Orquestra Gulbenkian estreia obra de Aylton Escobar

Esta noite, pelas 21 horas, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, poderemos assistir à estreia de A Rua dos Douradores – Litania da Desesperança, obra do compositor brasileiro Aylton Escobar (1943-), encomenda feita no âmbito de SP-LX – Música Contemporânea do Brasil e de Portugal.

A obra de Aylton Escobar é inspirada no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (semi-heterónimo de Fernando Pessoa), ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Segundo o ortónimo, trata-se não de um heterónimo por não se afastar totalmente da personalidade do próprio Pessoa mas “uma mutilação dela”. A obra literária é de carácter fragmentário e, apesar de apresentar pontos narrativos, é principalmente uma reunião de excertos descritivos e de divagação do próprio autor, que manifesta preocupações evidentes com temas como o sonho, a língua portuguesa, o sentimento, o tédio, no que alguns consideram como a expressão mais directa tanto de Bernardo Soares como de Fernando Pessoa, intimamente ligados e quase indissociáveis.

Compositor e maestro brasileiro, Aylton Escobar foi aluno de Osvaldo Lacerda e de Camargo Guarnieri na Academia Paulista de Música, onde estudou fundamentalmente Composição. Mais tarde especializou-se em música electrónica em Nova Iorque, com Vladimir Ussachevsky e Mario Davidovsky. Recebeu o Prémio Molière, o Prémio Governador do Estado de São Paulo e da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e é membro da Academia Brasileira de Música. É professor de Orquestração, Composição e Direcção na Universidade de São Paulo (USP) e foi director da Universidade Livre de Música e dos Festivais Internacionais de Música de Campos do Jordão (1993-97), bem como maestro titular e director artístico de várias orquestras brasileiras. Actualmente é maestro adjunto da Orquestra Sinfónica de Câmara da Universidade de São Paulo.

O concerto, pela Orquestra Gulbenkian, dirigido por Joana Carneiro, contará com a participação da soprano Dora Rodrigues, num programa constituído também por obras de Arturo Márquez (Danzon nº 2), Heitor Villa-Lobos (Bachiana brasileira nº 5), Leonard Bernstein, e Maurice Ravel (Boléro). O concerto será repetido amanhã,Sexta-feira, pelas 19 horas, também no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.

Exposição de instrumentos musicais no Museu de Évora

Foi inaugurada no passado dia 8 de Outubro a exposição “Tanger de mui folgar | Instrumentos de Música Antiga dos séculos XVI a XVIII” no Museu de Évora. Como o título sugere, esta exposição tem como objectivo principal “revelar a riqueza, complexidade e, muitas vezes, a dimensão estética dos instrumentos musicais”. Os espécimes apresentados terão sido construídos ou estariam em voga durante o período moderno, isto é, entre o final do século XVI e o século XVIII.

Esta exposição foi organizada pela Direcção Regional de Cultura do Alentejo em parceria com o Museu de Évora e o Museu da Música. Contou também com o apoio do Museu dos Coches. Poderá visitada até ao dia 8 de Dezembro, dentro do horário de funcionamento do Museu de Évora.

Recorde-se que esta é já a segunda exposição de temática musical organizada pela Direcção Regional de Cultura do Alentejo, tendo sido a primeira exposição (dedicada aos livros de cantochão do mosteiro da Cartuxa de Évora) inaugurada precisamente no dia 1 de Outubro e podendo ainda ser visitada até ao final da próxima semana.

Doclisboa 2015 repleto de música

Começou a 22 de Outubro mais uma edição do Doclisboa, festival de cinema de documentário. Até 1 de Novembro, ao longo de 236 filmes, dos quais 43 em estreia mundial, propõem-se vários espaços de reflexão sobre o passado e a actualidade e sobre o próprio cinema. Significativo dessa missão é a retrospectiva “’I don’t throw bombs, I make films’ – Terrorism, Representation”, que reune uma série de filmes realizados entre 1967 e 2014, alguns inéditos em Portugal, e que abordam aspectos relacionados com o terrorismo.

