La penumbra es algo musical.
Habría que cerrar los ojos para oír la música.
María Zambrano
Tal como uma pedra brilhante na escuridão
perde todo o seu fascínio de jóia preciosa
se se a expõe à plena luz,
a beleza perde toda a sua existência
se se suprimem os efeitos da sombra.
Junichiro Tanizaki
Bernardo Sassetti (1970-2012) é uma referência no panorama musical português como compositor e virtuoso do piano. Numa constante paixão artística, alicerçou-se primeiro no Jazz, posteriormente dedicou-se à música para cinema, mas a sua versatilidade criativa expandiu-se ainda para as áreas da fotografia, da escrita e da instalação multimédia.1 O termo penumbra tem origem etimológica no latim: paene, que significa “quase”, e umbra, que denota “sombra total ou escuridão”. Se admitirmos a correspondência da escuridão com o silêncio e do som com a luz, encontraremos, na transição de um para o outro, o território estético de Bernardo Sassetti: a penumbra. Na fotografia, exercita o olhar nas margens da luz. Na música, busca as minúcias do pianíssimo, enamorado pelo silêncio.
Este estudo complementa aquele que foi publicado no número 13 de Glosas.2 Pretende-se agora olhar a obra de Sassetti como um todo, descobrir a marca do estilo que subjaz à sua criatividade tão versátil. Encontrar, enfim, o denominador comum da sua estética.
Queria ouvir a sua voz, a voz de Bernardo Sassetti. Por isso, recorro sistematicamente, ao longo deste artigo, aos momentos em que Bernardo falou e a sua palavra ficou registada.3 Não podendo fazer-lhe as minhas próprias perguntas, deixei-me embrenhar nas suas respostas às perguntas de outros. Este texto é como um vitral: oxalá os pedaços de vidro de diferentes cores acabem por formar um reflexo do que, eventualmente, me teria sido dito.
1. SINESTESIA
Embora reconheçamos em Bernardo Sassetti primeiramente o músico, faltaríamos à verdade se ficássemos por aí. Há qualquer coisa de sinestésico na sua vivência do som e da imagem.
Adoro o acto de fotografar. Fisicamente é um prazer, como tocar piano, uma coisa muito orgânica. A forma como tiro uma fotografia tem muito a ver com a forma com que me atiro ao piano. É difícil explicar… A fazer fotografia oiço música, a fazer música vejo sempre imagens. É uma ligação muito íntima para mim.4
Não deixa de ser curiosa esta relação que o compositor estabelece entre as expressões “tirar uma fotografia” e “atirar-se ao piano”. Se a primeira corresponde a uma forma habitual de nos referirmos à actividade em causa, “atirar-se ao piano” sugere um movimento de salto seguido de um mergulho. Por outro lado, o verbo tirar corresponde à acção de extrair, colher ou tomar. Algo que não era nosso passa a sê-lo. A imagem que a câmara fotográfica capta corresponde a um modo de percepção efémero ou até imaginado, devido às preferências de Sassetti pela imagem desfocada,5 que a partir desse momento passa a existir e – quiçá – se eternize. Já o atirar-se de mergulho para o piano implica um embrenhar-se, quase como se o piano possuísse um útero ao que o músico pudesse regressar e, a partir daí, dessa interioridade máxima, dessa intimidade, compor.
No domínio artístico, as experiências sinestésicas são frequentes. Charles Baudelaire (1821-1867) escreveu o famoso poema Correspondences, em que afirma “les parfums, les couleurs et les sons se répondent”. Wassily Kandinsky (1866-1944) fala-nos do perfume das cores e da sua sonoridade.6 Bernardo Sassetti estabelece uma relação de grande intimidade entre a visão, a audição e o tacto. A visão dos pormenores que escapam e que consegue surpreender fotografando, a música que compõe, que requer sempre uma escuta atenta, nas minúcias do pianíssimo − seu tom de escrita7 −, o tacto das mãos nas teclas do piano, dos pés dentro de bons sapatos − indispensáveis para uma boa interpretação pianística8 − e dos pés descalços que insaciavelmente fotografa. Quase como se de um prisioneiro dos seus talentos se tratasse, Bernardo entrega-se-lhes:
A fotografia persegue-me diariamente. Não é uma paixão, é uma necessidade de olhar para o mundo através daquele visor rectangular, ou, não tendo a câmara comigo, imaginar simplesmente as imagens, as sombras e a luz que poderiam resultar de um determinado momento. E às vezes acontecem pequenos inesperados milagres! As imagens da música e a música das imagens complementam a criação artística que persigo.9
Os fenomenólogos entendem a Música como uma experiência corporizada; consideram que ouvimos não apenas com os ouvidos, mas que existe um centro corpóreo que integra todo o espectro da experiência humana. Merleau-Ponty (1908-1961) enraíza o conhecimento não numa abstracção infundada, mas na percepção, no entrelaçar-se com o mundo. Assim, a percepção musical não deveria negligenciar as suas raízes corpóreas, aquilo que tem de táctil e gestual. Mikel Dufrenne (1910-1995) sublinha o facto de a Música não ser apenas um objecto no mundo, como tantos outros, mas ser, pelo contrário, algo que requer, para ser experienciada, interioridade e profundidade. David Burrows vai ainda mais longe, ao considerar que fazer música propicia uma experiência de fusão entre o dentro e o fora, o eu e o outro, anulando a dualidade. Bernardo Sassetti partilha uma experiência semelhante:
Quando estou verdadeiramente envolvido no espaço e no tempo da fotografia, a câmara fotográfica é uma extensão do meu corpo – tal e qual como o piano.10
2. CONTENÇÃO
A contenção aparece seguindo uma linhagem musical de que Debussy foi, no Ocidente, pioneiro: redução de meios, busca da essência, delicadeza e refinamento estético.
