Prémio Musa 2021: anúncio de resultados

O Júri do Prémio Musa 2021, formado pelos compositores Annette Vande Gorne, Flo Menezes, Jaime Reis, João Pedro Oliveira e Keita Matsumiya, acaba de anunciar os resultados do certame. Segundo o comunicado enviado ao MPMP, “após atenta análise das peças e suas conexões com o texto literário de escolha dos compositores, o júri decidiu não atribuir um primeiro prémio. Decidiu também, por unanimidade, atribuir uma menção honrosa à peça Sim.”

O Prémio Musa criado com o intuito de distinguir a excelência musical da composição contemporânea de tradição erudita ocidental e de, nesse contexto, promover a língua portuguesa como veículo expressivo. Esta terceira edição, A edição do Prémio Musa 2021 procurava distinguir a melhor obra escrita para acusmática sobre textos de Clarice Lispector.

 

 

A obra distinguida com a menção honrosa, Sim, foi composta por Tiago Quintas, pianista e compositor, nascido em 1998 em Nelas, Viseu. Quintas estudou no Conservatório de Música de Seia com Roberto Lourenço (Piano), Jaime Reis e Túlio Augusto Santos (Teoria). Licenciou-se em Piano na Universidade de Évora, trabalhando sob a orientação de Ana Telles Béreau. Durante os seus estudos de piano contactou, em masterclasses diversas, com Sara Davis Buechner, Anna Kijanowska, Mia Elezovic e Marius Bartoccini. No âmbito da Composição participou em workshops e masterclasses orientadas por Jaime Reis, Túlio Augusto Santos, Hans Tutschku, Annette Vande Gorne, Christopher Bochmann e Ake Parmerud. Actualmente é mestrando em Composição da Universidade de Aveiro, sendo orientando de Sara Carvalho e, simultaneamente, frequenta na mesma universidade a licenciatura em Matemática.

 

 

Segundo o compositor, a composição de Sim, pensada para seis canais, partiu d’A hora da estrela de Clarice Lispector, romance cujas primeira e última frases são, com efeito, “Tudo no mundo começou com um sim” e “Sim”. “Cada um dos andamentos tem o nome de cada um dos treze títulos alternativos que a autora do romance propõe e explora os contextos emocionais percepcionados por diferentes personagens, em pontos específicos da história […]. Em alguns momentos, é utilizado um trecho da secção final do livro”. Ainda segundo Tiago Quintas, ao longo do enredo “a escritora sugere várias sensações auditivas, associadas a eventos específicos, referenciando quer instrumentos quer paisagens sonoras. Assim, invoco também na obra certos elementos programáticos ou associações directas, providas do seu contexto emocional. As identidades sonoras mais utilizadas ao longo da obra são a chuva, a máquina de escrever, a caixa de música, estilhaços de loiça e sons de carros e buzinas. Cada um destes elementos tem a particularidade de se moldarem conforme a personagem que os contextualiza”.

De acordo com o regulamento, a peça distinguida com a menção honrosa será apresentada na série de concertos do espaço Lisboa Incomum (Portugal) e na série de concertos do Studio PANaroma (São Paulo, Brasil), em data a designar, e será também publicada em disco digital.

Recordamos que o regulamento do Prémio Musa 2022, dedicado a José Saramago, está já disponível, e pode ser consultado aqui. A nova edição terá como jurados os compositores Luís Tinoco, Sara Carvalho e Juan Pablo Carreño. As obras a concurso podem prever direcção de maestro e devem ser escritas para uma ou duas vozes faladas (uma masculina e outra feminina, com ou sem formação musical, ao critério do concorrente), e um quinteto de instrumentistas à escolha entre os que estão listados no regulamento.

Glosando 2021 — Editorial

O vigésimo número da Glosas, qual fecho de ciclo, celebrou o décimo aniversário do MPMP Património Musical Vivo. Neste novo número, o primeiro de um futuro outro, renasce a vontade de celebrar a música e os músicos portugueses, articulando passado e presente, como desde sempre reza a missão da nossa plataforma.

 

 

Duas efemérides se impõem: os cem anos de Jorge Listopad, os cem anos de Fernando Corrêa de Oliveira.