Entre as várias secções do Doclisboa, encontram-se alguns filmes em que a música ocupa um papel central e que permitem observar diferentes práticas e vivências musicais, do passado e do presente. Destaco o filme de Johanna Schwartz They will have to kill us first: Malian music in exile, que segue a sobrevivência de músicos malianos fugidos do regime terrorista imposto por jihadistas no Norte do Mali em 2012. O filme será exibido nos dias 30 e 31 de Outubro, no cinema São Jorge.

 

 

Num outro ambiente, a retrospectiva do cineasta Želimir Žilnik, na Cinemateca, traz-nos dois filmes que retratam o ambiente quotidiano da antiga Jugoslávia e em que a música está bem presente. Em Sedam mađarskih balada / Seven Hungarian ballads (1978) será possível escutar música tradicional húngara cantada por habitantes de aldeias de Voivodina e em Placmajstori / Market people (1977) assiste-se aos movimentos, sons e divertimentos da Feira de Šabac. Por outro lado, a selecção de filmes de Frank Scheffer, realizador com uma larga filmografia dedicada à música (é dele, por exemplo, uma trilogia sobre Mahler) incidem na música electrónica e contemporânea. Sonic acts (24 e 29 de Outubro no cinema São Jorge) é um documentário sobre o mundo da música electrónica de Karlheinz Stockhausen, Pierre Henry, John Cage, Michel Waisvisz, Squarepusher e DJ Spooky. The one all alone (25 e 30 de Outubro no Cinema City Campo Pequeno) resulta do fascínio do realizador pela música de Edgard Varèse. The ocean (24 e 29 de Outubro no cinema São Jorge), com a participação de Steve Reich, Brian Eno, Louis Andriessen, Philip Glass e Bang on a Can, explora o mundo e as ligações da música dos últimos trinta anos.

Há muito mais para ver e ouvir. O programa detalhado, bem como todas as informações adicionais, podem ser consultados no sítio oficial do Doclisboa 2015.

 

Cultura volta a ter Ministério em Portugal

Foi dada a conhecer hoje a orgânica do XX Governo Constitucional. O Ministério da Cultura, extinguido na legislatura anterior (os assuntos culturais foram confiados a Jorge Barreto Xavier como Secretário de Estado), foi agora recuperado sob a forma de Ministério da Cultura, Igualdade e Cidadania.

Maria Teresa da Silva Morais, de 56 anos, é licenciada em Direito. Foi deputada à Assembleia da República pelo PSD entre 2002 e 2005, tendo presidido a subcomissão parlamentar de Justiça e Assuntos Prisionais e integrado o grupo de trabalho para a revisão do Regime Jurídico da Adopção. Foi reeleita em 2009, tendo ascendido a vice-presidente da bancada parlamentar. Foi secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade e integrou as comissões dos Assuntos Constitucionais, de Acompanhamento da Corrupção e da Revisão Constitucional. Agora, ascende à tutela do novo ministério, que terá resultado das negociações pós-eleitorais entre os partidos da coligação e o Partido Socialista.

A tomada de posse do XX Governo Constitucional está marcada para Sexta-feira, dia 30, pelas 12h, no Palácio da Ajuda.

 

Nobres recitais: música de câmara no São Carlos

A temporada de música de câmara do Teatro Nacional de São Carlos é inaugurada este sábado, dia 31 de Outubro, por João Paulo Santos e Maria Luísa de Freitas.

O recital é consagrado à canção francesa sobre poemas de Victor Hugo (1802-1885), à excepção das peças de Respighi, “Un sogno”, “La naiade”, “La sera” e “Sopra un’aria antica”, retiradas da colectânea Poema Paradisiaco de Gabriele d’Annunzio (1863-1938), e terá lugar no Salão Nobre do teatro às 18 horas.

