Título original: Uma breve conversa com Carlos Filipe Cruz e Francisco Chaves, vencedores do Concurso Novos Compositores.

O Carlos vai buscar um cigarro. O Francisco, se fumasse, também ia. Começamos pelo primeiro. Por que razão Sobre frutos secos? Simples: quis pintar um quadro de natureza-morta. Que soasse às cores de um quadro de natureza-morta. Alguma específica? Aqueles que às vezes vês, até nas lojas dos chineses. A cor da peça: castanhos, ocres… (E gosto muito de avelãs e nozes…) És um Scriabine? Não diria, mas a orquestração é muito rica em técnicas de Rimsky-Korsakov. Que associava tonalidades a cores… Mas não isso, apenas a forma como ele orquestra. Personagem principal? Os timbales, os únicos com material temático. É o Haydn da minha peça. Levei o monotematismo de Haydn ao extremo: construir uma peça de seis minutos sem tema. Quando há tema, temo-lo no menos melódico dos instrumentos do efectivo. E a personagem principal da peça do Francisco? Tentei distribuir o protagonismo por todos os instrumentos: há um solo de corne inglês, depois o solo passa para a flauta… e ao longo de toda a peça há momentos em que alguns instrumentos são mais destacados do que outros. No terceiro andamento, também são os timbales o personagem principal. E onde está o Haydn? A nível estrutural. Analisei o Menuet sur le nom de Haydn de Ravel. Relação estrutural, não auditiva. Ravel transforma o nome dele em notas musicais, que usa como melodia fixa e apresenta de diferentes formas. Usei-a e levei-a ao extremo. Transformei o nome em algarismos que constituiram bases intervalares. Mas o importante não é reconhecer estes aspectos técnicos: é ser música bonita e desfrutarmos dela. E o que é ser música bonita? Carlos adianta-se: é uma questão que partilho, é uma música que seja recebida pelo máximo de público possível. Muitas vezes é difícil chegar porque o código é demasiado complexo. Mas isso não poderá obrigar a fazer… …Quim Barreiros? Não. Tenho tido ultimamente experiências interessantes, como professor em Alcobaça. Fiz música complexa que foi muito bem recebida. Em causa está provavelmente o não ter receio nem de usar a dissonância nem de usar a consonância. Uso oitavas, terceiras maiores, menores… É tudo possível. Eu gosto, sei que é bonito. O Francisco discorda? A consonância só faz sentido com dissonância… Volta o Carlos: escrevi um capítulo na minha tese, “Movimento e Contraste”, em que tentei explicar, à minha maneira, o que entendia por tais conceitos. Uma narrativa: saber gerir o movimento e o contraste. É nessa gestão que o papel do compositor se destaca. Francisco, as pessoas vão reconhecer Haydn? Cheguei à conclusão de que não. Talvez algumas questões rítmicas no terceiro andamento; alguma textura que lembre o neoclassicismo. Mas o importante, como reforça o Carlos, é fazer música bonita. Haydn está lá, é importante como elemento estrutural da peça, mas esse não é o objectivo primordial. Carlos: o que destaca da experiência obtida com este concurso? O que neste concurso poderá ser efectivamente importante é terem tocado as partituras sem o mínimo de preocupação analítica. Essa ausência deve ser sublinhada: foi com base nela que o júri decidiu. Achei que havia lá peças com nível de competência técnica muito elevado que não quiseram escolher como finalistas. Isto traz ao de cima o que estou a referir. Funciona ou não dentro da orquestra?, os músicos sentiram-se bem com a partitura?… Foi nisto em que se basearam, não em questões estilísticas. Uma decisão democrática, tomada pelos músicos da orquestra – isto agradou-me bastante –. Gostei de ser avaliado por músicos. Francisco concorda plenamente. Ao mesmo tempo, esta experiência é uma aula de orquestração ao vivo. Fiquei a pensar nalgumas coisas… E como se constrói narrativa? A peça do Carlos apoia-se num conceito simples e forte. Mas o que justifica uma narrativa em que após seis compassos Adagio surge Allegro? Responde o Francisco: com a minha idade e a minha experiência, as minhas ideias tendem a durar pouco. Quando entrei em Composição, escrevi uma peça para dois pianos, com dós em uníssono. Demoravam demasiado tempo: fiquei traumatizado. Carlos interrompe: achas que aquele Adagio [primeiro andamento] foi uma introdução de tempo lento como no classicismo tradicional? Francisco atalha: Não, a minha ideia inicial era criar uma sinfonia em dez minutos. Para já, cortei um andamento. Queria acabar rápido, rítmico. E Haydn tem humor. Queria pelo menos uma sombra desta característica. E assim decidi que um dos andamentos seria um quase scherzo. É uma quase sinfonia clássica. O António Pinho Vargas – volta Carlos – tinha uma expressão muito engraçada: escrever com fogo