Este artigo é baseado num capítulo da dissertação de mestrado em Ciências Musicais da autora: A produção musical de índole política no período liberal (1820-1851), Lisboa: F.C.S.H da UNL, 2008.
A partir do século XIX, com a expressão da individualidade romântica, também o sentido da individualidade dos povos se exprimiu com o aparecimento sucessivo de diversos hinos nacionais.
Entre os mais antigos, surgidos ainda no século XVIII, estão os actuais hinos inglês, espanhol e francês, e, ainda, o antigo hino austríaco (actual hino alemão)1. Contudo, a grande maioria dos hinos nacionais seria composta ao longo do século XIX.
Em Portugal, aquele que primeiro se assumiu com esse carácter foi o Hymno Patriotico da Nação Portugueza da autoria de Marcos Portugal, composto em 1809 e dedicado ao Principe Regente, sendo o final de uma Cantata (La Speranza o sia L’Augurio Felice) que seria cantada em S. Carlos no aniversário de D. João VI (13 de Maio de 1809). Foi publicado no ano seguinte numa versão grandiosa para solistas, coro e banda militar2 e tomou também os nomes de Hymno patriotico, Hino de D. João VI, ou somente Hymno Portuguez3.
O próximo hino a gozar desse estatuto de nacional seria o Hymno Constitucional de D. Pedro composto em 1821, a propósito da primeira Constituição filha da revolução liberal. Com a outorga da Carta (1826) obteria imensa popularidade, embora num âmbito ainda partidário. Após a aclamação de D. Maria II (1834), com a vitória das forças liberais, passou a ser utilizado como hino oficial, mas com letra diversa do original, que permanece anónima, embora pareça ser uma mistura de outras que circularam pela época liberal.
Letra original
Ó Pátria, ó Rei, ó Povo,
Ama a tua religião,
Observa e guarda sempre
Divinal Constituição. ( bis)
Refrão:
Viva, Viva,Viva o Rei,
Viva a Santa Religião;
Viva, Lusos Valorosos,
A feliz Constituição. ( bis)
Letra oficial do Hino da Carta
Quanto ó Pedro generoso
Te deve a Luza Nação
Por teu valor possuimos
Liberal Constituição. (bis)
Refrão:
Viva, Viva, Viva Pedro,
Viva a Santa Religião,
Viva Maria Segunda,
Liberal Constituição. (bis)
O actual hino nacional A Portuguesa, surgiu primeiro como uma marcha patriótica para piano, composta por Alfredo Keil, a que se juntaria depois a letra de Henriques Lopes de Mendonça. Foi provocado, por assim dizer, pela revolta contra o Ultimato inglês (11/01/1890), que, na sequência da Conferência de Berlim, nos obrigava a abandonar as possessões ultramarinas não ocupadas, indo contra as nossas pretensões do chamado Mapa-Cor-de-Rosa. A forçada aceitação do governo português levantou um coro de protestos nacionais contra o que se considerou, na época, de frouxidão da monarquia, mas que era, com efeito, a única possível, face ao poderio inglês.
A Portuguesa popularizou-se bastante devido à sua execução em associações musicais, clubes, etc., e à sua inclusão em várias peças dramáticas com alusões políticas, entre elas a peça Torpeza, da autoria de António Campos Júnior, representada no Teatro da Alegria, onde foi cantada «com o maior entusiasmo»4, ou As cores da bandeira do próprio H. Lopes de Mendonça5. Por um momento, congregou diversas facções políticas unidas contra os aliados ingleses. Mas após a sua utilização na revolução republicana no Porto, em 31 de Janeiro de 1891, passou a ser proibida, tal como refere a anotação à margem de uma sua partitura manuscrita de c. 1900: «Em Portugal é conhecida esta marcha como hymno republicano desde a revolução do Porto. Assim, as bandas regimentaes não a podem tocar.»6
Não existe a certeza de que o seu autor tenha pretendido associar esta obra a uma ideologia republicana. Nem mesmo o facto de se ter vindo a filiar na maçonaria em 1893, onde usaria o nome simbólico de “Meyerbeer”7. Com efeito, Alfredo Keil fora amigo pessoal do rei D. Luís, de quem o pai tinha sido alfaiate, que o apreciava e apoiava, tanto como pintor como compositor e que, por diversas vezes, o condecorou. Além do mais, encontrou-se uma informação pouco conhecida acerca deste hino: é que Alfredo Keil teria dedicado A Portugueza ao filho de D. Miguel I, (D. Miguel II)8, príncipe no exílio, de quem o compositor seria, também, amigo9.