Para além de Respighi (1879-1936), Maria Luísa de Freitas, com o acompanhamento ao piano de João Paulo Santos, interpretará peças de Saint-Saëns (1835-1921), Liszt (1811-1886), Fauré (1845-1924), Alfredo Keil (1850-1907), Donizetti (1797-1848), Tosti (1846-1916), Massenet (1842-1912), Bizet (1838-1875) e Wagner (1813-1883), numa celebração da obra de Victor Hugo e do que poetas do romantismo representaram para a música europeia do século XIX.

João Paulo Santos desempenha actualmente funções de Director de Estudos Musicais e Director de Cena no Teatro Nacional de São Carlos. Tem-se apresentado a solo e em grupos de câmara, interessando-se em particular pela investigação, edição e interpretação de obras dos séculos XIX e XX. Foi responsável pela apresentação no Teatro Nacional de São Carlos e no Centro Cultural Olga Cadaval das óperas Serrana e Dona Branca, de Keil, e Lauriane e O espadachim do outeiro de Augusto Machado.

Maria Luísa de Freitas é meio-soprano e ao longo da carreira tem-se destacado em papéis como Carmen (Carmen), Maddalena (Rigoletto), Lola (Cavalleria Rusticana), Zita (Gianni Schicchi), Marcellina (Le Nozze di Figaro) e, ainda no final da última temporada de ópera do Teatro Nacional de São Carlos, como Baba, a Turca, em The Rake’s Progress.

Após este recital, a temporada de música de câmara prossegue até Maio com mais concertos por intérpretes como o pianista Simon Trpceski (a 7 de Novembro), o soprano Elisabete Matos e o pianista Artur Pizarro (a 21 de Novembro), o soprano Ana Quintas e João Paulo Santos (a 12 de Março) ou o pianista António Rosado (a 28 de Maio). Mais informações podem ser consultadas aqui.

 

Concerto dos Capella Patriarchal em Évora

Hoje, 25 de Outubro, pelas 18h00, a igreja de S. Francisco de Évora receberá um concerto do grupo Capella Patriarchal, dirigido pelo organista João Vaz. Este é o segundo concerto do ciclo de concertos “Música nas Igrejas – Concertos de Órgão”, com direcção artística do organista Rafael Reis, que conta já com quatro edições, contemplando a edição deste ano com um total de oito concertos a realizar em diversas igrejas da região do Alentejo, integrando organistas e outros músicos reconhecidos nacional e internacionalmente, a solo ou integrados em agrupamentos, como é o caso de Capella Patriarchal.

Este será o concerto inaugural da igreja de S. Francisco de Évora, que recebeu obras de restauro profundas com início em Junho do ano passado, tendo terminado oficialmente no início deste mês com a bênção do novo altar pelo Arcebispo de Évora. Este templo irá acolher vários eventos culturais até ao final do ano, constituindo, segundo parece, um ciclo de inauguração deste espaço renovado.

O primeiro concerto deste ciclo ocorreu a 3 de Outubro, na Igreja Matriz de Alvito, com um recital de canto e órgão pelo tenor Pedro Rollin Rodrigues e o organista David Paccetti. No próximo dia 31, pelas 18h00, a Sé de Évora receberá o segundo concerto deste ciclo com o Coro da Catedral de Évora, com direcção de Rafael Reis e Octávio Martins, e Rafael Reis no órgão.

Seis órgãos de Mafra em concerto esgotado

Hoje, 24 de Outubro, pelas 21 horas, decorrerá na Basílica do Palácio Nacional de Mafra o concerto de apresentação das obras distinguidas pela edição deste ano do Prémio Internacional de Composição para o singular conjunto dos seis icónicos órgãos.

O principal premiado foi o compositor italiano Gianni Giacomazzo, com a obra Musiikki Henki. Mas também João Pedro Oliveira, ele próprio notável organista, recolheu o reconhecimento do júri que, para além de uma menção honrosa na Categoria A (Composição) por 6 Alleluias, atribuiu o prémio da Categoria B (Arranjo), pela exuberante orquestração de Ma mère l’oye de Ravel. Completando o programa da noite, serão ouvidas obras de Giacomo Rossini, Daniel Bondaczuk e Marcos Portugal.

