“Revolução” em Ílhavo

O Grupo de Música Contemporânea Síntese apresenta o concerto “Revolução”, no dia 31 de maio, às 18h00, no Museu Marítimo de Ílhavo. O programa é composto por obras encomendadas a João Pedro Oliveira, Ângela da Ponte e Edward Ayres d’Abreu, e estreadas em 2024, para celebrar os 50 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974. Este espetáculo integra a programação do “Tanto Mar!” de maio do MMI. Após a realização do concerto será realizada uma conversa aberta ao público com a compositora Ângela da Ponte, a respeito do papel das mulheres compositoras na atualidade, em Portugal.

O Síntese, Grupo de Música Contemporânea, foi fundado em 2007 e já estreou mais de 60 obras, na sua maioria feitas por encomenda a compositores portugueses ou residentes em Portugal de várias gerações e estilos. Composto por Helena Neves (soprano), Carlos Canhoto (saxofones), Francisco Martins (acordeão), Gustavo Delgado (violino I), Alfeu Carneiro (violino II), João Mendes (violeta) e Rogério Peixinho  (violoncelo), contam com a direção do maestro Yan Mikirtumov. A composição atua com diversas entidades, municípios portugueses, escolas de música e universidades. Para os anos de 23-26 contam com um apoio do Ministério da Cultura.

Os bilhetes, com um valor de três euros, podem ser levantados no Museu Marítimo de Ílhavo, na Casa da Cultura de Ílhavo e na Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré, a partir do dia 23 de maio. Mais Informações: 234 329 990 | [email protected]

Estudos de Peixinho e Carrapatoso

Em Portugal, inúmeras vezes insisti sobre o fato de o Brasil ignorar quase que totalmente a extraordinária criação musical portuguesa, assim como de não se debruçar sobre estudos literários a respeito da música composta em Portugal. São fatos inequívocos que não podem ser esquecidos. Essa atitude no Brasil parece ser endêmica a transparecer “catarse” relacionada aos séculos de colonização.

Essa premissa se faz ainda mais necessária após a recepção calorosa de duas obras portuguesas contemporâneas apresentadas em São Paulo em recital junto à Sociedade Brasileira de Eubiose em Abril último. A Missa sem palavras (Cinco Estudos Litúrgicos), de Eurico Carrapatoso (2012), e o Étude Die Reihe-Courante, de Jorge Peixinho (1992), rigorosamente contrastantes em todos os aspectos musicais e de propósitos, entusiasmaram público numeroso. Não há que pensar fazer, há que fazer, única possibilidade de que a música portuguesa de concerto penetre as mentes brasileiras.

Em 1985 iniciei projeto de Estudos Contemporâneos para piano que teria a duração de trinta anos. Recebi, ao longo, mais de oitenta Estudos vindos de diversas regiões do planeta. Encerra-se o projeto neste 2015. Ao convidar o notável compositor português Eurico Carrapatoso (1962-) a escrever um Estudo, fui surpreendido pela Missa sem palavras. Carrapatoso, nessa obra dividida em cinco partes que constituem a Missa, lega-nos uma obra de profunda meditação, a expor um domínio absoluto da trama polifônica. O texto em latim da Missa lá está na partitura, a corroborar, inclusive, a justeza da acentuação prosódia-música. Extraio segmento do texto de Eurico Carrapatoso que antecede a partitura: “Nesta peça, o conceito de Estudo está longe da asserção convencional do termo, tantas vezes associada à extroversão do elemento virtuosístico ou à exploração de determinados domínios técnicos de um dado instrumento. Trata-se, antes, de uma viagem pelo mundo interior, introspectiva, ao sabor das inflexões produzidas pela leitura de um texto expresso na partitura. Este texto sacro refulge no fragor bronzino do latim. Escrito na partitura, faz dela parte intrínseca. Mas não será verbalizado no sopro da voz. Está lá para dele ser feita uma leitura íntima, secreta. O intérprete cantará os mistérios do texto canônico através dos seus dedos e não da sua voz. Os dedos serão como os de Pepino, o Breve, rei dos franceses: taumatúrgicos, operando prodígios pelo toque. Penso, por isso, que estão reunidas as condições para se lhe poder chamar Estudos, não tanto pelo desafio técnico, que sempre esteve, aliás, muito longe de ser minha intenção, mas pelo desafio místico, dado todo o universo metalinguístico que lhe subjaz” (Lisboa, 22 de Fevereiro de 2012).

Ao receber o magnífico Étude V Die Reihe-Courante solicitei um ensaio ao ilustre compositor português Jorge Peixinho. Extraio alguns segmentos: “O ‘Estudo V Die Reihe-Courante’ herda qualquer coisa de obras minhas anteriores e deixa traços em obras posteriores. Como qualquer Estudo que se preze, e tomando como referência histórica os exemplos magistrais de Chopin, Liszt ou Debussy, uma peça com este título deve conter dois vectores fundamentais, a saber: ser um ‘estudo’, simultaneamente de execução para o instrumento respectivo (neste e naqueles casos, o piano) e, para o compositor, igualmente, como laboratório de novas experiências e dilatação dos seus limites técnico-expressivos… Trata-se de um estudo sobre uma visão da série como objeto e sujeito, uma perspectiva abrangente, que compreende tanto a concepção schönberguiana da série-tema como a concepção weberniana da série, enquanto princípio estrutural e estruturante, ordenador e motor da organização da obra. A série dodecafônica é exposta logo de início, num segmento que compreende, para além dos doze sons, uma sequência de outros vinte”. Após análise pormenorizada do processo e indicações precisas quanto à interpretação, conclui o compositor: “O Étude Die Reihe-Courante fecha e abre simultaneamente velhas e novas etapas, criando uma ponte entre duas margens de um rio; um rio sempre vivo e em movimento, uma corrente ininterrupta em direcção a um novo infinito, metáfora da impossível utopia da perfeição e da liberdade criadora” (“Introdução a um estudo sobre o Estudo V. Die Reihe-Courante para piano”. In Jorge Peixinho in Memoriam, organização de José Machado, Lisboa, Caminho, 2002, pp. 203-222).

