-sinfónico pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, estendendo-se até Junho de 2016. Durante este período poderemos assistir a 35 espectáculos na Temporada Lírica, onze concertos sinfónicos e 25 espectáculos da Orquestra Sinfónica Portuguesa com a Companhia Nacional de Bailado.

A temporada lírica começa com Madame Butterfly, de Giacomo Puccini. A temporada será, no seu total, composta por cinco óperas encenadas, entre as quais se encontram duas novas produções (Dialogues des Carmélites de Poulenc e Iphigénie en Tauride de C. W. Gluck), uma estreia moderna (Lindane e Dalmiro de João Cordeiro da Silva), uma estreia portuguesa da versão encenada de A Flowring Tree de John Adams e uma estreia absoluta (Canto da Europa de Nuno Maló). A temporada lírica termina com o regresso de Nabucco de Verdi, vinte anos depois da sua última produção no teatro lisboeta.

A temporada sinfónica terá início a 27 de Setembro no Grande Auditório do CCB, onde será apresentada a 7.ª Sinfonia (em mi menor) de Gustav Mahler, com direcção de Joana Carneiro. Durante esta temporada, a Orquestra Sinfónica Portuguesa também se fará ouvir através de formações mais reduzidas, em concertos de câmara do Grupo de Metais e Percussão da OSP. Destaca-se também a apresentação de Artur Pizarro na Casa da Música do Porto, em Maio, onde Incipit, de Luís Tinoco, encomenda do São Carlos ao compositor, terá a sua estreia europeia.

Relativamente à temporada da Companhia Nacional de Bailado com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, destacam-se as produções de Carnaval, a partir de O Carnaval dos Animais de Camille Saint-Saëns, e o regresso do bailado ao Teatro Nacional de São Carlos com A bela adormecida de Tchaikovsky, que será apresentado na época natalícia de 2015.

De acordo com Manuel Pedro Ferreira, em artigo publicado no jornal Público, a missão a que o Teatro Nacional de São Carlos se propõe, “tal como está definida”, é “praticamente impossível de concretizar” tendo em conta uma orquestra que acumula funções de orquestra sinfónica, orquestra de ópera e orquestra de bailado e um coro que “parece ser obrigado a inventar trabalho nas épocas mortas para se justificar”. Lembrando a falta de meios humanos do Teatro Nacional de São Carlos, Manuel Pedro Ferreira salienta, no entanto, que “a dieta de 2015-2016 não foi mal doseada” ou, como acusa no título, fez-se, “à falta de ovos, uma boa salada”.

Elisabete Matos: Medalha de Mérito Cultural

Hoje, pelas 12 horas, no salão nobre do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, o Secretário de Estado da Cultura José Barreto Xavier e o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho entregaram a Medalha de Mérito Cultural à soprano Elisabete Matos.

Esta distinção foi anunciada no VI Festival ao Largo, no Concerto em Homenagem à “cantora lírica portuguesa mais reconhecida internacionalmente”, em Julho de 2014. A esta medalha precedem outros notáveis reconhecimentos como a Condecoração pelo Presidente da República com o Grau Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 1999, bem como o Grau de Grande Oficial da mesma ordem honorífica.

O percurso profissional de Elisabete Matos conta com nomes como Plácido Domingo e José Carreras, com quem teve a oportunidade de contracenar, interpretando papéis como Isolda em Tristão e Isolda, Turandot na ópera homónima, e Abigaille em Nabucco.

A cantora é oriunda de Caldas de Taipas, em Guimarães, e iniciou os seus estudos no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga. Em entrevista ao jornal i, valoriza as actuações em Portugal, em particular nas cidades onde cresceu: “É importante saber de onde viemos e que um dia vamos todos para o mesmo sítio”.

Uma estreia auspiciosa de Nuno Jacinto

No passado dia 23 de Maio, a Orquestra Clássica da Madeira estreou a peça ...Além… Argüim… do jovem compositor madeirense Nuno Jacinto. Esta obra foi encomendada ao compositor pela Associação que gere actualmente a Orquestra. Com o Teatro Municipal Baltazar Dias completamente esgotado, foi possível deliciar-se com esta obra para formação orquestral clássica, com a duração de cerca de sete minutos, excelentemente interpretada pela orquestra e, pelo que pudemos apurar, indo de encontro às expectativas do compositor, que se encontrava presente.