nas mãos. Há peças que escrevemos com fogo. Noutros momentos estamos mais frios, raciocinamos sobre a técnica, a forma, tudo… Senti na tua partitura momentos com fogo: melodias que conduziam, com uma simplicidade enorme. E isso é importante? Francisco: É importantíssimo. E Morton Feldman, conduz-nos? Há música que, aparentemente, não nos conduz, mas leva-nos a um outro estado; entramos em transe… Carlos: há níveis diferentes de condução. Ouça-se a micropolifonia de Ligeti em Lux Aeterna. Lembrando-me agora do segundo andamento da “Sonata Fácil” de Mozart – lindíssimo –, que é um Andante, mas claramente uma melodia calma e semplice, temos uma outra forma de conduzir melodia. Na minha peça, tentei que “melodia“ fosse a orquestra inteira em bloco, ouvindo-se “simples” mesmo sendo cinquenta músicos… Na minha peça não há quase melodia. Toda a construção é harmonia, acordes verticais… Uma outra condução. Qual era a vossa relação com o classicismo antes deste concurso? Para vós, que significado ou importância dão a classicismo no mundo contemporâneo? Acho – diz Carlos – que a minha relação com o mundo clássico na contemporaneidade é… [pausa] Bom, eu tenho, para já, ao nível de orquestração, uma necessidade muito grande de assumir a melodia oitavada. Gosto de a ouvir. Seja homorrítmica ou não, gosto, de modo geral, de sentir essa textura. Preenche-me interiormente. O mundo clássico – ou a orquestração – preenche-me interiormente. Points on the curve to find, de Berio, foi uma das obras que trouxe ideias de orquestração clássica para a música contemporânea, e aquilo soava tão bem – mas ao mesmo tempo tão diferente do clássico – que me fez questionar sobre a essência da obra: copiava o classicismo, ou aligeirava a contemporaneidade? Ainda bem que Berio nos fez levantar estas questões e trouxe de volta a música clássica para a criação actual. Depois disso, comecei a usar sem medo estas influências. E ao começar uma obra com material clássico, a relação com a partitura é diferente? É um bocadinho, sim. Mas penso nisto em muitas situações, mesmo não usando material clássico. Uso os recursos. Parece não ser muito normal, hoje, ouvir-se melodia. E eu gosto de proteger a melodia… És um melodista? A peça é uma grande melodia para orquestra… E timbre? A coisa é diferente. Se reparares, há uma passagem em que pensei: gostava que este movimento durasse um pouco mais. Mas se não faço nada por cima disto, vai ficar chato. Então fiz arabescos nos clarinetes e trompetes, e juntei muita ressonância àquela tralha toda. Fiz crescer as cordas. Uma mudança subtil no timbre. Passar das avelãs para as nozes? Precisamente… Disse à orquestra: esta peça é uma pincelada. Não estava a mentir. Vive da ressonância de material. Francisco: e classicismo? Não penso como o Carlos, mas acabo por usar mecanismos meus que, no fundo, são frequentemente clássicos. E a fronteira entre o clássico e o cliché? Bom… (Não sei como é que me vou ver livre desta alhada…) … Acaba por ser uma questão de eficácia. Quando o Carlos diz que Berio usou classicismo na orquestração daquela peça, estará a usar cliché ou a usar a solução mais eficaz para a ideia musical que tinha em mente? As vossas peças incorporam estas heranças, mas não como citação, como anedota. Exacto… Estou a lembrar-me – Carlos novamente – de outras peças ouvidas neste concurso: tinham muito material citado. Mas isto foi uma das coisas em que pensei logo: não vou citar! A ideia era imiscuir-se em Haydn, e não revelar-se através da música de Haydn. Francisco: concordo plenamente. Também pensei o mesmo. Ou a citação é feita com grande genialidade, ou não resulta. Como ser coerente com o que disseste e com o que vais dizer? Carlos: Depois da Sinfonia de Berio, é muito difícil… Mas, Edward, já chega ou queres mais?

Excerto de Sobre frutos secos (à esquerda) e Sinfonieta em três andamentos (à direita).

Fotografias: Carlos Filipe Cruz e Francisco Chaves.

Texto publicado na Glosas n.º 8, p. 30-31.

Sobre o autor

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Curso Complementar de Piano no Conservatório Nacional. Licenciatura em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou sob orientação de Sérgio Azevedo e de António Pinho Vargas. Durante um ano, em programa Erasmus, frequentou o Conservatório Nacional Superior de Paris (CNSMDP). Mestre e doutorando em Ciências Musicais pela Universidade NOVA. Membro fundador e Presidente da Direcção do MPMP. Director da revista GLOSAS (números 1-15 e 20-). Distinguido com o 2.º Prémio do Concurso Otto Mayer-Serra (2017) da Universidade da Califórnia, Riverside, e o Prémio Joaquim de Vasconcelos (2019) da Sociedade Portuguesa de Investigação em Música.