As duas explêndidas obras estarão à disposição do público em 2016, a partir de gravação de CD realizada na Bélgica com outros mais Estudos: de François Servenière, Études Cosmiques (7+1), de Gheorghi Arnaoudov, Et Iterum Venturus, e de Gilberto Mendes Um Estudo? Eisler e Webern caminham pelos mares do sul. Em Maio de 2015, apresentei recitais com esses “estudos contemporâneos” para piano e mais Vers la flamme, de Alexander Scriabine (centenário da morte) na Academia de Amadores de Música, Lisboa, e no Canto Firme, Tomar.

Texto completo publicado na Glosas n.º 12, p. 94.

Helena Sá e Costa é homenageada na Casa da Música


Entre os dias 23 e 28 de maio, a Casa da Música realiza um tributo a Helena Sá e Costa. Conhecida por seu papel formativo, a portuense Helena Sá e Costa foi figura fundamental na educação de muitos dos grandes pianistas portugueses. Mas também foi uma destacada pianista. Para evocá-la, a Casa da Música propõe uma série de concertos e maratonas.

O tributo abre com o Concerto para três pianos de Mozart, com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. O concerto contará com três multipremiados pianistas que celebram em palco a genialidade do compositor austríaco, e é dirigido por um deles, Julius Zeman. 

Destaca-se também, no dia 28 de maio, um recital com o pianista Benjamin Grosvenor, que emergiu na cena internacional com a sua vitória no BBC Young Musician of the Year Competition.

Nos dias 24 e 25 de maio há uma “Maratona de Teclistas“, atividade do serviço educativo. Em diferentes espaços do edifício, centenas de jovens teclistas provenientes de escolas vocacionais de música, mostram os seus talentos. No dia 5 de maio é a vez da “Maratona de Violoncelistas”. Os violoncelistas tocam pela Casa da Música a solo, em pequenos agrupamentos ou em grandes ensembles com dezenas de instrumentistas.

Para saber mais sobre Helena Sá e Costa: 

No centenário de Helena Sá e Costa (1913-2006)

Fotobiografia de Helena Sá e Costa

O espelho de mim: análise de dois auto-retratos de Bernardo Sassetti

(…) Em 1994, Bernardo Sassetti intensificou a dedicação à fotografia, movido não apenas pela paixão por esta arte, mas por uma real necessidade de associar a imagem à música que escreve. Tal como aconteceu com a sua música, a fotografia foi, para Sassetti, mais do que a própria realidade, o espelho das coisas que dela se imaginam. (…)

Excerto da Biografia de Bernardo Sassetti (www.casabernardosassetti.com)

Lembrem-se que um bom par de sapatos faz sempre uma grande diferença.

Bernardo Sassetti, Excerto do texto Pianistas Pianistas (www.casabernardosassetti.com)

Analisar elementos iconográficos e iconológicos nas fotografias de Bernardo Sassetti pode parecer um acto frio e cirúrgico. Compartimentá-las, dissecar os seus detalhes, pode até parecer quase perverso. Mas fiquem os leitores descansados, que esta análise pretende, antes, tentar chegar à sua essência. Acima de tudo, estas são fotografias marcadas por uma intimidade. E dão uma visão tão plena do âmago do artista que chega a ser assustador e perturbador mergulhar nele.

Para além da referida intimidade, estas fotografias são marcadas por uma grande dose de experimentação. Vemos o fotógrafo que ousa tentar, insatisfeito, impaciente, numa constante busca de algo que, inevitavelmente, sabe que poderá nunca alcançar. Partes do próprio corpo do artista são fotografadas. Outras são de outros corpos. Pés, mãos, olhos, testa. Com uma ênfase nas rugas, nas linhas da pele. Elas são, tal como está enunciado na sua biografia e acima citado, “mais do que a própria realidade, o espelho das coisas que dela se imaginam”.

1. A primeira fotografia intitula-se “Pés (Rio Tejo)”, tirada em 2010 numa área húmida que bordeja o Tejo, junto às salinas, perto de Alcochete.1 Bernardo Sassetti mostra os seus pés descalços. As inúmeras fotografias tiradas neste formato demonstram uma certa fixação por esta parte do corpo. Os pés são vistos como um objecto de curiosidade constante e de quase fetiche. A fotografia é, na maioria das vezes, realizada de cima para baixo, com os pés descalços. Muitas têm o elemento água associado, um elemento fluido – os pés descalços na casa de banho, na água livre, que corre, ou no leito seco de um rio. Os pés são objectos altamente simbólicos, numa série de contextos, épocas e sociedade. São os pés que caminham, que nos conduzem, que trilham caminhos. Já na Bíblia, no Antigo Testamento, Deus diz que todo o lugar onde pisarem as plantas dos pés, a elas pertencerão (Dt. 11:24). Sassetti mostra pés descalços, por forma a sentir o chão, a terra. São ponto de contacto com sensações únicas e primordiais. Uma busca do sentir. Do profundo sentir. A terra seca e já fragmentada salpica os pés que a pisam. A ausência da água, que já abandonou o terreno – deixa a descoberto alguns ramos sem vida e uma luva de borracha, suja, marca do Homem na Natureza.