De referir que a obra foi composta com base num imaginário que o próprio Nuno Jacinto descreve da seguinte forma:

… muitas histórias e lendas povoam o folclore madeirense, plenas de mistério, magia e deslumbramento.Uma dessas lendas, a da Ilha de Argüim, sempre me fascinou. Conheci esta lenda pela minha mãe, que costumava contar e recontar histórias de família após o jantar, onde esta lenda não foi excepção. Relembrando a história narrada pela minha bisavó, a minha mãe contava com os olhos a brilhar como a Ilha de Argüim era uma terra que poucos viam para lá das águas do Porto Santo, onde envolta em nevoeiro vivia D. Sebastião num castelo de marfim. A minha mãe lembrava sempre todos os pormenores, principalmente aqueles que determinavam o retorno de D. Sebastião a Portugal: “quando os telhados forem de cor vermelha, quando houver luz em pó, quando a Madeira ficar rodeada de arame (fios eléctricos)…”. Sempre estava para breve, o retorno d’El-Rei. Esta mágica lenda madeirense, mil vezes contada, foi o mote para esta obra. Sem nenhum propósito propriamente programático e muito menos narrativo, esta obra musical contempla uma viagem, por entre harmonias e ecos, ora distantes ora próximos e agrestes. A composição pretende acima de tudo retratar uma visão lenta e abstracta da travessia de diferentes camadas harmónicas, conjugações tímbricas entre instrumentos, buscando forças a pequenos gestos, mas que logo catapultam um acontecimento de maior desejo. A inclusão da braguinha pretende fornecer um timbre único do cordofone beliscado à sonoridade orquestral, ao mesmo tempo que proporciona uma homenagem ao instrumentário madeirense. De Argüim, a contemplação da magia. Da Música, a contemplação do ressoar.

 

Na verdade, o ouvinte, depois de ler esta nota de programa, vai entender muito melhor a obra com toda a magia que esta envolve, desde os momentos suaves, quase misteriosos, com recurso às cordas e às aprazíveis madeiras, para logo depois entrarem os graves sumptuosos e marcantes, aos diálogos entre cordas, madeiras e metais, sempre com belas melodias sobrepostas, crescendos ostentosos com recurso a toda a formação orquestral, em que os graves e a percussão dão a ideia do quase tenebroso, para depois terminar num diminuendo belíssimo até ao fade out final.

Na opinião do Nuno Jacinto a peça tenta cativar o ouvinte numa linguagem actual, para diferentes ambientes.

Se o ouvinte perceber através da peça uma história, está completamente à vontade para o fazer. No entanto, a ideia será mesmo, e apenas, a procura de cores musicais.

Sem dúvida, uma perfeita obra orquestral que deixa mais uma marca indelével deste jovem compositor, cuja produção musical deverá continuar a bom ritmo e irá, de certeza, surpreender-nos, positivamente, a todos os que apreciam a boa música. Que outras orquestras deste País sigam o exemplo da OCM e encomendem novas obras a Nuno Jacinto.

 


 