A entrada é gratuita, sujeita a reserva através dos seguintes números de telefone: 261 817 550 (Palácio Nacional de Mafra) ou 261 817 170 (Posto de Turismo de Mafra), mas segundo as últimas informações já não há bilhetes disponíveis.

O “Prémio Internacional de Composição Órgãos do Palácio Nacional de Mafra”, instituído em 2014, é promovido pelo Secretário de Estado da Cultura e pelo Município de Mafra, com periodicidade bienal, e visa distinguir compositores que apresentem peças destinadas ao referido conjunto instrumental, fazendo uso das suas características próprias.

Ópera de Villa-Lobos no Rio de Janeiro

Nos próximos dias 23, 27 e 31, pelas 20 horas, e nos dias 25, 28 de Outubro e 1 de Novembro, pelas 17 horas, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, será apresentada a ópera A Menina das nuvens, obra destinada ao público infantil, composta por Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e estreada a 29 de Janeiro de 1960, no mesmo teatro. Em 1989 a ópera foi apresentada, em inglês, no teatro American Society de Nova Iorque e, em 2011, no Theatro Municipal de São Paulo, recebendo por esta última produção o Prémio Carlos Gomes de Música Erudita, nas categorias de Melhor Espectáculo, Cenário, Iluminação e Produção.

Tendo ganho um grande reconhecimento tanto a nível nacional como a nível internacional, Heitor Villa-Lobos destacou-se na composição de vários géneros e para diferentes agrupamentos: música orquestral, música de câmara, música vocal, música coral, música para piano, música para guitarra (produção que é mais frequentemente associada ao compositor) e música dramática, tendo composto, no total, três óperas e uma opereta. A Menina das nuvens foi a sua última ópera, composta em 1958.

Com libreto de Lúcia Benedetti (1914-1998), romancista brasileira e escritora de literatura infantil, a história foi escrita em 1949 e desenrola-se em torno de uma menina criada pelo Tempo, nas nuvens, que desce à terra para conhecer a mãe, acabando, depois de passar por várias aventuras, por casar com um príncipe.

 

 

Com produção do Palácio das Artes (Belo Horizonte, Minas Gerais), direcção cénica de William Pereira e direcção musical por Roberto Duarte, as récitas contarão com a participação da soprano Gabriella Pace como Menina das Nuvens, de Inácio de Nonno, barítono, como Corisco, do baixo Lício Bruno como Tempo, do barítono Marcelo Coutinho como Vento Variável, de Regina Helena Mesquita, meio-soprano, como Rainha, do tenor Flávio Leite como Soldado, da meio-soprano Adriana Clis como Lua e do tenor Giovanni Tristacci como Príncipe.

Para mais informações, consulte a página do Theatro Municipal do Rio de Janeiro: http://www.theatromunicipal.rj.gov.br/ .

Festival Música em São Roque 2015

Já está a decorrer a 27.ª temporada do Festival Música em São Roque, promovido pela Direcção de Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. O concerto inaugural do festival esteve a cargo do Coro Gulbenkian, que esgotou a Igreja de São Roque no passado dia 17 de Outubro a interpretar obras de J. S. Bach. A este seguiram-se mais dois concertos: a 18 de Outubro o Ensemble Bonne Corde apresentou música sacra portuguesa de finais do século XVIII e, no dia seguinte, Ana Barros (soprano) e Isabel Sá (pianista) interpretaram peças de António Pinho Vargas, Sérgio Azevedo e Edward Ayres d’Abreu.

A 27.ª temporada prossegue na próxima sexta-feira, 23 de Outubro, às 21h, com um programa de descoberta de repertório sacro português. O Ensemble MPMP, com Jan Wierzba (direcção), Eduarda Melo (soprano), Marco Alves dos Santos (tenor) e Tiago Matos (barítono), levam à Igreja de São Roque três obras raramente tocadas de três compositores portugueses, num projecto intitulado “Três Missas Breves”. Serão interpretadas em estreia moderna uma Missa de Francisco Norberto dos Santos Pinto (1815–1860) e uma Missa de Francisco de Freitas Gazul (1842-1925), e ainda a Petite messe naïve, pas solennelle de Eurico Carrapatoso (1962-).