No primeiro caso, a evocação do encenador faz-se aqui com a reprodução de alguns excertos de textos seus com referência à música. Trata-se de uma seleccção que serviu à dramaturgia do espectáculo que o MPMP promoveu no Teatro Meridional, no dia do centésimo aniversário de Listopad, e que contou com a recitação de A. Baião-Pinto e o piano de Diana Botelho Vieira, este em torno de Leoš Janáček, Filipe Pires, Jorge Peixinho e Constança Capdeville, compositores que lhe eram próximos. Para o próximo ano fica agendada ainda a estreia de uma nova versão d’O diário de um desaparecido de Janáček, uma partitura com intervenção de Miguel Resende Bastos, o nosso Prémio Musa 2020, e do actor e encenador Miguel Loureiro.

No segundo caso, falamos seguramente de um dos nomes mais esquecidos da criação musical portuguesa do século XX. Pianista, mais tarde compositor e pedagogo, Corrêa de Oliveira marca a invenção musical do nosso país como poucos marcaram. Para lembrá-lo, o MPMP promoveu a gravação da integral do ciclo 50 peças para os 5 dedos, interpretado pelo jovem pianista Alexander Stretile, bem como a reedição digital de discos LP históricos, em que colaboraram, entre outros, a pianista Helena Sá e Costa. Estes registos podem já ser escutados nas plataformas digitais habituais. Entretanto, o maior desafio do centenário foi o da revisitação da primeira ópera infantil portuguesa, O cábula, a que se juntou, em bonita homenagem, a estreia absoluta de uma nova ópera infantil de Sérgio Azevedo, quem mais se tem dedicado a estes repertórios na nossa contemporaneidade. Inclui-se neste dossiê especial, como não poderia deixar de ser, uma reportagem sobre este projecto, bem como contributos de Isabel Rei Samartim e de Joana Resende, e uma brevíssima entrevista a Daniel Oliveira, filho do compositor, que nos permitem maior aproximação ao pensamento do autor de Simetria sonora.

Lembramos ainda uma ausência irreparável e muito recente, a do violoncelista Paulo Gaio Lima, intérprete de excelência, coração de inexcedível generosidade para um sem fim de músicos nossos amigos. Ausência, por isso, apenas física, porquanto o seu legado permanece. E entrevistamos duas figuras que nos são também muito queridas e que foram muito importantes no percurso da associação: Leonor de Lucena Sibertin-Blanc, em tempos professora de italiano no Conservatório Nacional, e José Maria Pedrosa Cardoso, musicólogo. Por fim, os nossos associados Isabel Pina e Martim Sousa Tavares trazem-nos — afinal bem a propósito do dossiê dedicado a Corrêa de Oliveira — duas visões sobre o ensino da música: a primeira revisitando o labor do pedagogo e compositor Luiz de Freitas Branco, o segundo reflectindo a partir do pensador e desenhador Francesco Tonucci.

O destaque de capa vai para Sara Ross, voz inspiradora da mais jovem geração de compositores portugueses, e um dos nomes que estará bem presente na agenda do MPMP do próximo ano, a quem agradecemos a beleza da sua música e a gentileza com que aceitou ser entrevistada para este número da revista.

Boas leituras, boas descobertas!

 

 

 


A revista Glosas n.º 21 pode ser encomendada através de [email protected] .

Boas Festas, Senhor Natal

O Teatro Angrense, na ilha Terceira, nesta sexta-feira à noite, acolhe a estreia da nova ópera Boas Festas, Senhor Natal!, projecto do compositor picoense Antero Ávila e do escritor terceirense Álamo Oliveira.

A ideia partiu de Duarte Gonçalves Rosa, assessor do Governo Regional na elaboração da Temporada Cultural, procurando a dinamização de diversos agentes culturais, e a ópera foi pensada tendo em conta as características das salas de espectáculos dos Açores e dos coros da Região.

O libreto trata da história do nascimento de Jesus, enquadrada porém nos tempos actuais, e reflectindo em particular sobre o drama dos refugiados. Segundo a sinopse, a ópera “é um apelo a que cada um de nós não se demita das suas responsabilidades de construir um mundo de justiça, de paz e felicidade para todos. Tal como há dois mil anos, no ventre de uma Mulher cabe a vida da humanidade inteira, sobretudo a dos que sofrem. E a estrela do oriente lá está, a lançar o seu brilho de esperança, num mundo melhor”.

 

 

Juntou-se para o efeito uma equipa de mais de oitenta colaboradores, entre coralistas (coro infantil, Coro Tibério Franco e Coro Tomás de Borba da Academia Musical da Ilha Terceira), cantores solistas, instrumentistas e actores do Grupo de Teatro Alpendre.

