Ainda o Conservatório: mediatização internacional e petições em curso

Desde há cerca de cinco dias que a onda de protestos em torno das condições do edifício do Conservatório Nacional, em Lisboa, se tem vindo a mediatizar através dos meios de comunicação social internacionais. A TV Record publicou a 5 e 6 de Março duas reportagens, seguindo-se a Agência France-Presse, também com duas reportagens e um artigo escrito que, a seguir, foram replicados em várias publicações eletrónicas francófonas e do Reino Unido. A comunidade ‘Eu sou Conservatório Nacional’, criada pelo “Movimento em Defesa do Conservatório Nacional, para divulgar a luta pela dignidade dos alunos, professores e espaço da EMCN [Escola de Música do Conservatório Nacional]” na sua página da rede social Facebook, tem vindo a elencar os órgãos pelos quais se tem dado a circulação desses materiais.

Não obstante nada acrescentarem àquilo que já tem sido dito nos jornais e televisões nacionais, destaco três testemunhos presentes nos vídeos e artigos citados: Elsa Childs – presidente da Associação de Pais – refere que “[…] Foi necessário tomar atitudes radicais como essas, que eles, ainda por cima, não queriam ter, porque eles só o fizeram porque querem ter aulas […]”; Luísa Rocha – aluna – refere que “É o Conservatório Nacional. É o conservatório que representa a cultura deste país”. Pese embora tratarem-se de excertos de entrevistas, estes dois exemplos circunscrevem a problemática à degradação do edifício e ao desinvestimento na instituição. Na entrevista à France-Presse, Mafalda Pernão – diretora da EMCN – vai um pouco mais além, manifestando que o problema é, no seu ponto de vista, mais vasto que a experiência do Conservatório Nacional, ou seja, o resultado da decisão política do atual governo.

 

 

Encontram-se disponíveis duas petições, uma em Avaaz.org, lançada por alguns pais e alunos, e outra na página Petição Pública, iniciada pela Direção, Associação de Pais e Associação de Estudantes da EMCN, da qual cito as duas reivindicações:

 

1 – Sermos recebidos pelo Sr. Ministro da Educação: o Ministro da Educação, até hoje, não teve a educação de sequer responder aos vários pedidos da Direcção, da Associação de Pais e da Associação de Estudantes da EMCN, em separado e em conjunto, para sermos recebidos. Esta reunião é indispensável e urgente. O pedido foi feito em várias cartas dirigidas ao senhor Ministro, até hoje sem resposta;

2 – Recebermos um compromisso por parte da tutela para a realização das obras de fundo há tanto tempo necessárias: porque as obras prometidas pela DGEstE, embora indispensáveis, têm um carácter pontual e imediatista e não impedirão a sucessiva e perigosa degradação do edifício. A necessidade urgente de requalificação do edifício, reivindicada há décadas e reconhecida pela sua inserção na 3.ª fase do programa da Parque Escolar, está na ordem do dia, mais do que nunca.

 

Conta, neste momento, com perto de 5700 assinaturas, ultrapassando as 4000 necessárias para que o assunto seja discutido na Assembleia da República.

A convite da A2C2 – Associação de Amigos do Conservatório de Coimbra, o Atelier de Ópera da Escola de Música do Conservatório Nacional juntar-se-á à Orquestra do Atelier Musical, no auditório do Conservatório de Música de Coimbra, para um concerto no dia 12 de Março, às 21h30[1], que a plataforma ‘Eu sou Conservatório Nacional’ assume como dando continuidade aos protestos. Para além desta, até ao momento não tomei conhecimento de qualquer iniciativa de cooperação entre a comissão da EMCN e outra instituição que possa padecer de necessidades semelhantes. O CENA – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espetáculo e do Audiovisual – replica a concentração da atenção sobre a inquestionável necessidade de requalificação do edifício da EMCN, quer convocando os cidadãos para uma marcha de protesto no dia 14 de Março[2], quer remetendo os visitantes do seu site para a petição em curso[3]. Continua, assim, a limitar a discussão ao âmbito do Conservatório Nacional, o que poderá ter como consequência o desperdício da mobilização entretanto alcançada numa causa que se poderia alargar às outras dificuldades da cultura e ensino artístico em Portugal, como por exemplo a precariedade laboral de professores e artistas, os cortes no financiamento a escolas, universidades, associações, orquestras, companhias teatrais, entre outras formas de coletivização e divulgação de conhecimento e cultura.