 

 

No sábado, o grupo Vozes Alfonsinas recua até ao tempo de D. João III, dando continuidade ao seu projecto de recuperação e partilha do património musical mais antigo. Na primeira parte escutar-se-á música do ofício comemorativo da trasladação de S. Vicente para a Sé de Lisboa, de um fragmento medieval descoberto em 2010 no arquivo da Casa da Moeda e que constitui o único testemunho conhecido da liturgia medieval da Catedral de Lisboa com música e música de origem litúrgica, retirada do livro Arte para Tanger, de Gonçalo de Baena, publicado em Lisboa em 1540, e o primeiro livro impresso na Península Ibérica dedicado à música de tecla. A segunda parte do concerto será preenchida com a interpretação de canções profanas e peças instrumentais de autores como Luís Milán e Luís de Narváez, que viveram na primeira metade do século XVI, e anónimos.

Da mesma época chegam mais duas propostas: o grupo Capella Duriensis irá apresentar música polifónica portuguesa dos séculos XVI e XVII, no dia 30 de Outubro, às 21h, na Igreja de São Roque, enquanto que o Officium Ensemble irá interpretar a magnífica missa Et ecce terraemotus, para doze vozes, de Antoine Brumel (1460-1520), no mesmo dia em que passam 260 anos sobre o terramoto que assolou Lisboa, 1 de Novembro, no Convento de São Pedro de Alcântara, às 16h30.

Até 8 de Novembro será ainda possível escutar o grupo L’Effetto Ensemble em obras para guitarra e voz, a 25 de Outubro pelas 16h30, o pianista António Rosado interpretando Fernando Lopes-Graça (1906-1994) a 31 de Outubro também às 16h30, a Orquestra Metropolitana de Lisboa e o coro da Universidade Nova de Lisboa a 6 de Novembro às 21h, e ainda, a fechar o festival, dois concertos por alunos da Escola de Música Nossa Senhora do Cabo e da Escola Superior de Música de Lisboa.

Paralelamente aos concertos, realizam-se ateliês dirigidos ao público infantil, “As cores da música!” e “Escultura sonora!”. Nos dias do festival são também promovidas visitas guiadas aos espaço onde decorrem os concertos e também à exposição temporária “De Roma para Lisboa: um Álbum para o Rei Magnânimo”, patente no Museu da São Roque. Tanto as visitas como os ateliês estão sujeitos a marcação prévia.

Os bilhetes para os concertos encontram-se à venda na bilheteira do Museu de São Roque e nos locais dos concertos até meia hora antes do seu início. Para mais informações consulte o sítio oficial: 27.ª Temporada Música em São Roque.

Madama Butterfly — ossia Il Trionfo di Suzuki e Sharpless

De Leeds para Lisboa: chegou ao Teatro Nacional de São Carlos a produção inglesa de Madama Butterfly, concebida pela Opera North, agora com recurso a um elenco maioritariamente português à excepção dos principais Cio-Cio-San, interpretada por Hye-Youn Lee, soprano sul-coreana, e F. B. Pinkerton, defendido por Antonio Gandía, tenor espanhol.

Ambos excelentes nos seus registos agudos, passando sobre a orquestra com clareza e fraseando correcta e emotivamente (mais a soprano do que o tenor), ofereceram ao público presente vários momentos de grande beleza. Das passagens nos registos graves destes cantores (e por vezes até nos registos médios) foi-nos porém difícil – se não impossível – admirar a prestação: praticamente não se ouviram. Onde terá ficado, dentre tantos outros momentos de Hye-Youn Lee, o colérico “o t’uccido” quando Cio-Cio-San se insurge contra o cepticismo de Suzuki? Ou a nostálgica profundidade de “i nomi che mi dava al suo venire” quando sonha com o regresso de Pinkerton e lembra o seu passado? Ou a definitiva recusa face ao já desanimado Yamadori em “Il guaio è che non voglio…”? Antonio Gandía não mostrou menos dificuldades, especialmente confrangedoras quando cantava junto de Luís Rodrigues – Sharpless, o cônsul –, momentos em que o abismo de poder e uniformidade vocal entre os dois se revelou de forma flagrante: o primeiro, salvando-se apenas nos seus agudos, o segundo enchendo o teatro em todas as solenes sílabas de todo o seu texto soberbamente cantado (arrepiante o Sarebbe gran peccato le lievi ali strappar e desolar forse un credulo cuor…). Será isto, contudo, defeito apenas dos cantores? Lá iremos.