No Sábado à tarde a ópera volta a ser apresentada e, em 2022, vai chegar ao Pico, Faial e São Miguel, não com os coralistas e instrumentistas da Terceira mas sim com o envolvimento dos músicos e coros dessas ilhas.

Com duração superior a uma hora, esta ópera é a peça mais longa que alguma vez Antero Ávila escreveu. Natural da Ilha do Pico, onde nasceu em 1973, iniciou os estudos musicais com o seu tio Custódio Garcia, ainda antes de aprender a ler e escrever. Já com a idade de sete anos teve aulas particulares de piano com Josefina Canto e Castro. Aos catorze anos assumiu a direcção artística da Filarmónica União Artista de São Roque do Pico. Ingressou no Conservatório Nacional, em Lisboa, onde foi aluno de Jorge Peixinho e Álvaro Salazar. Entrou para a Escola Superior de Música de Lisboa e completou a Licenciatura em Composição. Foi aluno de Carlos Caires, Sérgio Azevedo, Christopher Bochmann, Eurico Carrapatoso e António de Sousa Dias. Enquanto estudante, teve ocasião de ouvir tocadas algumas das suas obras em Lisboa e no Porto. Voltou depois à Terceira onde fixou residência e onde é professor de Análise e Técnicas de Composição e de Acústica no Conservatório Regional de Angra do Heroísmo. Tem integrado diversos agrupamentos como instrumentista de tuba e de baixo eléctrico. Actualmente, divide a sua actividade docente com a actividade de compositor, maestro e instrumentista. Nesta sequência, tem escrito várias obras para coro e orquestra, música de câmara e para banda sinfónica.

 


 

Elenco
Helena Castro Ferreira – soprano
Glória Pimentel – soprano
Maria Ávila – mezzo soprano
Liliana Silva – contralto
Marios Maniatopoulos – tenor
Mário Silva – tenor
Afonso Silveira – tenor
Hélder Ferreira – tenor
José Corvelo – barítono
Fábio Silveira – barítono
Miguel Maduro Dias – baixo-barítono
Luís Carlos Pacheco – baixo
Paulo Barcelos – baixo
Ricardo Henriques – baixo
Rui Baeta – no papel de Senhor Natal

Coro infantil (direcção: Cristina Pureza)
Coro Tibério Franco (direcção: Ricardo Henriques)
Coro Tomás de Borba da AMIT (direcção: Alla Lanova)

Actores do Grupo de Teatro Alpendre, sob a direcção de Markus Trovão

Orquestra sob a direcção de Antero Ávila

Composição da Orquestra 
Flauta – Mikhayl Roussal
Oboé – Tiago Marques
Clarinete – Taras Poustovgar
Trompa – Edgar Marques
Trompete – Paulo Borges
Trombone – Miguel Moutinho
Tímpanos – Bruno Oliveira
Primeiros violinos – Elena Kharambura (concertino), Rebeca Roxo, Sofia Francisco e Veronika Taraban
Segundos violinos – Jacinto Neves, Daniela Dahmen Quintas e Francisco Festa
Violetas – Ostap Kharambura e José João Silva
Violoncelos – Orest Gritsiouk e Denis Poustovgar
Contrabaixo – Paulo Cunha

RPM procura Editor Geral

A SPIM, Sociedade Portuguesa de Investigação em Música, o INET-md, Instituto de Etnomusicologia — Centro de Estudos em Música e Dança, e o CESEM, Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, procuram candidatos para o cargo de Editor Geral da Revista Portuguesa de Musicologia (RPM, 2.ª série).

A RPM é uma revista digital e de acesso livre, com arbitragem científica segundo o método da revisão por pares, aberta a todas as áreas da investigação em música, que aceita trabalhos em domínios tais como a musicologia histórica, a etnomusicologia, a análise e a tecnologia musical, investigação em criação e performance musical, a sociologia e a psicologia da música, o som e os estudos em música popular. São também bem-vindas perspectivas humanísticas e tecnológicas inter- e multidisciplinares em torno da música e do som.

 

 

De periodicidade semestral, publica tanto artigos de investigação como recensões de livros, gravações e filmes. O número de Maio é um dossiê temático, o de Novembro é aberto. O inglês e o português são as principais línguas de publicação, mas são também aceites artigos em espanhol, francês e italiano. Para além de texto, os artigos podem incluir outros media digitais.

Os candidatos interessados devem enviar uma carta de intenções que descreva a sua experiência editorial e (ou) administrativa anterior, o seu actual contexto institucional, e as principais razões por que gostariam de trabalhar como editores da RPM.

