Tiago Manuel da Hora dedica-se, na teoria e na prática, ao mundo discográfico. Entre a investigação, a docência e a produção fonográfica, publica em 2026 o livro Lusitana Musica: clássicos da discografia portuguesa de música erudita, editado pelo MPMP. A propósito deste lançamento, entrevistámos (por escrito) o autor.
Como é que surgiu esta investigação?
Este livro assenta numa investigação abrangente. Surgiu como uma ramificação do meu doutoramento (entre meados de 2014 e 2019), já que este último foi sobre a produção discográfica de música antiga em Portugal. No livro, isso fundiu-se com um âmbito de repertório mais abrangente, e não só focado no repertório de música antiga, e a ideia foi levar algum desse conhecimento histórico e crítico para além do meio académico.
Volvidos mais de 10 anos após a primeira publicação na Glosas, em 2014, que considerações há a fazer sobre a extensão temporal deste projecto?
Uma parte deste livro reúne alguns textos dessa rubrica, que foi depois adaptada e alargada para um programa de rádio na Antena 2, em 2019. Foi um projecto que se foi construindo, tendo sempre como referência a mesma ideia de base: a promoção deste legado histórico e artístico para o grande público, mas sempre assente numa forte base de investigação histórica.
E, por isso, no livro, além desses textos que foram revistos e adaptados ao seu formato, decidi juntar ainda um primeiro capítulo que é uma versão mais reduzida do que poderemos chamar de uma panorâmica histórica, ou uma biografia, da edição fonográfica de música erudita em Portugal. Isto foi um dos outputs que saíram dessa investigação e que até agora – ou melhor, até há 10 anos, quando comecei a trabalhar e a publicar sobre essa temática – ainda não tinha sido alvo da atenção da musicologia portuguesa. É um trabalho que se foi estendendo no tempo e ao qual fui voltando também em virtude de outros projectos de artigos e publicações que fui preparando ao longo da última década.
O livro Lusitana Musica é uma compilação do trabalho feito para a rúbrica da Glosas e para um programa de rádio na Antena 2. Como é que foi a experiência de apresentar os mesmos conteúdos em diferentes formatos?
Na verdade, este livro conjuga artigos que foram construídos em dois planos. Alguns textos foram originalmente escritos e publicados na rubrica da Glosas, que depois vieram a servir como ponto de partida para alguns episódios do programa homónimo na Antena 2. Nessa altura surgiram novos textos sobre outras séries ou edições preparados de raiz para o programa de rádio.
Mas há que salientar que o livro, além dos artigos, tem um primeiro capítulo que traz ao público, pela primeira vez em livro, uma história da edição fonográfica de música erudita em Portugal, na qual pudemos também incluir alguma iconografia que creio ser também muito interessante para o leitor.
O título refere-se e destaca a colecção discográfica Lusitana Musica. Porquê essa decisão?
Sim. Escolhi essa referência à colecção discográfica, por um lado, por o próprio título ser em parte identificador daquilo a que vamos, mas também por se tratar de uma série pioneira nesta história, já que foi a primeira série discográfica de música erudita portuguesa inteiramente produzida – desde a gravação, à edição e prensagem – no nosso país. A acrescentar a isso, além do pioneirismo, esta série Lusitana Musica foi um marco importante, à imagem de outras edições da mesma época, para um primeiro momento em que a discografia produzida no nosso país conseguiu acompanhar, do ponto de vista do próprio aparato editorial, alguma da melhor discografia internacional e conseguiu também uma distribuição internacional nunca antes vista. Sobretudo com os discos que a Valentim de Carvalho produziu nesta época para o catálogo A Voz do Dono (a versão portuguesa do icónico His Master’s Voice), houve um primeiro momento de uma maior dinamização do mercado de produção nacional e consequente exportação de muitos desses discos.
O trabalho de produção discográfica e de investigação crítica e historiográfica complementam-se? Se sim, como?
Sim. Sem dúvida. Creio que é uma mais valia e não um conflito. O próprio Rui Vieira Nery toca um pouco nisso em certa altura no prefácio a este livro. O que tenho vindo a concluir ao longo dos anos é que esse casamento tem como mais valia, desde logo, uma grande reciprocidade, no sentido em que ambas as actividades ganham com a experiência acumulada em cada uma delas.
Há muita coisa que vamos aprendendo — como fazer ou não fazer, testando… Outra coisa é que conseguimos mais facilmente entender, por exemplo, como se desenrolaram acontecimentos históricos, por via da própria experiência no trabalho de campo da produção. Conseguimos até perceber, através do conhecimento histórico e estudo crítico deste universo, o que podemos aprender com o passado olhando para o presente e futuro. Creio que isso ajuda a ter um entendimento — naturalmente também ele timbrado pelo perfil pessoal de cada um — mais amplo de ambas as áreas.
