Este texto trata do esquecimento da obra de um grande compositor brasileiro do século XX, devido a uma série de circunstâncias e da paulatina recuperação de sua memória em nossos dias.

Em 28 de abril de 1969, o general-ditador Costa e Silva assinou a aposentadoria compulsória de José Siqueira, então Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O decreto de aposentadoria foi assinado à luz do Ato Institucional n.º 5. Não se conhecia nenhuma acusação formal, não havia acusador conhecido, não houve qualquer possibilidade de defesa. Em suma, mais uma violência do regime. Na ocasião, José Siqueira era um dos mais importantes e influentes compositores brasileiros. Regente, com carreira desenvolvida nos Estados Unidos da América, Portugal, França, Itália, Alemanha e União Soviética, Siqueira era um incontestável líder nacional dos músicos brasileiros. A partir deste momento, começa o processo de esvaziamento e esquecimento do compositor, embora ele ainda conseguisse trabalhar com sua recém-criada Orquestra de Câmara do Brasil e continuasse escrevendo importantes obras, especialmente para este conjunto. Pior que o flagelo da censura que dominava o país, em todas as áreas, foi a autocensura que se impôs em círculos adesistas. As orquestras brasileiras deixaram de convidá-lo para reger, com receio de vincular seu nome a um “subversivo”. Poucos amigos e ex-alunos permaneceram ao seu lado com medo de se comprometerem. Mas foi o desgosto pelos caminhos políticos por que trilhava o país (aliá, uma ação orquestrada – sem trocadilho – para toda a América Latina) que precipitou, no maestro, um acidente vascular cerebral que o imobilizou no leito por cerca de cinco anos. Morreu em 1985, deixando um legado artístico, social e moral incomensurável. Logo após sua morte, morreram, sucessivamente e em curto espaço de tempo, sua mulher, a soprano Alice Ribeiro, sua cunhada e curadora da obra do compositor, Rosita de Paula Machado, e seu filho, o jovem engenheiro Ivo Siqueira. Esta hecatombe familiar, ocorrida após a morte do patriarca e depois de longos anos de discriminação provocados pelo regime militar, fez com que a obra de Siqueira caísse em quase completo esquecimento. Como agravante de todo este quadro, mais da metade da obra do compositor encontrava-se, ainda, em manuscrito, e muitas das peças apresentando erros de cópias e exigindo uma edição profissional. Este material ficou armazenado durante cerca de vinte anos, em péssimas condições, sendo transferido de endereço mais de uma vez e sofrendo perdas naturais em cada processo de mudança. Diante deste quadro, algo deveria ser feito urgentemente.

Na história da música há vários exemplos de compositores de reconhecido valor e que foram esquecidos depois de mortos. O caso Bach é um paradigma desta relativa deslembrança post-mortem, só resgatado cem anos depois por Mendelssohn. O próprio Mendelssohn, no início do século XX, era considerado um “compositor menor”. Bartók só começou a ter um reconhecimento internacional trinta anos depois de sua morte. E assim poderíamos citar vários outros exemplos.

Em 1999, a Academia Brasileira de Música, na gestão de Edino Krieger, encomendou ao professor e pesquisador Marcos Nogueira um levantamento do acervo Siqueira que era o espólio da antiga União dos Músicos do Brasil. A UMB, uma instituição particular que foi criada e dirigida por Siqueira, servia de base para toda a vida profissional do maestro. Marcos Nogueira realizou um excelente trabalho que serviria de ponto de partida para um grande projeto informal de resgate deste material, por diferentes instituições culturais e universidades. A catalogação não foi publicada, mas está disponível na Academia Brasileira de Música. Nogueira catalogou, neste acervo, 156 títulos que estavam, em sua quase totalidade, em péssimas condições de conservação e praticamente condenados ao desaparecimento, por ação do tempo, da poluição e dos parasitas.

Em 1980, quando a ditadura militar estava se desmoronando, o Ministério das Relações Exteriores publicou um catálogo de obras de José Siqueira sob a coordenação de Ariede Maria Migliavacca, Luís Augusto Milanesi e Paulo Affonso de Moura Ferreira. Este catálogo foi baseado em informações dadas diretamente pelo compositor e, portanto, era digno de crédito. Comparando os dados do levantamento feito pela ABM em 1999 e o catálogo publicado pelo MRE, verifica-se que ainda existem (ou existiram e se extraviaram) mais 155 obras que não estão presentes nos fundos da UMB (50% das obras não estão nos fundos da UMB e foram extraviadas ou estão em outros arquivos a serem futuramente explorados). Somando-se as obras da antiga UMB com as excedentes que não constam nesta lista, mas são citadas no catálogo do MRE, temos um total de 311 títulos (156+155).