O edital está disponível aqui.

Mátria: a estreia de uma nova ópera

Com uma proposta de valorização da população local, Mátria é uma ópera produzida com as “gentes de Trás-os-Montes” para contar e mostrar que o género também diz respeito às histórias das pessoas simples, dentro desta mesma perspectiva: aproximar as pessoas da ópera, sendo possível acompanhar a preparação da produção pelas redes sociais, nomeadamente o Facebook e o Instagram.

A ópera é baseada na obra de Miguel Torga, natural de Vila Real, em especial nos ContosNovos contos da montanha. É de salientar que se trata da primeira vez, em Portugal, que está a ser criada uma ópera baseada na obra do autor. Mas Mátria – Aqui na Terra é uma criação original, com libreto de Eduarda Freitas, e tem como maior virtude a participação da comunidade através da criação de um coro e de uma orquestra formados por elementos da Banda Sinfónica Transmontana e da Douro Strings Academy.

Com espectáculos agendados para os próximos dias 17, 18 e 19 de Dezembro, no Teatro de Vila Real, e 20 de Fevereiro no Teatro Municipal de Bragança, a produção está inserida nas comemorações do vigésimo aniversário da elevação da região do Douro como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, organizado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), e tem entrada gratuita.

Para mais informações visite https://matria.inquieta.pt/ .



Ficha artística

Mátria – Aqui na Terra, com libreto de Eduarda Freitas

Música: Fernando C. Lapa || Encenação: Angel Fragua || Direcção Musical: Jan Wierzba || Cantores: Ana dos Santos, Coro da Comunidade, Job Tomé, Madalena Tomé, Mário João Alves, Moços do Coro, Paulo Lapa, Regina Freire, Tiago Matos || Músicos: Douro Strings Academy, Luís Duarte (pianista correpetidor), Orquestra Sinfónica de Trás-os-Montes || Figurinos: Cláudia Ribeiro || Promotora: Inquieta – Agência Criativa || Parceiros: Antena 2, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, Conservatório Regional de Música de Vila Real, Direcção-geral das Artes, Fundação Casa de Mateus, Junta de Freguesia de Vila Real, Município de Bragança, Município de Vila Real, Quinta de Ventozelo, Régia Douro Park, Teatro de Vila Real, Teatro Municipal de Bragança || Com o Alto Patrocínio de Sua Excelência, o Presidente da República.

Entrevista a Mickaël de Oliveira

Entrevista realizada por A. Baião-Pinto em Maio de 2021, na Galeria António Prates (apresentando, à data, uma exposição da artista visual Regina Frank, intitulada Silenced Sides). Fotografias de Jennifer Lima Pais. Assistência técnica de António de Saldanha. Agradece-se a António Prates.


Mickaël de Oliveira apresenta-se, nos dias de hoje, como um dos nomes mais promissores da cena teatral portuguesa. Nasceu em França no ano de 1984. Em 1999 estabeleceu-se em Portugal, de onde era originária a sua família, e por cá prosseguiu os seus estudos e iniciou carreira. Licenciado e mestre em Estudos Artísticos (variante de Teatro) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, concluiu, já em 2013, o seu doutoramento em dramaturgia contemporânea e europeia na Universidade de Lisboa.

Conta-se-lhe, de entre outros projectos, a fundação conjunta do Colectivo 84. Em paralelo, colaborou e veio a desenvolver trabalhos com diversas companhias teatrais como a Cão Danado, o Teatro Nova Europa (ambos no Porto) e a DayforNight, esta última em Paris. Levou à cena várias peças tais como O que é teu entregou aos mortais (Teatro Municipal Maria Matos) e Clitemnestra (Teatro Nacional Dona Maria II/ FUNARTE), ambas premiadas com o Prémio Nova Dramaturgia Maria Matos e Menção Honrosa do Prémio Luso-Brasileiro António José da Silva, respectivamente.

 

 

Dramaturgo, encenador e espírito envolvente, confessa-se, na leveza do trato do que lhe é próprio, como alguém comprometido com as grandes equações do seu tempo. Talvez já lhe tenham perguntado, pelo que me irá perdoar se o fizer novamente, qual é ponto de partida do seu amor pela escrita, pelo teatro e pela encenação?