De onde vem o seu interesse pelo sector discográfico?
Desde muito miúdo, lembro-me de ir para a estante dos vinis lá de casa e procurar pelas fichas técnicas, fosse de que repertório fosse. Creio que isso também se deve ao facto de o meu tio, Joaquim Simões da Hora, além de um organista exímio, ter sido também a grande figura da produção discográfica de música erudita em Portugal no último quartel do século XX. Isso fez com que durante a minha infância a grande maioria do que foi produzido de música erudita no nosso país tivesse o seu nome no cargo de produtor, e outras vezes de intérprete, o que pode ter atiçado talvez o meu entusiasmo por esta área. Por outro lado, a componente artística e criativa que também está na actividade de direcção e edição digital de uma gravação, dá-me um grande prazer. Além disso, e não sem bem por que razão, sempre me fascinou a área da produção e da edição, não apenas a discográfica, como também a literária, por exemplo. Mas, a origem vem, eu diria que em primeira mão, desse contexto familiar que referi antes.
Em que medida é que este livro é relevante no panorama nacional?
Desde logo, e deixo os restantes atributos para terceiros, por duas razões absolutamente factuais: é o primeiro livro a reunir textos sobre esta temática em concreto; e traz a lume uma primeira história da edição fonográfica de música erudita no nosso país numa publicação em livro.
Lusitana Musica é um livro para investigadores ou um livro de divulgação para um público alargado?
A ideia é poder chegar a ambos, sendo algo que está na ordem do dia: híbrido. É um livro que tem uma forte base de investigação, desde logo porque uma grande parte dela foi sendo feita no âmbito da minha investigação de doutoramento (entre meados de 2014 e 2019), mas que foi sempre pensado, desde os textos originais para a Glosas e para a Antena 2, em poder trazer esse conhecimento de rigor científico para a comunidade. Acho que, apesar da raiz académica que lhe serve de pano de fundo, é um livro para todas as camadas de público interessado em conhecer os meandros da indústria da música erudita, das editoras, dos músicos, de alguns títulos mais icónicos (e haveriam outros que também poderiam aqui figurar), e de quem tiver interesse pelo mercado editorial do disco em Portugal.
No livro afirma que é essencial «olhar para trás, conhecer os meandros da banda sonora do património musical português para estudar e conhecer o passado com a perspectiva do presente, para podermos projectar um futuro melhor» (nota introdutória, p. 15). Em que medida é que este livro nos pode ajudar «a projectar um futuro melhor»?
Desde logo por sabermos como chegámos aqui e podermos também dar luz a muitas iniciativas e personalidades que, em alguns casos, estavam silenciados da nossa história da música. A história da música é, sobretudo a que se ocupa dos períodos até ao início do século XX, uma narrativa que se centrou tradicionalmente na descoberta, mais ou menos crítica, de repertório e compositores, tendendo a gerar, muitas das vezes inadvertidamente, camadas de grandes obras e compositores que acabam por fazer esbater muitos outros meandros dessa nossa história global da música – o que dizer, por exemplo, das compositoras que pareciam, até bem pouco tempo, quase não terem existido no decurso da história. Ora, quando entramos no século XX «a música é outra», já que se houve algo que mudou radicalmente o meio musical foi precisamente a gravação sonora. Basta pensarmos quantas vezes um compositor e o público escutaram uma mesma obra antes do século XX. Quantas vezes, por exemplo, Haydn ou Beethoven ouviram as suas sinfonias – Beethoven terá ouvido ainda menos, claro? Outra questão é: quantos intérpretes não compositores se tornaram verdadeiramente famosos para a história da música até chegar a gravação, além de Joseph Joachim e uns poucos mais?
Ora, o disco mudou isso tudo e à custa desse novo paradigma quando olhamos para os últimos 120 anos vemos que o intérprete, gravado, tornou-se muitas vezes mais famoso até que o compositor ou repertório em questão. Mas mesmo conhecendo essa história, alguma dela ainda está por fazer; e no caso português, para alguma dela este livro acaba por poder contribuir. E o que dizer das etiquetas e dos produtores e técnicos de som que estavam invisíveis da nossa história da música na maior parte das vezes? Este livro dá-nos, desde logo, um contributo que eu quero acreditar que possa ser útil nesse sentido. Além disso, através desse retrato histórico e crítico, creio que poderemos ganhar um melhor entendimento e conhecer melhor alguns capítulos desta história que nos poderão ajudar, a nós e a novas gerações, poder efectivamente construir um futuro melhor para este sector que, apesar de tão difícil e parco em recursos, é um exemplo inquestionável de resiliência e devoção de quem se aventura a nele, e para ele, querer trabalhar.