Nuno Jacinto nasceu em 1985. Compositor, músico, professor, maestro e regular comentador de concertos, natural do Funchal, iniciou os seus estudos no Conservatório – Escola das Artes da Madeira em Violino, Piano, Órgão e Harpa. Estudou Violino com o professor Vladimir Proudnikov, frequentando o curso profissional de instrumento. Em 2002, ganha o 2.º prémio de Violino no International Competition for Young Performers em Atenas. Entre 2003 e 2007, estuda Composição da Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (ESMAE-IPP) no Porto, nas classes de João Madureira, Nuno Côrte-Real, Dimitris Andrikopoulos, Clarence Barlow, Carlos Guedes e Klaas de Vries. Frequentou em 2005 o curso de Direcção Orquestral com Cesário Costa. Em 2006, é premiado com a Bolsa de Mérito 2004/2005 do Instituto Politécnico do Porto (IPP). Como docente, exerceu funções em diversas instituições na área científica musical. É actualmente docente na ArtEduca – Conservatório de Música de Vila Nova de Famalicão. É professor de Expressão e Educação Musical no Centro de Bem-estar Infantil e Juvenil do Coração de Jesus (Porto). Colaborou com a Meloteca, como formador de tecnologias musicais para professores. Como escritor, colaborou com a Porto Editora na produção de textos didácticos para professores. Colaborou com a editora Numérica na elaboração de textos musicais. Como compositor, em 2007, a sua peça “Solo II” para violino solo integrou como peça portuguesa contemporânea obrigatória o Prémio Jovens Músicos 2007 (Antena 2/RDP). Participou no II Atelier de Leitura para Jovens Compositoresda Orquestra do Algarve em 2008 e no 7.º Workshop para Jovens Compositores Portugueses da Orquestra Gulbenkian em 2009, com a sua obra orquestral ArRestare. Em 2013 foi seleccionado para participar no concurso Novos Compositores da Orquestra Metropolitana de Lisboa / MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, com a obra The Distracted Composer. Em 2011, lançou o seu primeiro trabalho discográfico, Diagnosis, pela editora Numérica. Em 2013, a sua obra Ilusão – Quatro Canções sobre a Ilusão foi incluída no trabalho discográfico Canções de Lemúria, pelo duo Marina Pacheco & Olga Amaro, na editora Parlaphone Music Portugal. Em 2014, ganhou 2.º Prémio no 1.º Concurso de Composição de Canções para Crianças sobre Poemas Portugueses, promovido pela Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM) e o INATEL. A sua actividade composicional engloba música instrumental, coral, vocal, electrónica, passando pela música para teatro. Obras suas já foram executadas não só em vários pontos do País, como em festivais no estrangeiro. As suas obras são editadas pela AvA Musical Editions.

Nova ópera a partir de José Saramago

E se um dia a Morte deixasse de matar? Este é o mote do romance As intermitências da Morte de José Saramago, que acaba de ser transformado na ópera Death with interruptions pelo compositor Kurt Rodhe, com libreto do historiador Thomas Laqueur. Porém, As intermitências… são muito mais do que uma história sobre a morte e a sua importância na vida; é provavelmente o romance mais musical na obra de Saramago. A Suíte n.º 6  para violoncelo solo, BWV 1012 (número repetido quase até à exaustão pelo escritor), de J. S. Bach, a Fantasia op. 73 para violoncelo e piano de Robert Schumann, o Estudo op. 25 n.º 9 de Frédéric Chopin e ainda a 9.ª Sinfonia de Beethoven são as obras que o escritor escolheu para mostrar a capacidade que a música tem de comover e humanizar qualquer ser, até a própria morte, transfigurada numa Donzela, que se apaixona por um violoncelista. Coincidência ou não,  o espectáculo da ópera abre com a interpretação do  quarteto A Morte e a Donzela de Franz Schubert, uma personificação imaginária da Morte, segundo nos informa o sítio do teatro.

 

 

A ópera foi composta para três vozes solistas (soprano, tenor e barítono), um coro câmara de dezasseis vozes e um agrupamento instrumental, que coloca naturalmente em destaque o violoncelo, acompanhado de piano, percussão, quarteto de arcos fora do palco e electrónica, sob direcção da maestrina Matilda Hofman. O promotor deste evento é o Left Coast Chamber Ensemble e a estreia ocorreu dia 19 de Março em São Francisco (Estados Unidos da América), com as duas récitas no ODC Theater já esgotadas.

Não é primeira vez que um romance de Saramago é transformado numa ópera. Recordamos Blimunda (1989), sobre o Memorial do Convento, e Divara (1993), sobre a peça In nomine Dei, duas óperas compostas pelo italiano Azio Corghi. O Nobel português escreveu ainda, em parceria com o mesmo compositor italiano, o libreto de Il dissoluto assolto (2005), ópera inspirada em Don Giovanni de Mozart.

Ficamos a aguardar uma apresentação desta nova ópera em Portugal.

Mais informações aqui.

 

Voltar ao topo