Está patente em Braga, no gnration, entre 17 de janeiro e 18 de abril, a exposição Zapping: a televisão como cultura e contracultura. A mostra propõe uma reflexão aprofundada sobre a televisão enquanto fenómeno tecnológico, cultural e artístico, bem como sobre a sua apropriação crítica no contexto das práticas contraculturais. É neste quadro conceptual que se inscreve a iniciativa Música na Televisão: os programas de Cândido Lima, integrada no programa público da exposição.
No âmbito desta iniciativa, no dia 17 de janeiro, às 16h00, o gnration acolheu uma conversa com o compositor Cândido Lima, moderada por Pedro Junqueira Maia, dedicada aos programas televisivos que o compositor criou para a Rádio Televisão Portuguesa no final da década de 1970 e início da de 1980: Sons e Mitos (1978), Fronteiras da Música (1982) e No Ventre da Música (1983).
A exposição encontra-se estruturada em cinco núcleos — Fronteira, Resolução, Receção, Cor e Memória — e explora a linguagem dos media através do confronto entre o impacto tecnológico e cultural da televisão, enquanto meio de emissão efémera e programada, e a sua instrumentalização como ferramenta contracultural nas práticas artísticas. O percurso expositivo articula emissões críticas e culturais da RTP com trabalhos artísticos que dialogam com a experiência televisiva, evidenciando continuidades, tensões e processos de apropriação entre o campo institucional dos media e as práticas experimentais.
É neste contexto que os programas de Cândido Lima surgem como objectos particularmente relevantes: não apenas enquanto testemunhos de uma fase singular da televisão pública portuguesa, mas também como exemplos de uma utilização culturalmente exigente e conceptualmente ambiciosa do meio televisivo. No panorama televisivo português do período pós-25 de Abril, marcado por processos de abertura, experimentação e redefinição editorial, Sons e Mitos, Fronteiras da Música e No Ventre da Música distinguiram-se pelo seu carácter singular. Num contexto em que a divulgação musical era escassa e frequentemente limitada a formatos convencionais, estas séries propuseram uma abordagem ampla, informada e rigorosa do fenómeno musical.
Partindo da música erudita contemporânea — área central da actividade criativa do compositor —, os programas alargavam o seu campo de observação a tradições musicais não europeias e a linguagens emergentes associadas ao universo pop e rock. Este cruzamento de repertórios, geografias culturais e temporalidades contribuiu para a construção de um discurso televisivo que entendia a música não apenas como objecto estético, mas como prática social, histórica e antropológica.
A exposição resulta de uma parceria entre o Centro de Arte Oliva (São João da Madeira), o gnration (Braga), o Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (Guimarães) e o Museu de Arte Contemporânea (Elvas), consolidando uma rede institucional dedicada à reflexão crítica sobre os media e as práticas artísticas contemporâneas.
