E, surpreendentemente, quase sem aviso, a transição de 2012 para 2013 no panorama da música portuguesa ficou marcada por um nome: Francisco António de Almeida. O compositor português da primeira metade do século XVIII ressurgiu, principalmente, graças à gravação que Os Músicos do Tejo fizeram, para a editora Naxos, da ópera La Spinalba, lançada no final do ano passado. Já no início de 2013 aquele agrupamento levou à cena no Centro Cultural de Belém Il Trionfo d’Amore, uma “serenata a seis vozes”. Entretanto, também em 2012, outro disco com uma obra de Almeida foi editado (pela MAAC): Te Deum, pelos Flores de Mvsica & Capela Joanina – uma iniciativa que também implicou a edição crítica da respectiva partitura.

Quem já teve o privilégio de, mais do que ouvir, escutar música da autoria de Francisco António de Almeida, compreende perfeitamente – e sabe que é justificado – um grande e genuíno entusiasmo. Dois novos discos e um espectáculo, correspondentes a três obras diferentes, em tão pouco tempo, quase que provocam uma “indigestão” a quem, durante tantos anos, pouco ou nada teve para fruir de um artista que, juntamente com António Teixeira, Carlos Seixas e João Rodrigues Esteves, integrou uma “geração de ouro” da música portuguesa, revelada e apoiada no reinado de D. João V. De Almeida ainda faltam gravar, nomeadamente, as óperas La Finta Pazza e La Pazienza di Socrate, a oratória Il Pentimento di David e as “triunfantes” serenatas Il Trionfo della Virtú e (a já referida) Il Trionfo d’Amore. Porém, os melómanos já não têm que se restringir – magnífica, maravilhosa restrição! – ao motete In Dedicatione Templi, incluído em A Capela do Rei Magnânimo do Coro de Câmara de Lisboa (Strauss, 2000), e, principalmente, a La Giuditta, a oratória gravado e editada em 1992 para a Harmonia Mundi pelo Concerto Köln. E foi exactamente a audição deste último (numa reedição de 2003) que causou em mim um tal impacto que acabaria por ter consequências para além – e já não seria pouco! – de me ter tornado num admirador incondicional.

La Giuditta foi um de vários discos com obras de músicos portugueses do século XVIII que ouvi, qual banda sonora, enquanto escrevia o meu livro Espíritos das Luzes. Concluído em 2005 com o objectivo de ser editado aquando dos 250 anos do terramoto de 1755, tal só viria a acontecer, no entanto, em 2009. Não é um romance histórico mas sim uma fantasia que mistura uma ficção científica “retro-futurista” com factos e figuras reais: desenrola-se num espaço e num tempo alternativos, em que Portugal é… um planeta; que dispõe de tecnologias muito avançadas mas em que o ambiente é inconfundivelmente barroco; e em que os protagonistas são (foram) todos personagens verídicos do “Século das Luzes” nacional. Um deles é Francisco António de Almeida, num papel secundário mas fundamental. Na Lisboa imaginária e imensa em que a acção decorre, um dos cenários principais é uma monumental, descomunal, Ópera do Tejo, ou, como foi formalmente designada, Teatro Real do Paço da Ribeira, situado junto ao rio, no espaço entre o que são hoje a Praça do Comércio e o Cais do Sodré, mais ou menos onde está o Arsenal da Marinha. Historicamente, foi como que uma “estrela cadente”: inaugurada a 2 de Abril de 1755, foi irremediavelmente destruída pelo terramoto seis meses depois. Desapareceu, tal como Almeida, de quem nunca mais houve registos ou relatos a seguir àquele fatídico primeiro dia de Novembro. Mas daquela ainda subsistiram – por pouco tempo – algumas ruínas, que seriam retratadas para a posteridade, e alguns desenhos de cenários e de figurinos. Do compositor, nem a campa se conhece.

A MAIOR E A MELHOR DA EUROPA

E, assim, a ideia surgiu-me… Em 2004, motivado pela obra que estava a redigir e pela música que estava a ouvir, e certamente sob a influência da experiência que adquirira enquanto jornalista especializado em tecnologias de informação e comunicação, estabeleci os primeiros contactos com vista à constituição de um grupo de trabalho, de uma equipa multidisciplinar, que, utilizando, se possível, os mais avançados sistemas e ferramentas de computação gráfica, procedesse, mais do que à reconstituição virtual (modelação e animação de exteriores e interiores), a uma quase autêntica “ressurreição” daquela que no seu tempo era considerada a maior e a melhor “casa da música” da Europa, erigida por iniciativa do Rei D. José. O monarca continuava assim a tradição, iniciada pelo seu pai e antecessor, D. João V, e prosseguida pela sua filha e sucessora, D. Maria I, de alto patrocínio, por parte da Casa Real portuguesa, à arte da música.