A partir do ano de 2000 criou-se uma nova consciência da importância da figura de José Siqueira e o lento mas consistente movimento de resgate de sua obra. A revista Brasiliana da ABM (n.o 25 de junho de 2007) publicou um “Dossiê José Siqueira” com depoimentos de personalidades que conviveram com o mestre: Jorge Antunes, Roberto Duarte, Haroldo Costa, Vasco Mariz e eu próprio. Cito, em seguida, um trecho de meu depoimento, referindo-me à época em que Siqueira comemorava trinta anos de carreira, exatamente a um ano do golpe militar que arrasou o país durante vinte e um anos:

Em 1963, ele me guiava em meus primeiros passos na Composição Musical, em suas classes na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Era um mestre cuidadoso: indicava os infinitos caminhos da arte, mas respeitava a personalidade de cada um de seus discípulos. Nesta época, Siqueira estava no auge de seu prestígio artístico e político. Era um compositor reconhecido internacionalmente e gozava de uma liderança inconteste entre os músicos brasileiros. Era um educador nato, sempre preocupado com a juventude de seu país e com a educação musical em particular. Presidia, então, à Ordem dos Músicos do Brasil e era um dos compositores e regentes de mais evidência no país. Neste ano de 1963 estava comemorando os 30 anos de sua carreira de compositor, com vários concertos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e com o lançamento de dez LPs, dedicados à sua obra. Dentre os concertos, o que mais me chamou a atenção foi o de estreia mundial de seu oratório Candomblé I (escrito em 1958), para dois coros mistos, coro infantil, seis solistas vocais, conjunto de percussão afro-brasileiro e orquestra sinfônica. A obra era toda baseada em cantos de candomblé que o maestro colhera na Bahia. Várias lideranças afrodescendentes, algumas vestidas a caráter (com batas vistosas e turbantes, em plena plateia do teatro) estavam presentes, numa noite que mais parecia uma festa que um concerto. O teatro estava lotado e, naquela época, a cidade do Rio de Janeiro era realmente maravilhosa. José Siqueira e todos os artistas que participaram do evento receberam uma retumbante ovação. Ao lado de meu grande mestre, eu, um simples estudante, estava deslumbrado. Mais de 40 anos depois, ainda guardo na memória aquele encantamento, presenciando momentos de glória de um grande músico brasileiro.

O oratório Candomblé era todo ele cantado na língua nagô. Em 1977 foi gravado pela Orquestra Sinfônica da Rádio e Televisão de Moscou, com solistas soviéticos (exceção para a parte de soprano, realizada por Alice Ribeiro), e regido pelo compositor.

Alguns programas de pós-graduação em música têm aberto espaço para a análise e, o mais importante, a edição de obras do compositor como o Concertino para fagote e orquestra de cordas (por Valdir Caires), gravado por Aloisio Fagerlande, o Concertino para contrabaixo e orquestra de câmara (por Danilo Cardozo de Andrade), a ópera A Compadecida (por Kleber Lyra de Queiroz), o Concertino para harpa e orquestra de câmara (por Vanja Ferreira), entre outros exemplos. No momento, o Candomblé está sendo objeto de estudos pelo Programa de Pós-graduação em Música da Universidade Federal da Paraíba, estado natal do compositor.

Entretanto, o grande passo para o ressurgimento da obra de Siqueira foi a iniciativa da família, através de sua neta Mirella Sammartin Siqueira (a única descendente direta do compositor), doando, em 2011, todo o acervo de seu avô (partituras, discos, fitas, fotos e documentos diversos) para a Biblioteca Alberto Nepomuceno da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. As primeiras consequências desta iniciativa já se fazem notar: a ABM e a EM/UFRJ já iniciaram projetos de edição eletrônica da obra de Siqueira, propiciando a sua programação em concertos, a partir do material revisto e editado eletronicamente. Certamente outras universidades seguirão este exemplo.

Estamos certos que, pela força e significado da obra de José Siqueira, que representa uma forma de nacionalismo regional, completamente diferenciada da de importantes e reconhecidos nacionalistas brasileiros como Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Radamés Gnattali e Guerra-Peixe, sua obra ressurgirá ao lado dos maiores mestres de nossa música. Afinal de contas, resgatar os grandes nomes do passado significa dar alma ao nosso presente. Sem história não temos alma.

Caricatura desenhada pelo trompista português Amadis Augusto de Almeida, professor de outro ilustre trompista luso, Adácio Pestana, que herdou o espólio do mestre e o passou para sua filha Elsa Pestana Magalhães. O desenho foi feito nos intervalos de ensaio da Orquestra Sinfônica da Emissora Nacional, em Lisboa, por ocasião da visita de Siqueira como regente convidado. É a primeira vez que este desenho é reproduzido.

Texto publicado na Glosas n.º 12, p. 66-67.

Sobre o autor

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Ricardo Tacuchian é Doutor em Composição pela University of Southern California, em 1990, ano em que recebeu o Academic Achievement Award. Realizou o pós-doutoramento em Lisboa, no Museu da Música Portuguesa, com bolsa da CAPES. Foi professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto Villa-Lobos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, além de professor visitante da State University of New York em Albany, com bolsa da Fulbright para o programa Scholar in Residence, e da Universidade Nova de Lisboa. É membro da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, da Federação Fluminense de Bandas de Música Civis, da Sociedade Brasileira de Musicologia e da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música. É autor de mais de 250 títulos, apresentados no Brasil e em mais de 30 países da Europa, Ásia, América do Norte e América Latina, com mais de uma centena de gravações em cerca de 40 itens discográficos. Foi eleito para a Academia Brasileira de Música em 1981, instituição da qual foi presidente em dois períodos, de 1993 a 1997 e de 2006 a 2009.