Quando se vive muito intensamente a música, a música que vive cá dentro, que vem cá de dentro a fervilhar, o grande segredo para a sua transmissão e partilha é o acto contido sobre o que temos e encontramos no fundo de nós.11
É significativo que o segredo para a transmissão e partilha seja o acto contido. Poder-se-ia supor que, ao sentir a música que fervilha, esta naturalmente eclodisse num extravasar.Ortega y Gasset (1883-1955) mostra a grande mudança de paradigma estético que se vive com a Arte Nova.No artigo “Musicalia II”, publicado no jornal El Sol em 1921, tomam corpo as personagens Pedro, cuja namorada morre, e os amigos Paulo e João, que acompanham esta desventura. Paulo, “o compassivo”, deixa-se contagiar pela amargura do amigo. João, “o artista”, pelo contrário, resiste a esse contágio. É essa resistência que permite que João se situe como observador da cena e crie a distância espiritual necessária, condição sine qua non do surgimento de sentimentos secundários que não são de participante, mas antes de contemplador estético. O que está aqui em causa é, precisamente, o abandono do arrebate emotivo para dar lugar à contenção indispensável a um outro tipo de estética. Segundo Ortega y Gasset, o artista não se deixa levar pelos sentimentos primários, de carácter medíocre. Pelo contrário, suprime, melhor dizendo, contém os sentimentos vulgares e reterá apenas os sentimentos que brotem do seu lado artístico. Talvez Bernardo Sassetti não andasse muito longe de Ortega quando afirma:
Aprendi que a contenção é palavra-chave nesta fase da minha vida.
Já senti a música como um divertimento ou uma distracção para as pessoas, mas, neste momento, a coisa mudou totalmente de figura.12
2.1 A CONTENÇÃO COMO HUMILDADE:
Bernardo Sassetti considera a humildade uma virtude indispensável para qualquer músico:
Humildade a acompanhar os outros, saber ouvir, saber antecipar ideias dos solistas, saber estar calado.13
A humildade vive-a Bernardo Sassetti no profundo respeito pelo realizador, que o compositor ouve atentamente, “no sentido de encontrar um lugar artístico que possa impulsionar as tensões e distensões de uma história.”14 Humildade também na atenção ao muito pequeno, ao detalhe, ao pormenor:
Comecei a procurar o detalhe nas cidades. Tudo o que se vê no livro [Unreal: Sidewalk Cartoon] são dezenas de cidades, sobretudo na Europa. Comecei a fazer fotografia em macro, muito perto das paredes. Toda a gente passa pela cidade e não olha para a beleza das coisas. E isto é uma visão um pouco poética das passagens pela cidade.
E tentei depois trazer também isso para a música. Debruçar-me sobre o detalhe, nem que isso demore uma eternidade a conseguir-se.
notas
1 Destaque-se Unreal: Sidewalk Cartoon. “Foi um projecto que levou quarto anos de muito trabalho a preparar visualmente e dois anos a executar musicalmente. Mais de oitenta pessoas estiveram envolvidas nos processos de criação e edição do CD, do livro, do filme e do espectáculo ‘Unreal’. Mal sabia eu onde me estava a meter! Foi também a primeira vez que senti uma divisão enorme da crítica e do público em geral na apreciação de um projecto meu – o que me é extraordinariamente estimulante. Tenho quase a certeza de que o futuro das artes é o de juntar as visuais com as auditivas.” (Entrevista a Jazz.pt).
2 Bernardo Sassetti in Memoriam. Maria João Neves, “O Sonho dos Outros. A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sassetti” (onde são apresentadas análises fenomenológicas das obras “Sonho dos Outros”,(piano solo), álbum Nocturno (2002); “Sonho dos Outros” (3 Pianos); “Música Callada” (piano solo), álbum Nocturno, de Federico Mompou; “Música Callada” (trio), do mesmo álbum; “Alice” (2005), para piano solo, banda sonora do filme com o mesmo título de Marco Martins; “Alice” (2005), para piano, clarinete, contrabaixo e percussão; “Morning Circles” (piano solo), álbum Motion (2009); “Reflexos. Movimento Circular”, do mesmo álbum), Glosas 13, 2015, pp. 23-30.
3 Todos os textos de Bernardo Sassetti e todas as entrevistas a que se fazem referência neste artigo estão disponíveis na página oficial http://www.casabernardosassetti.com.
4 “Bernardo Sassetti – A última coisa que quero é ser incompetente” (entrevista de João Pedro Oliveira).
5 “Gosto sobretudo de olhar para a beleza das imagens desfocadas” (entrevista de Nelson Marques).
6 Wassily Kandinsky, Do Espiritual na Arte, Lisboa, D. Quixote, 1987.
7 Bernardo Sassetti, Pianistas, Pianistas.
8 Em Pianistas Pianistas, Bernardo Sassetti refere a importância de um bom par de sapatos para tocar piano: “Calçado. Lembrem-se que um bom par de sapatos faz sempre uma grande diferença.”
9 Entrevista a Jazz.pt.
10 Entrevista de Nelson Marques.
11 Maria João Seixas, “Conversa com vista para… Bernardo Sassetti”.
12 “Seria muito infeliz se me dedicasse só à musica”, Revista Xis (entrevista de Laurinda Alves).
13 Bernardo Sassetti, entrevista de L. Figueiredo (23 de Janeiro de 2008).
14 Entrevista de André Gomes.
Texto publicado na Glosas n.º 14, p. 45-48.