A Ópera do Tejo [na Colleçaõ de algumas ruinas de Lisboa causadas pelo terremoto e pelo fogo […] debuxadas na mesma cidade por MM. Paris et Pedegache e abertas ao buril em Paris por Jac. Ph. Le Bas] © Biblioteca Nacional de Portugal

Em consequência dessa autêntica política de mecenato cultural, muitos músicos estrangeiros, em especial italianos, foram convidados a virem para o nosso país, para tocarem, ensinarem e comporem. Como seria de prever, depressa se sentiu a necessidade de construir um edifício que não só corporizasse, desse forma concreta, esta atitude, esta estratégia para com a arte em geral e para com a música em particular, mas também que simbolizasse a benevolência, o bom gosto e a magnificência dos soberanos. Curiosamente, foi também a um italiano que se encomendou, em 1752, o projecto do teatro: Giovanni Carlo Bibiena, filho de outro famoso arquitecto, Francisco Bibiena. A construção terá sido dirigida por João Frederico Ludovice, que já trabalhara no Convento de Mafra. Todos os documentos existentes sobre o edifício – textos descritivos, testemunhos de nacionais e de estrangeiros, plantas (projectos) e desenhos tanto de antes como de depois, e até outros edifícios desenhados pelos Bibiena e construídos em outras cidades da Europa (e que viriam a servir de referência) – coincidem no salientar da sua imponência e sumptuosidade, no realçar da sua superioridade tanto estética como técnica em comparação com tudo o que se havia feito no género até aí.

A estreia decorreu ao som da ópera do – italiano! – David Perez Alexandre na Índia, cuja encenação requeria, a dado momento, a presença simultânea de vinte e cinco cavalos no palco! Mas não era só este o único sector do teatro com dimensões desmesuradas: a plateia teria seiscentos lugares e haveria três ou quatro ordens de camarotes, cada uma delas com oito; existiria uma extensa área de apoio sob o palco, com camarins, oficinas e escadas para a entrada e saída dos artistas e para o acesso aos outros pisos e zonas. A Ópera do Tejo seguia o modelo de uma edificação dita de três volumes – palco, plateia e átrio – e todos os que nela entravam podiam admirar as esplêndidas decorações em que sobressaíam as cores branca e dourada. O Teatro de S. Carlos, aberto em 1793, viria a revelar-se, face ao seu ilustre antecessor, um edifício menor… em tamanho e em luxo. 

250 anos decorridos, porquê um projecto como este? O seu interesse e, logo, a sua justificação, podem ser encontrados na própria história deste teatro e no período durante o qual, por “poucos instantes”, existiu. Tratava-se, no fundo, de resgatar ao esquecimento quase geral – quantos de nós sabiam que este edifício tinha existido? – (mais) uma prova irrefutável de que no passado os portugueses também alcançaram elevados patamares de excelência artística (artes como as entendemos hoje e artes enquanto ofícios), em que se colocaram ao nível, e mesmo acima, do que se fazia na Europa e no Mundo. Enfim, estava em causa (re)colocar a Ópera do Tejo entre o inventário do património arquitectónico histórico português: não devem ser só as construções que permanecem (mais ou menos) inteiras e aquelas das quais subsistem apenas vestígios arqueológicos, físicos, “palpáveis”, que merecem um lugar na “memória oficial”.

A primeira pessoa que contactei e que convidei para a tarefa de “reconstruir” a Ópera do Tejo foi Maria Alexandra Gago da Câmara, docente e investigadora com trabalhos publicados sobre os teatros do século XVIII, cujo livro Lisboa – Espaços Teatrais Setecentistas (Horizonte, 1996) adquiri enquanto parte da bibliografia de consulta e de investigação para Espíritos das Luzes. Depois, foram Luís Sequeira e Silvana Moreira, amigos que já conhecia da Simetria (Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico), especialistas em arquitectura e informática, que optaram por desenvolver o protótipo da “nossa” ópera com base na plataforma Second Life (http://secondlife.com), mais uma iniciativa de vanguarda tecnológica – e filosófica? – de origem norte-americana.