Ressalvo que a luta até aqui levada a cabo pela Escola de Música do Conservatório Nacional me parece totalmente justa! A segurança é um direito tão fundamental que a sua mera referência pode parecer ridícula. O estado a que se permitiu chegar o edifício da EMCN é, porém, revelador da premência ou, melhor, da urgência em reafirmar esse direito! Mas um edifício de alto valor patrimonial só tem sentido se dentro e fora dele viverem pessoas e se o propósito para que foi construído for efetivamente levado a cabo. Por outras palavras, é minha opinião que, caso as reivindicações continuem a resumir-se às obras de renovação, se não se apostar na coordenação de esforços com outras instituições e organismos – públicos e privados – em circunstâncias semelhantes[4], a EMCN incorrerá numa rasteira autofágica: os orçamentos estatais para a educação e cultura continuarão a minguar, as condições de trabalho de artistas e professores continuarão a degradar-se; em suma, a Cultura tornar-se-á uma área – permitam-me a tautologia – ainda mais insignificante. Todos os seus agentes se extinguirão, esvaziando de vida os edifícios deste e doutros conservatórios que permanecerão – ou não! – como ruínas de um passado que fechou os olhos às possibilidades de um futuro a longo prazo.

 


 

[1] http://a2c2coimbra.wix.com/a2c2#!current-production/cb3i

[2] http://www.cenasindicato.org/noticias/entry.html?ref=212&blog=noticias

[3] http://www.cenasindicato.org/noticias/entry.html?ref=213&blog=noticias

[4] Não é preciso ir muito longe: a plataforma ‘Não há condições, queremos estudar’, é uma comunidade de estudantes que pugna pela melhoria das condições materiais e humanas em instituições do ensino superior. O problema, como é fácil observar, não é exclusivo da EMCN. Deixo a hiperligação para a página deste grupo: https://www.facebook.com/naohacondicoes .

Garimpo Musical (I) | André da Silva Gomes

A igreja matriz de São Paulo manteve, desde a sua fundação, em 1611, mestres-de-capela com específica função de compor e dirigir música para os ofícios religiosos e manter escola pública para a instrução musical da juventude. A mais remota notícia conhecida é de 1649 e cita o mestre-de-capela Manoel Pais de Linhares. Como a matriz de São Paulo encontrava-se, até a criação do bispado, em 1745, sob a jurisdição eclesiástica do Rio de Janeiro, as provisões para o mestrado-de-capela eram expedidas pelo bispo desta última cidade e geralmente pelo prazo de um ano.

Em março de 1775 chega a São Paulo o terceiro bispo, Dom Manoel da Ressurreição. Traz em sua comitiva como mestre-de-capela da Sé um jovem de 21 anos, nascido e formado em Lisboa: André da Silva Gomes.

Sua formação européia passaria por rigoroso teste econômico, social e estético: rivalidade civil-eclesiástica em matéria de provimento da capela de música; heterogeneidade de solicitações influenciando as condições da criação musical; repertório e organização da capela de música e sua participação no serviço religioso; luta por imposição e prestígio social; integração inevitável das relações do monopólio da música nas igrejas.

O certo é que a data de 1774 constitui um marco decisivo na implantação de uma nova fase na atividade musical da Sé de São Paulo, estreitamente vinculada ao brilhantismo e suntuosidade das festas anuais promovidas pelo bispado e à contribuição organizativa e criativa de André da Silva Gomes.

Até 1765 São Paulo vivera administrativamente dependente. A presença dos governadores-gerais, após essa data, o primeiro dos quais o eficiente Dom Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, incentivaria uma vida social mais intensa, integrando razoável cultura musical leiga e disseminando o gosto pela música em geral.

André da Silva Gomes, quarto mestre-de-capela da Sé de São Paulo, nasceu em Lisboa, por volta do mês de dezembro de 1752, conforme consta do assento de seu batismo realizado na freguesia de Santa Engrácia. Era filho de Francisco da Silva Gomes e Ignacia Rosa. A pesquisa sobre as condições de sua formação musical em Lisboa foi extremamente dificultada pela perda quase total da documentação referente ao Seminário da Patriarcal. Sabemos, entretanto, pelo registro de Provisão passada pela Rainha Dona Maria, confirmando André no cargo, em 1790, que o mesmo foi provido “pela ciência da música no canto de órgão e contraponto”.