Começou pela escrita, ainda pequenino… alguns textos e poesias… E da escrita passei para a música, curiosamente, porque a minha irmã estudava piano. Tudo isto em França, ainda. Com essa idade comecei a tocar e a compor umas músicas pop, cheguei mesmo a enviar umas maquetes para editoras como a Universal… (risos) Até me chegaram a responder, dizendo, simpaticamente, que não. Cresci, vim para Portugal e deixei o piano, mas durante algum tempo ainda estudei canto lírico.

Por curiosidade, qual era o registo?

Barítono… mas eu queria era ser tenor, como adorava ópera italiana!

Em conversa prévia, percebi que é um melómano e que há, por aí algures, uma história de infância curiosa sobre o ‘primeiro contacto’ com um certo ‘género musical’.

Os meus pais são emigrantes e, na altura, a minha mãe trabalhava em casa de um senhor que tinha uma discoteca enorme e um sistema de som incrível! Este senhor, que vivia muito perto da nossa casa, era extremamente simpático e tinha uma óptima relação com os meus pais. Algumas vezes, eu e a minha irmã acompanhávamos a nossa mãe… Certo dia, eu decidi ‘sonegar’ dois CD, que trouxe para casa e ouvi… e recordo-me de que eram de Mozart, um deles era o Requiem! E como tinha uma natureza uma pouco obsessiva… ouvia aquilo em repeat, horas e horas… e depois cantava sobre as músicas! Isto permitiu-me descobrir o que era ópera, o que era música erudita, por assim dizer. E foi uma paixão que nunca me abandonou, nem mesmo na faculdade em Coimbra, tanto que uma das matérias do tronco comum de Estudos Artísticos era música, tanto que eu pensava em seguir uma carreira musical… Mas acabei por escolher teatro! E no teatro a música é sempre uma possibilidade!

 

 

Certamente que o seu “guia de audição” é bastante ecléctico e variado. Qual é o seu repertório de eleição? É, de algum modo, um aspecto presente no seu processo criativo ou nos trabalhos que apresenta?

É uma boa questão, sem dúvida, mas vou começar pelo fim. A música remete-nos sempre para um universo formalista e o teatro, por vezes, precisa mais de som do que música, ou seja, precisa de sonoplastia. Mas vai variando muito, conforme a intenção programática. Muitas vezes a música impõe-se como uma presença necessária, outras acompanha a cena quase de forma espectral, o que não reduz a sua importância. Quanto a mim, diria que sou bastante ecléctico, embora tenha algum entusiasmo por compositores como Wagner, Ligeti ou Stockhausen.

“Ir ao teatro é uma decisão difícil de integrar na vida das pessoas e, quando se vai, deve ser para ver uma coisa excepcional (…), o principal no teatro é o que se gera de extraordinário entre o público e o espectáculo em si”. As palavras são de Luís Miguel Cintra (2019). Será esta uma das principais características do teatro contemporâneo, ao invés do de outros tempos, em que a heroicidade do personagem ou a capacidade de nos revermos na sua narrativa eram a tónica?

O que é que leva alguém a pagar um bilhete e entrar? O que é que me leva mim a criar algo? O gesto acaba por ser igual. É uma questão de necessidade e não de contingência. Não se pode partir para um processo de criação sem que haja uma necessidade precedente, quer falemos de música, dança ou teatro. O auditório apresenta-se, igualmente, como um espaço privilegiado para apresentar, trabalhar e debater ideias, um teatro de ideias, no fundo. Foi algo que, para mim, ficou muito claro quando levei A Constituição (2016) à cena na Sala Estúdio Teatro Nacional Dona Maria II. Mas nem só de ideias vive o teatro, a narrativa torna-se um veículo de ligação para os autores e para o público, não esquecendo, evidentemente, a noção de espectáculo na sua dimensão plástica e sonora.

Há um ano, numa entrevista à Umbigo Magazine, falava na presença de uma cultura de “exclusão muda” na sociedade portuguesa. Afirmava que vivemos um tempo em que algumas situações já têm que entrar “(…) sem colocar mais questões”. Em Portugal, o fenómeno da discriminação tem um fundamento ideológico (no sentido clássico) ou, porventura, está ligado uma origem mais aculturada?

Em todo este debate temos de ser claros e perceber o que se está a passar. Em primeiro lugar, as nossas leis consagram o princípio da igualdade e da não discriminação. O sistema em si direcciona-se para a consagração desses princípios. O fenómeno da exclusão não parte directamente das instituições e, quando assim acontece, fundamenta-se na estupidez individual de quem actua. Em Portugal, a exclusão é uma questão mais cultural, seja pela uma forte influência religiosa na sociedade, seja por outros factores como o passado colonial. Já todos ouvimos discursos racistas e conversas homofóbicas, mas uma sociedade não evolui apenas por decreto, daí o papel fundamental da cultura e da educação.