MÚSICA QUE FOI TOCADA E OUVIDA NA VERDADEIRA

A Ópera do Tejo electronicamente revisitada teve estreia oficial a 3 de Novembro de 2005 durante o colóquio internacional “O Grande Terramoto de Lisboa – Ficar Diferente”, realizado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e organizado pelo Centro de Estudos Comparatistas daquela instituição e também pela Fundação Cidade de Lisboa, acompanhando a comunicação de Alexandra Câmara A nostalgia de um património desaparecido: Uma obra emblemática de encomenda régia na Lisboa do Século XVIII – A Real Ópera do Tejo.

A exibição da animação pôde ser feita, afortunadamente, ao som da música que foi tocada e ouvida na verdadeira, na original Ópera do Tejo: a abertura, precisamente, da ópera Alexandre na Índia – executada, entre outras composições daquele período, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Jorge Matta, durante um concerto evocativo dos 250 anos do Terramoto de Lisboa que teve lugar na Igreja de São Domingos, em Lisboa, dois dias antes. Tendo transmitido em directo e na íntegra aquele espectáculo, a Antena 2 cedeu-nos graciosamente, a meu pedido, um disco com a gravação de parte do mesmo. A nossa interpretação do Teatro Real do Paço da Ribeira foi posteriormente exibida na RTP 2 em 13 de Janeiro de2006, no programa “Entre Nós”, uma produção da Universidade Aberta.

Três anos e um mês depois, a 2 de Dezembro de 2008, o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, em Braga, foi o palco para a estreia da segunda fase do projecto. No âmbito do VAST 2008 / 9.o Simpósio Internacional sobre Realidade Virtual, Arqueologia e Herança Cultural, uma organização da Universidade do Minho, da Associação EuroGraphics e do programa europeu Epoch, a nossa equipa – entretanto reforçada com a entrada de Helena Murteira, da Fundação Calouste Gulbenkian, também historiadora de arte e autora de Lisboa – Da Restauração às Luzes (Presença, 1998) – apresentou a comunicação City and spectacle: a vision of pre-earthquake Lisbon, o que revelou a mudança de perspectiva que efectuámos em relação a 2005: construída agora pela empresa Beta Technologies e com o apoio do Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA) da Universidade de Évora, a nova recriação virtual passava a abranger também, além da Ópera do Tejo, o palácio real pré-1755 em que aquela se integrava, confirmando esta nossa iniciativa como um processo em modernização e desenvolvimento permanentes…

… O que seria novamente confirmado apenas dois meses depois: a 5 de Fevereiro de 2009 foi entregue electronicamente, na Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o projecto Cidade e Espectáculo – Uma Visão da Lisboa Pré-Terramoto no âmbito do Concurso de Projectos de Investigação Científica e Desenvolvimento Tecnológico em todos os Domínios Científicos, ainda relativo a 2008, e financiado por fundos estruturais da União Europeia e fundos nacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Tratava-se, obviamente, do projecto “Ópera do Tejo” – que eu iniciara em 2004 – alargado, pode-se dizer, até à sua máxima expressão: o objectivo já não era, através da tecnologia Second Life, recriar virtualmente aquela casa de espectáculos, mas sim, como se pode ler no sumário executivo, « […] a Lisboa destruída em 1755, sobre a qual foi construída a Lisboa projectada pelos engenheiros Eugénio dos Santos e Carlos Mardel. Consiste, deste modo, numa colaboração entre duas vertentes científicas – a histórica e a da linguagem virtual – de modo a disponibilizar a visualização de uma memória. A partir da documentação escrita e iconográfica existente nos arquivos e museus nacionais, irá proceder-se a uma proposta de reconstituição da cidade que incluirá não só o desenho urbano, como também o tecido arquitectónico do conjunto e os interiores de alguns edifícios mais marcantes, tais como o Palácio Real, a Patriarcal, a Ópera do Tejo, o Convento de Corpus Christi e o Hospital de Todos-os-Santos. […] Todo o projecto estará acessível ao público através de um portal on-line a ser utilizado também como: um recurso pedagógico, ao possibilitar uma relação interactiva com o público, através de visitas virtuais e jogos que permitam a exploração da componente física da cidade e do seu quotidiano; um instrumento de dinamização do debate científico e da partilha de fontes documentais em torno da cidade de Lisboa, agregando contribuições de outros especialistas, nacionais e estrangeiros. […] ».

Modelação da Lisboa pré-Terramoto em tecnologia OpenSim – Vista para a Ribeira das
Naus; em segundo plano o complexo do Paço da Ribeira e Ópera Real.

