Parece ser unânime que a música orquestral é o fulcro da produção de Joly Braga Santos. Rui Vieira Nery, num artigo publicado aquando da morte do compositor em 1988, considera-o “sem qualquer dúvida” o “maior orquestrador” da Música Portuguesa do século XX. Para além dos conhecimentos que adquiriu do seu mestre Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos confessava ter lido com proveito os tratados de Orquestração dos grandes mestres. A sua formação e actividade profissional na área de Direcção de Orquestra completaram a sensibilidade que fez dele um grande orquestrador: o conhecimento da prática de orquestra e das grandes obras do repertório sinfónico.

Na obra de Joly Braga Santos, a orquestração e a estrutura musical distinguem-se claramente, constituindo dois níveis diferentes de criação: a orquestração adiciona pouco à estrutura musical primária e transmite-a de forma eficaz. A sua linguagem percorreu, a par da sua sólida técnica de orquestração, um caminho de buscas e convicções que pode ser divido em três fases.

A primeira fase compreende os seus anos de estudo no Conservatório Nacional em Lisboa e os ensinamentos que recebeu de Luís de Freitas Branco. Dele obteve os princípios fundamentais da sua linguagem: o eclectismo à partida, onde técnicas do modernismo convivem com possibilidades de um tonalismo expandido, com recurso a modos eclesiásticos e a outros modos sintéticos; no plano formal, denota-se o neoclassicismo, fundado na obra de Beethoven e Camões, onde, à semelhança do que se observa na música de César Franck, o material temático é deduzido por afinidade ou conflito. Joly conseguiu o seu cunho pessoal através do uso frequente de ostinatos, das extensas frases melódicas de amplo âmbito e da orquestração monumental. Na sua 1.ª Sinfonia, em Ré, Op. 9 (1947), dedicada às vítimas da 2.ª Guerra Mundial, as características da sua linguagem são já bem vincadas: depois de uma introdução lenta do primeiro andamento surge o tema principal, uma melodia incisiva e sincopada, que se impõe sobre a malha obstinada do acompanhamento.

A linguagem musical da primeira fase criativa do compositor concilia princípios cromáticos com contextos modais. A estrutura musical comporta-se de forma modal no interior de cada campo harmónico, mas os encadeamentos são frequentemente cromáticos e não funcionais. Veja-se o exemplo dado do Allegro energetico da 1.ª Sinfonia: a progressão por terceiras menores evita as funções do tonalismo clássico, tradicionalmente baseadas no ciclo de quintas, e no interior de cada acorde é possível ouvir a cor dórica do campo harmónico. Apesar do modalismo apelar a referências ao folclore, Braga Santos só muito raramente parafraseou ou se inspirou em melodias tradicionais. Entre os poucos exemplos dessa prática estão as Variações sobre um Tema Aletejano, Op. 18 (1951) e a 3.ª Sinfonia, em Dó Maior, Op. 15 (1949).

Na Elegia a Vianna da Motta, Op. 14 (1948), composta depois da sua primeira importante estada na Bienal de Viena, onde, nesse ano, se ouviram obras de compositores como Schoenberg e Copland, o contraponto e o desenvolvimento temático tendem a tornar-se mais livres e densos e as melodias cromáticas mais expostas. O encadeamento de trítono, neste caso Sib-Mi (compassos 57-58), toma a função de assinalar o clímax do plano formal.

Dois dos trabalhos mais importantes de análise da obra de Joly Braga Santos são da autoria do seu aluno Alexandre Delgado, no seu livro A Sinfonia em Portugal, 2002, e de João Paes (A transformação do Estilo de Joly Braga Santos, 2005, incluído na antologia “Dez Compositores Portugueses” sob coordenação de Manuel Pedro Faria). Ambos assinalam obras compostas no início da década de 60 – Três Esboços Sinfónicos, Op. 38 (1962) e Sinfonietta para Orquestra de Arcos, Op. 39 (1963) – como ponto de viragem do seu estilo musical. Nesta segunda fase criativa de Joly Braga Santos nota-se uma preocupação em repensar a interacção das relações cromáticas e das relações acústicas no âmbito do pantonalismo. O meio-tom e os intervalos aparentados, como a 7.a maior e a 9.a menor, adquirem uma importância crescente nos campos harmónicos e orientam a proliferação das ideias musicais. Por outro lado, as combinações sonoras oriundas da série dos harmónicos – em que a quinta e a quarta perfeitas têm o papel predominante – continuam a marcar a cor modal de algumas passagens.

A 5.ª Sinfonia, Op. 45 (1966) foi o apogeu da segunda fase criativa de Joly Braga Santos, marcada pelas influências colhidas durante as suas viagens a Itália, onde estudou composição com Virgilio Mortari (1902-1993) – co-autor com Alfredo Casella do tratado A técnica de orquestração contemporânea (1950) – e direcção de orquestra com Hermann Scherchen (1891-1966). A sinfonia, composta dezasseis anos depois da 4.ª, surpreende pela instrumentação megalómana, requerendo ao todo um mínimo de 105 instrumentistas. O material temático é completamente assimétrico e independente de qualquer envolvente modal, naquilo a que Joly Braga Santos chamou de “expandir ao máximo o espaço físico em que o elemento musical se insere”. O desenvolvimento é conseguido através de decisões aparentemente intuitivas combinadas com recursos técnicos típicos do dodecafonismo (inversão, retrogradação e transposição). Clusters, acordes de 12 sons, acordes simétricos passam a fazer parte da paleta harmónica do compositor. Em alguns momentos a influência do modernismo não podia ser mais evidente: compare-se o início do terceiro da andamento desta sinfonia com início da sexta peça de Sechs kleine Klavierstücke de Schoenberg.