2. No segundo auto-retrato temos um contraste experimental ao nível do jogo de luzes e de sombras.2 O cenário, interior, foi preparado para fotografar amigos. Mas, enquanto preparava a sessão, eis que surge um momento íntimo, de experimentação. A objectiva aponta e dispara no automático. A imagem tem camadas, tal como o nosso interior, tal como nós próprios. Uma cortina, um homem, uma janela. A cortina, transparente, deixa ver o vulto humano, mas apenas nos seus contornos. A janela ilumina, por trás. Entre duas fontes de luz – a janela, emissora, e a cortina transparente, a receptora – está a sombra contrastante e esbatida do corpo. As mãos estão contra a cortina, bem abertas. Quase como se estivéssemos a testemunhar O Grito de Munch, mas ainda mais exasperante. A figura humana parece prisioneira. E, ironicamente, não há grades, mas uma fina cortina transparente de luz. Esta é uma das poucas imagens em que vemos as mãos. As mãos que tocam, que compõem, que escrevem e que fotografam. Que deveriam ser a parte obsessiva do músico, ao invés dos pés. Mas as mãos, aqui, não tocam, não escrevem. Parecem ser parte de um grito surdo. Apesar de esta fotografia ter sido tirada enquanto ante-câmara de um momento de vida feliz, considero que há aqui algo muito íntimo, sensível, privado e até, quase, doloroso.

A análise de dois auto-retratos de Bernado Sassetti revelou-se tão gratificante quanto difícil. Gratificante porque me permitiu contactar com o seu génio, com a sua alma, com a sua sensibilidade. Olhar, reflectir, compreender, desfrutar da sua arte, do seu pensamento. Difícil porque obriga a olhar para interior, muitas vezes escondido, muitas vezes que dói. Obriga a libertá-lo e a purificá-lo. Se a fotografia foi para Sassetti mais do que a realidade, e foi o espelho das coisas que dela se imaginam, foi também um espelho de mim, ao escrever este pequeno artigo. Por tudo isso, nunca, mas nunca, será demais olhar e recordar Bernardo Sassetti.

notas

1 Beatriz Batarda refere: “(…) O Bernardo subiu o Tejo a bordo de um semi-rígido num passeio organizado por Carlos Caetano, responsável pelo Náutico Clube Boa Esperança sediado no Cais do Sodré. Iam a bordo o Bernardo, Carlos Caetano e Paulo Santos quando fizeram a paragem que proporcionou esta imagem. O Bernardo voltou para casa maravilhado com o passeio.”

2 Beatriz Batarda refere: “Imagem feita em 2010. O Bernardo fotografou um casal de amigos em casa deles, em teatro de sombras. Esta imagem foi feita na preparação para essa sessão.”

Fotografia: Bernardo Sassetti

Texto completo publicado na Glosa nº 14, p. 42-44.

Música no Dia e Noite dos Museus

Este fim-de-semana há apresentações de música clássica por todo o país, como parte da programação do Dia e Noite Internacional dos Museus. O “Dia” foi criado em 1977 pelo ICOM – Conselho Internacional de Museus, e hoje ocorre em vários países pelo mundo. Já a “Noite Europeia dos Museus” foi uma iniciativa criada em 2005 pelo Ministério da Cultura de França; ocorre no mesmo dia, mas permite que os visitantes usufruam de uma experiência cultural diferente em período noturno. 

O tema de 2025 é O Futuro dos Museus em Comunidades em Rápida TransformaçãoEste tema tem na relação entre Museus e Comunidade o seu eixo central. Segundo o ICOM, esse tema é alinhado com os três objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) que dão conta dos museus como estruturas que apoiam as economias locais, criando oportunidades de emprego, propõem programas educativos que autonomizam as comunidades, estimulam a inovação tecnológica e, assim, melhoram a acessibilidade. Por fim, os museus contribuem para o desenvolvimento urbano como pólos culturais que favorecem a inclusão, resistência e preservação do património. A música clássica é beneficiária desta atuação dos Museus, já que é neles que uma parte significativa das apresentações é realizada habitualmente. Este é, portanto, o momento de celebrar a associação profícua entre música erudita e os museus.

A entrada nos espaços da Museus e Monumentos de Portugal será gratuita, na Fundação Gulbenkian as atividades são gratuitas mas requerem levantamento de bilhete. A programação é extensa e variável, pelo que se recomenda vivamente o acesso ao site do evento para mais informações (https://dim.museusemonumentospt.pt/). Abaixo a lista dos eventos já listados:

16/05

19h00: Concerto Concerto Quinteto de Sopros do Vale. Museu Nacional Resistência e Liberdade – Fortaleza de Peniche.

21h00-22h30: Concerto de Música Barroca, com Patrycja Gabrel e Tiago Matias. Palácio Nacional de Mafra.

17/05

10h30-16h00: Momentos Musicais no Paço dos Duques com o Conservatório de Guimarães. Paço dos Duques de Bragança. 

16h00: Concerto Iberian Ensemble. Museu de Santa Maria de Lamas.

17h00: Duo Veredas. Pocket Show da Academia de Música de Telheiras. Museu Nacional do Traje.

