2.2 A CONTENÇÃO DA LUZ

Na fotografia que acompanha o álbum Ascent (2005) podemos observar como a imagem parece vinda da escuridão. Fascinado por essa transição da escuridão para a luz, que mal chega sequer a ter cor e é ainda apenas claridade, o olhar do compositor capta esse momento em que a luz fere a escuridão da noite. Veja-se, por exemplo, as fotografias ASCENT_MOV.2 (Valado de Frades, 2005) ou ASCENT_MOV.3 (Paris, 2005). Ainda quase não existe cor: é o momento anterior à cor, o surgimento da luz apenas.

A obra fotográfica de Bernardo Sassetti cativa a atenção para um acontecimento que, na vivência quotidiana, tende a ficar desatendido: a escuridão como um corpo prévio, a noite como gérmen do dia. É esta omnipresença da noite como pano de fundo de onde as imagens parecem surgir que dá unidade às fotografias de Ascent. Todas as imagens são enquadradas num fundo negro. A noite, a escuridão absoluta.

Esta espécie de rebordo circular da noite que envolve as fotografias aparece também musicalmente na redução de meios para chegar à essência e no aprofundamento em movimentos circulares simples. Fugindo do supérfluo, trata-se de um trabalho em profundidade sobre a cor, a textura e a densidade do som:

É o reflexo de um lado circular que me parece existir na música que tenho procurado ultimamente, desde a gravação do CD Ascent: existe um carácter de repetição e consequente desenvolvimento sonoro, que me interessa explorar. Atenção, não confundir circular com minimal-repetitivo! Portanto, tentar que a música evolua ou se desenvolva no máximo das suas possibilidades, com base em motivos circulares simples, ostinatos que me surgem intuitivamente. Mas isto não é totalmente exequível e, no meu entender, a música, a partir de um certo ponto, pode ir para qualquer caminho. Neste momento, estou a fazer estas experiências sobre música circular, sobre secções – as cores, as texturas, a simplicidade e a densidade sonoras, por exemplo. Repetitivas, sim, mas que têm um desenvolvimento aturado dentro de cada um das secções ou temas.15

A exploração da sombra atinge o expoente máximo na música para o filme Alice (2005) de Marco Martins, cuja fotografia apresenta uma Lisboa muito diferente da que normalmente se divulga: é uma Lisboa sombria, chuvosa, triste e ruidosa. Toda a iconografia da imagem nos evoca a prisão, o labirinto. Trata-se de um filme quase a preto e branco. Ficamos nas variações do cinza, são muito poucas as notas de cor que aparecem, excepções como o casaco azul da criança desaparecida. O cinema, imagem em movimento, “não tem apenas movimentos extensivos (espaço), mas também movimentos intensivos (luz) e movimentos afectivos (a alma). O tempo como tonalidade aberta e cambiante não deixa de ultrapassar todos os movimentos, mesmo as mudanças pessoais da alma ou movimentos afectivos.”16

A partir do momento em que o cinema deixou de ser mudo surgiu o problema de como fazer com que o som e a palavra não fossem apenas uma reiteração do que se vê. O princípio de não redundância é fundamental para um cinema de qualidade. Alice transporta-nos para o mundo obsessivo de um pai que incansavelmente procura a filha desaparecida nas ruas da cidade, numa “justeza emocional”17 difícil de igualar. A banda sonora criada por Bernardo Sassetti jamais se torna redundante precisamente porque se esforçou por alcançar “o que as imagens não transmitem.”18 Repugná-lo-ia recorrer ao som como forma fácil de induzir sentimento nos espectadores. Bernardo foge da música circunstancial que apenas acompanha a imagem e que facilmente se tornaria supérflua – pelo contrário, busca as sonoridades da alma, “a representação musical dos vários estados de espírito de um ser humano.”19 O tema de Alice consegue criar uma “espiral de dor tão intensa que custa a crer que as suas mãos não estejam em sangue. Ou, pelo menos, em lágrimas.”20

São, de facto, estados de alma sombrios. A genialidade de Bernardo Sassetti consiste na minúcia dessa imensa paleta de sombras que consegue evocar no seu território estético de penumbra.