Em 1797 é nomeado interinamente e depois efetivado no cargo de mestre régio de gramática latina na cidade de São Paulo. Tal função lhe conferia salário de quatrocentos mil réis anuais, dez vezes maior do que o percebido como mestre-de-capela da Sá. Nele se aposenta em 1827.

Integrou, como representante de instrução pública, o Governo Provisório estabelecido em São Paulo a 23 de junho de 1821, em consequência de um movimento popular liberal refletindo a instauração de sistema constitucional em Lisboa, no ano anterior. Tal governo teve como presidente o ex-capitão-general João Carlos de Oeynhausen e, como vice-presidente, José Bonifácio de Andrada e Silva. E nos episódios subsequentes, o mestre-de-capela insere-se na corrente favorável à permanência de Dom Pedro I, em torno do qual polarizavam-se as forças políticas da independência. Após a independência André subscreve as diversas “representações do povo de São Paulo” para a conservação dos Andradas no Ministério do Império recém-proclamado.

André da Silva Gomes faleceu aos 17 de junho de 1844 com 91 anos. Seu corpo, revestido do hábito de São Francisco, foi acompanhado por todos os capelães da Sé em enterro solene. Enquanto viveu foi a personalidade mais destacada da música em São Paulo, pátria adotada de onde nunca se afastou desde que aqui se radicou 70 anos antes.

 

 

O excerto que podemos aqui ouvir é o excerto inicial do seu Stabat Mater, numa gravação histórica de 1980, em LP (ed. BASF), pelo Madrigal e Orquestra São Paulo Pró Música sob a regência do maestro Jonas Christensen. Como solistas, Martha Herr (soprano), Lenice Prioli (contralto), Percio Ribeiro Gomes de Deus (tenor) e Antonio Carlos Ferraz de Campos (baixo).

A partitura do Stabat Mater foi restaurada por Régis Duprat entre 1970 e 1974 a partir de um protótipo manuscrito de Manoel José Gomes, de 1831, depositada no Arquivo Carlos Gomes, de Campinas. Não dispomos de nenhuma referência documental para datar a sua composição. Aqui, igualmente, o estudo de dezenas de manuscritos do autor e análise de inúmeros pormenores do processo composicional conduzem-nos a situar a época de sua composição entre 1785 e 1800.

A 4.ª digressão da Orquestra XXI

A quarta digressão da Orquestra XXI, a decorrer em Março de 2015, tem início no próximo dia 6, pelas 21h30, nos Claustros da Pousada de Viseu, seguindo-se um concerto no dia 7 de Março, pelas 17h30, no Teatro Municipal da Covilhã, e terminando a digressão no dia 8 de Março, pelas 17h, na Culturgest, em Lisboa.

A Orquestra XXI surgiu em 2013, reunindo cerca de cinquenta jovens portugueses residentes no estrangeiro, em cidades como Londres, Paris, Zurique, Berlim, S. Petersburgo, Amesterdão e Madrid, estando muitos dos elementos relacionados com outras instituições como a Orquestra Sinfónica de Londres, Orquestra Nacional de França e Ópera de Zurique, entre outras.

Vencedora do 1.º prémio no concurso de empreendedorismo social “Ideias de Origem Portuguesa” da Fundação Calouste Gulbenkian, a Orquestra XXI estreou-se em Setembro de 2013 numa primeira digressão pelo Mosteiro de Tibães, Casa da Música, Mosteiro da Batalha e Centro Cultural de Belém, dedicada a obras de Manuel Durão (com estreia absoluta de Plataforma), Fernando Lopes-Graça, Gustav Mahler e Johannes Brahms. Depois deste primeiro sucesso, a orquestra reaparece na reabertura do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, com a 1.ª Sinfonia de Gustav Mahler.

Depois de uma segunda digressão dedicada exclusivamente à obra de J. S. Bach, e de uma terceira dedicada a H. Purcell, B. Britten, M. Ravel, L. A. Pena e L. van Beethoven, o programa das apresentações da quarta digressão será constituído pelo Concerto para violoncelo em lá menor, de C. Ph. E. Bach, Dumbarton Oaks de Igor Stravinsky, e Sinfonia n.º 40 em sol menor, de W. A. Mozart.