Na orquestração, a percussão ganha uma importância especial e a polifonia torna-se muito mais densa: oiça-se o segundo andamento, um dos poucos exemplos da influência africana na música erudita portuguesa, onde se pode ouvir uma transfiguração metálica das timbilas moçambicanas. A forma, caracterizada pela evolução da massa sonora, parece ser influenciada pela música electroacústica, numa época em que compositores como Ligeti ou Stockhausen produziam algumas das suas obras mais emblemáticas. Em suma, a 5.ª sinfonia, composta para as comemorações dos 40 anos do Estado Novo, é uma obra de significado paradoxal: ao mesmo tempo que serve a propaganda, apela ao progresso e à inovação, agita as almas. O último acorde da obra, um surpreendente e inaudito acorde de Fá Maior, explode como que anunciando uma mudança. Estaria Joly Braga Santos a antever uma mudança radical na sua música e na sociedade?

Na verdade, a terceira fase criativa de Joly Braga Santos foi mais uma busca de conciliação entre as linguagens antagónicas das duas fases anteriores do que uma verdadeira mudança ou revolução. Depois de compor a sua 6.ª Sinfonia, Op. 51 (1972) a sua produção orquestral abrandou significativamente. A obra foi composta com avanços e recuos no contexto de agravamento do seu grande conflito interior: “ser moderno ou ser honesto”. O resultado foi uma obra de cerca de meia hora em que se tentam combinar as técnicas do modalismo da sua juventude com o avant-garde dos anos sessenta: uma das primeiras obras do pós-modernismo na cena europeia e o fim simbólico da sinfonia em Portugal.

As Variações para Orquestra, Op. 55 (1976) foram compostas durante um período de grande instabilidade política, que de alguma forma se espelha na natureza assistemática da obra. Não é fácil reconhecer os elementos que são sujeitos a variação: as transformações parecem suceder-se sem critério em vários parâmetros. Acordes maiores e menores convivem com frases dodecafónicas; o modalismo irrompe em progressões harmónicas pantonais. A sensação de desorientação seria incomportável não fosse a clara estrutura formal lento-rápido-lento. O eclectismo desta última fase veio a atingir mais tarde resultados mais consistentes como no Divertimento II, Op. 58 (1978), para orquestra de cordas ou no Concerto para Violoncelo, Op. 66. (1987).

Em toda a sua criação Joly Braga Santos soube conservar a autenticidade que se traduz no seu exacerbado lirismo e na sua inconfundível actividade rítmica. Compositor contemporâneo de Jorge Peixinho ou de Emmanuel Nunes, Braga Santos nunca olhou com desdém o experimentalismo, mas também nunca se atrelou cegamente às novas tendências. A sua música espelha a tensão entre a música que queria compor e a música que a sua época lhe exigia (DELGADO, 2002, p. 241). Foi a nova música para um país numa época em que o concerto sinfónico se instituía progressivamente como parte da vida cultural das grandes cidades. Simultaneamente pode ser vista no panorama internacional como uma música conservadora e passadista.

Grande parte da obra orquestral de Joly Braga Santos permanece desconhecida tanto do público melómano como do meio musical. Para isso contribui a falta de edições de partituras e o difícil acesso ao espólio do compositor. A obra de Joly Braga Santos é, pela sua envergadura, sensibilidade e imponência, a legítima representante da música orquestral portuguesa do séc. XX. Só falta levá-la às salas de concertos do mundo.

Bibliografia

~BRANCO, João de Freitas, “A Ópera Mérope de Joly Braga Santos”, in Colóquio, n.o 4, pp. 53-56, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1959.

~DELGADO, Alexandre, A Sinfonia em Portugal, Lisboa, Caminho, 2002.

~FERREIRA, Manuel Pedro, “Conhecer é preciso”, Prefácio do livro Dez Compositores

Portugueses (dir. Manuel Pedro Ferreira), pp. 13-21, Lisboa, Dom Quixote, 2005.

~LATINO, Adriana, “Santos, Joly Braga”, in The new Grove dictionary of music and musicians, Vol. 22, pp. 263-264, Londres, Macmillan Publishers Limited, 2001.

~NERY, Rui Vieira, “Na Morte de Joly Braga Santos”, in Colóquio, n.o 78, Ano 30.o, p. 69, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.

~NERY, Rui Vieira, “Da Propaganda à Resistência”, in História da Música, pp. 165-176. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991.

~PAES, João, “A Transformação do Estilo de Joly Braga Santos, analisada a partir de duas composições para orquestra de arcos”, in Dez Compositores Portugueses (dir. Manuel Pedro Ferreira), pp. 201-237, Lisboa, Dom Quixote, 2005.

~SANTOS, Joly Braga, “Luiz de Freitas Branco, o compositor e a sua mensagem renovadora”, in Colóquio, n.º 23, Ano 17.o. pp. 54-56, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1975.

~SANTOS, Joly Braga, Nota de Programa no folheto do CD da 5.ª Sinfonia. Paço d’Arcos, Portugalsom-Strauss, 1986.

~SANTOS, Joly Braga, in Die Musik in Geschichte und Gegenwart, dir. Andreas Jaschinsky, Vol. 14, pp. 949, Kassel, Bärenreiter-Metzler, 2005.

Artigo publicado na Glosas nº 3, pp. 44-46.

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