Este título, pedido por empréstimo a Alberto Caeiro, pretende sinalizar sinteticamente uma perspectiva de análise que considero relativamente ausente dos espaços de discussão e do pensamento de hoje, refletindo um pouco sobre quem somos, de onde viemos, onde vivemos e o que projectamos para o nosso futuro. Ou seja: quais as razões que nos levam a pensar que temos uma ideia, seguimos um caminho ou perseguimos uma utopia.
A primeira constatação chega-me com a percepção da autenticidade, da verdade, da originalidade, da força expressiva que atravessa muitas das grandes narrativas literárias. Basta folhear algumas páginas de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa ou Jorge Amado para o sentir às primeiras frases (mas esse não é um fenómeno apenas das literaturas sul-americanas). Escusado será dizer que essas obras circulam por todo o mundo. São obras maiores. Até as olhamos como património mundial. Universais, portanto.
No entanto, elas são, na maior parte dos casos, narrativas construídas sobre histórias locais ou inventadas a partir de modelos locais. Na sua génese estão muitas vezes personagens desconhecidas, sem palco nem papel, no pequeno universo em que se movimentam e expressam. O código de comunicação assenta muitas vezes numa linguagem local, com vocabulário rico e único, em lugares que ninguém conhecerá a não ser pelos livros. Locais, portanto. E tão universais, no fim de contas.
O meu segundo tópico vem de uma expressão feliz de Miguel Torga – sintética e simples, como o são todas as coisas importantes e complexas, quando ditas por um grande escritor. A frase é esta: “O universal é o local, sem paredes”. Nem mais. A universalidade assenta na assunção plena da diferença como condição para a compreensão de uma realidade total. Não se trata do esbatimento das assimetrias ou da sua contaminação mútua, antes da eliminação das barreiras que muitas vezes colocamos entre as coisas, impedindo-as de se confrontarem, de se implicarem, de dialogarem, de se exprimirem. O global será tanto mais pleno e significante quanto melhor, mais variada e mais rica for a soma das suas múltiplas realidades locais. O universal está inscrito na mais radical originalidade e singularidade de cada coisa, assim ela seja única e irrepetível.
A raiz da universalidade não está, por conseguinte, no esbatimento das diferenças, na igualitarização de todas as partes, na cedência ao maior ou ao mais poderoso, na criação de super-estruturas, na eliminação da imperfeição, na predominância do melhor e do mais qualificado. Quanto mais única, mais justa e mais verdadeira for a expressão da singularidade, mais ela se pode prefigurar como expressão condensada do universal.
Que tem isto a ver com a Arte e com a Música? Tudo. Só poderá aspirar a exprimir-nos a todos quem for capaz de dizer tudo com a fragilidade e a insignificância de cada pequeno gesto (seja uma palavra, um rosto, uma nota, uma frase, um plano, uma luz). Os muito grandes são todos aqueles que conseguem colocar o mundo todo na mais pequena expressão: Bach, Mozart, Sophia, o cantochão, Siza Vieira, Bartók… Com eles, a simplicidade está no princípio e no fim da Arte. A procura da essência. O traço que resume a forma. A melodia que personifica o drama. O enquadramento que revela a totalidade.
Mas muitas destas figuras da arte de todos os tempos ganharam força, relevância e significado precisamente a partir da criação de um conjunto de obras que nasceram do assumir um local de origem, de um contexto geográfico e cultural, uma certa forma de ver o mundo e de o traduzir em objectos artísticos, usando ferramentas específicas, localizadas e limitadas. O que é um Magnificat de Manuel Cardoso? De onde vem a cantata n.º 80 de J. S. Bach? Por onde viaja o concerto para clarinete de Mozart? O que significa a Heróica, de Beethoven? Como se teria chegado a um dos lieder da Viagem de Inverno de Schubert? Ou a uma ária de ópera de Verdi? A um dos prelúdios de Debussy? Ou às Danças Romenas de Bartók? O que nos traz Pierrot Lunaire, de Schoenberg? E o contexto de O King, de Berio, ou Lux aeterna, de Ligeti? O que diz a escrita despojada de Arvo Pärt? De onde vem a música de Tristan Murail? E o que nos diz Aura, de Magnus Lindberg?
Esta marca de origem está em toda a arte e não apenas nas obras dos “nacionalistas”, sejam eles Dvorák ou Cláudio Carneyro, Manuel de Falla ou Vianna da Motta, Bartók ou Lopes-Graça – embora tenhamos que reconhecer que em qualquer destes casos essa armação é superlativa. Quanto mais capazes formos de ser fieis à nossa identidade e singularidade, mais capazes seremos de dialogar com outros, iguais e diferentes; mais próximos ficaremos de um registo de universalidade.
Hoje vamos podendo saber muito, acerca de muitos assuntos, porque temos acesso a muitas coisas, às mesmas coisas. Não há livro, tendência estética, ferramenta informática ou técnica composicional que não esteja por aí ao alcance de quase toda a gente. Há cursos para todos os paladares e por todo o lado; workshops, estágios, semanas de trabalho, congressos, projectos, concertos…
Vamos ficando cada vez mais iguais, normalizados, como as maçãs que se vendem nos hipermercados: polidinhas, lustrosas, redondinhas, bem calibradas, de uma cor fabulosa e de aspecto mais-que-apelativo. O único problema é que não sabem a coisa nenhuma… (Claro que há sempre uns truques para disfarçar estas pobrezas: uns açúcares, umas compotas, umas essências, umas ervas…)
Precisamos de inverter a tendência de fugir de nós e de ter vergonha do que somos. Precisamos de acreditar em nós. “A música portuguesa a gostar dela própria”: que bela parábola e que extraordinário projecto! Mas não recomendo o retorno às origens: essas reciclagens quase nunca deram bom resultado. Também não falo do gosto pelo Portugal rural, salazarento: pobre, atrasado, confirmado na desgraça, no seu fado. Falo, antes, da capacidade de gostarmos das nossas raízes. Até porque “do mais alto das serras vemos o mundo” (como reza o título de um excelente programa de Fernando Alves, na TSF). Até parece uma frase de Miguel Torga!
Não há volta a dar: o futuro faz-se de coisas novas. E de coisas nossas. Acredito que elas nos ensinarão os caminhos que precisamos de percorrer, já que partem dos nossos próprios passos. Porque ninguém mais é de uma terra como a nossa. E ninguém tem os nossos olhos.
Porto, 31 de Julho de 2013
Texto publicado na Glosas n.º 9, p. 68.
Fotografia: Tatiana Bina