Para mais informações clique aqui.

The Bells Brass Ensemble em Torres Novas

Este agrupamento formado por instrumentos de metal e percussão nasceu em Maio de 2012. De acordo com o seu Presidente, Bruno Pascoal, tudo partiu da boa-vontade e iniciativa de um conjunto de músicos da zona centro. Uma vez que não existia nenhuma formação musical do género colmatou-se uma lacuna e prestou-se um serviço cultural à comunidade. Bruno Pascoal acrescenta que é também uma forma de haver um ponto de encontro entre professores e alunos das escolas de música e bandas filarmónicas do centro do país. O Director Artístico do projecto, Simão Francisco, acrescenta que muitos terminaram as suas licenciaturas e mestrados em instrumento e constataram que a sua vida musical estava a ficar reduzida ao ensino. Perceberam que não havia um local ou um grupo onde pudessem fazer música e trabalhar a um nível mais elevado. Constituir o The Bells Brass Ensemble foi a solução.

Numa fase mais avançada começaram a juntar-se ao grupo músicos mais jovens e ganhou-se também uma dinâmica formativa e educativa. Neste momento The Bells Brass Ensemble conta com 45 elementos com idades compreendidas entre os 16 e os 40 anos. Os elementos do sexo masculino estão em maioria, nas palavras de Simão Francisco, “quanto mais não seja por uma questão histórica do nosso país, em que os instrumentos de metal sempre foram mais associados ao sexo masculino do que ao feminino… isso ainda hoje continua, e este grupo não é excepção”.

Bruno Pascoal indica que um passo decisivo no percurso do grupo foi constituírem-se como associação, à qual preside, criada em Outubro de 2013. A partir daqui foi-se desenvolvendo uma série de actividades regulares, como é o caso de concertos e estágios de orquestra. Anualmente, em Ourém, ocorre um estágio de brass band e Orquestra.

No que diz respeito ao repertório executado, procuram tocar preferencialmente obras originais para este tipo de formação e não apenas arranjos e (ou) transcrições. Já existem obras escritas propositadamente para o grupo, como é o caso da Suite Templária (op. 23) do compositor espanhol José Blesa-Lull.

De todos os concertos realizados Bruno Pascoal destaca, precisamente, um concerto onde foi estreada a supra-mencionada Suite Templária, no Cine-Teatro de Ourém, em Janeiro de 2013. Por sua vez, Simão Francisco destaca a originalidade do projecto feito em parceira com  uma empresa de tratamento de águas residuais, a SIMLIS de Leiria. O grupo associou-se a uma campanha chamada “Esgotofonia”, com o objectivo de usar a música para alertar para os problemas da poluição da água. Nesse concerto foi estreado um instrumento novo, o “sanitofone” (bastante falado na comunicação social) sendo interessante saber que é possível associar a música em si a questões ambientais e importantes para o quotidiano das populações.

Inserido neste projecto surgiram também, recentemente, os The Bells Wood Ensemble, um grupo  de 35 elementos, só de madeiras, dirigido pelo maestro e director artístico Tiago Alves. Como não existia repertório para este tipo de formação, com excepção de uma obra de Phillip Spark, tudo se tem baseado no trabalho de arranjos feitos por Tiago Alves. Também aconteceu o caso de compositores portugueses com obras compostas que as re-orquestraram para a formação dos The Bells Wood Ensemble, como é o caso de Lino Guerreiro e da sua obra Maud’Adib.

[alert type=blue ]Os The Bells Brass Ensemble tocam já no próximo sábado à noite, 28 de fevereiro, no auditório do Choral Phydellius, em Torres Novas.[/alert]

Chegou o cavaleiro das mãos irresistíveis…

[alert type=blue ]D. Sancho, um misterioso fidalgo espanhol com pouco mais de vinte anos, é recolhido por D. Guterre em sua casa depois de um acidente enquanto cavalgava… mas corre o boato de que as suas mãos possuem um poder terrível e maligno…

A inquietante revelação vem perturbar o quotidiano familiar de D. Mór, mulher de D. Guterre, e de D. Beatriz, sua filha, de quem o hóspede imprevisto se enamora.