Fora de qualquer dúvida, sabe-se que foi inspirado por motivos patrióticos e nacionalistas, contra o que se considerou na época uma intervenção abusiva da Inglaterra nas nossas colónias, e pela decepção causada pela resposta do nosso governo, factos que provocaram, é certo, uma forte má vontade contra a monarquia, num momento em que fermentavam pelo país os ideais republicanos. Na referida dedicatória de Keil poder-se-ia ver, então, uma eventual esperança numa outra dinastia, face à decepção com esta…
Existe um outro facto curioso e algo inexplicável que é a inclusão deste hino como canção 289, no Cancioneiro de César das Neves, publicado no Porto entre 1893 e 1899, como Hymno Nacional Portuguez (!), numa altura em que, supostamente, até estaria proibido10…
De qualquer forma, os simpatizantes do republicanismo utilizaram A Portuguesa como seu estandarte musical, o que levou a que, com o advento da República, A Portuguesa fosse oficialmente adoptada em 1911 como Hino Nacional. Em relação aos anteriores hinos nacionais, o que se poderá dizer, em verdade, é que o sentido de verdadeiramente “nacional” é ainda um tanto incipiente e relativo nos dois primeiros hinos, exceptuando, talvez, o hino de Marcos Portugal, onde está presente, a par do Rei, um sentido de Pátria/Nação vitoriosa que se deverá defender pelo sangue, se preciso for, o que já não acontece no Hino de D. Pedro, que é apenas um hino constitucionalista, muito colado ao Rei/Rainha. Também não existia, ainda, a indissociabilidade entre letra e música que hoje exigimos a um hino nacional. Com efeito, fora perfeitamente plausível até ao século XIX que apenas a música fosse utilizada, podendo a letra ser variável e adaptada a diversos fins.
Pelo contrário, no hino de Keil, independentemente de qualquer simpatia política, sente-se nitidamente presente um propósito nacional que o autor com efeito teve, como bem refere Teixeira Leite ao afirmar que em A Portuguesa, delibe-radamente pretendeu (Keil) incluir «reminiscências da Marse-lhesa e do fado (…) reflectindo o carácter sentimental da alma portuguesa e a sua ânsia ardente de liberdade»11, propósito esse que criou um todo indissolúvel entre a letra e a música. §

notas
1Com efeito, o actual Hino inglês God Save the King é de cerca de 1745; o actual hino espanhol Marcha Real, foi escolhido como tal em 1770 por Carlos III, sendo embora substituído pelo Hino de Riego (1812) no breve período constitucional do século XIX e nos períodos republicanos de Espanha; o actual Hino francês La Marselleise, da autoria de Roger de Lisle, surgiu, como é sabido, em 1791, com a revolução francesa. Igualmente, o actual hino alemão (Deutschland über alles) utiliza, com efeito, a música do primeiro hino nacional austríaco (Gott erhalte Franz den Kaiser) composto c. de 1797 por Joseph Haydn, inspirado numa melodia croata dedicada ao imperador Francisco I, com letra do poeta Lorenz Leopold Haschka (1798-1827).
2 Hymno patriotico da Nação Portugueza a Sua Alteza Real O Principe Regente N. S. para se cantar com muitas vózes e mesmo à maneira de Coro com acompanham(en)t(o) de toda a banda militar. Música de Marcos Portugal. Lisboa : [s.n.], 1810
3 Para a mesma letra também o então Infante D. Pedro, em 1817, ainda no Brasil, irá compor um outro hino, de que se conhece uma versão para orquestra.
4 Cf. Portugal – Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, op. cit., Vol. III, pág-1083.
5 LEITE, Teixeira, Como nasceu A Portuguesa, p. 32
6 Nota manuscrita no rosto de uma partitura manuscrita de c. 1900: BNL M.M. 345//3.
7 MARQUES, A.H. Oliveira, História da Maçonaria em Portugal, 3 volumes. Lisboa: Editorial Presença, 1990.
8 D. Miguel II que em 1890 teria 37 anos.
9 Cf. Jaime Ferreira/Conde de Alvelos, Entre Castelos e Quinas, Porto, 1940, p. 169. Citado, também, em ZÚQUETE, Afonso Eduardo Martins, Nobreza de Portugal e Brasil, 3 vols. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Lda., 1984 (vol. 2, pág. 32). O referido Conde de Alvelos (Francisco Perfeito de Magalhães e Menezes Vilas Boas, 3º conde de Alvelos, 1873-1960) era da linha legitimista, podendo ter algum interesse vagamente remoto nesta informação, no momento em que a linhagem de D. Miguel era autorizada a regressar a Portugal…
10 César das Neves, Cancioneiro de musicas populares : collecção recolhida e escrupulosamente trasladada para canto e piano por /coord. a parte poetica por Gualdino de Campos ; pref. pelo Exmo Sr. Dr. Teophilo Braga. – Vol. I, fasc. 1 e segs. (1893)- Vol. III, fasc. n. 75 e segs. (último:1899). – Porto : Typ. Occidental, 1893-1899.
11 LEITE, Teixeira, Como nasceu A Portuguesa, p. 28
Texto publicado na Glosas n.º 2, p. 23-24.