Regressando ainda a Hye-Youn Lee, destaquemos, em especial, como foi absolutamente convincente sobretudo no segundo e terceiro actos, por exemplo quando apresentou o seu filho pela primeira vez ou quando dele se despediu na hora derradeira: Amore, amore mio, fior di giglio e di rosa… A profundidade psicológica e a destreza dramática da soprano debutante no teatro lírico nacional não foi, todavia, constante. Excelente na exposição da relação afectiva com o seu filho, razoável no envolvimento empático com outros personagens, falhou na subtilização de um libreto que pedia mais gesto, mais corpo, mais perspicácia. Por outras palavras, o libreto ele-mesmo parecia ter mais energia, mais ironia, mais graça e mais elã do que o de facto conseguido em palco, como quando procurou um pouco mais do que ingenuidade ao mostrar os “oggetti da donne” e ao público não chegou senão um momento de fait-divers. Ou como quando, dirigindo-se a Sharpless, na presença de Goro, e iniciando um desabafo (Egli osò…) subitamente sucumbe à urgência de uma resoluta curiosidade (No… prima rispondete alla dimanda mia…) sem que, entre um estado e outro, houvesse uma acção gestual, corporal, cénica que o sublinhasse expressivamente. Definitivamente frágeis foram, cenicamente, o desmaio do segundo acto (Oh, mi fate tanto male, tanto male, tanto, tanto!) ou a queda de costas do terceiro acto… Não se terá apercebido disto a encenadora Maxine Braham?

As boas “surpresas” da noite foram enfim Cátia Moreso como Suzuki e o já referido Luís Rodrigues como Sharpless, este último irrepreensível na tranquila maturidade e segurança com que incarnou o personagem, fora a já aplaudida qualidade vocal, que em nenhum momento frustrou as muito altas expectativas. O mesmo para Suzuki, com redobrado aplauso, pela constância, precisão e projecção vocal e, sobretudo, pela presença impactante e apaixonada comunicabilidade com que se dirigiu à plateia. Impecáveis a prece com que abriu o segundo acto, a força com que dominou a cena quando entra em palco arrastando Goro (Vespa! Sapo maldito!), o desespero com que se debateu em conhecendo a esposa americana (Anime sante degli avi!), o laconismo (e com que cortante justeza!) com que respondia às perguntas de Butterfly sobre o que se estava a passar depois de cumprida a sinistra vigília… ou mesmo a doçura com que aveludadamente acompanhou Cio-Cio-San no dueto das flores: Rose al varco della soglia… Tutta la primavera voglio che olezzi qui

No que concerne aos restantes cantores, Mário João Alves foi um Goro bem conseguido quanto à construção do personagem como “parasita”, Marco Alves dos Santos um Príncipe Yamadori de uma nobreza vocal irrepreensível, Mário Redondo um Tio Bonzo implacavelmente enérgico, Carolina Figueiredo uma Kate Pinkerton com presença delicada e vocalmente excelente, João Oliveira igualmente correctíssimo como Comissário Imperial, e os demais secundários foram perfeitamente proficientes. Sublinhamos a muito boa prestação do coro, como aliás vem sendo hábito nas últimas produções.