21h00: Músicas originais de José Pedro Pinto, pontuado com leitura de documentos históricos por Teresa Queirós. Museu Nacional Grão Vasco.

21h00: Concerto. Museu de Artes de Sintra.

21h30: Concerto do Grupo Solista da Academia A Pauta. Museu Nacional Soares dos Reis. 

18/05

10:30 – 11:30 e 12:00 – 13:00: Percussão corporal e voz – O corpo como instrumento. Fundação Gulbenkian.

11h00 e 15h00: Apontamentos musicais pelo Saxofonista Luís Salomé. Museu da Guarda.

11H00 –16H00: Há música no Palácio! com alunos da Escola de Música de Nossa Senhora do Cabo. Programa: 11h00 Ensemble barroco (com cravo) – Sala do Trono | 11h30 Ensemble barroco (com cravo) – Sala do Trono | 12h00 Camerata de Violinos ¬– Sala do Trono | 15h00 Duo de Violino e Guitarra – Vestíbulo | 15h30 Quarteto de Violoncelos – Vestíbulo | 16h00 Quarteto de Violoncelos – Vestíbulo. Palácio Nacional da Ajuda.

11h30: Atuação do Coro Infantojuvenil da Universidade de Lisboa. Museu Nacional de História Natural e da Ciência

16h00-17h00: Concerto dos Bolseiros da Fundação GDA. Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves

16h30: Concerto Ensemble de Flauta Transversal pelos alunos do Conservatório de Música de Viseu – Dr. José de Azeredo Perdigão. Museu Nacional Grão Vasco. 

17h00-18h00: Concerto da Sinfonietta de Ponta Delgada, sob a direção do clarinetista e maestro Pedro Vicente Alamá. Museu Carlos Machado.

17h30: Baile Barroco com mestre de dança, pelo ensemble Secrets des Roys. Museu de Lisboa – Palácio Pimenta.

24/05

16h00-17h00: Recital de música de câmara. Com a atuação do duo de percussão Bernardo Ramos e Gonçalo Matos. Ecomuseu Municipal do Seixal.

18h30-19h15: Concerto dos alunos do Polo do Conservatório de Música do Seixal. Ecomuseu Municipal do Seixal.

Passionário Polifónico de Guimarães

O constante interesse do Professor Doutor José Maria Pedrosa Cardoso pelo repertório sacro quinhentista português, com particular enfoque na composição e práxis musical da Semana Santa e Páscoa, no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, tem permitido, ao longo dos anos, chegar a conclusões importantes no domínio da Musicologia em Portugal. Depois da publicação de O Canto da Paixão nos Séculos XVI e XVII – A Singularidade Portuguesa (2006) e Cerimonial da Capela Real (2008), foi dado recentemente à estampa um magnífico volume que reproduz, em fac-simile, o códice SL 11-2-4 da Sociedade Martins Sarmento, com precioso estudo (em versão bilingue, português-inglês, tradução de Ivan Moody), transcrição e revisão de J. M. Pedrosa e musicografia de Eduardo Magalhães.

Resultado de uma parceria entre a insigne sociedade vimaranense e a Sociedade Musical de Guimarães, a edição do Passionário Polifónico de Guimarães contou ainda com o saudável patrocínio da Fundação Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012. São 397 páginas fulgentes, 12 obras musicais transcritas e um DVD, com a 1.a audição moderna de algumas destas obras, interpretação do Coro da Sociedade Musical de Guimarães, os solistas João Rodrigues, Manuel Rebelo e Carlos Pedro Santos, do agrupamento Voces Caelestes, com direcção de Sérgio Fontão, concerto realizado na Igreja de S. Francisco, em Guimarães, a 23 de Março de 2013.

O estudo de José Maria Pedrosa é de leitura fascinante mas, em vários aspectos, exigente. Após a descrição física do manuscrito é avançada uma datação, c. 1580, uma origem, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, e um compositor, pelo menos de uma parte substancial da polifonia, Dom Pedro de Cristo (†1618). Segue-se uma contextualização, profusamente documentada, da prática do canto da Paixão em Portugal, muito em particular no mosteiro crúzio conimbricense. Pedrosa começa por explicar que os Passionários portugueses (o primeiro Passionário impresso em Portugal data de 1543), para além da música pela qual se cantava a Paixão de Cristo nas versões dos quatro evangelistas, continham música de outras peças significativas das celebrações da Semana Santa. Por este motivo, encontram-se no Passionário de Guimarães as Paixões segundo S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João, o Pregão Pascal Exultet, as Lições de 5.a, 6.a e Sábado Santo, o Cântico de Laudes Benedictus [4 vozes], 2 salmos Miserere [4 vozes], um deles incompleto, a Ladaínha de Defuntos Jesu Redemptor [4 vozes] e três responsórios sem letra (não transcritos na presente edição mas, presumivelmente, correspondentes, segundo Pedrosa, às leituras das Matinas de 5.a, 6.a e Sábado Santo).

A singularidade de versículos cantados a três vozes, especialmente alguns ditos de Cristo, e um canto monódico claramente mensuralizado faziam do canto da Paixão, em plena devotio contra-reformista, um acontecimento excepcional, não sendo por isso de estranhar que, em plena vigência da União Ibérica, fossem requisitados cónegos de Santa Cruz para irem ao Escurial cantar os bradados da Paixão. O prestígio e irradiação da música crúzia para além do Mondego justificam, assim, a presença deste manuscrito em Guimarães.