A equipa foi, compreensivelmente, também alargada; entre investigadores e consultores passou a contar também com Ana Amaro, António Pimentel, Aurora Carapinha, Joaquim Ramos Carvalho, José Sarmento de Matos, Miguel Soromenho, Paulo Simões Rodrigues, Pedro Januário, Raquel Henriques da Silva e Rita Vieira dos Santos. A instituição (principal) proponente do projecto era (e continua a ser) a Universidade de Évora, através do CHAIA, e tinha (tem) como outras instituições participantes a Beta Technologies e o King’s Visualisation Lab (do King’s College de Londres).

Todavia, e surpreendentemente, o novo projecto não foi aprovado pelo respectivo júri da FCT, pelo que não nos foi concedido o (avultado mas justificado) financiamento que havia sido requerido, e que nos permitiria realizar um trabalho de ainda maior qualidade.

Se a nível nacional a nossa iniciativa não estava a ter todo o reconhecimento que merecia, a nível internacional começava a deixar uma boa impressão: ainda em 2009, marcámos presença em Viena, a 12 de Setembro, no VSMM 2009 / 15.a Conferência Internacional sobre Sistemas Virtuais e Multimédia, e em Varsóvia, a 21 de Setembro, no Congresso Internacional sobre a Cultura do Barroco Espanhol e Ibero-Americano e o seu Contexto Europeu; para além disto, a Ópera do Tejo / Lisboa Pré-1755 é a base que possibilitou à portuguesa Beta Technologies desempenhar o papel principal no desenvolvimento da terceira fase do projecto internacional Theatron, que tem por objectivo a recriação virtual de teatros de diversos países e de diferentes épocas. Essa crescente conexão com o estrangeiro viria ter a sua consagração a 21 de Maio de 2010, quando a nossa equipa organizou em Lisboa, no auditório da Associação de Turismo de Lisboa – na Rua do Arsenal, ou seja, quase no mesmo espaço em que antes se ergueu a Ópera do Tejo! – o colóquio internacional “Virtual Historic Cities – Reinventing Urban Research” (“Cidades Históricas Virtuais – Reinventando a Investigação Urbana”), em que, para além de oradores nacionais ligados ao CHAIA, participaram como convidados, vindos de outros países, especialistas como Bernard Frischer, Drew Baker e Richard Beacham.

ALEXANDRE, TITO E ANTÍGONO

Ecos musicais da Ópera do Tejo voltaram a ouvir-se em 2011: neste ano assinalaram-se os 300 do nascimento – em Nápoles – de David Perez, compositor que viria a influenciar enormemente a evolução da música em Portugal, onde chegou em 1752 a convite do Rei D. José e onde ficaria até falecer, em 1778. No nosso país foi o principal maestro e autor da Corte, mestre de capela e professor de princesas (entre elas a futura Rainha D. Maria I) e de Luísa Todi, e criador de vasta obra, tanto sacra como profana – neste âmbito compôs, entre outras, duas das três óperas levadas à (enorme) cena do Teatro Real do Paço da Ribeira: a já mencionada Alexandre na Índia e A Clemência de Tito – a terceira, Antígono, foi composta por António Mazzoni, e todas tiveram libreto de Pietro Metastasio –.

À semelhança do que tentei fazer em relação a Alfredo Keil e a António Teixeira, procurei, desde 2007, congregar esforços e recursos no sentido de gravar e publicar em disco pelo menos uma obra de David Perez, de preferência Alexandre na Índia. Com o maestro Jorge Matta elaborei um plano-orçamento e ambos contactámos o Instituto Italiano de Cultura de Lisboa e, depois, duas importantes empresas italianas, multinacionais, que operam em Portugal, uma do sector financeiro e outra do sector automóvel. Porém, e infelizmente, nenhuma daquelas três entidades se mostrou disponível para financiar o projecto. No entanto, deve-se esclarecer que por parte do IICL havia interesse – mas não dinheiro –, e exactamente o contrário por parte das duas empresas – dois “Golias” empresariais que não quiseram ajudar a recordar, e a homenagear, um “David”… seu compatriota –. Todavia, e felizmente, o tricentenário do compositor acabou mesmo por ser celebrado em Portugal através do colóquio internacional “David Perez e a Música da sua Época – 1711-1778”, que decorreu entre 21 e 23 de Outubro de 2011 no Museu de Aveiro e que foi organizado pelo Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Recordar e recriar a Ópera do Tejo não passa apenas pela sua reconstrução virtual, digital; também pode e deve fazer-se pela evocação musical, por tocar, gravar e divulgar as obras dos artistas seus contemporâneos. Carlos Seixas e João Rodrigues Esteves morreram antes de ela ser construída, mas David Perez (de certeza), Pedro António Avondano, Francisco António de Almeida e António Teixeira (quase de certeza) conheceram-na e frequentaram-na. Já não tiveram esse privilégio, entre outros, João de Sousa Carvalho, António Leal Moreira, Marcos Portugal e João Domingos Bomtempo – e isto só para referir os que nasceram no século XVIII. No entanto, todos merecem ser resgatados ao esquecimento em que (uns mais, outros menos) caíram e em que continuam; já é mais do que tempo que mais portugueses – e estrangeiros – saibam que houve compositores portugueses que atingiram a excelência – e, em alguns casos, a fama (raramente o proveito) – nas suas épocas. Em Portugal existe um passado musical magnífico que deve ser divulgado, aquém e além-fronteiras, de que nos devemos orgulhar. É uma valiosa herança que pode servir de caução a um presente musical que se pretende cada vez mais desenvolvido e relevante. 