O que eu queria então retratar nesta banda sonora, e esta foi a principal ideia, era o interior da personagem principal. O pai e, sobretudo, a relação que existe entre a sua esperança e a indiferença das pessoas que lhe estão mais próximas e, também muito importante, a quase desistência da mãe. E, de facto, é isto que me interessa na música para cinema: conseguir chegar à mente das personagens, à sua psicologia. Ao que as imagens não transmitem e onde a música pode trazer algo mais para a compreensão das pessoas. E esse é o primeiro caminho de raciocínio quando parto para a elaboração de uma banda sonora.21

2.3 A CONTENÇÃO DO SOM

No que concerne especificamente à música para cinema, Bernardo Sassetti considera que “silêncio musical ajuda as entradas de música.”22 Diz-nos que foi José Álvaro de Morais, o realizador de Quaresma (2003), quem lhe ensinou verdadeiramente a perceber a importância do silêncio na arte:

Foi ele [José Álvaro de Morais] que me ajudou a ver claro como é a partir do silêncio que nasce todo o processo criativo.23

Em Alice, este refinamento da contenção culmina; basta apenas uma nota bem tocada:

Para mim, basta uma simples nota – bem tocada, como por exemplo o maravilhoso clarinete do Rui Rosa no filme Alice, de Marco Martins – para que a música seja um veículo independente para chegar aos outros. É tão simples quanto isto…24

A certa altura, o silêncio tornou-se uma necessidade absoluta:

É através do meu silêncio interior que nascem as primeiras ideias. São poucos os músicos de Jazz que exploram realmente (repito realmente) esta forma de expressão musical – que é também uma enorme fonte de energia e uma forma de expressão muito orgânica e com a qual me identifico muito. Gosto sobretudo de criar uma música suspensa, quase intemporal, em que o tempo de cada nota não é, nem deve ser, um dado adquirido. Mais relevante ainda é a importância que dou às ressonâncias do interior do piano e à preocupação que tenho com o som das notas e dos acordes.25

Vivemos num estado de agitação constante. Os estímulos são imensos, os pensamentos enlaçam-se de forma quase automática quer sobre os acontecimentos passados, quer sobre possibilidades ou acções futuras, questionando-se interminavelmente. Pelo contrário, encontramos em Bernardo Sassetti uma vontade de silenciar esta torrente constante, uma atenção que se vira totalmente para dentro, para as entranhas do ser, um conceber obscura e silenciosamente.

Sobre a relação do silêncio com os processos criativos, em particular com a faculdade da imaginação, María Zambrano (1904-1991) explica-nos que à medida que o silêncio se vai intensificando, o tempo unifica-se, e, graças a esta unificação temporal, o pensamento, a criatividade começa a nascer de uma forma diferente. O tempo perde a sua condição vertiginosa, o seu carácter voraz, que consome os instantes com uma rapidez tal que o homem tem a sensação de que o tempo lhe escapa, de que tem que correr para não ser esmagado por ele, num viver que acaba por ser des-viver. Outras vezes, o tempo parece não avançar, porque a própria vida entrou numa espécie de letargia, um estado de atonia em que nada a impele a prosseguir o caminho, e, pouco a pouco, o ser humano vai atrofiando, porque em qualquer destes dois casos não são dadas as condições necessárias para o desenvolvimento harmonioso da criatividade. Opostamente, à medida que o silêncio se expande na mente, o tempo unifica-se. Passa a viver-se num estado em que as diferentes dimensões temporais se articulam entre si e, então, o tempo torna-se um aliado. O tempo múltiplo unifica-se, num estado que Zambrano considera ser já supra-temporalidade, de tal forma o tempo se torna transparente. Silenciado o rumor, o pensamento converte-se em guia, auxilia-se da imaginação que agora se torna dócil.