Durante a noite, num sonho enigmático e surpreendente, desvelam-se os medos e os desejos dos personagens face à presença do cavaleiro… Será que o perigo se confirma?[/alert]


 

[dropcap size=big]A[/dropcap]s últimas produções operáticas de Ruy Coelho (1889-1986) ouviram-se há cerca de meio século. Dentre a sua vasta produção neste género — aquele a que, de resto, mais energia e tempo dedicou ao longo de toda a vida —, destacam-se, em importância histórica, Serão da Infanta, sobre Theophilo Braga — a primeira ópera com libreto português a ser estreada por elenco nacional e em língua portuguesa no São Carlos, em 1913 —, Belkiss,  grande ópera em três actos, premiada num concurso internacional em Espanha em 1924, e  La robe des noces, estreada no Théâtre des Champs Élysées, Paris, em 1959, sobre libreto do seu amigo Charles Oulmont, uma das personalidades salvas por Aristides de Sousa Mendes no sombrio ano de 1940, e com quem viria a colaborar para mais uma peça dramática em 1968: La belle dame qui n’a pas péché.

É já no próximo mês de Abril que, com apoio da Direcção-Geral das Artes / Governo de Portugal, do Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada) e do Teatro Municipal do Porto, o Ensemble MPMP se propõe começar a redescobrir este património imenso, produzindo O cavaleiro das mãos irresistíveis, sobre Eugénio de Castro (1869-1944), uma ópera breve e das poucas que, no seu catálogo, foram escritas para um efectivo orquestral de menores dimensões — neste caso, orquestra clássica (prescindindo até de oboés). 

“A definitiva consagração do talento incontestável de Ruy Coelho”, escrevia-se n’A Voz depois da estreia em 1927. Num outro jornal, a compositora e crítica musical Francine Benoit registava também o seu apreço:

 

«[…] Ruy Coelho, magnificamente incansavel, dá-nos agora “O cavaleiro das mãos irresistíveis”. […] O sucesso da “première” — há instantes —, o entusiasmo do público selecto, que enchia completamente o nosso grande e belo teatro lírico, fazem prever mais representações […]. Instrumentalmente, Ruy Coelho faz prodígios; com tão reduzido número de figuras, de 26 professores apenas, manejou timbres, contrastes, em constante comentário do drama […] [O] jovem mas grande maestro [e] compositor […] recebeu ovações vibrantes, às quais nos associamos sem restrição. »

 

Para o espectáulo ora proposto, o Ensemble MPMP encomendou ainda uma nova ópera a Daniel Moreira cuja proposta dramática inscrever-se-á como interlúdio da ópera de Ruy Coelho, partindo do mesmo poema de Eugénio de Castro para o desenvolver sob outros aspectos, aqui com a recriação e adaptação literária de Edward Luiz Ayres d’Abreu.

Um elenco de excelente qualidade — a soprano Joana Seara, a meio-soprano Cátia Moreso, o tenor Marco Alves dos Santos e o barítono Job Tomé —, sob a direcção musical do maestro Jan Wierzba e com encenação de António Durães,  cenografia de Ana Gormicho, desenho de luz de Rui Simão e cinematografia de Mário Gajo de Carvalho (que participará como criador de uma peça para exibição durante parte do espectáculo) prometem uma noite certamente surpreendente para todos os melómanos portugueses.

Às récitas previstas para Almada (11 de Abril, Teatro Municipal Joaquim Benite) e Porto (18 e 19 de Abril, no Teatro Municipal do Porto — Campo Alegre), juntar-se-á ainda, na Biblioteca Nacional de Portugal, uma mini-mostra expositiva com manuscritos autógrafos e outros documentos.

Para comprar bilhetes e (ou) obter mais informações, visite aqui a página do projecto.

Se houvesse guitarras no céu…

No próximo dia 27 de Fevereiro, pelas 21h00, o Museu do Pico apresentará no Auditório do Museu dos Baleeiros Não me importava morrer se houvesse guitarras no céu, filme sobre o “bailho” da chamarrita nas ilhas do Pico e do Faial.

O documentário do realizador Tiago Pereira, produzido pela Associação Cultural Música Vadia com financiamento da Direcção Regional da Cultura do Governo Regional dos Açores, pretende consciencializar a opinião pública sobre a existência e valor enquanto património imaterial desta prática musical coreografada proveniente dos Açores: o baile mandado da chamarrita.

