Atualidades: Kreutzer 70 é uma obra de música-teatro composta por Gilberto Mendes (1922-2016) em 1970 para celebrar o bicentenário de nascimento de Beethoven. Ao invés de utilizar algum tema musical de Beethoven e trabalhá-lo à maneira vanguardista, como seria uma prática da época, ele optou por fazer uma citação indireta: tomou como guia a novela A Sonata a Kreutzer de Lev Tolstói, mais especificamente a cena em que a esposa do personagem principal e um músico — com quem ele julgava que ela o traía — executavam a Sonata para violino n.º 9 Op. 47 (1804) de Beethoven, também conhecida como Sonata Kreutzer. Na peça, Gilberto Mendes não faz qualquer citação da música de Beethoven, porém reproduz a impressão que o personagem principal da trama de Tolstói (ou seria a impressão do próprio Tolstói?) tinha acerca daquela obra:

«É espantosa essa sonata! E esse presto é a parte mais terrível. De resto, toda ela é espantosa! E dizem que eleva as almas? Mentira, estupidez! Exerce um grande poder sobre nós, mas não eleva
as almas, não! Excita-nos! Vou explicar-me.
A música domina-me. Faz-me esquecer de mim, leva-me a crer no que não creio, faz-me compreender o que não compreendia — cede-me um poder que não possuo. […] E essa Sonata de Kreutzer, esse presto, e há muitos assim, não devia ser permitido executá-lo numa sala onde há senhoras decotadas, não devia ser permitido aplaudi-lo, e passar adiante… Essa música só deveria fazer-se ouvir em certos e determinados momentos. Nada mais perigoso do que provocar desejos que não podem, nem devem manifestar-se”.
(TOLSTÓI apud MENDES, 2008, pp. 301-302.)

Gilberto Mendes indica a gravação desse excerto em diferentes idiomas — sendo um deles o original russo — e a sua edição a partir de colagens de fragmentos que tornam o texto ora inteligível, ora não inteligível, num procedimento característico da música concreta. Esta é a única parte musical da obra. Todo o resto da trama se concentra na atuação cênica dos músicos em um constante jogo de perseguição, encontros e desencontros. Gilberto Mendes tinha uma cabeça surpreendentemente capaz de encontrar relações entre objetos díspares. Basta um rápido olhar sobre sua obra para constatar tal façanha. É o que ele faz em Ópera aberta, quando propõe um contraponto entre uma cantora de ópera e um halterofilista; ou quando imagina um estádio de futebol num palco de teatro, compondo Santos Football Music para orquestra, sons pré-gravados e participação do público. E o que dizer de O último tango em Vila Parisi, em que o maestro abandona sua função frente à orquestra para dançar um tango com uma violinista? Vale lembrar ainda seu Motet em ré menor, mundialmente conhecido como Beba Coca Cola, em que mistura a poesia concreta de Décio Pignatari com linguagem de música renascentista, porém explorando toda sorte de ruídos vocais — alcançando o clímax em um arroto!!

Houve um tempo em que Gilberto Mendes não era tratado como um compositor sério, ou era visto como um compositor menor. Muitos críticos não eram capazes de compreender o traço da originalidade em suas obras. Ali estavam exacerbadas todas as contradições do Brasil. O atravessamento entre cultura erudita, popular e massiva, a convivência entre tradição e vanguarda, o encontro entre local e universal. Sua música representou uma vontade modernizadora, uma incessante busca pelo signo novo sem, contudo, renunciar às conquistas do passado.
As celebrações em torno do centenário de Gilberto Mendes vêm reforçar uma percepção que tenho desde que comecei a pesquisá-lo, há dez anos. Seu lugar na história da música brasileira não se limita apenas à música de vanguarda. Se fosse, já seria motivo suficiente para celebrá-lo. Mas acredito que seu lugar é muito mais amplo. Gilberto Mendes é para a música brasileira da segunda metade do século XX aquilo que Heitor Villa-Lobos foi para a primeira metade. É uma figura-âncora da nossa música, um agente articulador de todas as estéticas, práticas e pensamentos musicais que até hoje conformam a música brasileira. Não porque tenha composto em todas as linhas possíveis (embora se considerasse muitos compositores em um só), mas porque sua atitude libertária ensinou que todo tipo de música vale: do nacionalismo ao mais radical experimentalismo; da canção popular de cinema ao puro sinfonismo; do humor invulgar à seriedade sem sisudez. Ainda, ao criar o Festival Música Nova — um dos primeiros em sua categoria na América Latina — estabeleceu um espaço que oxigenou a produção musical brasileira ao longo de mais de cinquenta anos, especialmente num momento em que as portas dos espaços oficiais estavam permanentemente fechadas às práticas experimentais.
Pensar o centenário de Gilberto Mendes é, mais do que pensar nos anos que passaram, pensar nos anos vindouros. Sua agência no mundo nos deixam a lição de viver a música sem preconceitos, de explorar a criatividade em todos os âmbitos da vida, de buscar incessantemente a justiça e o bem do próximo. Gilberto Mendes permanece vivo na alma daqueles que foram tocados por sua música e por seus pensamentos. Temos sorte e sabemos! •
Texto publicado na Glosas n.º 22, p. 100-105.