Para mim não há nada mais precioso do que o silêncio de uma meditação. Olharmos para dentro e pensarmos em que somos e no que estamos aqui a fazer.26

3. INQUIETUDE27

Quando fala do processo criativo, ficamos a perceber que Bernardo Sassetti não tem um ponto de chegada determinado. É um processo de descoberta. A sinestesia uma vez mais: podemos imaginar uma espécie de tactear, tal como quando caminhamos às escuras, à procura do caminho:

As opções criativas e artísticas são qualquer coisa que é sentida cá dentro. E o facto de eu fazer uma música que não tem swing nem procura o swing, nem a tradição negra, ou negra/branca com estas influências todas que a Europa agora tem no Jazz, deixou muitas pessoas desiludidas. Mas a realidade é que eu… olhe não sei o que hei-de dizer. É um caminho. Gosto muito da música. Gosto de ir à procura. Estou sempre à procura.28

É uma procura intensa, um estado de inquietude permanente:

Sou um terrestre, muitas vezes feliz, mas um terrestre que caminha de uma forma muito aérea, muito suspensa, à procura de qualquer coisa, sobretudo na música, que ainda não sabe muito bem o que é. E isso inquieta-me o espírito. Sempre. Vivo com esta inquietação vinte e quatro horas por dia.29

Uma inquietude que não deve ser fácil de suportar, pois na sua textura se encontram o erro, a indecisão, a dúvida.30 Requer um esforço imenso de fidelidade a si próprio, a criação em autenticidade que se propõe, o não fugir deste estado, mas acolhê-lo, apesar da força anímica que a decisão requer.

Tento assumir permanentemente o erro e a indecisão, a dúvida constante. Procuro fazer isso pois também faz com que a minha visão das coisas possa evoluir. Nesse sentido, o conflito interior é e será sempre essencial.31

Procurar, correr riscos,32 avançar em direcção ao desconhecido; são estas as suas escolhas:

O aspecto mais importante é, talvez, o da procura, cada vez maior, pelo risco ou pelo desconhecido.33

É necessária grande coragem para se aventurar por territórios inexplorados. Bernardo Sassetti fá-lo, de peito aberto, disposto a acolher o que vier. A abertura ao desconhecido implica a suspensão da meta, do resultado final a atingir – o que, de algum modo, é também um acto de contenção –, a disciplina de não se impor uma direcção. Esta suspensão (epoche em termos husserlianos) parece ser, pois, característica inerente à estética de que aqui se trata. O acto criativo de encontro na disponibilidade e não de busca dirigida com uma meta definida antecipadamente denota a estética de penumbra.

A atenção desempenha aqui um papel fundamental ao conseguir unir passividade e actividade de forma adequada. Da passividade possui a capacidade de recepção, a abertura, o estado de disponibilidade; da actividade possui a capacidade de persistir num horizonte aberto, esforçando-se por não se concentrar apenas num aspecto da realidade que se lhe oferece. É neste estado de receptividade activa que a sua arte acontece.

A PENUMBRA TOCADA DE ALEGRIA

Há em Bernardo Sassetti uma sensibilidade extraordinária para captar o que se encontra normalmente escondido, oculto mesmo debaixo dos olhos.34 Ao deparar com uma descoberta, Bernardo abre-se-lhe, mas sem a invadir ou sobressaltar. Acolhe então o que quer que seja que brota, extraindo-o da opacidade, escuridão ou silêncio em que normalmente se encontra. Quando algo se encontra escondido, convertido quase à inexistência devido à tamanha escuridão ou mudez que o envolve, se se lhe derrama luz brilhante ou um grande volume de som, a violência é tal que até a imaginação se revolta! A intimidade foge, aturdida pela exuberância. É preciso actuar delicadamente, sem atrito, passar gradualmente da escuridão para a luz, do silêncio para o som, acolher a penumbra no seu seio.