Sobre o grafismo musical, ficamos a saber que é utilizada uma notação mensural branca para as partes polifónicas e monofónicas, mas esta última apresenta uma escrita do canto-chão barroquizante, particularmente nos finais de frase que antecedem as alocuções de Cristo, o que levantou alguns problemas na transcrição para notação moderna, detalhadamente explicada por Pedrosa e de leitura obrigatória para qualquer intérprete que se abalance neste repertório.

Resta-nos, por fim, tecer algumas considerações que julgamos pertinentes quanto à obra em apreciação. Pela sua beleza e elevado valor documental, esta edição constitui, per se, um marco singular no universo dos códices musicais de arquivos portugueses fac-similados e um dos legados mais importantes da Fundação Guimarães – Capital Europeia da Cultura 2012. Todavia, não podemos deixar de lamentar as dimensões deste livro (de difícil manuseamento, tal é o peso), mais próprias da Biblioteca Joanina de Coimbra, com as suas luxuriantes e sólidas estantes em pau-brasil, do que das vulgares e quebradiças estantes folheadas que muitos têm em suas casas.

Nunca como nos tempos recentes houve em Portugal tamanha diversidade e qualidade de ensembles e coros aptos, artisticamente, a interpretar com rigor e inspiração a música que a transcrição de Pedrosa deu à estampa. Esperamos que a volumetria não seja um óbice à divulgação deste repertório, uma vez que, fugindo a uma prática recentemente vulgarizada, as transcrições em notação moderna não estão disponibilizadas em CD ou em apêndice.

Dizem-nos que foi este códice de Guimarães que lançou José Maria Pedrosa Cardoso, há algumas décadas, na investigação musicológica. Se assim foi, a presente edição é, certamente, seu motivo de orgulho e afeição académica. Para todos nós, um vislumbre singular sobre a música portuguesa da 2.a metade do séc. XVI, a reter e a acarinhar.

Texto completo publicado na Glosa nº 11, p. 94.

A terminar, o prazo para o 40.º ESEM!

O 40.º Seminário Europeu de Etnomusicologia (ESEM) e o 5.º Encontro do Comité Nacional do Conselho Internacional para as Tradições da Música e da Dança (ICTMD) será realizado em Aveiro entre os dias 16 e 20 de setembro de 2025. Fundado por John Blacking em 1981, o ESEM é a mais importante associação europeia de Etnomusicologia, reunindo etnomusicólogos da maioria dos países da Europa e do mundo. Os temas das conferências e que dão o tom do encontro são: “Música e alterações climáticas: Ecologias sónicas e etnomusicologia ambiental”, “O Futuro da Etnomusicologia: Reflexividade, Ética e Desafios Digitais” e “A política do Som e da Escuta: Poder, Resistência e Património Cultural na Etnomusicologia”.

O prazo para a submissão das candidaturas foi estendido até ao dia 10 de maio de 2025. É possível participar de várias maneiras: com comunicação individual, painel, sessão audiovisual e mesa redonda. Embora seja dada prioridade às propostas relacionadas com os temas do Seminário, serão também consideradas as submissões sobre outros tópicos de interesse para a ESEM. A avaliação das propostas será feita de forma anónima, e os oradores serão notificados da decisão do comité do programa até meados de maio de 2025. O formulário de inscrição está disponível online.

No comité de organização estão Susana Sardo (Chair) (Universidade de Aveiro, INET-md), Filippo Bonini Baraldi (NOVA FCSH – INET-md), Fulvia Caruso (Università di Pavia), Salwa El-Shawan Castelo Branco (NOVA FCSH, INET-md), Rui Marques (Universidade do Minho – INET-md), Ana Flávia Miguel (Universidade de Aveiro, INET-md), Pedro Moreira (Universidade de Évora – CESEM), Mojca Piškor (Institute of Ethnology and Folklore Research, Zagreb), Mariana Bonfim (Universidade de Aveiro, INET-md) e Jorge Castro Ribeiro (Universidade de Aveiro, INET-md).

Fotografia: Universidade de Aveiro

10 anos de edição fonográfica de música erudita em Portugal (Parte II)

Entre as etiquetas de pequenas empresas que surgiram já em pleno século XXI, destacam-se a Portugaler6, Althum, Arkhé Music ou a Artway Records. Entre estas, aquela que apresenta um maior número de títulos na última década é a Artway Records, com um total de cinco títulos, o que reflecte um cenário de baixo índice de produção deste tipo de entidades editoras. Ao mesmo tempo, isso é sintomático de um contexto de maior dispersão de edições por outras tipologias de edição, e uma queda considerável na quantidade de novos títulos em comparação com as décadas anteriores. Estamos, cada vez, mais, perante projectos pontuais em catálogos de reduzidas proporções, a partir de uma grande dose de iniciativa pessoal. Muitas destas editoras sobrevivem de um grande investimento por parte de quem as dirige e dos seus colaboradores directos, que habitualmente são os próprios responsáveis pela produção das edições para os seus catálogos ou mesmo para outras etiquetas. Muitas vezes, os músicos não têm cachet (na maior parte das vezes, na verdade). Habitualmente, os projetos estão dependentes de financiamento externo, uma vez que são raros os casos de empresas deste tipo que invistam do seu próprio bolso, dado que o retorno de vendas não é minimamente suficiente para cobrir sequer os custos de produção.7

Perante este cenário de um mercado de produção de conteúdos em manutenção e um mercado editorial disperso e residual, o maior catálogo tem sido concretizado fora do contexto empresarial, pelas edições do MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, uma associação cultural sem fins lucrativos.