Esta dança, praticamente desconhecida no continente português, tem uma grande repercussão em vários tecidos da comunidade, em especial nas ilhas do Faial e Pico. O filme pretende, assim, descobrir e transmitir as influências a que estas comunidades do canal foram expostas e o modo como se foram actualizando nas suas práticas quotidianas. Procura-se também descobrir o que é hoje a chamarrita e como se envolve com as pessoas e se mistura com outros contextos assim como outros sujeitos.

Musicalmente, é mostrado como um músico personagem procura na chamarrita sons que o cativem, técnicas especiais de tocar o instrumento tradicional – que neste caso é a viola da terra – e as formas como se funde com as ilhas e com o seu isolamento.

Não me importava morrer se houvesse guitarras no céu pretende ainda contribuir para mudar a mentalidade negativa de olhar e pensar a cultura tradicional e popular portuguesa, dando a conhecer uma ideia de cultura mais rica e singular do que se possa presumir, e provocando um olhar renovado para as particularidades das práticas quotidianas que muitas vezes se desprezam, banalizam ou se perdem com o desaparecimento das gerações mais velhas. Educar para a consideração e valorização do património imaterial é, sobretudo, a mensagem a ser destacada por este filme.

Severa — o fado de um fado

Encontra-se aberto até ao próximo dia 31 de Março um programa de financiamento colectivo para a edição de um CD da soprano Ana Barros, do pianista Bruno Belthoise e do guitarra portuguesa convidado Miguel Amaral. Severa — o fado de um fado propõe-se revisitar alguns dos fados mais tradicionais à luz  da renovada contemporaneidade de tradição erudita ocidental, aqui representada pelos compositores Carlos Marecos, Carlos Azevedo e Sérgio Azevedo.

O projecto mereceu a colaboração da Antena 2, do Instituto Camões, do Prof. Dr. Rui Vieira Nery (consultor científico), de João Braga (consultor artístico) e do Museu do Fado, que desde cedo reconheceu o seu valor atribuindo-lhe o carimbo ‘Fado — Património da Humanidade’.

Para além da gravação de um disco, o projecto inclui ainda a realização de concertos.

Para visitar a página de financiamento colectivo, clique aqui.

Ver ainda:


 

Ana Barros estudou Canto na Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo do Porto, frequentando as classes de Rui Taveira e Fernanda Correia. Foi membro do elenco do Estúdio de Ópera da Casa da Música, onde trabalhou com P. Harrison, L. Marshall e J. Cohen. Contactou ainda com Jill Feldman, Philip Langridge, Gundula Janovic, Laura Sarti e Elisabete Matos. Teve a oportunidade de cantar sob a direcção de José Luís Borges Coelho, Rui Massena, Antonio Saiote, Manuel Ivo Cruz, Martin André, Christoph König, Giovanni Andreoli e Marc Tardue. Apresentou-e no Teatro Rivoli, Casa da Música, Coliseu do Porto,  Fundação Calouste Gulbenkian, São Carlos, São Luiz, Teatro da Trindade e Culturgest. Estreou obras de Vasques-Dias, Côrte-Real, Eugénio Amorim, Fernando Lapa, Carlos Azevedo, Faria Gomes, Chagas Rosa, Sara Carvalho e Alexandre Delgado, entre outros.

Pianista, escritor e improvisador, Bruno Belthoise é vencedor da Fundação Laurent-Vibert e recebe o Prix de la Fondation de France em 1988. Obteve o Diploma de Execução na École Normale de Musique de Paris em 1989 e foi “Revelação Clássica” ADAMI em 1997. Solista e membro do Trio Pangea, estreou várias obras de compositores como Emmanuel Hieaux, Alexandre Delgado, Bernard de Vienne, Fernando Lapa, Sébastien Béranger ou Sérgio Azevedo. Bruno Belthoise executa um repertório que vai de J. S. Bach até aos compositores contemporâneos. Gravou uma vintena de CDs que acompanham a sua trajectória de intérprete criativo. A sua curiosidade natural levou-o a pôr o seu talento ao serviço dos compositores portugueses do século XX. Na sua carreira tem sido apoiado por instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Instituto Camões, o Ministério da Cultura e a Antena 2.