Modelação da Lisboa pré-Terramoto em tecnologia OpenSim – Vista para a Ópera Real, Paço da Ribeira e Eirado da Casa da Índia.

«Honra e glória da arte e do entretenimento…»

« […] Ao aproximarem-se todos os coches, incluindo o que levava William Beckford e Manuel Maria du Bocage, pareciam ser atraídos por uma imensa e irresistível força gravitacional. Os veículos, provenientes de todas as ruas em redor do enorme e esplendoroso edifício, giravam em sua volta quais pequenos satélites em torno de um astro muito, muito, muito grande. O crepúsculo que entretanto começara, fazendo acentuar mais as cores branca e dourada daquele secular templo erigido em honra e glória da arte e do entretenimento, conspirava com os sentidos e as emoções para diminuir a ténue distância entre a realidade e a fantasia.

O Teatro Real do Paço da Ribeira, mais conhecido como Ópera do Tejo por se situar junto ao oceano com o mesmo nome que banha Lisboa, era famoso não só no sistema solar Europa mas em toda a galáxia Terra como a maior, melhor e mais bela casa da música. Projectada pelo italiano Giovanni Carlo Bibiena e inaugurada somente sete meses antes, em Abril, fora quase completamente destruída pelo terramoto e chegou a recear-se que tivesse sido como um cometa, uma estrela cadente, que brilhara intensa mas brevemente. Mas não: a sua reedificação fora considerada prioritária… e os últimos retoques haviam sido dados apenas uma hora antes; ainda se viam autómatos-operários a proceder às derradeiras verificações. A sua excelência, evidente nas dimensões exageradas, nos luxos ostensivos e nas tecnologias avançadas, limitava-se a reflectir a predilecção do povo daquele planeta pelo culto dos sons. […]

O milionário e o poeta, tal como os restantes privilegiados, lá conseguiam, com maior ou menor dificuldade, passar e penetrar através do resplandecente portal que, para muitos, era como uma porta para um paraíso prematuro… aquele do deslumbramento pela imaginação humana. Uma vez dentro, o difícil era não expressar o encantamento pelos interiores do teatro, que já se adivinhavam do exterior, e que eram o resultado do trabalho dos artífices com maior erudição e das máquinas com maior precisão. A Ópera do Tejo podia dividir-se em três áreas principais: o átrio, que era um enorme, confortável e polivalente espaço de convívio; os ateliers, salas equipadas com uma quase infinita variedade de instrumentos e equipamentos musicais, colocados à disposição dos amadores e dos profissionais para distracção, exercício e ou gravação antes, durante – nos intervalos – e depois dos espectáculos; e o anfiteatro… do teatro, autêntica nave de uma catedral consagrada à criatividade, com os camarotes, a plateia e o palco mais próximos da perfeição que se podia conceber. E, naturalmente, em todo o edifício continuamente se espalhava, como fragrância em frequência modulada, os sons de música, ao vivo ou gravada, de diferentes composições e em diversos estilos. […] » (excerto do 4.o capítulo, “Etéreas Flores”, do livro Espíritos das Luzes, LeYa / Gailivro / 1001 Mundos)

Ópera do Tejo

http://operadotejo.org/

Lisboa Pré-Terramoto de 1755

http://lisbon-pre-1755-earthquake.org/

Theatron

http://cms.cch.kcl.ac.uk/theatron/

Alexandre na Índia, libreto de Pietro Metastasio, para música de David Perez

http://archive.org/details/alessandronellin00meta

Texto publicado na Glosas n.º8, p. 64-67.

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