 

 

Encenação, cenografia e desenho de luz: impactantes alguns gestos e quadros como o arrancar a bandeira, o florir o chão (muito graciosa Hye-Youn Lee neste percurso) e o anoitecer no fim do segundo acto, quando a casa se abre para a paisagem nocturnal, Suzuki trazendo uma luz ténue em quebra-luz vermelho, que elegantemente dialoga com o vermelho das velas dos dois barquinhos em miniatura com que brincará o filho de Pinkerton, e que por outro lado evoca o sangue por derramar ao fim do terceiro acto… De resto, porém, pouco inventivo e muito insosso o remanescente deste espectáculo, salvando-se a parcimoniosa cenografia e o frio desenho de luz de pior impressão graças talvez ao minimamente suficiente colorido do guarda-roupa.

Assunto sério: a suposta direcção musical de Domenico Longo. Se Hye-Youn Lee e Antonio Gandía não se ouviram em vários momentos tal se deveu, seguramente, à inexistência de maestro. Abandonados a seu bel-prazer, cantores e orquestra constantemente se desencontravam em tudo quanto fossem entradas, fins de frase ou melodias em uníssono, mesmo em tempo regular. Não se salvou sequer Un bel dì, vedremo levarsi un fil di fumo dall’estremo confin del mare, que pela excelência da soprano correu maravilhosamente bem mas a que a falta de um regente comprometeu a mínima proficiência do acompanhamento orquestral. Descontrolada, ora a orquestra se sobrepunha aos intervenientes (pobre Tio Bonzo, já agora, ou pobre Cio-Cio-San que não logrou sequer fazer passar a verve contra a picardia de Goro em appena F. B. Pinkerton fu in mare mi venne ad assediare com ciarle e con presenti per ridarmi ora questo, or quel marito…), ora caía numa tibieza confrangedora como quando se pretenderia de uma candura e delicadeza insuperáveis no célebre dueto de amor do fim do primeiro acto, Vogliatemi bene, un bene piccolino…, ou como quando o magnífico coro em bocca chiusa do terceiro acto se viu acompanhado pelos pizzicati mais desleixados de que tenho memória – fora angustiantes problemas de afinação e a total ausência de requinte tímbrico e polifónico nesta que é, a este respeito, uma partitura de ímpar sofisticação.

Claro que Madama Butterfly, drama pungente e arrebatador, leva sempre às lágrimas. Como ontem levou. Nesta produção, porém, para tal catarse concorreram sobretudo Cátia Moreso, Luís Rodrigues, Luigi Illica, Giuseppe Giacosa e Giacomo Puccini. Não deixa por isso de ser irónica a ideia de que “Madam[a] Butterfly no São Carlos ajuda a lançar cantores portugueses”, como anunciou uma manchete da Rádio Renascença. Neste caso diremos antes que Madama Butterfly, no São Carlos, e nesta produção, “ajuda” outrossim a lançar um maestro italiano. Uma inexcedível benemerência parece aliás ter vindo a pautar a matriz diplomática e as agendas da generalidade dos programadores lusitanos…

 

MADAMA BUTTERFLY
Giacomo Puccini (1858–1924)
Libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa

Teatro Nacional de São Carlos
20, 22, 24, 26, 28 e 30 de Outubro às 20h00  e 1 de Novembro às 16h00

Direcção musical
Domenico Longo

Encenação
Maxine Braham

Produção original
Tim Albery

Cenografia
Hildegard Bechtler

Figurinos
Ana Jebens

Madama Butterfly (Cio-Cio-San)
Hye-Youn Lee

Suzuki
Cátia Moreso

Kate Pinkerton
Carolina Figueiredo

F. B. Pinkerton
Antonio Gandia

Sharpless
Luís Rodrigues

Goro
Mário João Alves

Princípe Yamadori
Marco Alves dos Santos

Tio Bonzo
Mário Redondo

Comissário Imperial
João Oliveira

Um Notário
Costa Campos

Yakuside
Nuno Cardoso

Mãe de Cio-Cio San
Ana Serôdio

Tia de Cio-Cio San
Ana Luísa Cardoso

Prima de Cio-Cio San
Maria do Anjo Albuquerque

Dolore (Filho de Cio-Cio San)
Vitória Desidério (20, 24, 28 de Outubro e 1 de Novembro)
Matilde Penedo (22, 26 e 30 de Outubro)

Produção
Opera North

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