Miguel Amaral nasceu no Porto em 1982. Iniciou os estudos de Piano com a professora Madalena Leite de Castro com 6 anos. Estudou Guitarra Portuguesa com Samuel Cabral e José Fontes Rocha. Inicia os estudos de guitarra portuguesa com Pedro Caldeira Cabral. Estuda Análise, Harmonia e Contraponto com Daniel Moreira e Composição com Dimitris Andrikopoulos. Das suas mais recentes apresentações como solista, destaca-se o recital na Casa da Música em 2009, e em Outubro de 2011 o recital na Gulbenkian, inserido no festival Prémio Jovens Músicos, com transmissão em directo na Antena 2, onde, para além das suas composições, estreou obras de Mário Laginha, Andrikopoulos, Daniel Moreira e Igor C. Silva. Em 2013 lança Chuva Oblíqua, o seu álbum de estreia. Integra o Novo Trio de Mário Laginha, gravando o disco Terra Seca, no qual assina a peça Fuga para um dia de Sol. Desde 2010 faz parte da orquestra do espectáculo “Sombras” de Ricardo Pais.

 

Os Baixos Sumptuosos

[dropcap size=small]S[/dropcap]ob o título Os Baixos Sumptuosos: Música Sacra da Capela Patriarcal no limiar do séc. XIX, o Ensemble Bonne Corde, sob a direcção de Diana Vinagre, apresentou, num dos primeiros momentos – e sem dúvida um dos mais extraordinários – da 26.ª temporada Música em São Roque, um concerto que ficará na memória de quantos tiveram o privilégio de estar a 19 de Outubro no Convento de São Pedro de Alcântara.

Reflexo da constituição instrumental da Capela Patriarcal até ao séc. XIX, este programa inclui música praticamente inédita no seu conjunto, de compositores quer justamente célebres (como Leonardo Leo, François Devienne ou Marcos Portugal), quer desconhecidos em absoluto (como Ignácio António Ferreira de Lima, António da Silva Gomes e Oliveira ou Antonio de Padua Puzzi), em grande parte para uma formação de extrema raridade (solistas acompanhados por duas ou mesmo quatro partes graves – dois fagotes e dois violoncelos – sobre o baixo contínuo).

Foi, assim, dado a ouvir pela primeira vez através de uma interpretação rigorosíssima sob todos os aspectos e, ao mesmo tempo, de grande naturalidade, um conjunto de obras para uma formação que, contrariando a matriz conservadora herdada do início do séc. XVIII, acaba por produzir resultados únicos em virtude da extrema coesão tímbrica que a sobreposição de três ou cinco partes graves possibilita, a que acrescem recursos expressivos que lhe não associaríamos à partida, devedores em grande medida do virtuosismo das partes solísticas confiadas ao primeiro violoncelo.

O impacte da estreia moderna destas obras deve-se, todavia, em primeiro lugar ao extraordinário nível artístico alcançado pelo Ensemble Bonne Corde e pelos dois grandes solistas que com ele se apresentaram. Uma palavra de apreço é devida muito especialmente a Ana Quintans, que engrandeceu este repertório com uma voz plena de matizes tímbricos, servida por uma técnica exemplar, sempre apoiada e evidenciando um pleno domínio do ar na absoluta igualdade de registos.

Um convidado merecedor de reverência particular, o violoncelo histórico construído em Lisboa em 1788 por Joaquim José Galrão e hoje conservado na colecção instrumental do Conservatório Nacional, teve a sorte de se apresentar desta vez em público – o que só muito raramente aconteceu nos últimos decénios – servindo a musicalidade sofisticada, a afinação e fraseado incorruptíveis e tantas outras qualidades da grande violoncelista Diana Vinagre, também responsável pela selecção e, em grande medida, pela transcrição das obras com que compôs o programa deste concerto, que surge no âmbito do seu trabalho de Doutoramento.

E tanto haveria ainda a dizer de todos os que a acompanharam, como do baixo contínuo realizado ao órgão com tanta imaginação como prodigalidade de cores por Miguel Jalôto (a par das intervenções solísticas que abriram as duas partes do programa: a primeira, uma fuga virtuosística de Leonardo Leo, a lembrar o melhor das fugas de Scarlatti; a segunda com a solenidade da escrita acentuadamente arcaizante dos nossos organistas dos primeiros anos de 1800, neste caso Fr. José Marques e Silva).