A partir de 2012, o MPMP tem publicado novas gravações de música de compositores portugueses, desde o período medieval até ao século XXI, com um total de 48 edições publicadas até ao início de 2020. Entre essa produção destaca-se a colecção melographia portugueza,inteiramente produzida pelo próprio MPMP, mas também parcerias com a Universidade de Aveiro e a Escola Superior de Música de Lisboa, e outros projectos pontuais. A discografia editada pelo MPMP é, incomparavelmente, a mais regular e numerosa da última década em Portugal, o que ilustra bem a inexistência de uma indústria especializada e um mercado empresarial de edição e distribuição consistente que sustente um mercado de consumo associado, ao contrário do que se verificou nos últimos vinte e cinco anos do século passado e os primeiros do XXI.

Na última década, os canais de distribuição digital passaram a dominar o acesso à música gravada pela sociedade de consumo — quantos de nós já não deram por si a escutar um álbum via streaming online enquanto esse mesmo CD está pousado na estante ou mesmo na mesa à nossa frente! Se, por um lado, o mundo digital contribui para uma menor dependência das grandes estruturas empresariais, por outro lado, quebra por completo quaisquer barreiras e autonomias dos mercados locais. Nesse sentido, o mercado fonográfico português tem grandes dificuldades em ser suficientemente aliciante para os músicos, que têm muitas vezes de investir para gravar e, nesse sentido, preferem que as suas gravações sejam publicadas por editoras internacionais com uma maior implementação e distribuição à escala mundial, e um hipotético selo de qualidade superior, em comparação com as indies portuguesas.

Em contrapartida de um decréscimo da acção do sector empresarial, a última década tem sido marcada, dentro e fora de Portugal, pela emergência de etiquetas criadas pelos próprios artistas. Além da Miso Records, surgiu já na viragem para a presente década a MU Records (no âmbito da Associação Arte das Musas), fundada por Filipe Faria, para publicar os álbuns do seu grupo Sete Lágrimas (com Sérgio Peixoto) e de outros projectos pessoais, cujo catálogo supera já a dezena de títulos, comandando a dianteira neste tipo de edição em solo nacional nos últimos anos. Também neste capítulo, à imagem do que acontece com grandes instituições estrangeiras (como a Berliner Philharmoniker e a London Symphony Orchestra), importa salientar o caso das edições da Casa da Música, que tem rentabilizando os seus recursos humanos (artísticos) e técnicos através da gravação dos concertos das suas temporadas e de uma selecção desses registos para edição discográfica. No entanto, isso reflecte-se também numa menor capacidade de distribuição, uma vez que a Casa da Música não tem departamentos específicos para esse processo de pós-produção, tal como acontece também com muitos artistas que optam por fazer edições de autor. Facto é que, mais recentemente, a Casa da Música tem optado por estabelecer colaborações com importantes etiquetas internacionais para as gravações de alguns dos seus agrupamentos, como é exemplo o disco À Portugueza (Andreas Staier e a Orquestra Barroca Casa da Música, Harmonia Mundi, 2018), e também um projecto recentemente anunciado pelo seu director artístico (António Jorge Pacheco) de uma gravação de música de Fernando Lopes-Graça pelo Coro Casa da Música, a ser editada e distribuída por uma grande companhia internacional. Essa é, aliás, a abordagem que tem sido levada a cabo pela Fundação Calouste Gulbenkian desde o início de actividade dos seus agrupamentos, cuja primeira discografia remonta a 1966 e tem-se mantido regular até aos nossos dias, com edições para as mais variadas companhias internacionais, incluindo um total de 22 edições novas na última década.

No panorama da edição fonográfica de música erudita em Portugal na última década, um dos principais calcanhares de Aquiles tem sido, sem sombra de dúvidas, o estado de esquecimento, desinteresse, negligência a que tem sido votada a própria etiqueta do estado, PortugalSom. Estou a falar de um dos maiores catálogos de música erudita produzidos em Portugal desde 1977, e que não publica desde 2012. Estou também a falar de um plano discográfico nacional, impulsionado pela Divisão de Música da Secretaria de Estado da Cultura, que merece outro tipo de cuidado e consideração das entidades competentes, sobretudo havendo precisamente um Ministério com responsabilidades nesse domínio e que parece desconhecer a importância desse património, equiparável à da preservação do património literário ou iconográfico que, apesar das muitas queixas compreensíveis que possam ter, não sofrem do mesmo grau de alienação por parte do Estado —pergunto-me se há, sequer, no Ministério, a noção clara da existência desse fundo histórico e da sua relevância e valor patrimonial. A PortugalSom não foi alvo até ao início de 2020 (praticamente toda uma década) de qualquer iniciativa de continuidade, sendo hoje praticamente inacessível no mercado de venda de discos ou em arquivo. Mas, se porventura não tivesse havido condições (e houve) para investir em novas gravações, pelo menos seria exigível (e é) que se desenvolva urgentemente um plano de digitalização e distribuição online desse arquivo fonográfico8, que é também um espólio nacional riquíssimo. Até ao momento, isso ainda não foi feito, e desconheço a existência de qualquer plano desse tipo que esteja em prática, apesar de terem sido já por variadas vezes alertadas as entidades competentes para esse facto.

Esta questão leva a outra relacionada com o contexto da edição em Portugal, e uma das linhas emergentes e mais interessantes no quadro da edição fonográfica internacional: as gravações históricas. São fontes de enorme e inquestionável importância para o nosso conhecimento histórico, que tardam em ser uma prioridade no domínio da edição portuguesa.