Para manter os timbres dos instrumentos, para preservar a dinâmica da orquestra, para aquilo soar como deve, o som não pode ser masterizado muito alto, porque se não acaba tudo muito comprimido. Eu não quero a minha música assim. (…) A música hoje em dia é toda misturada no pico do volume e perde qualidade por isso. Perde dinâmica, perde detalhe. Está tudo altíssimo e estamos todos a ficar surdos.35

Hoje em dia, com tanto ruído, confunde-se a quietude com tristeza, o volume baixo com tristeza, a serenidade com tristeza. Enfim, tudo quanto não é euforia desenfreada é tristeza. Diz-nos Bernardo Sassetti:

É curioso pensar que muitas vezes as pessoas confundem a espiritualidade com a tristeza. Um tema lento, por exemplo, não tem de ser necessariamente triste. Eu não acredito em tristeza na minha música. Há quem diga que Ascent ou Alice são músicas profundamente tristes, mas eu retirava a palavra triste.36

Atrever-me-ia a dizer que a penumbra tocada de alegria37 é o lugar da inspiração de Bernardo Sassetti.

notas

15 Bernardo Sassetti, entrevista de L. Figueiredo (23 de Janeiro de 2008).

16 Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2006, p. 303.

17 Gonçalo Frota, Piano a Preto-e-Branco

18 “Alice num País sem Maravilhas” (entrevista de Nuno Galopim e Carlos Carvalho).

19 Entrevista de André Gomes.

20 Ibidem

21 “Alice num País sem Maravilhas”, (entrevista de Nuno Galopim e Carlos Carvalho).

22 Ibidem

23 Maria João Seixas, “Conversa com vista para… Bernardo Sassetti”.

24 Entrevista de Pedro Costa, “Bernardo Sassetti”, RIA 11 (Abril de 2008). 

25 Entrevista de André Gomes.

26 Entrevista de Laurinda Alves

27 Existe no álbum Índigo (2004) uma faixa com este nome.

28 “Bernardo Sassetti – A última coisa que quero é ser incompetente” (entrevista de João Pedro Oliveira). Mais adiante acrescenta: “Copia-se para se criar um estilo e seguirmos o nosso caminho – sempre à procura de caminhos outros. É também fundamental ler-se muito para se escrever com fluência, não é?”

29 Maria João Seixas, “Conversa com vista para… Bernardo Sassetti”.

30 Dúvida surge em 2007. 

31 “Seria muito infeliz se me dedicasse só à musica”, Revista Xis (entrevista de Laurinda Alves).

32 Apontando o dedo ao meio artístico, Bernardo Sassetti afirma: “aquela música que traz algum risco, que é o que acho que falha no meio artístico, não português mas mundial. Uma falta de risco tremenda…” (“Alice num país sem maravilhas”. Entrevista de Nuno Galopim e Carlos Carvalho).

33 “Um músico sem complexos” (vários entrevistadores).

34 “O meu pai ‘empurrou-me’ para a arte da fotografia porque me dava muito que pensar – no sentido estético da arte das imagens e na maneira como me ensinou a olhar para as coisas de forma mais interessante. O que é que pode ser interessante e que está mesmo diante dos nossos olhos? Essa foi a ideia principal.” (Entrevista de Nelson Marques).

35 “Bernardo Sassetti – A última coisa que quero é ser incompetente” (cit.). 

36 “Seria muito infeliz se me dedicasse só à musica”, Revista Xis (entrevista de Laurinda Alves).

37 “(…) y yo me encontré, no dentro de una revelación fulgurante, sino dentro de lo que siempre ha sido mejor para mi pensamiento: la penumbra tocada de alegría. Y entonces, calladamente – en una penumbra, yo diria más que de mi mente de mi corazón – se fue abriendo como una flor, el discernido sentir.” María Zambrano, Hacia un saber sobre el alma, Madrid, Alianza, 1989, p. 10.

Fotografia: Comunidade Cultura e Arte.

Texto publicado na Glosas n.º 14, p. 45-48.

Sobre o autor

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Correspondente da GLOSAS no Algarve e investigadora do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM) da Universidade Nova de Lisboa. Actualmente realiza um Pós-Doutoramento no âmbito da Estética Musical, sendo bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Doutorou-se em Filosofia Contemporânea em 2002 com uma tese sobre o pensamento de María Zambrano, tendo sido orientada por Maria Filomena Molder. Publica regularmente em revistas científicas. Iniciou os seus estudos em piano com quatro anos de idade, canto e dança um pouco mais tarde, actividades que não seguiu profissionalmente, mas também nunca largou, porque é impossível deixar o que nos alimenta a alma.