Merecem-nos Diana Vinagre e o seu Ensemble Bonne Corde, por todo o trabalho de investigação que precede este programa, como pelo extremo cuidado que a sua preparação evidencia, o maior apreço e o desejo de que possamos voltar a ouvir Os Baixos Sumptuosos brevemente.

Alfredo Keil na Turquia

 

 

[dropcap size=small]H[/dropcap]á escassos dias, a 22 de Janeiro, a música portuguesa beneficiou uma vez mais da acção divulgadora de Tomohiro Hatta, num recital que teve lugar na Sala de Espectáculos do Lycée Notre Dame de Sion, em Istambul. O grande pianista nipónico, discípulo de Paul Badura-Skoda e Caio Pagano, laureado em numerosos concursos internacionais, levou à sede milenar da cultura bizantina, cidade-símbolo do Oriente da Europa, entre outras obras tão marcadamente ocidentais como as dos gigantes Bach e Chopin, um conjunto de peças para piano solo de Alfredo Keil extraídas das colectâneas Impressions Poétiques e Douze Mélodies, publicadas ainda em vida do eminente polígrafo, persistindo na atenção que há anos vem dedicando à cultura e à música de autores portugueses e do mundo lusófono.

A relação que liga Tomohiro Hatta – radicado em Paris desde 2005 – a Portugal não é evidentemente alheia à importante actividade concertística que desenvolve no âmbito da música para piano a quatro mãos enquanto membro do duo MusicOrba, que mantém com o pianista português Ricardo Vieira e que os tem chamado a ambos para a atenção da crítica especializada internacional, de quem mereceram elogiosas referências.

A par dos grandes nomes da música portuguesa e brasileira que têm ajudado a divulgar em França e noutros países europeus e extra-europeus, a música para piano de Alfredo Keil (1850-1907) suscitou suficiente interesse a Tomohiro Hatta para que tenha dedicado às vinte e quatro peças que constituem os cadernos de Douze Mélodies e Impressions Poétiques o seu disco de estreia enquanto solista, gravado num piano histórico de Grotrian-Steinweg de 1876 e editado em 2014 pelo MPMP , Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa como volume 9 da colecção discográfica melographia portugueza.

 


 a descobrir:

Alfredo Keil | Impressions Poétiques

A não perder: o QGLx em Almada

N’A Criação de Haydn, a palavra Licht (Luz) assinala o momento criador em que transitamos da escuridão para o brilho orquestral. No disco Prima Luce, que o Quarteto de Guitarras de Lisboa (QGLx) irá apresentar em concerto no próximo dia 30 de Janeiro em Almada, a Luz, elemento primordial criador, é a característica comum a todas obras, de Carlos Marecos, Cláudio Cruz, Francisco Tavares, José Dias, Manuel Durão e André Santos.

Há também memórias, histórias de infância, contrastes de luz e de sombra, de aceleração e de acalmia e uma luminosidade no som das quatro guitarras que tocam numa sintonia bem construída, pontuada por muitos efeitos sonoros.

Um concerto que promete envolver o ouvinte num universo sonoro que poderá quiçá deixá-lo (como diria António Damásio) a “um passo da luz”, como metáfora do advento “simples e esmagador da entrada do Si no mundo da mente.” [1]

 


 30 de Janeiro de 2015, 21h30

Auditório Fernando Lopes-Graça do Fórum Romeu Correia (Almada)


 

O Quarteto de Guitarras de Lisboa (QGLx) formou-se em 2006, tendo realizado, nos primeiros três anos, cerca de cinquenta recitais entre Portugal e Espanha, e estreado diversas obras de compositores portugueses. Em 2011, após uma paragem, o grupo retomou a sua actividade e, desde então, tem-se dedicado a preparar repertório essencialmente composto por obras de compositores portugueses, a par de obras de compositores de referência do universo guitarrístico. Em 2013, o grupo editou um CD com peças de compositores portugueses dedicadas ao QGLx.

QGLx: André Santos, José Dias, Miguel Vieira da Silva, Pedro Luís

 


 

[1] Damásio, A., 2000, O sentimento de si, Edições Europa-América, p. 22

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