São poucos os exemplos de projectos deste tipo, sendo talvez o mais impactante o conjunto de gravações com a Orquestra Sinfónica Nacional sob direcção de Pedro de Freitas Branco, publicadas entre 1995 e 1996 em 12 CDs pela PortugalSom9. A par disso, resumem-se aos dedos de uma mão, ou pouco mais, as edições deste tipo que têm sido levadas a cabo no nosso país, como por exemplo o disco Joaquim Simões da Hora In Concert (2016), a partir de registos em concerto recuperados no arquivo da rádio Antena 2 e do espólio particular do artista, que consistiu na única edição da Portugaler na última década.

Perante inúmeros arquivos (públicos e privados), espólios e colecções particulares, há um imenso e riquíssimo fundo documental e artístico que importa preservar, uma nova linha editorial que tem ainda um longo caminho a percorrer no nosso país. No entanto, quanto mais tempo passar, maior é o risco de se perder ou deteriorar uma maior quantidade de fontes, suprimindo-se assim pequenas peças da banda sonora da nossa história, que muitas vezes são os únicos registos que temos de determinado artista, repertório ou prática interpretativa (entre outros aspectos de importância histórica que estas fontes concentram).

A única iniciativa de dimensão nacional que foi nesse sentido consistiu na criação do Arquivo Sonoro Nacional, que poderá e deverá tornar-se um pólo de ampliação do nosso conhecimento histórico, mas que, tal como a biblioteca não coloca em causa a edição literária, também este tipo de arquivo não invalida, muito pelo contrário, a necessidade imperiosa de planos editoriais em torno de fontes históricas.

E as analogias entre a edição literária e fonográfica não devem parar aqui, porque há muito que a edição fonográfica pode emular dos procedimentos da literária, mas há, sobretudo, uma necessidade de que as entidades e agentes competentes tratem a primeira da mesma forma com que vemos ser tratada a segunda em diversos procedimentos exemplares. Por exemplo, com a criação de um Plano Fonográfico Nacional, à imagem do Plano Nacional de Leitura, que comprova repetidamente o seu sucesso na formação de diferentes gerações, a par com outras medidas indispensáveis ao domínio do mercado de produção e consumo deste tipo de bens, por exemplo equiparando o seu enquadramento fiscal ao da edição literária. Porque havemos de manter um IVA de 23% para bens culturais, artísticos e pedagógicos reproduzidos em fonogramas e, em contrapartida, uma taxa de 6% no que se refere a conteúdos com o mesmo enquadramento, mas publicados em livro (em papel ou formato digital)?

Ao contrário do que se verifica em outros sectores editoriais, onde há uma articulação mais eficaz entre as diferentes forças desses mercados, e um apoio mais cuidado por parte das entidades responsáveis, a história do mercado fonográfico português revela uma incapacidade constante para gerar uma indústria auto-suficiente nesse domínio, em parte, também, pela sua escala de micro-mercado, volátil e exposto às dinâmicas dos grandes pólos internacionais (por exemplo, Inglaterra, Alemanha, França, Japão e Estados Unidos da América).

Ao longo das últimas décadas, verificou-se um processo de transição de um mercado editorial dominado por majors, para um novo em que as entidades dinamizadoras são hoje, essencialmente, projectos independentes de produtores e artistas empreendedores. Impulsionam projectos e trabalham directamente entre si na produção de um master que, muitas vezes, só posteriormente é apresentado ou trabalhado pela editora, que é alheia a todo o processo de concretização do documento fonográfico que edita e distribui no mercado. Desta feita, a maioria do repertório gravado está directamente relacionada com os interesses de quem os dirige e de sinergias entre diferentes intervenientes com interesses comuns (música antiga, música contemporânea, música portuguesa ou o património organológico).

Essa é, sem dúvida, uma das principais características da edição de música erudita em Portugal na última década: um contexto de produção de conteúdos maioritariamente assente na acção de indivíduos ou grupos de intervenientes directamente ligados aos processo de produção, sem grandes empresas editoras e, muitas vezes, verificando-se uma desarticulação entre um mercado editorial e outro de produção fonográfica que ainda se mantém, e presumivelmente, ao que tudo deixa antever, conseguirá manter-se dentro dos mesmos moldes por mais tempo que o da edição.

Nesse sentido, uma outra característica desta última década é a acção perseverante de alguns produtores, técnicos e artistas que, num contexto que não é, de todo, o mais favorável, têm conseguido concretizar projectos relevantes sob vários pontos de vista, muitas das vezes às suas próprias custas, mas cujo mérito e benefício engrandece sobretudo a nossa cultura e a causa pública, ao mesmo tempo que se evidencia uma vontade presente e futura de continuar esse caminho, num terreno onde há ainda muito por fazer. Será uma pena se não se souber aproveitar e tirar os melhores frutos deste contexto, dando as devidas condições para responder aos desafios do presente e abrir portas para o futuro.

Os desafios mais críticos com que a indústria fonográfica de música erudita depara hoje em dia consistem essencialmente nas dinâmicas de edição, que ao longo de largas décadas estiveram cristalizadas, mas que no curto espaço de duas décadas se alteraram completamente, tendo nos últimos dez anos deixado mostras de já estar outra vez a abrir caminho para novas transformações. Essa constante transformação é, como vimos, uma marca da história da indústria fonográfica, dentro e fora de Portugal, que cabe a todos nós, agentes inseridos nesse contexto, entidades competentes no domínio da produção e preservação cultural, e também ao público, assumir como um importante e estimulante desafio para a produção e fruição musical, bem como para o registo e difusão indispensável da arte daqueles que fazem e fizeram música no passado, no presente e no futuro.