 

 

Olhando para o panorama nacional, a escassez de rendimentos e a debilidade económica constituem um factor relevante, nessas matérias?

A discriminação económica é, sem dúvida, uma das mais relevantes. Em primeiro lugar entre homens e mulheres. Num contexto de discriminação, o factor económico permite, na maior parte das situações, ultrapassar algumas dessas clivagens: confere liberdade e poder até. No meu contexto familiar, a emigração foi a resposta possível a essa questão.

Recuemos uma década. Hipólito, monólogo masculino sobre perplexidade: além de adequado ao conteúdo, o título é verdadeiramente programático. Veio-me logo à memória aquela famosa e quase “maldita” prosa de Luiz Pacheco, “O Libertino Passeia por Braga a Idolátrica o seu Esplendor”. Desde os modernistas que a crueza não se presta a eufemismos ou artifícios de compreensão. Ao autor contemporâneo caberá a exposição gráfica do conceito, mesmo nas palavras do texto? Há uma cura pelo excesso (parafraseando um título seu)?

Parte do mito de Fedra e Hipólito e pretende questionar a construção da masculinidade e dos traumas possíveis. O excesso é sempre uma forma de se mostrar tudo aquilo que, à partida, queremos esconder. É assumir um movimento inverso. Através da literalidade e do “grotesco” torna-se mais viável a desconstrução do objecto, de tal forma que, ao longo do texto, se torne possível questioná-lo tendo em conta outros pontos de vista que, à partida, não seriam possíveis de vislumbrar. Quase como num quadro cubista.

Assim de repente
abri um saco
pus uns ténis
uma roupa interior
e as cassetes e
fui-me embora
Esperei junto à estrada principal um autocarro que costumava passar
Não passou
roubei o descapotável do meu pai e acelerei para norte até a gasolina acabar
Cheguei algures e peguei-lhe fogo
disse adeus ao capitalismo e à realidade e levantei o braço e gritei Žižek
por concordar com tudo o que ele dizia em inglês
(Excerto de Hipólito, monólogo masculino sobre perplexidade, 2009)

Devo confessar que, ao ler a sua peça, não puder deixar de respirar esta “fala”: um verdadeiro oásis, numa caminhada de contragostos, que ainda assim não parece demitir-se de um forte sentido crítico. Qual foi e é a intencionalidade deste monólogo?
As minhas personagens ou as vozes que eu crio são sempre ancoradas no identificável. Satisfaz-me que as pessoas se possam relacionar com o discurso e as vozes que o transportam, embora não como um todo, mas em certos e determinados momentos. Nessa passagem eu tento ironizar esta ideia de um “puto fashion” que se rende à filosofia, porque leu umas “coisas” e não as leu duas vezes… É um jovem contemporâneo, sem muita disponibilidade, mas que, facilmente, se consegue agarrar a uma ou duas ideias, soundbites de certa forma, e identificar-se. Não se trata de apresentar uma crítica, mas antes um retrato ou uma imagem em que esses traços se manifestam.

A par da sua actividade artística, tem-se dedicado a reflexões teóricas sobre o panorama do teatro em Portugal, classificando-o do seguinte modo: “‘menor’ seria a palavra que melhor poderia caracterizar a dramaturgia portuguesa pós-revolucionária”. Posteriormente, na sua tese de mestrado, assinala a importância crescente do teatro independente (cada vez menos periférico) nesse tão necessário processo de reabilitação, que passa essencialmente pela palavra, longe da dicotomia entre protagonistas e antagonistas, muito mais ancorada num palco em que diversas escritas possam convergir. Ainda que de modo sucinto, pedia-lhe que nos desse uma visão mais operacional desta sua proposta…
Foi um tema que eu decidi abordar, tanto no mestrado como no doutoramento. Tentei perceber exactamente onde estavam os autores, partindo do teatro independente, ainda anterior ao 25 de Abril. Apercebi-me da existência de imensos materiais com imenso interesse. O que se pode constatar é que, em termos de programação, a dramaturgia portuguesa contemporânea sofreu um declínio desde então, em detrimento de autores estrangeiros, o que é algo que se traduz na escolha do género como opção de escrita. Mas desde o início deste século que as coisas estão a mudar um pouco, muito em consequência de os dramaturgos passarem a assumir as produções: vejam-se os casos do Tiago Rodrigues, do Castro Caldas e de tantos outros. No fundo, estamos perante um teatro de autor, em que o dramaturgo, o produtor e por vezes o encenador são a mesma pessoa. Na verdade, estamos perante um “escritor de palco”, para usar as palavras de Bruno Tackles.