Notas

1 Jornal de Letras e das Artes n.º 1182 (20 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2016).

2 As mais antigas edições discográficas comerciais de música erudita produzidas integralmente em Portugal datam da década de 1950, entre elas gravações de repertório coral de Fernando Lopes-Graça, pelo Coro da Academia de Amadores de Música, publicadas pela editora Radertz (1956, RKA 114 e RKA 115).

3 Acerca desses mesmos factores, aconselho a consulta da tese de doutoramento de Paula Abreu, investigadora em Sociologia da Cultura da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra: A música entre a arte, a indústria e o mercado: um estudo sobre a indústria fonográfica em Portugal (2010). Disponível online no repositório da Universidade de Coimbra, em: https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/13832/1/Tese%20Paula%20Abreu%202010.pdf.

4 Após um período de grande intensidade no seio do catálogo Movieplay Classics entre os anos de 1988 e 2000, durante a primeira década do século XXI esta etiqueta publicou episodicamente até 2010. Em 2015, a Movieplay cessou por completo a sua actividade.

5 A Universal Music Portugal editou uma quantidade diminuta de títulos de música erudita nos últimos anos, com um único disco de referência na última década no panorama da discografia de música erudita nacional, o título Os Apóstolos, pelo Coro Gregoriano de Lisboa (Decca, 2011). O único caso de nota na Warner Classics (EMI Portugal) nos últimos anos foi um disco gravado pelo Coro Gulbenkian e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dedicado ao Magnificat e De Profundis de António Pinho Vargas (2017).

6 O período de maior fulgor da etiqueta Portugaler foi a primeira década do século XXI. Entre 2002 e 2009 esta editora publicou um total de dez edições, sendo que na última década apenas publicou um novo título (Joaquim Simões da Hora In Concert, 2016). Foi uma etiqueta dedicada a repertório de compositores portugueses, a cargo de destacados intérpretes portugueses e renomados artistas estrangeiros, com edições que se destacavam pela qualidade artística, técnica e um grande aparato editorial. Sobre esta série

discográfica, ver a rúbrica “Lusitana Musica – Clássicos da discografia portuguesa” da Glosas 17, Novembro de 2017 (pp. 71-75).

7 Todos estes projetos estão, hoje, dependentes de um financiamento pré-garantido, não havendo praticamente nenhum investimento por parte das editoras, sobretudo pelo facto de as mesmas não terem condições para o fazer. Esse financiamento pode advir de investimento do próprio artista, de patrocínios privados e (ou) apoios estatais, ou ainda através de ações de crowdfunding, o que tem alterado as estruturas de produção executivas.

8 Importa recordar que uma grande parte do catálogo da Discoteca Básica Nacional/PortugalSom foi reeditado em formato CD ao longo da década de 1990 e nos primeiros anos do século XXI, pelo que a inoperância é ainda mais preocupante dado que uma parte do trabalho de conversão de suporte analógico para digital já foi previamente efectuado, bastando levar a cabo as diligências necessárias para a sua distribuição online.

9 Sobre esta série discográfica, ver a rúbrica “Lusitana Musica – Clássicos da discografia portuguesa” da Glosas 18, Maio de 2018 (pp. 76-79).

Texto completo publicado na Glosa nº 20, p. 23-29.

2 de maio: um dia de escolhas

Não faltam opções para os melómanos no dia 2 de maio. Destacamos sugestões para uma sexta-feira bem passada.

Às 19h, na Igreja de São Roque, há o Concerto – Aniversário Rainha D. Leonor, promovido pela SCML, em parceria com a ÉGIDE Artes. Trata-se da inauguração da programação evocativa do 5.º centenário da morte da Rainha D. Leonor de Portugal, fundadora das Misericórdias, no dia do seu nascimento, 2 de Maio. Ouve-se a “Missa Grande”(ca. 1782-1790) de Marcos Portugal (1762-1830), com Carla Caramujo, Coro Voces Caelestes e seus solistas, Irene Lima (violoncelo), Adriano Aguiar (contrabaixo), André Fernandes (órgão) e direção musical de Sérgio Fontão. Entrada gratuita, limitada à lotação do espaço. 

No O’culto da Ajuda, às 19h30 o Duo Interdito apresenta “O Caderno de Eugénio”: obras de jovens compositores portugueses. Composto pela soprano Sofia Marafona e pelo pianista Duarte Pereira Martins. O duo convidou doze jovens compositores portugueses para a escrita de miniaturas para canto e piano, em busca de um novo cancioneiro eugeniano. O programa é composto por obras de Erwin Schulhoff, Wolfgang Rihm, Camila Menino, Miguel Resende Bastos, Sara Ross, Carlos Lopes, Pedro Finisterra, Fábio Cachão. Com projecção de vídeo de Adriana Romero.

Na esplanada da Cinemateca Portuguesa, às 18h30, o Núcleo de Pensamento e Música (NPM) irá realizar uma sessão de leitura e discussão em torno do capítulo “Listening (to Listening): The Making of the Modern Ear” do livro Listen: A History of our Ears (Ecoute: une histoire de nos oreilles) de Peter Szendy. O encontro será conduzido por Filipa Cruz e é aberto a pesquisadores da área da música. Para mais informações sobre a leitura e/ou o evento contactar o NPM através do endereço [email protected].

Fotografia @misomusic: : O Caderno de Eugénio

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