O que me está a querer dizer é que, hoje, o texto nasce no palco; desse modo, o teatro assume uma natureza muito mais criativa do que interpretativa, por assim dizer?
Sim, torna-se uma criação muito mais colectiva. No passado, o texto vivia muito mais do livro, como era hábito no século XIX. E é nesse território que eu me insiro; ou seja, o teatro não como objecto literário, mas, ao invés, uma espécie de “literatura aplicada”, ao serviço de um objectivo.

No início desta conversa, falámos nos pontos de partida da sua carreira. Hoje em dia, pergunto-lhe: qual é o papel em que se sente mais confortável? Dramaturgo? Teórico? Encenador? Ou, por outro lado, trata-se de uma mesma “personagem” em contextos comunicantes?
Eu gosto de pensar em teatro como autor. Isso envolve todas as realidades adjacentes. Tanto na produção e na escrita, como na componente visual e artística, passando pela selecção musical: gosto de me envolver em tudo, sem nunca retirar a autoria a quem a tem. Para entender, tenho que estar presente; não consigo viver sem a prática e sem a teoria.

Vem aí festa! — Os 50 anos de João Madureira

Iniciativa de um conjunto de amigos músicos que se juntaram para fazer a festa, a partir de uma ideia de Miguel Azguime, realizar-se-á um concerto de celebração dos 50 anos do compositor João Madureira no próximo dia 12 de Dezembro, às 19h30, no O’Culto da Ajuda. Participarão solistas do Sond’Ar-te Electric Ensemble, o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa e o Coro da Escola Superior de Música de Lisboa.

O concerto abrirá com a estreia absoluta de Open Inclusion (2020-2021), para clarinete solo, partitura que será interpretada por Nuno Pinto. Depois, a flauta de Sílvia Cancela e o piano de Elsa Silva interpretarão Encontro (2000), seguindo-se a estreia portuguesa de Somente (1999), sobre poema de António Franco Alexandre, para meio-soprano, flauta e guitarra, com interpretação de Susana Teixeira, João Pereira Coutinho e Paulo Amorim, respectivamente.

O Grupo de Música Contemporânea de Lisboa apresentará, seguidamente, a obra Coração (2015), sob a direcção de Vasco Pearce de Azevedo, e o Coro da Escola Superior de Música de Lisboa, regido por Paulo Lourenço, fechará o programa com outra estreia absoluta: Redobra, para Adília (2017-2021), um ciclo de sete poemas para oito vozes a cappella.

Docente na Escola Superior de Música de Lisboa, João Madureira formou-se em composição com Christopher Bochmann, António Pinho Vargas, York Höller, Franco Donatoni e Ivan Fedele. As suas obras foram já interpretadas por agrupamentos e orquestras como o Ensemble L’Itinéraire (G. Bourgogne), Ensemble Neue Musik (P. Eötvös / J. Stockhammer), Orchestre lyrique de Région Avignon-Provence (S. Gualda), NRW Art Ensemble (M. Dobrowolny), Orquestra Gulbenkian, Orchestrutopica, Remix Ensemble (S. Ioannides), Orquestra Sinfónica Juvenil e Grupo de Música Contemporânea de Lisboa. Participou no Festival dos 100 Dias / Expo 98, no Festival Internacional de Música de Mafra (1999 e 2004), no Festival Musica de Estrasburgo (2001 e 2006), no Festival Temps d’Images (2004), no festival World Music Days, da Sociedade Internacional de Música Contemporânea (Bienal de Zagreb, 2005), no Musikfestspiele Dresden (2005), no Festival Música Viva 2006 e no Festival d’Automne, em Paris (2006). Em 1998 recebeu o Prémio ACARTE / Maria Madalena Azeredo Perdigão.

Quem não puder estar presente pode acompanhar a sessão em directo no YouTube, a partir do endereço https://youtu.be/0EPWscsMQOg. Até lá!

 

Música entre Artes #6

Em 1989, o arquitecto Tomás Taveira (Lisboa, 1938) decidiu desenhar guitarras portuguesas no céu lisboeta. Podemos encontrá-las na Avenida de Berna, no edifício onde, actualmente, está sediada a Segurança Social.

Taveira iniciou a sua prática sob influência do movimento moderno na arquitectura, mas a sua obra evoluiu para uma linguagem mais exuberante, tendo sido considerado um dos mais significativos representantes do pós-modernismo arquitectónico português. Na sua prática encontramos frequentemente obras onde se destacam elementos geométricos, cromatismos fortes e superfícies espelhadas.

Neste edifício, o arquitecto decidiu inspirar-se nos braços das guitarras portuguesas, representando-as a azul e rosa nas colunas exteriores do edifício. Para destacá-las, cobriu o restante espaço com pequenas janelas de vidro, que podem também fazer referência aos trastos do instrumento.

Esta obra conquistou uma menção honrosa em 1994 no Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura, que celebram a qualidade arquitectónica dos novos edifícios construídos na cidade de Lisboa. O edifício foi concebido para funcionar como sede do Banco Nacional Ultramarino, sendo posteriormente adquirido, em 2017, pelo Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, por 50 milhões de euros.

 

Fotografia de Gonçalo Capitão

 

Tomás Taveira também é conhecido por ter criado em Lisboa o já icónico complexo comercial e residencial das Amoreiras (1985) e a zona residencial da Costa das Olaias, que ganhou o Prémio Valmor e Municipal de Arquitectura em 1982.

Com esta obra frequentemente designada como «edifício guitarra portuguesa», conseguiu-se acrescentar um pouco de música a um espaço que, inicialmente, não teria nenhuma relação directa com a área. “O céu é o limite”, e com este edifício a iconografia musical portuguesa conseguiu alcançá-lo.


Pilar Lorente Corisco assina o “Música entre Artes #6” a convite de Luzia Rocha.

Pedro Gonçalves (1970-2021)

Morreu Pedro Gonçalves este sábado, aos 51 anos. O músico lutava contra um cancro há já vários anos e o agravamento do estado de saúde levou mesmo a banda a cancelar, no início de Novembro, quinze concertos que tinha agendados até ao final deste ano.

Nascido em 1970, Pedro Gonçalves era contrabaixista e mestre da guitarra eléctrica, com formação em jazz, no Hot Clube, em Lisboa. Pedro Gonçalves teve experiências múltiplas no mundo da música: foi produtor, tendo trabalhado, por exemplo, com Aldina Duarte e Mazgani; fez parte do grupo Ladrões do Tempo, liderado pelo guitarrista Zé Pedro; actuou ainda com Ana Deus e Alexandre Soares; gravou para Rita Redshoes e Soaked Lamb; trabalhou também com Sérgio Godinho, entre outros músicos.

Gonçalves era um dos fundadores dos Dead Combo, grupo que criou em 2003 com o guitarrista Tó Trips, oriundo do universo do rock. Os dois começaram a ensaiar juntos, depois de se terem cruzado no final de um concerto do músico Howe Gelb, em Lisboa, em 2001.

Em 2003 gravaram uma música, “Paredes Ambience”, para uma compilação dedicada a Carlos Paredes, e perceberam que a amizade poderia gerar frutos musicais. Assumiram duas personagens, um cangalheiro e um gangster, para criar uma identidade própria. Associando géneros como o fado, o rock, o universo das bandas sonoras, sobretudo westerns, e outras sonoridades associadas à world music, os Dead Combo foram crescendo em importância. Começaram com apresentações pequenas e intimistas e chegaram a participar de grandes festivais como o Vodafone Paredes de Coura, em 2018. No total, lançaram seis álbuns. O último foi em 2018, com o título Odeon Hotel.

Internacionalmente, a sua carreira foi projectada com a participação num episódio do programa de Anthony Bourdain, “No Reservations”, filmado em Lisboa em 2012; no mesmo ano entram no top 10 do iTunes americano. Em 2015, ganharam o Globo de Melhor Grupo nos Globos de Ouro, com o álbum Bunch of Meninos.

O fim dos Dead Combo foi anunciado em Outubro de 2019, com a promessa de uma digressão de despedida nos meses seguintes. Foi nessa mesma altura que os Dead Combo procuraram editar dois songbooks, Partituras para uma Lisboa desaparecida, projecto entretanto acolhido pelo MPMP.

A Glosas manifesta assim o seu mais sentido pesar. Até sempre, até breve, Pedro Gonçalves!

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